Eldrwin E O Medalhão Real
12 A partida
Eldrwin rolava na cama e aquela seria a segunda noite seguida de sono mal dormida. Olhou pela janela e percebeu que a aurora rompera, tingindo o céu ainda apunhado de estrelas, deixar de ser um azul marinho e tornar azul anil que ia ficando cada vez mais claro. A hora enfim estava chegando e então, desistindo por completo de dormir, sentou-se na cama ainda na escuridão do quarto. Dali a poucos momentos estaria cavalgando em direção ao reino de Betta, local onde jamais havia ido. Colocou-se de pé num salto, retirou as vestes e colocou a roupa de viagem. Calçou as botas, se envolveu com a armadura amarronzada e embainhou a espada. Pegou então o saco com vestes que havia preparado durante a noite anterior, logo após ter passado um longo tempo conversando com Kairou sobre o que esperava encontrar ao chegar ao reino vizinho, e o jogou sobre as costas. Não sentia fome e, notava agora que a claridade do quarto havia aumentado. Fechou as janelas delicadamente e se dirigiu para fora do aposento olhando para tudo tendo uma sensação estranha. E se aquela fosse a ultima vez que estivesse em casa? Não pensara nisso durante suas buscas pelo pergaminho de Orion, mas agora, com essa nova onda de ataques, temia em não voltar. Abriu a porta de casa e o ar fresco matinal lhe tocou o rosto ainda sonolento e lhe invadiu as narinas, fazendo o sentir cheiro de terra molhada e fumaça. Iria seguir até o castelo onde, de lá, seguiria viagem.
Após fechar a porta de casa, seguiu pela rua ainda com poucas pessoas até chegar a uma fonte que se encontrava em meio um cruzamento de ruas. Pegou um punhado de água e lançou no rosto. O contato gélido o fez despertar e, depois de outro, tornou a caminhar rumo à residência de Kairou.
Notou ao longe que o amigo estava bem na porta de casa com a mãe lhe envolvendo em um abraço apertado como se nunca mais fosse ver o filho novamente. Aquilo fez o coração de Eldrwin bater descompassado. “E se der algo errado...” Tornou a pensar e, se aproximando ainda mais da casa do amigo, ergueu o corpo a tempo de ouvir Kaiou, o pai de Kairou dizer:
— Ora Ethna! Ele é um soldado.
— Eu sei, mas é meu filho! – Dizia Ethna chorosa enquanto observava Eldrwin se aproximar. Não demorou muito para que também lhe dirigisse algumas palavras.
— Eldrwin, querido, quanta honra da parte vocês. A primeira expedição no reino de Betta!
O jovem ficou um tanto quanto confuso, será que a mãe de Kairou soubera exatamente o que iriam fazer no reino vizinho? Será soubera do ataque ao rei e da busca ao pergaminho?
— Mãe! Será apenas um treinamento e nada mais. Lembre-se do que Villian havia falado certo?
A resposta veio mais rápido do que Eldrwin esperava. Pelo visto, ninguém sabia de absolutamente nada ainda. Kairou se soltou do apertado abraço da mãe, desceu o lance de escadas e agora se colocando ao lado de Eldrwin virou-se para seus pais e disse:
— Bom, hora de partirmos. Estaremos de volta em poucos dias certo?
E mostrando um sorriso, acenou para a mãe e para o pai que acenaram de volta. Ethna então disse em voz alta enquanto os dois começaram a caminhada.
— Tomem cuidado durante o treinamento!
— Não se preocupe! – Kairou respondeu novamente e agora se dirigindo a Eldrwin continuou – Amigo! Que choradeira.
— Eu percebi – Disse Eldrwin desconcertado – Mas, o que Villian havia dito a ela?
— Disse que por conta do nosso talento acima da média como recém-soldados, fomos convidados para participar de um treinamento especial com as forças guardiãs de Betta. Papai nunca ficou tão radiante como ontem.
— Nossa! Villian mentindo dessa forma para que eles não saibam.
— Foi melhor assim amigo.
Os dois seguiam agora pela principal avenida do reino e rumavam mais uma vez em direção ao castelo. Naquele momento, o sol já dava as caras pelo horizonte e iluminava os garotos. Pessoas já começavam a se aprontar pelas praças para iniciarem suas atividades, soldados passavam a cavalo e cumprimentavam Eldrwin e Kairou. Era uma manhã tranquila que não combinava em nada com as noites anteriores onde ataques acontecerem. Depois de andarem por mais alguns momentos, os jovens já viam ao longe a carruagem onde Suhoz provavelmente iria ir e Villian que também estava por lá, montado em seu cavalo negro de pelugem brilhante. Aproximaram-se dos muros e adentraram os jardins. O rei e a rainha Anasya estavam juntamente com a filha bem às portas do castelo. Jedah trocava algumas palavras com Suhoz quando Eldrwin ouviu um cavalo trotar por perto. Era Villian que seguia em direção aos dois.
