Eldrwin E O Pergaminho Mágico De Orion
17 O cliente.
Eldrwin estava ofegante. A testa minava suor por causa da corrida e do forte calor daquela tarde de primavera. Sua boca estava seca e o jovem, sempre que podia, olhava para trás para confirmar se o que sentira realmente havia sido verdade ou não. Alguém o havia perseguido e ele tinha absoluta certeza disto. O rosto amedrontado e uma sensação muito ruim percorria todo o seu corpo. Continuou caminhando como se estivesse perdido pelas ruas serpenteosas da parte central do reino, até avistar uma grande árvore com uma sombra generosa á frente de um jardim de uma casa. Ele encostou-se ao tronco e respirou profundamente deixando o ar entrar pelo peito para lhe dar um pouco de folego e tirar se possível, toda aquela perturbação que vinha de sua mente.
–Espero que quem quer que fosse não tenha ido atrás de Kairou – Declarou Eldrwin fadigado. As pessoas que passavam olhavam para ele e viam claramente que estava cansado. Ele havia combinado com o amigo de se encontrarem frente á casa de Kahlil ao por do sol. Isso trazia alguns terríveis medos pois era exatamente á noite que os ataques aconteciam. Mas em nome da descoberta que poderiam ter, não poderiam voltar atrás. O pai de Kahlil teria de saber alguma coisa sobre o guerreiro de cabelos negros que estava á frente do ataque da noite anterior.
Após recuperar um pouco da energia, Eldrwin saiu da sombra fresca da árvore e continuou o seu caminho. Até que avistou vindo de longe alguém familiar. Não tinha absoluta certeza de quem era, mas podia deduzir com facilidade que pelo andar um pouco desconjuntado, se tratava justamente de Kahlil que vinha carregando nos braços um escudo de madeira com uma espécie de ferro com uma ponta bem aguda no centro. Num passo, Eldrwin se pôs á correr em direção do garoto que também percebeu que quem ia em direção á ele era alguém conhecido.
–ELDRWIN! Mas que surpres...
Antes que pudesse concluir o que iria dizer, Kahlil foi completamente interrompido pela fala nervosa de Eldrwin que começou á perguntar descompassadamente.
–KAHLIL! O seu pai... Ele está em casa?
Aquilo para Kahlil era uma completa novidade. Nunca vira Eldrwin perguntar com tanto nervosismo sobre seu pai. Logo começou á pensar que alguma coisa ruim poderia ter acontecido e demonstrando total medo respondeu com sua fala lenta, mas medrosa, enquanto colocava o escudo no chão.
–Sim! Ele está em casa, mas aconteceu algo com meu pai? Ou irá acontecer?? Estou com medo de ver você perguntar isto para mim assim deste jeito!
–Não! Nada aconteceu com seu pai e nem vai acontecer e... Talvez você possa me ajudar!
Kahlil arregalou os olhos sendo completamente surpreendido. Era obvio. Ele não sabia de absolutamente nada e soltou uma declaração completamente inocente ante o que Eldrwin havia falado.
–Eu? Mas eu não sei o que você quer!
–Me escute! – Ordenou Eldrwin firmemente – Por acaso você se lembra de alguma espada que seu pai forjou? Uma espada bem longa, fina e curva, com uma lâmina brilhante! Diz que você se lembra, por favor!
Completamente afogado em um mar de dúvidas, Kahlil colocou o dedo indicador sobre o queixo e olhou para cima. Tentava se lembrar de qualquer coisa que viesse á sua mente sobre as espadas que seu pai entregara nos últimos dias, mas depois de alguns segundos respondeu para insatisfação de Eldrwin.
–Espada longa e curva? Bom eu simplesmente não me lembro de ver meu pai forjando uma espada longa e curva. Algumas vezes eu ajudo o meu pai com isso, mas desta vez eu não me lembro.
Eldrwin abaixou a cabeça se sentindo completamente desconsolado. Seria algo importante que poderia ouvir. Concluiu que deveria continuar seguindo o seu caminho rumo á casa do amigo á sua frente e já foi se despedindo.
