Eldrwin E O Pergaminho Mágico De Orion
22 Treino noturno
— E então? Alguma novidade significante? – Disse Dmitri com um tom de voz claramente incomodado.
—Sim. Poucas, mas boas novidades – Respondeu Hasef com seu sorriso cínico que fez com que Dmitri se achegasse para a ponta do trono de pedra interessado no que iria ouvir á seguir.
—Continue.
—A segurança no reino está abaixando gradativamente. Não é mais aquela do nível do inicio da primavera quando ocorreu o primeiro ataque.
Dmitri se levantou do trono estudando com expressão totalmente fechada á Hasef que se encontrava á sua frente encurvado como se estivesse carregando um enorme fardo em seus ombros.
—E quais as chances de encontrarmos o pergaminho desta vez?
—Podemos dizer que as chances dobraram Dmitri. Não há como falhar.
Os olhos maldosos de Dmitri foram se estreitando como se ele estivesse receando que aquela informação fosse verdade. Ele olhou para as paredes de rocha do salão redondo e para as entradas vazias e declarou em voz alta.
—APAREÇAM! AGORA!
Vários pontos negros começaram á surgir pelo chão pedregoso do salão redondo de rocha e foram tomando forma, erguendo-se, e ficando cada vez mais altos. Duas luzes brancas assustadores brilharam na parte de cima da sombra e foram se solidificando formando um capacete com chifres. Logo mais abaixo uma armadura negra de metal foi surgindo até as partes inferiores juntamente com as mãos, as pernas e todo o corpo sombrio. Uma espada fina e brilhante foi surgindo nas mãos de cada um que permaneciam em pé diante de Dmitri.
—ESTEJAM PRONTOS! HOJE A NOITE NÓS IREMOS REALIZAR MAIS UM ATAQUE! FALHAS NÃO SERÃO TOLERADAS EM NENHUMA HIPOTESE! – Bradou Dmitri em alta voz para os guerreiros negros que permaneciam imóveis e inanimados.
—Ao anoitecer Hasef! E desta vez, Você irá juntamente com os guerreiros para assegurar que estão atacando a pessoa correta!
Hasef assentiu se sentindo receoso e os guerreiros negros foram mergulhando pelo chão e desaparecendo em seguida.
[...]
Não obstante, longe dali, Eldrwin caminhava abaixo do céu cor laranja do fim de tarde. Ele estava completamente sozinho e andava com o olhar determinante. O chefe da guarda real durante os dias que se passaram desde a convocação, deu uma grande importância ao poder místico que o jovem desenvolvera e reforçou que era um talento raro. Fato que deixava Eldrwin cada vez mais intrigado em possuir total controle sobre suas técnicas.
Ele estava se dirigindo para a arena de batalha mais uma vez e enquanto isso ia observando as pessoas já começando á acender as tochas pelas ruas que iam ficando cada vez mais vazias.
Poucos guardas caminhavam pelas ruas e quando o viam o saldavam, pois já sabiam que ele em breve se tornaria um treinador juvenil. Porem, certa angústia tomava conta de Eldrwin que estava caminhando sem seu melhor amigo que não pode o acompanhar desta vez e mesmo não querendo admitir, Eldrwin sabia que a presença de Kairou ao seu lado nos treinamentos lhe dava mais foco no alvo que gostaria de alcançar.
Enfim chegou frente ao portão principal da arena onde dois guardas permaneciam parados e uma tocha estava acesa com o fogo tremulando com o vento. Ele estava fechado e impedindo a entrada para o longo túnel que seguia para o centro do local.
Eldrwin então se aproximou de um dos guardas e disse triunfante como se estivesse em uma missão de altíssima importância.
—Villian está me aguardando para o treino! Eu tenho permissão para passar.
Os dois guardas se entreolharam e um deles dirigiu a palavra á Eldrwin.
—Ah sim! Você é o jovem que Villian nos informou que viria logo ao inicio da noite. Pois bem, mostre-nos o poder místico que irá aperfeiçoar e assim permitiremos que entre.
