Nunca fui uma garota normal. Não sei nem como é ser uma garota normal, só sei que nunca fui uma.
Me lembro de no Ensino Fundamental, minha irmã me arrumava feito uma palhaça para as festas de escola. Era humilhante mas vendo as fotos, aparentemente, eu não achava isso.

A sociedade dita que mulher tem que ter cabelo grande, uma boa aparência física, tem que saber cuidar do lar, saber cozinhar, etc.

Cresci em uma casa com quatro rapazes e por mais que eu tivesse primas, eu nunca gostei de brincar com elas. Brincar de boneca? Bobagem. A única atividade de "garota" que eu fazia era brincar com os muitos ursinhos em casa.

Quanto a roupa, nunca suportei vestidos nem saias. Sempre que me vestiam com alguma saia, eu sentava com as pernas abertas e me davam esporro. Foi assim que deixei de ser obrigada a usar esse tipo de roupa, falta de modos.

Uma coisa que sempre me irritou em morar em uma casa onde a maioria é homem é que a culpa de tudo é sua, todas as tarefas são obrigação sua. Os homens são criados desde pequenos a serem preguiçosos, desleixados, mal educados. Pelo menos os daqui de casa foram criados assim. Enfim, eu não fazia nada dentro de casa porque achava injusto eu ter que fazer e os meninos não. E era injusto.

Sabe aquela garota que está sempre rodeada de meninos? Eu fui assim a minha vida inteira. Eu sempre me senti mais a vontade perto deles. As brincadeiras, as conversas, tudo.

Durante muito tempo eu desejei ser um garoto, até perceber que eu já era um. Um garoto preso no corpo errado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.