Ele morreu
1 He died
“A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.” – Epicuro.
Li essa frase por toda a minha vida e só agora eu discordo dela. Você, uma pessoa normal, provavelmente nunca a viu ou a escutou, mas, desde pequena, tive que aprender todo tipo de filósofo e suas malditas filosofias. Claro, essa nunca será a minha favorita, só que o tempo sozinha me fez lembrar e julgar.
Quando existimos, a morte fica do nosso lado, esperando a oportunidade de nos levar para outro lugar. Não sou religiosa, mas sinto que deve existir esse lugar, um pelo menos que nos livre do funk e brega.
Quando existe a morte, a alma ainda parece estar ali, nos vigiando. Parece estar do seu lado, verificando-o. Como se fosse seu novo segurança anti-pobres.
E é assim que eu sinto com João Lucas.
Seu funeral foi há 3 dias, e há 3 dias estou olhando para Lucas, mas, na verdade, é o teto do meu banheiro. Eu posso senti-lo do meu lado, dizendo como eu sou uma coroa apaixonada por outro coroa. Eu o vejo quando fecho e abro os olhos, em todos os cantos.
Eu não estou chorando, o que é estranho. Como uma mãe não chora na morte do seu próprio filho? Talvez porque quando eu descer para a cozinha ele estará fazendo seu sanduiche e não em um caixão.
Algumas vezes Maria Clara entrou no meu campo de visão, falando algo como trocar de roupar ou tomar banho. Porém eu não consigo me mover. Devo parecer uma criança que precisa d’ajuda da mãe. Patético, Maria Marta, patético!
José Pedro bateu algumas vezes na porta, perguntando se eu estava bem. Mas é claro que eu estou bem! Meu filho acabou de morrer!
Silviano há algumas horas tinha chorado ao meu lado, dizendo que eu iria enlouquecer. Eu nunca tinha o visto chorar. Mas nada ia me surpreender mais que a morte prematura do meu “caçula”.
Depois de Silviano ninguém mais tentou, até eu ouvir dois toques na porta. Escutei o click da porta se abrindo e passos lentos em minha direção. Esperei que entrasse no meu campo de visão qualquer pessoa, até o papa, não o comendador José Alfredo de Medeiros.
Zé Alfredo deitou no meu lado sem dizer nada. Tirei, pela primeira vez, meus olhos do teto e o olhei.
- Veio dizer que a culpa é minha? Que eu não o amei? – Minha voz saiu rouca pelo tempo sem falar.
Ele se virou.
- Merda, Marta. A culpa não foi de ninguém, foi um acidente de carro! E você o amou, como eu também amei! Os únicos culpados são a morte e Deus.
Zé tinha olheiras profundas e cabelo despenteado, como eu devia estar.
- O que está fazendo aqui, então?
- Sei que não vai adiantar, mas eu vi tentar do mesmo jeito. Você tem que se levantar, Marta. Você está há três dias sem beber, comer e tomar banho! Sai desse chão, por favor. – Ele parecia realmente que se importava comigo.
- E-eu não consigo. – Respondi sua pergunta e virei o rosto para o teto mais uma vez.
- Marta, olhe pra mim. – Zé virou meu rosto com sua mão. – Eu preciso que você saia desse chão, que você saia desse chão, que você tente não morrer ou ficar louca. Porque nós... eu preciso de você, Marta. Se acontecer algo com você eu não conseguirei seguir em frente. Você é que me dar e que me dará forças com a morte de Lucas. – Pela primeira vez eu vejo o comendador chorar. – Você dar forças para todos nós. Um imperador sempre precisa de uma imperatriz, e eu não vou perder a minha!
Foi ai que me permitir chorar nos braços do meu comendador.
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