Elandrik
8 Memórias
Notas iniciais
Solidão.
Uma bolha de sabão.
Uma redoma de pedra, fina como seda e tão resistente quanto aço, capaz de repelir qualquer existência além de nosso eu.
E por mais que uma dolorosa ponta de consciência notifique a presença de outros, não há como sentir-se de outra forma. Porque a solidão é assim, mais cruel que a morte, tão mortal quanto dor física.
Quase uma companhia.
Um fantasma da alma.
Talvez aquela velha companheira resolvera pesar em seu peito, pois aquele colchão fino de papelão já não supria suas necessidades como antes, quando inocência e tristeza compartilhavam lágrimas em seus olhos claros.
Nos fundos daquele velho bar vivia pura nostalgia. Conhecia bem aquele lugar, aquele colchão – por mais que não fosse o mesmo de anos atrás -- lembrava-se dali, de onde passara diversas noites de sua infância ao lado de Junior, seu amigo.
Único amigo.
"Junior..."
A mão pousou sobre o peito quando a imagem da criança que fora e do homem que se tornara se sobrepuseram.
Aquela dor...
A dor no peito só fez aumentar quando olhou para o lado e, por um momento, viu a criança negra de cabelos desgrenhados olhando para o céu fechado, com um enorme sorriso nos olhos.
Respirou fundo para não desabar.
Já era noite e tudo o que Elene desejava era paz, mesmo que isso significasse morrer.
A porta desgastada abriu, trazendo consigo seu rangido e levando embora o transe em que se colocara.
Seu estômago reclamou em um ronco estridente, chamando a atenção do homem robusto que saíra pela mesma. A figura mal olhara em seus olhos, mas ainda assim pôde ver a pena transpassar por sua face.
Seu nome era Demétrio, abrira comércio naquele mesmo ponto a muitos anos. Vira Elene crescer e, por mais que negasse, amou aquelas duas pestinhas como se fossem seus filhos.
A mulher lamentou estar tão podre por dentro a ponto de não ser reconhecida em seu exterior. O pecado agora acentuava-se em seu corpo e suas roupas caras, sua alma não poderia ser reconhecida em baixo das camadas de luxuria e vaidade.
O homem, por sua vez, pensou duas vezes antes de jogar os restos de alimento em direção àquela figura. Não parecia uma mendiga em nenhum aspecto, talvez mais uma vítima das drogas que brincava com sua vida, como se fosse lixo.
Torceu o nariz.
Olhando em volta. Notou que não havia mais nenhum pedinte que passasse maior necessidade e lançou o saco negro próximo a pedinte, a mesma rasgou-o com suas mãos e passou a devorar aos montes o resto de Yaksoba frio.
Demétrio a observava usar unhas sujas como garfos e dentes como faca.
Era de dar pena...
—- E não volte mais aqui... – proclamou, sem desgrudar os olhos da visão deplorável.
Elene parou. Encarou o homem de baixo para cima com a face suja, permanecia em uma posição humilhante, como subordinado que saúda com total formalidade o seu soberano. Segundos passaram-se com ambos na mesma posição, olho no olho, sem que uma palavra fosse dita.
Por fim, a surpresa estampou os olhos daquele velho homem.
—- E-El...
A mulher levantou-se devagar mostrando uma silhueta adulta, tão alta quanto o homem a sua frente. Em seus olhos, havia medo.
—- Elene... – Abriu os braços como quem a muito esperara por tal encontro – Criança, você...
Criança.
Ambas as palavras na mesma frase traziam um sentimento estranho que irradiava de seu peito. Aquele nome mal parecia seu, ela realmente... era aquela pessoa?
Tudo aquilo cheirava a passado.
Passado.
Nada que ela quisesse lembrar.
Foi o estopim para que corresse daquele beco o mais rápido possível, em passos rápidos ultrapassou o homem em uma corrida desesperada, o saco derramava comida deixando um rastro de nojeira, até que foi largado no meio do caminho.
—- Elen... – as palavras desesperadas cantaram uma melodia triste no ar.
Um aperto no peito pedia para que parasse, porém tudo o que a movimentava naquele momento era vergonha. E a vergonha era mais forte.
Vergonha de encarar alguém de seu passado.
Vergonha de que vissem quem ela se tornou.
***
20.09.2099 6h00min
As ruas ali eram feitas de pedra, pareciam imitar a essência do antigo no intuito de fugir do padrão futurista do resto da cidade. Por ser simples, o bairro mantinha sua beleza na mais pura exoticidade, um fato nada difícil de admitir.
Aquela comunidade agregava grande parte dos imigrantes que não estavam nas favelas, principalmente nipônicos e chineses, um povo um tanto quanto conservador, pareciam não estar interessados em abandonar o tradicional, mesmo que isso significasse integrá-lo ao novo.
As pessoas passavam por vias estreitas que formavam a parte oriental da cidade, corriam apressadas rumo a seu destino e mal paravam para cumprimentar aquele homem de lei.
Steven viu rostos conhecidos, rostos que tinha a certeza de ver toda a manhã a caminho de seu turno e durante o mesmo. Uma expressão familiar cumprimentou-o de longe, dando-lhe a certeza de que já era esperado.
