Eldrwin olhou ao redor sentindo o coração batendo forte no peito como nunca havia sentido antes. O ar denso e pesado simplesmente não lhe chegava aos pulmões e, em cada centímetro do seu corpo, ele sentia dor. Uma dor terrível, um cansaço fulminante, um frio mortal e uma vontade de desistir de tudo.

Inúmeros corpos de soldados o cercavam em meio à escuridão daquele campo de batalha. Decapitados, atravessados por espadas negras, lanças negras, machados negros, com suas armaduras retorcidas ou partidas em pedaços. À sua frente, um exército inumerável de guerreiros negros o encaravam com aqueles olhos de luz branca e, de joelhos frente a dois deles, Kairou e Anya aos farrapos, ensanguentados, derrotados, destruídos, desanimados de corpo e alma. As espadas negras lhes tocando as gargantas, os olhos dos dois mirando os de Eldrwin em total desespero, como se estivessem esperando que fizesse algo. Como se estivessem esperando que ele os salvasse. Mas, ele estava imóvel. Impotente de medo e terror, sem nenhuma chance, sem nenhuma esperança.

— Me... Me desculpem! – Disse em agonia.

As espadas dos guerreiros subiram e, de um segundo para o outro desceram em fúria, mortais e imperdoáveis em direção aos pescoços daqueles dois que haviam decidido o acompanhar. Um último grito de dor ouviu-se seguido de um nome.

—Eldrwin? Está acordado?

Eldrwin despertou completamente desnorteado e agitado como se estivesse em uma cama em chamas. Suava frio e mantinha os olhos esbugalhados de horror. Observou o ambiente ao redor, o quarto, a luz do sol que começava a entrar pelo quarto, o barulho das ruas, Kairou a sua frente, de pé e felizmente, bem.

— Kairou! Eu... Eu... – Eldrwin não conseguia terminar de dizer ainda ofegante, em pé e olhando para todos os lados.

— Ei. Calma, amigo. Deve ter sido um sonho ruim certo? Acontece. – Disse Kairou de forma menos preocupada do que Eldrwin imaginava que ele fosse falar. – Villian já partiu, mas deixou alguns recados com Gerard. Daqui a alguns instantes Suhoz estará nos levando ao rei de Betta para começarmos a investigar. Se levante. Eu e Anya estamos aguardando você lá em baixo está bem?

Eldrwin aos poucos fora recobrando totalmente a consciência, o foco e o objetivo da missão. Passou as mãos pela testa ensopada de suor, retirando os cabelos da testa e olhou para o amigo.

— Certo... Eu... Irei num instante.

— Certo então – Disse Kairou se dirigindo para a porta do quarto, abrindo-a e fechando-a logo em seguida deixando Eldrwin sozinho.

Afinal, que sonho havia sido aquele? Ele sentou-se na cama e passou as mãos sobre o rosto numa tentativa de saber se ainda permanecia sonhando ou se havia de fato acordado daquele terrível pesadelo. Concluiu que estava no mundo real. Respirou fundo e disse para si mesmo.

— Foi só um sonho. Só um sonho. – Levantou-se e tratou de se vestir.

[...]

Pouco tempo depois, Eldrwin desceu as escadarias da estalagem agora vestido como um soldado avistando no salão Kairou e Anya conversando. Ver a princesa fez como que seu alívio aumentasse ainda mais diante daquilo que havia presenciado em sonho. A voz de Jedah na sala de reuniões lhe soou à mente mais uma vez. Porém, desviou o foco para aquilo que os seus amigos estavam falando.

— Pelo que Gerard falou, Suhoz nos levará para conhecer Bhorn – Disse Anya e, Eldrwin notou uma animação contida na voz da princesa.

— Ah sim. Villian deixou mais algum recado? – Eldrwin disse agora se dirigindo para a porta da estalagem.

— Na verdade não. Ele deixou tudo por nossa conta. – Kairou respondeu.

Fazia uma manhã um tanto quanto agradável no reino de Betta aquele dia e, familiarmente ao reino de Orion, o reino de Betta era bastante movimentado naquele horário. Várias pessoas caminhavam conversando e indo para suas ocupações, carroças com vários tipos de carga passavam de um lado para o outro, os soldados do reino trajando uma bela armadura verde passavam montados em cavalos e Eldriwn, Kairou e Anya permaneciam na porta da estalagem vendo tudo aquilo. Caminharam rumo aos seus cavalos que estavam próximos e os desamarraram. Depois de um tempo, subiram e permaneceram por ali montados quando notaram Suhoz em sua túnica esverdeada farfalhando, em meio à multidão e indo em direção a eles.

— Ei olhem lá! Suhoz está vindo – Disse Kairou apontando na direção em que o guardião do reino vinha. Ele se aproximou tranquilamente e admirou os três jovens.

— Um bom dia para vocês! Antes de irmos visitar o rei, é importante que vocês conheçam nosso chefe da guarda real Bhorn. É bem provável que ele...

