Elas Contam
2 Capítulo 2 - Milla
Notas iniciais
D.V. Milla
"Agente 03, reporte."
A voz de Ryan estava mais preocupada e séria do que o normal naquele dia. Através do comunicador, eu podia sentir que a sala de Operações estava extremamente tensa.
Mantive a postura.
— Passando pela segurança do perímetro seis. — respondi. — Sabe de uma coisa? Eu sempre quis saber porque eu sou o número três.
— Não é hora para gracinhas, Milla. — ele respondeu, sério.
Nada mais foi dito no comunicador. Voltei meu foco para minha futura missão: eliminar Patrick Leahy, presidente do Congresso dos Estados Unidos.
Bem, para melhor entendimento, eu vou voltar um pouco a história. Cinco anos, para ser mais exata, quando eu matei um policial. Naquela época eu não tinha o treinamento que tenho hoje, nem a coragem. Tudo que eu tinha era um punhado de drogas no meu sangue. Tinha acabado de ingerir minha última reserva de cocaína, que comprara com dinheiro de pequenos furtos, quando fui abordada por dois policias. De acordo com a história contada no tribunal, o policial mais velho, no qual eu acertei uma bala na testa, decretou minha prisão por porte de drogas. Eu reagi, tomei-lhe a arma e atirei.
Na verdade, mesmo estando drogada, eu me lembro do que realmente aconteceu naquela noite. Eu estava em um beco quando fui abordada pelo policial no qual eu atirei. Avançou na minha direção. Eu lutei, e, quando estava quase perdendo as forças, consegui tomar a arma dele e acertei o tiro. O policial que estava com ele, assistindo de longe, empunhou a arma e ordenou que eu me rendesse. Assim eu fiz. Duas semanas depois, no dia do julgamento, fui condenada á pena de morte. Eu sei, um pouco exagerado, mas havia um motivo para tal pena: O governo queria forjar a minha morte. Enquanto caminhava pelo último corredor que eu veria na minha vida, o da morte, senti uma picada no pescoço. A partir daí, só me lembro de acordar em um quarto muito branco. Havia um homem de pé na minha frente, muito bem vestido, que se apresentou como Ryan. Eu estava na Diffusion, uma agência de mercenários financiada pelo próprio governo dos Estados Unidos.
Para encurtar a história, eu fui treinada durante um ano e meio para ser uma perfeita máquina de matar. Durante esse tempo, eu e os outros recrutas vivíamos na própria Diffusion, no subsolo, sem poder ver a luz do dia ou o luar. Após a minha "formação", eu fui promovida à Agente de Campo. Recebi documentos falsos, claro, e passei a viver minha falsa vida de paisagista, como Amélia Agnes. As únicas pessoas que ainda me chamam pelo meu nome verdadeiro são da Diffusion.
Nesse exato momento, você deve estar se perguntando o porquê eu saio dessa vida. Simples: todos os agentes da Diffusion possuem um "chip assassino" instalado bem na medula espinhal. O preço da cirurgia de remoção é mais alto do que o do meu apartamento (dado pela agência, é claro). Quando ativado, o chip demora cerca de cinco segundos para lhe causar um derrame cerebral. Ou seja, tentar escapar seria morte na certa. Já vi dezenas de colegas meus tentarem, e o resultado não foi bem o que eles pretendiam.
Enfim, há quase quatro anos, uma vez por semana, um recebo uma missão. Matar um ministro, um chefão do tráfico, um agente da CIA... A lista é grande. E minha atual missão era eliminar o presidente do Congresso dos Estados Unidos. Os problemas que ele tem com o governo? Não sei. Nós nunca somos informados com detalhes sobre nossos alvos. Geralmente, recebemos os dados básicos: Nome completo, emprego, endereço, local e hora que devemos cumprir a missão. Nada mais. No meu caso, o local era na final do World Baseball Classic, onde Estados Unidos enfrentaria a Coréia do Sul. Sim, um homem com tal cargo no Congresso era fã de baseball. Ele estaria na sentado na cadeira de número 368, e eu, na cobertura do estádio, apontando um fuzil M-40 na direção dele. Não era nada impossível.
Um fato sobre a Diffusion é que ela possui contatos em todos os lugares. Inclusive o chefe da segurança do estádio, Albert Rosely. Assim que me viu, vestida de faxineira e carregando um daqueles carinhos de limpeza, ele tratou de por a segurança do outro lado do estádio. O passo seguinte foi seguir a rampa de funcionários, que deu no telhado. Tenho que admitir, a segurança ali era péssima. Como estava com um daqueles macacões de lycra preto, retirei o disfarce de faxineira e o guardei dentro do carrinho. De dentro do mesmo, peguei a maleta que continha minha arma, desmontada. A montei e posicionei. Deitada e com o olho na mira, procurava pelo meu alvo.
