Eldrwin E O Pergaminho Mágico De Orion
24 Ahzzarafh
Eldrwin estava flutuando em uma velocidade incrível vendo feixes de luz passar por ele quase que imperceptíveis. Ele sentia seu corpo indo para frente como se estivesse sendo atraído para algo ou alguém. Até que seus pés tocaram o chão e num segundo tudo á sua volta foi ganhando cores e formas. Quando enfim percebeu, estava em uma confortável sala onde uma lareira queimava no canto direito e uma poltrona vermelha e fofa estava disposta no lado direito frente á ela. Entre a poltrona e a lareira havia uma mesa de madeira pequena. Á alguns passos depois da porta de entrada havia outra porta que levava para outro cômodo. Estava escuro e o pouco de luz vinha do fogo tornando o ambiente bem misterioso. O garoto ainda sentia o corpo estranho, como se estivesse ainda em movimento, mas ele não se movia um centímetro.
Ele fez um esforço para focalizar quem estava sentado na poltrona e aproximando-se um pouco, viu que a pessoa era Kairou, completamente desacordado com a cabeça que tendia a tombar para o lado esquerdo. De um canto escuro, uma lamparina pendurada na parede de rocha brilhou e revelou Jedah, que andava agora para outro canto da sala em silencio e com uma expressão grave no rosto. Eldrwin franziu a testa e piscou os olhos, tentando recobrar os sentidos e perguntou ainda se sentindo tonto por causa do que havia acontecido á poucos instantes.
—Onde eu estou? – Disse com a voz um pouco falha.
—Está em minha casa – Respondeu calmamente Jedah enquanto caminhava em direção á outra lamparina no canto.
—Nós... Como chegamos? O que aconteceu? – Perguntou novamente nervoso.
—Uma habilidade que com muito tempo se adquire Eldrwin. – Disse Jedah novamente calmo e dessa vez passando por Eldrwin que não demonstrava nada de tranquilidade.
Ele fitou Kairou, agora com mais precisão e notou os ferimentos, as roupas sujas e o sangue que banhava o ombro.
—NÃO! JEDAH... ELE...
—Seu amigo não corre perigo de vida Eldrwin – Disse Jedah interrompendo a fala do garoto de súbito – As espadas dos guerreiros negros ao infligir um corte superficial causa certa fraqueza e tontura. Para vocês que ainda são muito novos, estes sintomas são mais fortes, mas Kairou ficará bem.
Jedah se aproximou de Kairou com o cajado prateado em mãos. Ele o posicionou mais próximo do jovem e um brilho branco bem suave o envolveu refletindo no rosto dos dois. O sangue nas roupas de Kairou foram desaparecendo aos poucos e o local do corte, onde havia mais quantidade de sangue, também se limpou. Kairou então começou á roncar pesadamente como se estivesse dormindo em sua própria cama. O brilho do cajado prateado de Jedah sumiu após isto.
—É bom que descanse um pouco antes de ir embora para a própria casa. — Declarou Jedah enquanto se dirigia para mais uma lamparina em outro canto da sala.
Eldrwin olhava para o guardião do reino completamente intrigado e incomodado com a tranquilidade que o mesmo demonstrava. Novamente perguntou.
—Jedah! Como você conhece estes guerreiros negros? De onde eles vieram?
Mas Jedah parecia ignorar a pergunta e fez uma declaração que nada tinha haver com a pergunta que acabara de receber.
—Não precisa se preocupar. Kairou logo poderá ir para casa e...
Uma raiva foi subindo pelo corpo de Eldrwin como fogo. Ele cerrou os punhos e em seguida perguntou em alto em bom som.
—ME RESPONDA! – Fez se um silencio bem pesado na sala. Apenas o ronco de Kairou e a lenha estalando na fogueira passaram á se ouvir. Jedah fitou o garoto com muita atenção e Eldrwin continuou á falar – QUEM É AHZZARAFH?
Os olhos de Jedah se abriram de forma assustadora e sua boca se entreabriu. Ele ficou encarando Eldrwin por alguns segundos completamente mudo e surpreso com o que acabara de ouvir. Caminhou lentamente de volta em direção á lareira passando por Eldrwin que ainda permanecia em silencio com os punhos ainda cerrados e a mesma expressão de raiva.
O guardião do reino se virou para o jovem e novamente com os olhos bem abertos de surpresa perguntou:
—Como tomou conhecimento deste nome Eldrwin?
—Por acaso não é um nome no qual eu deveria saber? – Falou Eldrwin por entre os dentes, claramente nervoso — Já fomos atacados três vezes Jedah! Tenho certeza que sabe muito bem disto! Se caso existe alguma relação entre Ahzzarafh e estes guerreiros eu preciso saber! Eu e Kairou quase morremos!
Jedah suspirou e se virou novamente para a lareira bastante perturbado e silencioso. Ficou alguns segundos calado e começou á dizer com a fala arrastada.
—Ahzzarafh, Eldrwin. Foi um guerreiro do reino de Orion. Talentoso e muito dedicado, assim como você é!
