Ele Me Visita Quando Durmo
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Notas iniciais
“Aos poucos, os pensamentos amontoados na cabeça vão se acomodando, bem ou mal se encaixam um nos outros, e é um consolo quando cessa o atrito dos pensamentos, e vai se fechando a cabeça, apertando-se nela mesma, a cabeça restando como que oca por fora. O sono chega como um barco pelas costas, e para partir é necessário estar desatento, pois se você olhar o barco, perde a viagem, cai em seco, tomba onde você está.” (Chico Buarque, Estorvo)
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Treze de agosto de 2010, Sexta-feira.
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Oi diário.
Hoje é a famosa Sexta-feira treze. Eu não tenho medo dela, não acredito em sobrenatural. Não acredito em seres de outro mundo ou demônios/fantasmas que podem vir nos apavorar. Isso para mim é história para amedrontar crianças e eu não sou mais uma criança.
Ir à escola, como já disse, é estressante. Uma rotina monótona e irritante que tenho de encarar quase todos os dias, querendo ou não. Colégio é chato e os adultos amam nos ver sofrer — eu acho — nos obrigando a frequentar aulas. Dizem que é bom para nosso futuro, mas isso não muda o fato de aulas serem sinônimo de chatice. Como sempre sentei em meu cantinho especial e desta vez prestei atenção na professora. O mais estranho – e novo- que aconteceu durante uma explicação sobre equação de segundo grau foi uma sombra bem rápida passar entre a professora e vir na minha direção. No momento caí da cadeira assustada com a visão, mas balancei a cabeça negando que vi aquilo. Tenho certeza que se passou de um fruto da minha imaginação. Todos os meus colegas de classe riram de mim e só a professora foi me ajudar a levantar, repreendendo os idiotas pela “atitude grosseira”, pelo menos foi assim que ela falou.
O restante da aula foi tedioso, mas meus pensamentos ficaram voltados naquela sombra, me questionando o que foi aquilo. Levantei da cadeira quando o sinal tocou e coloquei minha mochila nas costas, caminhando às pressas para fora da escola, escutando mais uma vez os inúteis me xingando ou fazendo coisas do tipo. Fingi não escutar e caminhei até minha casa.
Era fim de tarde, Florence já estava lá, sentada no sofá e tinha uma expressão esquisita em seu rosto. Quando a vi fiquei temerosa, acreditando que ela estivesse bêbada. Ela havia me fitado com seus olhos verdes e abriu um sorriso sem jeito. Pelo menos hoje ela não bebeu. Chamou-me por meu apelido “Ellie” e me aproximei, desconfiada, sentando ao seu lado no sofá. Ela ficou me encarando por um tempo e aquilo estava começando a me irritar. “O que a senhora deseja?”. Falei, não queria aturar aquele silêncio constrangedor. “Quero pedir desculpas por ontem, eu não queria... Eu só...” Foi o que disse, mas suas palavras pouco efeito provocaram em mim. Eu não ligava mais para suas desculpas porque depois ele voltava a ficar embriagada e batia em mim. “A senhora devia parar de beber.”, foi o que respondi e ela sorriu sem graça, concordando com a cabeça. “Você tem razão, minha querida.”, falou e eu sinceramente não sei o porquê dela me chamar de querida. Eu não sou a querida dela, talvez a bebida fosse. “Dê-me licença, senhora, mas preciso fazer um exercício de casa.”, ela concordou e sai daquele lugar, indo até meu quarto.
Eu não tive nenhuma tarefa para fazer, foi apena uma desculpa para ficar só e acredito que ela já sabia disso. Minha relação com minha mãe adotiva era esquisita. Eu não a amo e acho que ela também não me ama, mas sabemos conviver uma com outra, pelo menos quando ela está sóbria. Às vezes me pergunto o porquê dela ter me adotado.
Sabe, a lembrança daquela sombra tomou conta do resto de minha noite, até mesmo no jantar. Eu não devia pensar nessas coisas, até porque quando ficamos obsessivos demais em algo, acabamos por sonhar com essas coisas. Eu não quero sonhar novamente ou ter alguma paralisia do sono, mas minha curiosidade é maior do que eu e quando percebi já estava ao notebook pesquisando sobre relatos de paralisia do sono. Descobri vários relatos sobre demônios crianças, alienígenas, fantasmas e demônios sugadores de energia, estes últimos se chamam Íncubos (forma masculina) e Súcubos (forma feminina). Eles aparecem quando a vítima está dormindo e praticam relações sexuais com ela, sugando sua energia. Confesso que achei a história bastante interessante, mas não algo com que eu devo acreditar.
Acho que agora devo ir dormir, amanhã começa o fim de semana e pretendo dar uma volta no parque logo cedo. Foi bom desabafar contigo e confesso que estou gostando bastante de colocar para fora o que acontece comigo. Até outro dia e boa noite.
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