Foi quando o vi, exatamente na cadeira 368: Um homem de cabelos meio ruivo, pele levemente corada e uma camisa polo. Com quarenta anos de idade, era casado e tinha uma filha chamada Dakota, mas nunca me foi permitido ver uma foto da família. Ajustei a mira, assim, a bala sairia direto para o seu coração. Houve um strikeout, e a torcida se levantou para comemorar. Confesso que isso me atrapalho um pouco, mas nada que não pudesse reajustar.
Foi quando a coisa começou a desandar. Ele se virou para o lado, falou algo e, pela mira da arma, eu pude vê-lo trocar de lugar com uma jovem, por volta de quinze anos, loira. Aquilo me roubou a atenção.
— Operações. — chamei pelo comunicador. — Há uma garota ao lado do alvo. Estou requisitando uma averiguação.
A resposta veio em três segundos.
— Espere um minuto. — respondeu Ryan. — Michael vai hackear as câmeras de uma das emissoras de TV e apontá-las na direção da garota. Vamos ver pelo reconhecimento facial.
Se passou um minuto. Dois minutos. No terceiro, a voz de Ryan voltou ao comunicador.
— Milla, a garota se chama Dakota Leahy. — a última fala era mais receosa. — É a filha do Patrick.
Aquele não seria meu primeiro assassinato, e provavelmente também não seria o último, mas eu nunca havia matado alguém perto de familiares. Em locais públicos sim, mas nunca com a família por perto. E há um motivo para isso: Meus pais foram mortos na minha frente. Aconteceu durante um assalto à nossa casa, quando eu tinha oito anos. Os bandidos queriam a senha do cofre, mas não possuíamos um. Eu assistia a tudo do topo dos escadas quando eles atiraram nos meus pais. Primeiro, minha mãe, que caiu de bruços no sofá. Depois, meu pai, que caiu ao lado do corpo dela, só que virado para cima. Eu gritei. Eles ouviram, e, quando um deles apontou a arma na minha direção, a polícia chegou. Desde então, passei toda a minha infância e adolescência pulando de orfanato para orfanato.
Eu não podia matar aquele homem. Acima do que ele tenha feito, ou do que tenham feito para ele, havia sua filha ao seu lado. Eles sorriam, comiam pipoca... Uma verdadeira cena de filme. Não seria eu a pessoa que destruiria aquilo.
— Milla? — Ryan chamou, pelo comunicador. — Você esta aí? Esta bem?
Eu não respondi. Eu tinha pensar. Se eu falhasse nessa missão, seria a minha segunda falha, e com certeza meu "cancelamento" seria realizado. Por outro lado, eu não poderia ser o tipo de pessoa que eu odiei durante toda a minha vida.
— Mia? — chamou novamente. Usou o apelido, porque sabia que eu estava em conflito internamente. Ryan era um dos poucos na Diffusion que sabia sobre todo o meu passado. Ele me entendia.
A solução veio clara em minha mente.
— Operações, surgiu um problema. — engoli as emoções, mantendo minha voz firme. — Minha arma travou.
Houve um breve silêncio.
— Travou? — Ryan insistiu. Sabia que era mentira.
Posicionei meu olho na mira novamente, fitando uma adolescente sorridente que assistia um jogo de baseball com seu pai, que, no futuro, estaria morto de qualquer maneira. Mas não seria eu que faria o trabalho sujo.
Não dessa vez.
— Sim, travou. — confirmei.
— Esta bem. Aborte a missão. — Ryan afirmou. — Nós teremos mais oportunidades.
— Ok.
Suspirei pesadamente. Desmontei lentamente a arma e a guardei de volta na maleta. Deixei o disfarce de faxineira ali mesmo. Enquanto saia do local, o mais despercebida possível, a voz retornou dura ao meu comunicador.
— Milla, você sabe que terá que explicar essa história. Eles farão uma perícia na arma. — Ryan afirmou. — Você ainda tem tempo de voltar e...
— A missão foi abortada por uma falha mecânica, Ryan. — adentrei meu carro, jogando a maleta debaixo do meu banco. — Eu me livrei da arma, como manda o protocolo.
— Tem certeza? — insistiu.
— Absoluta.
Fale com o autor