Elas Contam

3 Capítulo 3 - Megan


Notas iniciais
Heey leitores (as)! Demorou, mas valeu a pena. É o maior capítulo até agora! Mesmo assim, ainda peço desculpas pela demora, e juro que vou tentar ser mais rápida da próxima vez. Boa leitura.

Os poucos raios de sol que penetravam naquele quarto escuro de motel, que cheirava a panos molhados e maconha, acertavam em cheio os olhos da morena. Tentando não voltar á realidade, ela manteve os olhos fechados por mais algum tempo, mas não poderia ficar assim para sempre.

Abriu os olhos e olhou para o lado. Não havia ninguém ali. Provavelmente o tal velho barrigudo e com uma barba nojenta já havia ido embora no meio da noite. Em cima de uma cadeira velha, no canto do quarto, estava apenas o dinheiro do programa. Já que não havia ninguém no quarto, ela levantou-se nua mesmo e pegou as notas, sentindo aquela textura áspera.

Lembrou-se de que tinha nojo da mãe quando ela mencionava que fazia aquilo, antes de morrer, há quatro anos, por overdose de cocaína. Lembrou-se também da cena em que pegava os irmãos mais novos, Mike, ainda de colo, e Cat, de seis anos, ás pressas no pequeno apartamento em que viviam e correr para outro lugar, achando que se livraria de Ronan, o traficante á quem sua mão devia uma quantia enorme de dinheiro. Sem ter como pagar, passou a trabalhar para ele como prostituta. Era isso que havia feito nos últimos quatro anos. Era uma vida miserável, porém, os irmãos tinham comida na mesa todo fim de mês e a proteção que Ronan garantia.

Enquanto deslizava o apertado vestido preto tomara-que-caia por suas curvas, ouviu seu celular tocar. Sem pressa, a morena ajeitou seus enormes cabelos pretos e pousou a íris clara que possuía sobre o celular: No visor, estava escrito o nome daquele maldito.

– Tão cedo, e você já esta me ligando? — ela disse atendendo. — Eu tive uma noite difícil, Ronan. — Ela disse de forma sedutora.

– Eu imagino... — ele riu sínico. — Preciso que venha até o meu escritório.

"O doce casulo do traficante!" Pensou a morena.

– Quer que eu leve drogas pra quem dessa vez? — ela perguntou irônica. — Barack Obama?

– Não é nada disso, querida Meg. — ela desfez o sorriso. Odiava que ele a chamasse assim, e odiava mais ainda o fato dele saber disso.

– Meu nome é Megan! — corrigiu firme.

– Que seja, a prostituta é minha e eu a chamo como quiser! — ele quase berrou. — Venha aqui, eu tenho um serviço diferente para você.

– Diferente, do tipo...? — ela perguntou, mas já era tarde. O canalha havia desligado na cara dela. — Filho de uma puta!

Pegou sua bolsa e saiu. Não ligava para os homens que a comiam com os olhos pelas ruas, estava acostumada. Só queria chegar em casa e poder ver seus dois pequenos. Queria chegar em casa e desligar-se um pouco dessa maldita realidade que a perseguia.

Depois de andar quase 1 km, ela finalmente chegou em sua casa, se é que poderia chamar aquela casa assim: era uma casa antiga, deixada pela avó dela. Tinha apenas um quarto, uma cozinha estreita, um banheiro bem aconchegante e uma sala com uma TV velha. Apesar de tudo, estava sempre cheirando a lavanda. Megan fazia questão de organizar e limpar tudo, um costume que não sabia de quem havia herdado, já que a mãe não ligava para isso e o pai... Bem, ela nunca o conhecera.

Adentrou a casa sorrateiramente, já que não queria que os irmãos vissem o horário que ela chegara e fizessem perguntas que ela com toda certeza não responderia. Ambos estavam no sofá surrado da sala, dormindo um sobre o outro. A tal TV antiga estava ligada e passava um desenho qualquer. Ela sorriu, era assim que gostava de vê-los. Era nesses momentos que ela esquecia toda a realidade cruel, e todas aquelas orgias valiam á pena.

Depois de um banho bem morno para relaxar, Megan saiu do box enrolada em uma daquelas toalhas encardidas de uns sete anos e escreveu no espelho embaçado: "Felicidade?". Não sabia o porquê de ter escrito aquilo, mas decidiu fazer.