E um barulho de cavalos se aproximando ecoou pelas ruas. Eldrwin e os outros seguiram olhando para os lados tentando encontrar a fonte do barulho e então, depois de certo tempo, perceberam que uma tropa de quinze soldados bem agrupados estava se aproximando tendo como o líder um sujeito corpulento, vestindo uma armadura verde com obreiras largas. Bhorn tinha a pele bronzeada e ao contrario de Villian, não possuía cabelo algum em sua cabeça. Mantinha a expressão do rosto extremamente fechada e um olhar do qual fez Eldrwin sentir-se estranhamente incomodado. Era um olhar frio e de certo modo, maldoso. Um olhar familiar. Ele aproximou-se dos três e mirou primeiramente Eldrwin. Parecia mais estar verificando se o jovem era um inimigo e, a julgar pelo olhar de desdém, não aprovou nenhum dos três.

— Então, são esses – E enfatizou essa palavra – os tais soldados que Orion nos envia?

— Sim Bhorn. – Continuou a dizer Suhoz tranquilamente – Se voluntariaram para... Ajudar-nos com a segurança.

— Nossos soldados dariam conta acredito... Suhoz. E, esses ai, me parecem não ter ao menos um ano de serviço. Estou certo?

Nenhum dos jovens não quiseram dizer absolutamente nada diante daquilo que fora dito. Não imaginavam ter de sair de tão longe para chegar ao reino vizinho e se sentirem completamente constrangidos diante de uma tropa e, se sentindo humilhados diante do chefe da guarda real. Mas o rosto de Anya se avermelhou de um momento para o outro com tamanha intensidade, que Eldrwin logo percebera o que estaria por vir.

— Acredito que o guardião do reino tenha motivos válidos para aceitar nossa ajuda. E, como ele é seu superior, a opinião dele provavelmente vale mais... Estou certa?

Bhorn mirou os olhos para a princesa, mas a mesma não desviou o olhar. Os dois se encararam por alguns momentos e uma tensão gigantesca se espalhou. Kairou olhava apreensivo Anya, e de Anya, olhava para Bhorn. Os olhares dos dois faiscando de fúria um para o outro.

— Superior? – Bhorn disse soltando uma risada desdenhosa – Aparentemente você valoriza hierarquia não? E a julgar pelo seu aspecto, há de se dizer que pertence à família real do reino de Orion.

Anya engoliu em seco, mas não se deteve em ficar calada.

— E há algum problema nisso?

— Irá descobrir... Princesa... Que as coisas aqui não funcionam como em seu precioso reino. – E então, Bhorn virou-se para Suhoz — Não quero ser responsável pelo que acontecer de errado Suhoz! Sabe muito bem que não aprovo falhas! Eles são novos demais! E inexperientes demais.

E ordenando às tropas, Bhorn saiu em disparada pelo reino com as pessoas o olhando curiosas.

— Quem ele pensa que é? E como pôde permitir que ele se dirigisse a você desta maneira? Você é o guardião do reino! – Dizia Anya à Suhoz completamente nervosa.

— Bhorn é assim com todos, princesa – Disse Suhoz calmamente – Pode ser desagradável eu sei, mas é um líder como nenhum outro. E existe um agravante, digamos assim, para que ele me trate desta maneira, mas não me importo muito.

— E o que é? – Eldrwin automaticamente perguntou.

— Ele gostaria de ser o guardião do reino de Betta. Mas, o rei me escolheu.

Os três se entreolharam surpresos.

— Do jeito que ele fala, parece que ele gostaria mesmo é de ser o rei do reino! – Disse Kairou completamente constrangido.

— Ora já disse que não me importo com isso. O importante é que ele não ouviu aquilo que eu ouvi de vocês certo? Sei das suas experiências e é essa a nossa diferença. Mas, como ele é o chefe da guarda real, se faz necessário o conhecimento dele de que vocês estão aqui.

— Pra mim, você poderia muito bem ser o chefe da guarda real e o guardião do reino Suhoz – Eldrwin disse enérgico enquanto Suhoz sorria gentilmente.

— Ora. É melhor que eu continue sendo somente o guardião. Pois bem, acho que seria uma boa hora para que vocês conhecessem o rei não acham? Visto que, precisam começar as buscas de algum lugar.

— Sim. É verdade. – Disse Anya observando Bhorn se afastando cada vez mais. O olhar ainda cheio de raiva.

— Se quiserem, já podem seguir para o castelo. Preciso ver alguns pequenos detalhes pelo reino, mas logo estarei chegando por lá. A guarda real do castelo já tem conhecimento que vocês estão aqui, portanto, não será difícil a entrada então, logo nos vemos.

Suhoz saiu caminhando em meio à multidão quando Eldrwin já conduzindo seu cavalo para as ruas disse.

— Definitivamente, esse Bhorn me pareceu um tanto...

— Suspeito? – Kairou interpôs antes mesmo de o amigo terminar de falar.

— E é chefe da guarda real.

E conduzindo os cavalos, os três se dirigiram ao castelo do reino de Betta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.