Ele Me Visita Quando Durmo
25 Página 25
“Há noites que não posso dormir de remorso por tudo o que deixei de cometer.” (Mario Quintana)
.
Oito de outubro de 2010, Sexta-feira.
.
Oi Diário.
Fiquei alguns dias sem conversar contigo e peço mil desculpas. Estou mal, meio óbvio né?! Aconteceram algumas coisas, mas infelizmente Steve não está no meio delas, ele ainda continua sumido e isso me entristece, mas já não estou tão deprimida como antes. Também desisti da morte, por enquanto, mas as esperanças que um dia chegarei a revê-lo se foram por completo. Pelo menos boas lembranças de momentos marcantes eu tenho guardado dentro de mim.
Aquela marca no pescoço está sarando e tive de disfarçá-la usando blusas de golas altas ou Florence veria e me perguntaria o que aconteceu. Como eu ia explicar que uma sombra quase arrancou um pedaço de meu pescoço?
O fim de ano se aproxima, a primavera está revelando lindas flores e meu coração geme de dor. Não é a melhor primavera da minha vida e você sabe muito bem o motivo. Quero relatar o que ocorreu durante esses dias, deve ser meio previsível para você, mas mesmo assim é bom falar, certo?
Ultimamente quem tem me acompanhado na saída do colégio até minha casa é Pietro. Eu gosto dele, no sentido amizade é claro, mas ele é bastante misterioso e da última vez que me envolvi com um rapaz incomum acabei descobrindo que ele me visitava em forma de sombra. Não tenho completa confiança em Pietro, mas por enquanto ele não demonstrou motivos para odiá-lo.
Aquela sombra insiste em me assombrar, mas felizmente não fez, novamente, algo que me machuque fisicamente. Tenho alguns palpites sobre isso, talvez Steve tenha se transformado completamente e tenta se comunicar comigo ou acabou perdendo o controle total. Se refletirmos, a sombra voltou a aparecer e Steve desapareceu. Coincidência? Não sei, mas esse é meu palpite e tenho um medo tão grande — quase desesperador – de que eu esteja certa.
Hoje, meu dia foi ruim. Acordei em um horário um tanto tarde por não conseguir dormir direito durante a madrugada. É impressionante como me faz mal-estar longe de Steve e essa paixão insiste em permanecer no meu coração. No momento que fitei as horas em que me levantei da cama, corri ao banheiro com o objetivo de um banho. Apressei-me em arrumar e corri até o colégio.
As aulas foram tediosas e na saída encontrei Pietro. Ele novamente me acompanhou e essa rotina era tão parecia com a que eu tinha com Steve que chegava a me assustar. Ele falava bastante e notei que os fios claros de seus cabelos se balançaram no momento que uma brisa tocou nossos corpos. Ele parecia alguma espécie de anjo e, sinceramente, meio que acredito que ele seja. Se Steve é uma sombra, porque Pietro não pode ser meu anjo da guarda? Isso não significa que confio nele...
Pietro conversava sobre coisas maravilhosas, como as árvores ficavam interessantes na primavera. Eu também penso dessa forma, na primavera as plantas ficavam mais coloridas dando a impressão de que tudo está mais alegre. Um contraste horrível com meu coração entristecido, foi exatamente isso que falei para o loiro e ele franziu o cenho. “Esqueça esse tal de Steve. Que espécie de amigo te abandona sem ao menos avisar?”, foram suas palavras. Isso me doeu, até porque eu não acredito exatamente que Steve tenha me abandonado sem um motivo complexo.
Chegar a casa, por mais incrível que pareça, foi meu alívio. Principalmente quando vi Florence com um caixa de bombons nas mãos dizendo que era para mim. Fiquei tão contente, não por comer chocolate, mas por sua atitude carinhosa e preocupada comigo. Acho que agora posso começar a considerá-la uma mãe, quase.
Vou encerrar a escrita. Irei escovar meus dentes e pensar um pouco sobre Steve. Sei que isso é torturante, mas eu sinto essa necessidade. Até outro dia!
Fale com o autor