Pegou a calça legging preta jogada sobre a cama, uma regata qualquer, e calçou o tal All Star que ela tinha há cerca de dois anos. Olhou-se no espelho e viu que não parecia absolutamente nada com aquela adolescente da noite anterior. Antes, estava com uma maquiagem forte, um vestido bem colado e curto, saltos pretos bem altos e bêbada.

Ouviu duas batidas de leve na porta do banheiro. Era Cat:

—Eu fiquei esperando você chegar... — a menina disse esfregando os olhos, num tom inocente. O tom que Megan nem se lembrara de ter tido um dia.

—Desculpas, minha pequena. — Megan pegou-a no colo e a colocou sentada sobre a cama. —Prometo chegar mais cedo hoje, fechado?

—Eu sei que não vai dar, mas... Fechado. — as duas bateram as mãos.

—Olha só, eu vou acordar o Mike enquanto você toma banho, está bem?

—Vai levar a gente na escola? — perguntou se levantando. A irmã deu um sorriso triste.

—Na verdade, eu vou sair. — Cat pareceu não se espantar com isso. —Mas se eu não voltar até a hora do almoço, tem frango com macarrão no micro-ondas. Escovem os dentes e vão pra escola. — levantou-se e passou a mão nos cabelos loirinhos da irmã. —Sem falar com estranhos, ok?

—Pode deixar! — lavou o rosto. —Vai se encontrar com o Rolan?

—Shhii, é Ronan! — abaixou-se rindo. —Se ele souber desse apelido que eu inventei, ele me mata!

As duas riram. Cat entrou no banho e Megan foi acordar o irmão.

Chegando à sala, ela desligou a TV e sentou no chão, ao lado do menino, e começou a acariciar seus cabelos. Bem devagarzinho, ele foi abrindo os olhos:

—Bom dia, belo adormecido.

—Qué papa! — disse ele coçando os olhos.

—Vem cá com a mana, tem um resto de leite na geladeira. — ela se levantou e estendeu a mão á ele. Ele a agarrou com força e foram para a cozinha. Com um pouco de força extra, Megan abriu a geladeira e viu a embalagem de leite. Pegou a mesma e encheu um copo. Pegou umas bolachas e deu tudo para ele.

—Está bom assim?

—Tá! — respondeu mergulhando a bolacha no leite.

Depois de um tempo vendo-o comer, Megan se despediu dele e saiu. Saiu em rumo a casa daquele maldito Rolan.

__________

Bateu duas vezes e a porta única de aço se abriu. Um homem negro, forte, alto, coberto de tatuagens e olhar maligno surgiu.

—Entra logo! — mandou empurrando-a. Megan seguiu alguns corredores escuros e chegou no salão onde algumas meninas dançavam. Já foram suas amigas, mas no momento, a atenção de Ronan valia muito mais do que isso, até quem sabe, mais que a liberdade que tanto ansiavam.

—Está atrasada. — falou a voz ecoando de fundo. Não se assustou, estava acostumada com a surpresa que ele gostava de causar. A maioria das vezes eram com tapas sem motivo.

—Tive que levantar os meninos e...

—Não quero saber, quando eu marcar algo, venha mesmo que estiver em coma no hospital. — revirou os olhos. Queria xinga-lo o mais alto que podia, mas só de lembrar que a força dele e seus capangas eram superiores a dela, acabava por assentir e se calar. —Cadê o dinheiro? — entregou uma porção de notas em sua mão. Contou e recontou. Fitou-a seriamente. —Falta duzentos. — disse com aquele tom de "eu vou acabar com você, vadia!"

—Eu tive que comprar leite, estamos sem comida e eles precisavam do material escolar. Eu não tive escolhas. — encaminhou-se em sua direção. Sentiu o coração bater mais rápido. Seria agora...