Aquilo era típico de Villian. Um teste para comprovar absolutamente tudo, ainda mais quando se tratava de um treinamento. Eldrwin desembainhou lentamente sua espada em um movimento suave e a segurou com as duas mãos colocando a lâmina á altura dos olhos já fechados.
Uma luz suave foi envolvendo a espada e ia iluminando a face dos dois guardas que observavam tal feito com um que de admiração. Não demorou muito e o mesmo guarda que lhe fez o desafio disse.
—Luz! É um poder místico realmente raro. Muito bem jovem guerreiro. Pode passar!
Os guardas foram abrindo os altos portões que como sempre rangeram. Eldrwin passou por ele e foi caminhando em direção ao centro da arena.
Já estava ficando escuro e dentro do túnel as tochas iluminavam o rosto do jovem que estava ansioso para o começo do treinamento. Até que ele avistou á alguns metros alguem em pé e de braços cruzados bem ao centro da arena. Era Villian.
Eldrwin começou á caminhar mais rápido. O desejo de aprender ainda mais queimava dentro dele e quando percebeu já estava correndo.
—ORA! Já era em tempo! – Disse Villian alto com toda sua imponência vocal amedrontadora.
Eldrwin se aproximou e notou que ao seu redor, quatro tochas dispostas de tal maneira, que formavam um grande quadrado estavam acesas.
—Muito bem! Estou aqui. Agora me diga o que quer me ensinar.
O chefe da guarda real começou á falar enquanto caminhava de um lado para o outro com os braços ainda cruzados. A longa capa balançava suavemente.
—Os poderes místicos que são despertados, não são totalmente perfeitos Eldrwin. Eles precisam ser aprimorados para que possam ser usados pelas pessoas que os tem sem que haja descontrole. Quanto mais domínio o místico tiver de seu poder mais coisas incríveis será capaz de realizar durante um combate real. – Disse Villian enquanto Eldrwin ouvia atentamente cada palavra. – O que nós faremos aqui é justamente aumentar este controle. Por isto preste atenção.
Eldrwin assentiu com a cabeça totalmente em alerta.
— Ilumine a espada! – Ordenou Villian.
Eldrwin fechou os olhos e permitiu que sua mente se esvaziasse por completo. Sentiu uma onda de energia suave percorrer todo o seu corpo e assim que notou, sua espada brilhava.
—Muito bem! – Exclamou Villian – Quando canaliza a luz no fio da espada, também está canalizando sua força vital na lâmina. Com isso, ela se torna uma espada viva, mais afiada, mais mortal. O que você fará Eldrwin, é aumentar o fluxo de luz no fio da espada até onde conseguir.
—Mas, eu não consigo! – Disse Eldrwin com esforço.
—PRECISA TENTAR! Não se esqueça de que seu melhor amigo consegue aumentar o nível de suas chamas até o limite de onde ele consegue ir. Você pode fazer o mesmo!
As lembranças dos ataques voltaram de súbito á mente de Eldrwin. A primeira vez que aconteceram Kairou não hesitou em utilizar seus poderes, e na segunda usou praticamente tudo o que possuía.
Seu coração foi batendo mais forte e ele fechou os olhos com rigor. Suas mãos apertaram o cabo de sua espada e ele pode sentir o fluxo na lâmina como se fosse uma corrente de aguas que pareciam lhe fazer flutuar.
—VOCÊ E A ESPADA PRECISAM SE TORNAR APENAS UM ELDRWIN! SINTA O QUE ELA SENTIR! – Bradou Villian enquanto via o jovem se esforçando mais e mais.
Até que de repente, pequenos pontos luminosos começaram á surgir e circular em grande velocidade ao redor da espada de Eldrwin que abriu os olhos surpreso com o que via. Parecia que enfim, aquele mesmo clarão poderoso da primeira noite do ataque aconteceria.
