Ele Me Visita Quando Durmo
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Notas iniciais
“E no quebra-luz do entardecer... Vi seu lindo rosto desaparecer... elos rompidos... muralhas de dor... ardente tristeza... o meu amor você levou.” (Concita Braga)
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Seis de novembro de 2010, Sábado.
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Diário, estou caindo de tanto tristeza. Aconteceu algo horrível e meu coração se despedaçou de vez. Minhas lágrimas são intensas e muitos borrões podem estar nessa página. Perdão por isso...
Ontem Steve falou que desejava conversar comigo e que era algo bastante sério. Eu aceitei, mas senti uma enorme preocupação porque o seu olhar estava completamente triste. Marcou de encontrarmos às 17h30min na praça e que se eu me atrasasse seria ruim para nós dois. Concordei com isso e confesso que fiquei tão assustada que mal consegui dormir. Falando em dormir, ele não apareceu durante a noite e seu jeito estava tão estranho que tive medo de terminar comigo.
Dormi por volta das quatro da madrugada e acordei às 6 horas. Não sentia sono e aproveitei para fazer um café, logo Florence acordou e foi comprar pão francês para comermos. O café da manhã teria sido tranquilo se não fosse esse medo enorme de perder Steve e Florence notou minha angustia porque perguntou o que estava acontecendo comigo. Respondi que no momento não poderia dizer, mas em breve a contaria, ela aceitou minha resposta e voltei ao quarto, tentando voltar a dormir e não obtendo sucesso. Quem obteve sucesso, na verdade, foram minhas lágrimas que insistiram tanto em sair por meus olhos azuis e o meu coração que ficava acelerado e doendo graças a esse medo todo.
As horas demoravam a passar e cada vez eu me sentia pior, não desejei almoçar e acabei dormindo uma parte da tarde, tendo sonhos estranhos de Steve indo embora e nunca mais voltando. Sonhos tão horríveis e angustiantes… Acordei entre lágrimas e tentando esquecer essa história por algum momento lendo algum livro. Um livro romântico que tinha por fim uma triste separação. Por que finais infelizes?
Quando o horário de me arrumar chegou, tomei um banho e me vesti bem casual. Uma calça jeans desbotada e uma blusa rosada e florida de botões e tecido fino. Além do básico all star e do cabelo trançado. Quando saí de casa, fiquei um tempo parada na calçada observando o céu e sentindo a brisa tocar-me suave. Nesse instante pude sentir um arrepio passar no por meu corpo e uma vontade de chorar que persistia, mas desta vez consegui segurar.
Então comecei a andar. Cada passo que eu dava para a praça era compatível com meu coração acelerado e dolorido. Pela primeira vez eu não me senti ansiosa para ver Steve e tinha a breve sensação de que algo bom não estava acontecendo. Eu estava ao rumo de algo que me marcaria para sempre.
Caminhei passiva para a praça e avistei de longe Steve que já estava sentado em um banco e sua expressão era curiosa. Mordi meus lábios e decidi fazer a mesma brincadeira que ele costuma a fazer comigo para tentar me distrair daquela tristeza que rondava meu interior. Então cheguei por trás, silenciosa e tampei seus olhos com as minhas mãos. Para o meu espanto, ele segurou com delicadeza minhas mãos e acariciou. “A garota mais linda que já vi, não adianta tampar meus olhos, conheço seu cheiro há quilômetros!”. Suas palavras me fizeram corar, então retirei minhas mãos e sentei ao seu lado, sorrindo sem jeito. Ele me abraçou e beijou minha bochecha.
Seu olhar estava triste e notei ele controlar sua respiração. Cada segundo parecia séculos e minhas mãos soavam de forma assustadora. E Steve começou a falar. “Ellie, eu preciso dizer uma coisa. Descobri o que sou e isso é maravilhoso”. Fiquei contente com isso e lhe abracei. Finalmente ele sabia o que era, um mistério a menos.
“Que maravilha! E o que você é?”, falei empolgada e ele estralou os lábios.
Sou um espírito, mas não de um garoto que morreu”. Não consegui compreender. Era estranho saber que ele é um espírito, pois até mesmo dava-se para tocá-lo.
“Como assim?”, Murmurei e ele abaixou o olhar. “Como você pode ser um espírito sendo que posso lhe tocar e todos lhe veem?”
“Eu não sei como isso pode ser possível, talvez um dia eu descubra… Esqueça, não tenho tempo para lhe explicar, tenho que lhe dizer o que importa”, respirou fundo e segurou minha mão. “Olha eu… Eu amo você, mas não posso viver vagando por ai, eu tenho um corpo, eu tenho uma família e estou voltando para eles”. Minha cabeça latejou com a informação, fiquei me perguntando o que isso significava.
“Por que está dizendo isso? É bom voltar para a sua família”, murmurei e ele concordou com a cabeça, mas seus olhos brilhavam com algumas lágrimas que começavam a formar. Ele estava me assustando.
“Estou dizendo isso porque é um adeus. Minha família mora longe e é provável que eu não me recorde mais de você, talvez até acredite que tudo se passou de um sonho”. Comecei a chorar quase não acreditando, o segurei firme e comecei a sussurrar em seu ouvido. Isso não é possível, como ele não vai se lembrar de mim? Como ele pode ir embora de minha vida?
“Não vá, por favor, eu preciso de você!”, as lágrimas cobriam minha face e ele tocou delicadamente em meu rosto. Eu chorava tanto que era até difícil de falar, estava sendo difícil de acreditar que aquilo era uma despedida.
“Desculpe-me, mas se eu ficar sem meu corpo por mais algum tempo, sumirei para sempre porque terei de ir para algum mundo que desconheço. Uma alma não consegue vagar visível por muito tempo.” Eu não conseguia acreditar, isso era o fim? E do que ele estava falando?
“Então este é o nosso fim?”, ele sorriu triste e ficou um tempo sem responder. O pôr-do-sol cobria nossos corpos com sua luz amarelada e teria sido uma visão linda se não fosse o momento de tristeza e lágrimas.
“Eu deixei uma carta em seu diário, esfolie depois para encontra-la. Agora preciso ir”, pronunciou as palavras, me dando um beijo. Sabe o que aconteceu após, Diário? O seu corpo começou a dissolver-se em luzes amareladas que eram levadas pela brisa e sumiam no entardecer. Eu comecei a chorar e abracei aquilo que restava dele. “Eu te amo”, foram suas últimas palavras até sumir completamente me deixando sozinha naquele banco, rodeada de lágrimas e de raios alaranjados.
“Eu também te amo”, sussurrei, enquanto as lágrimas teimavam de sair por meu rosto. Foi triste, foi sufocante e eu desejei que aquilo fosse um sonho. Tanto que esperei acordar. O mais triste foi perceber que eu já estava acordada e que aquele acontecimento realmente foi real.
Eu não entendo o porquê de eu sofrer tanto. Nunca havia me interessado tanto por alguém, nunca havia trocado palavras de amor e tantos atos carinhosos com outro rapaz. Steve é meu primeiro amor, meu desejo, meu sonho encantado. Infelizmente minha vida não é um conto de fadas e por isso não tive o “ E viveram felizes para sempre!”. Se eu fosse aquele que escreve a minha história...
Voltei para a casa e comecei a procurar pela tal carta que ele falou, estava escrita em letra cursiva e bem bonita, chorei lendo.
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