–Está certo. Bom eu terei de perguntar ao seu pai sobre isto. Terei de ir agora. Bom... Até amanhã de manhã na arena de batalha! – E já foi logo se virando e colocando-se á andar para longe. Até que Kahlil soltou algo que simplesmente atiçou ao máximo toda a curiosidade possível que existia em Eldrwin.
–Á não ser aquela que meu pai entregou para um tal velho de túnica vermelha! – Gritou Kahlil para Eldrwin que paralisou no meio do caminho. Um milhão de coisas vieram á sua mente diante do que Kahlil havia falado. Ele deu meia volta e correu freneticamente em direção ao amigo novamente. Colocou suas mãos sobre os ombros de Kahlil e sem que pudesse perceber, apertou ferozmente á ponto de fazer Kahlil ficar nas pontas dos pés. Perguntou em voz alta logo em seguida.
–VELHO DA TÚNICA VERMELHA!? – Quem é esse velho??
–Eu não sei! — Respondeu Kahlil com voz de total esforço — Me lembro que no dia em que o vi, eu estava voltando de um treinamento. Era fim de tarde e então quando estava chegando perto da ferraria, vi meu pai entregar uma espada longa, brilhante e curva para um velho vestido uma túnica velha e avermelhada. Não sei quem era por que o rosto estava tampado, mas tenho certeza que meu pai sabe bem quem é!
– Preciso ir á sua casa neste instante! — Eldrwin se afastou, Um fogo queimou dentro dele e sem demorar nem mais um segundo que fosse, virou-se e começou á caminhar em direção ao sul do reino deixando Kahlil para trás com ainda mais dúvidas que podia ter. Seria uma longa caminhada, mas com tantos pensamentos atravessando sua cabeça sobre quem seria este tal velho da túnica vermelha, o tempo passou tão rápido que ele nem ao menos percebeu que já tinha andado por quase 2 horas e que o sol já estava começando á se por.
A casa de Kahlil ficava em uma área mais campestre do reino de Orion. Com uma vegetação bem verde e rasteira. As casas ali não ficavam uma do lado das outras como era no centro do reino e todas eram construídas usando-se uma espécie de madeira da cor bege, com cercas baixas em volta e uma arvore geralmente com frutos á frente. As ruas eram de terra marrom bem claro e a poeira levantava quando alguém passava por lá. Eldrwin então percebeu que do outro lado do pequeno lago por onde ele atravessava alguém acompanhava os seus passos. Ele acenou com uma das mãos e a outra pessoa acenou de volta.
Bem na parte central do lago, uma ponte de madeira se estendia de uma margem á outra e a pessoa do outro lado que observava Eldrwin começou atravessá-la. Não demorou muito e esta mesma pessoa já havia atravessado a ponte. Seu rosto estava suando e visivelmente mostrava um cansaço. Reuniu fôlego o suficiente e declarou ao passo em que se encostava no parapeito da ponte levantando o rosto para cima e fechando os olhos.
–Eu... Preciso... Descansar! – Disse Kairou ofegante para o amigo á sua frente.
A casa de Kahlil ficava exatamente após a ponte, lugar onde eles estavam. Na lateral da residência havia uma varanda onde alguém estava frente á uma mesa levantando uma marreta e batendo em algo que fazia um som metálico alto e estridente.
–Veja! É o pai de Kahlil – Disse Eldrwin – Vamos! Ele ainda está forjando armas!
Apressadamente começaram á ir em direção á casa do amigo. O pequeno portão da cerca estava aberto e os dois passaram com facilidade. O sol começava á se por seguindo para trás das altas montanhas que cercavam parte do reino, mas ainda estava claro. A casa possuía dois pavimentos e janelas grandes e na varanda, uma grande fornalha de barro ardia. Dentro de uma bacia de madeira se encontrava uma enorme quantidade de barras de ferro . Do lado dela, outra bacia continha agua gelada e do lado da bacia com agua, havia uma mesa de pedra alta.