—E... Eu vou. Eu vou... – Dizia Eldrwin ofegante enquanto sentia que cada fibra de seu corpo estivesse perto de explodir. Mas sem que pudesse fazer nada, Um poderoso relâmpago, claro como a luz do dia rompeu na espada por um momento. Eldrwin então sentiu o chão começar á desaparecer e tudo rodar. Ele soltou a espada em desespero e caiu ajoelhado no chão de terra. Respirava com dificuldade como se acabasse de correr por todo reino. Sua testa suava intensamente e suas mãos tremiam.
—O... que aconteceu? Dizia ele tentando focalizar Villian que ia se aproximando mais e mais.
—MUITO BEM! – Bradou Villian estendendo a mão para Eldrwin que ainda estava tonto – Isto foi um pequeno avanço meu jovem!
—Mas o que eu fiz? — Disse o garoto franzindo a testa.
—Apenas usou um pouco mais do seu poder Eldrwin! Apenas isto.
Eldrwin estendeu a mão e foi levantado por Villian que perguntou.
—Consegue fazer mais do que isto?
—COM CERTEZA! – Declarou Eldrwin radiante e já fazendo sua espada brilhar novamente.
Alguém observava Eldrwin ao longe sorridente e escondido ao lado de fora do mirante onde o rei Gallic e a família real ficavam.
—Este é meu amigo! Isto!
Disse Kairou cochichando para si mesmo tentando permanecer atrás de uma das colunas que sustentavam o mirante.
Bem sorrateiro, ele foi subindo lentamente os degraus da arquibancada até a parte mais alta. A sombra da noite já se fazia presente e ele só seria notado se cometesse algum erro tolo. Pulou a pequena cerca de proteção da ultima fileira e começou á descer escalando com bastante dificuldade a rochosa parede do lado de fora da arena.
Aquilo era uma grande loucura considerando a altura da arena, mas havia algumas rochas sobrepostas que permitiam a escalada de alguém louco o suficiente para subir. Kairou sabia do perigo, porém já haviam feito aquilo várias e várias vezes junto com Eldrwin para assistir os treinos da pequena guarda quando ainda não tinham a idade para ingressar.
Finalmente chegou ao chão. Olhou para os lados e viu que os guardas da entrada mais próxima não haviam notado sua presença. Continuou á seguir pelas ruas em silencio.
—Preciso me apressar! Disse ao papai que voltaria assim que anoitecesse. Minhas chances de tomar uma grande bronca só estão aumentando!
De fato, Kairou havia dito que iria ir á casa de Eldriwn e não iria demorar. Ele realmente foi á casa do amigo e logo depois se dirigiu á arena de batalha. Esperou que Eldrwin chegasse á frente do portão e quando os guardas ficaram observando a luz da espada de seu amigo, ele começou a escalada sem ser notado. Mas agora teria que se apressar para voltar para casa o mais rápido possível.
As ruas estavam pouco movimentadas e Kairou seguia olhando para os dois lados, atento para perceber se algum guarda notava sua passagem. Ele avistou uma ruela deserta e escura que seguia pela parte de trás de varias casas e ia direto para o cruzamento central do reino onde se localizava o templo de pergaminhos. Ele entrou por ela e continuou caminhando olhando para trás á todo momento.
Em uma fração de segundos, a temperatura caiu. E tudo foi ficando cada vez mais escuro. O andar foi ficando mais pesado e Kairou soltou uma declaração.
—Eu devo está com muita fome, Estou perdendo a visão.
Quando olhou para frente inexplicavelmente não conseguia ver o fim da ruela. A saída estava imersa em sombras. Mas quando percebeu que nenhum som vinha de lugar nenhum seu coração deu um salto dentro de seu peito e a caminhada sessou. Ele engoliu um nó e seus olhos se arregalaram. Ele conhecia exatamente aquela sensação horrível, pois já havia sentido tudo aquilo antes. Sua mão agarrou nervosamente o cabo de sua espada e lentamente foi afastando os pés uns dos outros ficando em posição de ataque.
Um arrepio cruzou-lhe a espinha e ele agora receava mais do que tudo olhar para trás.
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