Elandrik

5 Possessão


Notas iniciais
Finalmente!!!!!!!!!!!!! Finalmente estou postando um capítulo novo! shuahsa Estou com sérios problemas de internet e bloqueio criativo, mas prometo melhorar! ;-;

17.09.2099

Sentiu o cheiro acre que pairava no ar. O zumbido de moscas próximas fizeram-na reagir em um movimento involuntário, abanando próximo ao rosto, para que assim percebessem que se tratava de algo vivo.

Sua consciência despontava aos poucos, como se atravessasse um longo corredor. Abrindo os olhos, avistou a luz do sol enquadrada num pequeno pedaço de um chão de concreto,os arredores adornados por sacos de lixo amontoado e um lotado contêiner. Ratos remexiam o entulho disputando seus restos podres com baratas; moscas se contentavam com os restos de bebidas alcoólicas, essas que formavam pequenas poças adocicadas contribuindo para um cheiro, além de ruim, enjoado.

Puxando o manto pesado que a envolvia, fez uma careta.

“Que merda é essa?” pensou.

Tentava resgatar em sua memória o que a deixara naquele estado lastimável – as imagens emergentes eram todas confusas, sem detalhes ou porquês. Não se lembrava de ser tão fraca para bebida... Se é que foi isso que a atacou.

Quando ouviu falas embaralhadas do que pareciam ser três homens, Elene entrou em um estado vigilante. Se levantou fraca e andou, a muito custo, até a entrada do beco. Durante o caminho curto suas pernas falharam por diversas vezes, forçando-a se apoiar na parede mofada. O final daquele pequeno corredor mais parecia um clarão ofuscante, que logo se revelava uma rua movimentada, com a silhueta de pessoas se revelando atrás da cegueira temporária causada pela luz do sol.

Alguém passou em sua frente cortando o ar, trazendo-lhe a realidade. A outra,absorta demais para pedir desculpas, não se destacava nenhuma pouco daquele mar de gente, onde as diversas pessoas esbarravam umas nas outras enquanto se entretinham com seus pequenos androides no lugar de cachorros. As ruas eram enfeitadas com filas de humanos autômatos, caminhando mecanicamente por entre o trânsito das calçadas.

Antes que pudesse reclamar, sua atenção se voltou para com suas próprias roupas e seu... cheiro...

Vestida em trapos pelo menos dois tamanhos maiores que ela, a alma do lixão apossara-se de seu corpo e agora exalava seu aroma pútrido. As pessoas desviavam de seu caminho e a olhavam com determinado desdém.Entranhando no trânsito de homo sapiens nada pensantes, cortou o padrão monótono das filas com seu andar manco. Muitos tampavam os narizes ao vê-la passar, se perguntavam o que raios aquele ser fazia ali, no meio de gente como eles, desligavam suas lentes e seus hologramas e seguravam suas bolsas em frente ao corpo.

Se tratava do centro comercial da cidade, onde ficava a sede do governo e grandes multinacionais que movimentavam a economia de toda uma metrópole.Naquele lugar vagava uma alma cinzenta, a mesma que estampava a seriedade no rosto daquelas máquinas de osso e carne. Os prédios altos eram recheados de janelas que davam para escritórios luxuosos e, com toda certeza, da mais alta tecnologia. Elene nunca havia estado ali, tão longe dos subúrbios, mas agora via que o ignorado número de pobres coitados era indisfarçável mesmo naquele local.

Avistando um grupo de mendigos no centro de uma praça, se aproximou para lavar-se numa grande fonte.Uma mulher até tentou se aproximar, porém, arisca como era, Elene se esquivou.Viu crianças brincarem na água reutilizada, observou pessoas de dar pena rirem entre si, e não se intimidou em lavar pernas e a parte superior de seu corpo.

Olhando o reflexo na água turva examinou seu rosto brevemente apagado, a pele agora limpa e... Havia algo de estranho...

Seu cabelo...

Os fios pareciam mortos e artificiais. Não que fossem extremamente diferentes de seus cabelos desidratados, mas...

Pensando em tocar os fios, seguiu o movimento de sua mão pelo reflexo da água, como que num estado hipnótico. Viu o rosto triste pouco visível ser abalado pelas ondas da água agitada, cortando a linha tênue de seus pensamentos, tirando-lhe do estado de torpor.

Deixando-lhe um sentimento estranho.

***

17.09.2099 14h45min

Tudo o que queria era uma boa comida.