O pai de Kahlil era um homem de estatura média e porte físico forte, apesar de ter uma grande barriga que ia encostando-se à mesa toda vez que ele se aproximava dela. Ele possuía uma barba negra e o rosto bem corado e bastante suado com algumas manchas de carvão. Ao lado dele, a fornalha ardia intensamente. Seus cabelos negros eram longos e grossos. Estavam trançados e iam até ás costas. Ele percebera que não estava sozinho e após ter dado algumas marretadas na barra de ferro á sua frente, á colocou na bacia de agua fazendo uma fumaça se levantar. Ele se virou para Eldrwin e Kairou e começou á dizer com bastante empolgação e um riso no rosto.
–Ora ora! Eldrwin e Kairou! Mas que visita mais do que inesperada! Bom. se estão procurando por Kahlil eu sinto muito. Ele foi até á cidade entregar um escudo á um cliente e possivelmente só voltará quando já estiver escuro.
Eldrwin então respondeu apressadamente.
–Senhor Uros não viemos ver Kahlil. Viemos ver o senhor mesmo.
Uros soltou uma gargalhada alta e já foi pegando sua marreta
–SIM! Possivelmente estão querendo um equipamento novo não é? As melhores espadas do reino saem daqui desta mesa. Não há quem faça armas que cheguem ao nível da minha!
–Exatamente sobre espadas que queremos falar. Mas não sobre as nossas – Disse Eldrwin mais uma vez fazendo Uros abaixar sua pesada marreta e perguntar calmamente.
–Então em que posso ajuda-los?
–Por acaso o senhor se lembra de alguma espada longa e curva que foi pega por um velho de túnica vermelha algum tempo atrás?
Kairou virou-se para o amigo desesperadamente. Aquilo era informação nova e ele não sabia nada sobre quem era o tal velho de túnica vermelha. Não hesitou e perguntou ao amigo.
–Velho de túnica vermelha? Quem é esse velho Eldrwin?
–Exatamente isto que quero saber senhor Uros. O senhor se lembra de alguém assim?
Uros então mais uma vez soltou uma risada alta e tirou a barra de ferro da agua e a colocou no fogo.
–AH sim! Lembro-me desta espada. Deu bastante trabalho, pois aquele velho queria que ela fosse afiada o máximo possível. Até estranhei que um velho que lida com artefatos místicos antigos quisesse uma espada do jeito que pediu.
Eldrwin e Kairou se entreolharam repletos de duvidas. E perguntaram ao mesmo tempo á Uros.
–Qual o nome desse velho??
–Sim! O nome dele é Hasef. Um profundo conhecedor aquele velho é. Fui pago com bastante ouro por ter feito aquela espada. Já faz um bom tempo que não o vejo e ao que parece, faz um bom tempo que as pessoas do reino também não o veem. Mas ele havia me dito que a arma não era para ele e sim para um conhecido.
Eldrwin havia chegado em uma conclusão perturbadora. Alguém do reino estava ajudando Dmitri á chegar ao pergaminho de Orion. A grande questão era o por que disto.
–Está bem. Muito obrigado senhor Uros. Nós temos que ir pois já vai escurecer — Disse Eldrwin que já se virava para ir embora juntamente com Kairou que fez um aceno com a mão para Uros.
–Está bem garotos! Tomem cuidado na hora de voltar para suas casas! — E voltou á bater na barra de ferro em brasa com sua marreta.
Pela estrada, Eldrwin e Kairou permaneciam com uma incógnita gigantesca sobre suas cabeças. Não faziam ideia de quem era Hasef e por que estaria ajudando á Dmitri lhe fornecendo uma espada com um nível de acabamento tão alto como foi dado e possivelmente, ajudando-o á ter acesso ao interior do reino.
–Este Hasef, seja quem for, é um traidor Eldrwin! — Protestou com muita raiva Kairou.
–Sim. Mas qual seria o motivo pra ele ter feito isto? Existe alguma coisa na qual nós ainda não sabemos. Precisamos contar agora com a princesa Anya para descobrir alguma coisa.
–Princesa? — Kairou interrogou por se lembrar que Anya ameaçara Eldrwin de morte poucas horas antes no templo de pergaminhos.
–Er... Eu vou me acostumar com isso amigo. Vamos andando.
–Realmente. Se não morrer antes... irá se acostumar! — Disse Kairou fazendo com que Eldrwin ficasse completamente constrangido.
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