Eldrwin espantou-se. Sentiu a garganta secar e o coração saltar dentro do peito. Jedah continou.
— Ele fez parte da pequena guarda e, logo depois, se tornou um treinador juvenil. Foi promovido novamente mais tarde e começou á fazer parte da guarda real. Logo após se tornou notável no Exército do reino. Era um soldado... Impressionante, devo dizer. Mas, por causa da soberba e do orgulho que tinha de seus talentos, Ahzzarafh quis ocupar á qualquer custo uma posição que já estava dirigida á outra pessoa. Ele não aceitou o não vindo do rei Gaallic, pai do nosso atual rei.
Gaallic era muito velho naquela época e por isso, Ahzzarafh tentou algo imperdoável por causa do não inaceitavelmente recebido. Ele tentou assassiná-lo.
Eldrwin ouvia tudo com toda atenção que poderia prestar. Aquilo era algo no qual ele nunca imaginara que havia ocorrido no reino, e o fato de Jedah estar lhe contando tudo era um fato ainda mais inacreditável. Perguntou com a voz trêmula.
—M-Mas, e depois?
—Ele foi impedido no ultimo segundo. Seria executado, mas ao invés disto, foi banido para fora do reino. Estaria proibido de voltar e com isto a mensagem foi espalhada por toda terra de Alezia. Os reinos souberam do que havia ocorrido e Ahzzarafh se tornou um perigoso guerreiro renegado. Mas um tempo depois, sem que ninguém imaginasse, ele retornou á Orion. Poderoso demais para se acreditar e no comando de um grandioso exercito onde pessoas que foram corrompidas pelas suas vontades e por acharem superiores por causa de seu poder místico faziam parte.
Jedah caminhou para a janela lentamente e o olhou para fora, como se sua mente estivesse presa no tempo do qual a historia que estava contando pertencia.
— Ele nos atacou com uma fúria inimaginável. Foi uma guerra terrível, sangrenta eu que durou muitos dias. Muitos e muitos guerreiros deram suas vidas em nome do reino de Orion durante esta guerra Eldrwin. Inclusive seu pai que naqueles tempos... Era o chefe da guarda real.
Eldrwin engoliu um doloroso nó. Sentiu uma vontade imensa de chorar, mas se segurou com todas as forças que possuía para que não derramasse nenhuma lágrima sequer. Jedah continuou
—Mas Ahzzarafh foi impedido e derrotado no final das contas, quando os cinco reinos se uniram. Não foi nada fácil mesmo depois da aliança ter sido estabelecida, mas o vencemos com muito sacrifício e muito sangue. Caso queira saber sobre a relação entre os guerreiros que atacaram você e Kairou eu lhe digo. Estes mesmos guerreiros eram aqueles que faziam parte do exercito de Ahzzarafh e por alguma razão, ainda estão vivos ou foram revividos de alguma forma.
Eldrwin permanecia calado e com os olhos azuis bem abertos. Não havia palavras para serem ditas depois de tudo aquilo que ouviu. Ele enfim começava á ter ideia do tamanho do conflito no qual estava querendo fazer parte. Jedah se aproximou novamente dele com um olhar intensamente penetrante, como se estivesse lendo a mente do garoto e disse.
—Acabei de contar isto tudo para ordenar algo á você Eldrwin. Algo no qual não poderei perdoar se caso houver desobediência.
O rosto de Eldrwin queimou fortemente como nunca e ele pode sentir o suor começando á brotar na testa. Novamente engoliu um nó e esperou ainda em silencio o que Jedah iria dizer.
—Você está totalmente proibido de ir atrás de alguma pista, seja qual for, sobre qualquer coisa relacionada á estes ataques. Ouviu bem? – Disse Jedah em tom de voz firme e amedrontador.
Eldrwin assentiu com a cabeça, completamente acuado e mudo.
Está bem então. Acredito que Kairou já pode caminhar. Levarei vocês dois até ás suas casas neste mesmo instante.
Jedah caminhou em direção á poltrona onde Kairou estava dormindo e o balançou pelos ombros o fazendo despertar lentamente completamente desnorteado.
—Hm! Mãe! Hoje não... Eu não vou – Disse com a voz sonolenta e Jedah disse á seguir.
—Não está em sua casa Kairou!
O jovem foi abrindo os olhos com dificuldade e foi vendo os detalhes do lugar onde estava. Observou a lareira queimando e quem estava á sua frente. Num salto se colocou de pé assustado e perturbado enquanto ia se esgueirando, cambaleando em direção á janela.
—OS GUERREIROS NEGROS! ELES... ONDE ELES ESTÃO? NÓS FOMOS ATACADOS!
—Já se foram – Novamente disse Jedah calmo – E agora é hora de vocês partirem também.
Eldrwin e Kairou olharam um para o outro se examinando e um momento depois olharam para Jedah que estava com o cajado prateado um pouco levantado. De subido, o velho bateu com a parte de baixo do mesmo cajado no chão de onde uma fagulha saiu.
Uma luz fortíssima vinda do cajado brilhou na sala envolvendo todos de uma só vez e ambos desapareceram num instante.
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