Olhando a pequena barraca de pastéis, lembrava-se de Junior. E salivou, experimentando o sabor e a textura com os olhos.

Ah... O que daria por um daqueles?

Tudo.

Tudo?

Sim, tudo.

Seus pensamentos atingiam uma linha tortuosa.

Num instante viu-se parada ali, encarando pessoas irem e virem, olhando-as com seu precioso dinheiro. Em seus ouvidos, revivia um diálogo de sua infância.

Elene...” chamou

“Leninha,não tem jeito... Acho que...” sussurrava o garoto

“Não, Junior... Por favor, isso é ruim...” interrompeu

Seu estomago roncou, como um monstro faminto que definhava.A mão descansou por sobre a barriga, em sincronia com suas lembranças.

“Mas eu tô morrendo de fome...” implorou “Você também, maninha” disse ao ouvir os lamentos na barriga da jovem.

“Não, Junior. Roubar corrompe, se a gente rouba agora... Vai ser como uma droga...”

O garoto refletiu.

“... Que nem um ciclo vicioso. Pode ser tão fácil, que vamos recorrer a isso sempre. Essa sempre vai ‘sê’ a solução... Aía gente se torna dependente. Como um escravo”

Ao terminar de falar, o garoto a olhava de olhos arregalados.

“Nossa, Elene...” disse ele “Aonde você aprendeu palavras tão bonitas?”

A mulher sorriu.

Sorriu um sorriso discreto, que logo foi substituído por uma semirreta entre seus lábios; olhos estáticos tomaram conta do olhar triste. Uma linha elétrica pareceu atravessar seu peito para logo ter a sensação de que não estava dentro de si. Suas pernas moveram-se em uma sincronia automática até a barraca, seu tronco enrijecido.

“Maldição! o que é isso?”

Aumentando o passo, passou rápido por entre um vendedor e seu cliente. Pegara o tão sonhado alimento das mãos de um homem, que provavelmente trabalhou a vida inteira por seu sustento.

— Caramba!! – exclamou o cliente

— Hey! Maldita, devolva isso!!

Ao redor pessoas assustadas olhavam a cena, indignadas, enquanto o pobre homem gritava e gritava, em busca de um salvador que desse uma boa lição naquela vagabunda.

O vendedor até tentou seguir a mendiga, porém a malfeitora era mais rápida. Elene mordia sua refeição enquanto corria em alta velocidade, não conseguia mastigar direito, mas sabia quenão podia parar. Em sua mente condenava o que fizera, enquanto que seu cérebro liberava o hormônio do prazer.

Entrou em um beco escuro, a fim de se esconder e se castigar. Já passara fome outras vezes, no entanto jamais recorrera àquilo para sobreviver.Os pensamentos pareciam correr uma maratona, enquanto engolia sem nem mesmo mastigar; as lágrimas surgiram junto de um sentimento de traição e culpa, onde seus ideias eram traídos. E aquilo doía.

Inveja!

Invejou a vida fácil e a riqueza de opções. Pensou no quão seria agradável tornar-se um robô escravizado pela riqueza, como tantos privilegiados.

Desejou massacrar o primeiro que visse em sua frente. Num instante, teve vontade de esmagar aquela sociedade insana.

— Não!!! – vociferou – Cale a boca!! Elandrik...

Já não sabia o que queria

E chorou

— Cala essa boca, porra!!!

Suas lágrimas escorriam em direção as bochechas e traçavam um caminho tortuoso até a mandíbula, seu prato era como cachoeira, corria em quantidade, seguindo um caminho traçado pela gravidade, onde tudo sempre ia ao chão. Até o seu próprio eu.

“Elandrik... Qual o significado?” perguntou o homem em meio as luzes da boate

E ela sorriu.

“Significa...”

O rapaz inclinou o tronco, a fim de matar sua curiosidade.

“Nada” respondeu a mulher

E o homem sorriu

“Nada? Como Nada?” estava confuso “Quer dizer que não significa nada?”

Não, quero dizer que significa nada” disse ao se levantar, rumando para um lugar qualquer

E o homem ficou ali.

“Ah, é esse o significado...” pensou consigo mesmo

— Elandrik, você não é nada! Você não controla ninguém!!–agachada em posição fetal tentava impedir que todo e qualquer ruído penetrasse em seus ouvidos, suas mãos faziam pressão contra seu crânio, tencionando esmaga-lo.

— E eu sou ninguém– e entrou em um estado de falsa calmaria

— Isso... Eu sou ninguém.

Notas finais
Obrigada por lerem! ;)