—Todos nós temos escolhas, Megan. — acarinhou seus cabelos. —Sua mãe teve a escolha em arrumar um emprego digno para sustentar os pirralhos. Seu pai poderia não ter sumido no mundo. Você não precisava estar arcando com a conta que a vadia da sua mãe deixou. — gritou fazendo com que Megan se encolhesse. —Eu não precisava estar te falando isso, porque todos nós temos escolhas. — pôs seu dedo nos lábios da garota. —Quando eu era pequeno, minha mãe nos dava água de arroz para beber, ao invés de leite. Meu caderno era uma folha de papelão e eu nem terminei os estudos. — deu-lhe um tapa em sua face. Desequilibrou-se e caiu. —E agora vem me dizer que não teve escolhas?

—Sinto muito, Ronan. Eu vou te pagar.

—Sua mãe dizia o mesmo. — chutou-a na face. O impacto fora tão forte que sua visão ficou turva e perdeu a consciência.

_________

Levou a mão na cabeça. Seu maxilar doía e ao engolir a saliva, sentiu o gosto de sangue na boca. Ergueu-se. Novamente estava jogada por entre meio aos lixos de um depósito. Ele sempre fazia isso quando a maltratava. Dessa vez não seria diferente...

Ficou horas chorando. Desejava outra vida. Queria outra vida para com os seus irmãos. Queria ser feliz... Mas neste mundo, felicidade não existia...

O celular tocou. Na bina apareceu o nome do homem que ela mais do que tudo queria ver morto.

Atendeu, mas nada disse.

—Já acordou, Bela Adormecida? — indagou caindo na gargalhada. —Tenho um trabalho para você esta noite. Você ficará no mesmo ponto de sempre. Eu vou passar e te dar um quilo de maconha. Entregue diretamente para o Marco. Assim que pegar o dinheiro na mão, ligue-me que mando alguém para ir te buscar, entendeu?

—Sim. — afirmou chorosa. Novamente ia ser burro de carga. Como se não bastasse da última vez que teve que engolir vários saquinhos para que a polícia não a pegasse com a mão na massa. Se o tivesse feito, poderia dizer adeus às crianças. Porém, dessa vez tomaria mais cuidado, pensaria numa forma de entregar isso logo sem chamar muita atenção... Pensaria mais em seus irmãos.

—Não chore, querida. — disse carinhoso. —Amanhã tudo pode piorar! — e desligou.

Com esse pensamento em mente, Megan seguiu para fora dos arredores da boate e se lembrou que estava atrasada para pegar o a "encomenda" de Ronan.

Suspirou fundo, acenou e o táxi encostou ao seu lado.

—Alameda, cento e oito. — pediu ao motorista entregando logo para ele o dinheiro.

Seguiram por cerca de duas horas até atravessarem a cidade. Num canto escuro, encontrava-se um carro negro parado.

Desceu do táxi e subiu um pouco o vestido. A tatuagem de uma tarântula surgiu na coxa esquerda. Debruçou na janela do veículo, exibindo parte dos seus seios.

—Demorou. — falou o homem negro. Pôs a mão para fora entregando um pacote marrom.

—Estava com um cliente. — olhou-a.

—Da próxima, evite clientes perto do combinado. Não sou pago para esperar. — resmungou. Ela revirou os olhos e foi se afastando.

Andou alguns quarteirões e parou em frente a uma casa abandonada. Seria ali o ponto de encontro. Pegou o celular e ligou para Ronan.

—Tudo certo? — perguntou.

—Tudo. — afirmou.

—Um minuto... — desligou e pouco depois ouviu o som de freio. Olhou pelo vidro da janela e viu o carro do Ronan com mais alguns capangas.

—Aqui. — estendeu a droga. Abriu, olhou, cheirou e sorriu.

—É da boa, Henry. — disse olhando para o comparsa.

—Pode crer! — riu.

A barulheira infernal de vários carros estacionando chamaram-lhes atenção.

—Os homens. — Ronan mirou um olhar de crueldade para a menina.

—Eu não fui seguida. — falou indo até a janela.

—Saia daqui e se abrir a boca, eu te mato! — berrou sumindo para os fundos da casa.

Desesperada, a garota seguiu o traficante até o carro que os esperava nos fundos da casa. O motorista arrancou, e o barulho de sirenes ficou para trás.

— Não foi dessa vez, Meg. — Ronan riu. — Por enquanto você ainda vai poder voltar para casa viva.

A garota nada fez além de assentir com a cabeça.

Notas finais
Qualquer erro, por favor, me avisem! Até :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.