— Então? Estão prontos para a viagem soldados?
— Estamos sim! – Disse Eldrwin empolgado.
— Ótimo. Vocês irão montados naqueles dois ali – Apontou para dois cavalos que estavam amarrados próximo ao jardim – Acredito que serão de boa serventia.
Suhoz então se dirigiu a família real e se curvou. Anasya deu um forte abraço em Anya dizendo “estou orgulhosa de você” e após isso, a princesa que trajava um uniforme de batalha se dirigiu ao pai, o abraçou e caminhou para o jardim ao encontro de Eldrwin e Kairou. O sol agora brilhando no céu refletindo seus cabelos dourados e os olhos bem azuis.
— Papai insistiu para que eu fosse à carruagem juntamente com Suhoz. Mas irei juntamente com vocês a cavalo!
— E perder todo o conforto de uma carruagem? Por favor, me deixe ser príncipe só por um dia! – Disse Kairou rindo sarcasticamente.
— Não seja tolo! – Disse a princesa agora se dirigindo para outro cavalo, de pelugem marrom e de grande porte que se encontrava próximo aos cavalos de Eldrwin e Kairou.
— Bom. Se sairmos agora, chegaremos ao por do sol em Betta! – Disse Suhoz agora, se dirigindo para a carruagem.
— Estarei acompanhando vocês pelo caminho até certa parte – Disse Villian – Muito bem! Hora de partir.
Eldrwin e Kairou se dirigiram para seus respectivos cavalos, subiram e se acomodaram na sela aguardaram o comando de Villian. Anya também fez o mesmo e aguardou.
— Muito bem! Todos prontos? Partir! – Ordenou o chefe da guarda real quando o cavaleiro que estava na carruagem em um só movimento fez com que os cavalos iniciassem a marcha.
Todos seguiram pelas ruas. Villian novamente à frente galopando imponente e Eldrwin, Kairou e Anya atrás da carruagem em seus respectivos cavalos. As casas, praças e ruas passavam diante dos olhos de Eldrwin como se fossem uma pintura em movimento. Olhava para os rostos dos cidadãos do reino que o fitavam com atenção. Não sabia ao certo o que o aguardaria estando pela primeira vez fora do reino, mas sua apreensão foi aos poucos se tornando entusiasmo. O medo se transformando em euforia. Parecia que naquele momento em que se dirigia para aquela missão, algo dentro de si confirmava o fato de que ele era verdadeiramente um guerreiro. A voz de Kairou soou ao seu lado direito em meio ao trote dos cavalos.
— Acho que agora eu sei como um soldado da tropa se sente – E ergueu o queixo rindo abertamente enquanto do outro lado, a princesa era saudada e, mesmo com aquilo, sorria graciosamente para todos que a cumprimentavam.
Avançaram lentamente pelo reino e pouco a pouco foram se aproximando da muralha. Villian a frente ergueu a mão direita sobre a cabeça e fez um sinal para o guarda que permanecia de vigia em um dos mirantes da muralha e então, com um som alto de dobradiça retorcendo, os portões se abriram revelando os vales verdes que circundavam o reino de Orion.
Eldrwin talvez tivesse sentido tamanha expectativa quando ele, Kairou e Anya receberam o título de soldados há algum tempo atrás. Mas ali, agora, a situação era um tanto diferente da qual estava acostumado. Ele estava embarcando em uma missão onde o destino de seu reino estava em jogo.
Atravessou os portais e pôde, depois de meses, contemplar o extenso vale das terras de Alezia que se estendiam até a vista pudesse alcançar e pareciam terminar nas cadeias de montanhas bem ao longe.
— Acho que é hora de começarmos a viagem de verdade! – Berrou Villian e com um movimento do arreio, seu cavalo apressou a marcha. A carruagem onde Suhoz estava saiu em disparada e Eldrwin tratou de fazer o mesmo, sendo seguido por Kairou e Anya.
O vento lhe adentrava os cabelos os agitando ferozmente quando uma sensação de liberdade incrível lhe dominou. Cavalgava rápido, vendo a vegetação rasteira se tornando um borrão verde diante dos seus olhos. Decidiu então olhar para trás e, sentindo talvez uma saudade repentina, viu o reino onde vivia pouco a pouco se afastando, ficando menor e mais distante. Virou então seu olhar para frente, não podia sequer pensar agora na possibilidade de voltar. O céu estava azul celeste, o sol tocava-lhe o rosto suavemente. Procurou eliminar toda e qualquer preocupação, se posicionou sobre a montaria e continuou a seguir em frente.
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