—- Eaí, colega!
—- Opa! -- respondeu o outro enquanto davam um toque de mãos. O cansaço destacava-se em seus olhos, mas a simpatia não parecia dar lugar ao mal humor.
—- Como andam as coisas?
—- Hm... Até que tá tranquilo...
Steven olhou em volta.
Em geral, seu trabalho consistia em supervisionar a área que lhe fora designada e controlar a entrada e saída de IAs no bairro. Pôde observar, naquele momento, que a constatação do amigo não revelara nada de novo, o fluxo seguia seu rumo e os murmúrios eram causados por conversas puramente cotidianas.
—- Bom, falou amigão. Se cuida!
—- Bom descanso! -- despediu-se de forma compreensiva, seu turno acabara de começar enquanto João passara uma noite inteira cuidando do movimento da noite. Era um bairro tranquilo, porém baixar a guarda não era permitido.
Olhando para o lado, pôde avistar a companhia que lhe restara ao ser encarado pelo visor negro do capacete de 5500B. Uma espécie de assistente.
O robô parecia processar algo.
—- Como anda amigão? -- bateu na carcaça gelada com ironia. O androide não fora programado para responder, apenas para reagir. Aquilo aumentava os reforços e diminuía distrações como ficar de conversa fiada, sem contar que nenhum policial se atreveria a cochilar na frente daquelas lentes que captavam tudo e mandavam imagens para os supervisores segundos depois.
Steven riu de si mesmo, sentia-se um idiota cumprimentando aquela máquina que, na verdade, era pura matemática. Esperava não virar piada para os colegas da central.
—- Steven! Steven! -- ouviu os gritinhos infantes de Shao Mao Lin, o garoto pulava agitado em direção ao policial.
—- Eaí, menino! Como anda a escola? -- afagou os cabelos negros e oleosos do garoto -- Vai passear? — Perguntou com o Scanner em mãos.
—- Xim!
Cumprimentando o pai da criança, passou o pequeno Scanner similar a um detector de metais pelo corpo do robozinho que o acompanhava.
— Tudo limpo! Pode ir garotão.
E lá foi a Mao, passando pelo corredor acenando para o policial, até sumir em meio ao volume de gente.
Steven gostava daquela paz.
Os menos apressados recebiam-no com um sorriso, como um agradecimento por estar ali cuidado daquelas famílias.
Sentia-se útil.
E não queria que aquilo mudasse.
***
11h00min
Aquela parte da cidade ficava do lado contrário aos subúrbios, poderia não ser uma região rica, mas não deixava a desejar.
Com capuz e cabeça baixa tentava passar despercebida pelas vias apertadas, ali o empurra-empurra não era tão grande quanto nas ruas lotadas em horário de pico, as pessoas até pediam desculpa ao esbarrar umas nas outras. Era bonito de se ver.
Ao tropeçar em alguém deixou o pedido de desculpas de lado, sua capa foi levada ao chão, revelando cabelos curtos secos e volumosos. Seu um metro e setenta e sete destacou-a ainda mais no meio de orientais baixinhos. Sua pele morena brilhava na luz do sol.
Abaixando rapidamente, pegou a capa e tornou a andar.
5500 não pôde deixar de notar um rosto diferente nunca antes registrado em seu HD, com passos articulados pousou as falanges brancas por sobre o ombro da figura desconhecida.
E ela parou.
—- Desculpe o incomodo! — Aproximou-se Steven — Err...
O homem fico sem reação quando ao dar de cara com uma bela mulher. Por um instante poderia se dizer hipnotizado pelo belo par de olhos e, talvez, apaixonado pelo sentimento que brotava daquela expressão.
Arriscaria dizer ser aquela a mulher linda que já vira.
—- Err... É...
Permanecia calada.
—- P-posso saber o seu nome?
Pareceu ponderar um pouco antes de responder -- Elene. Elene Meladrian.
—- Tudo bem se... É... Se eu -- sem palavras, gestuava indicando o scanner em suas mãos.
Elene olhou para o androide que a analisava silenciosamente.
— Tá tudo bem, ele é sempre assim... — explicou-se
— Bom, seguinte os procedimentos — aproximou-se da mulher — eu tenho que...
Antes que pudesse completar a frase o som de estilhaços golpeou seus ouvidos, interrompendo-o. Steven perdeu o equilíbrio caindo de joelhos no chão.
Olhando mais atentamente pôde ver fragmentos negros feitos de material sintético espalhados sobre a pedra lisa.
— Mas que porra...? — Indagou a si mesmo.
Piscou diversas vezes, no intuito de averiguar a veracidade da situação. Pegando um pequeno pedaço de fragmento, notou o material sintético similar a plástico refletindo a cena logo atrás de si. Ouvindo o murmúrio de gente imaginou não estar tendo uma alucinação, uma alucinação coletiva talvez.
O tempo, de repente, pareceu tornar ao curso normal.
Arriscou olhar para trás. Seus receptores captaram o punho vermelho escarlate da mulher saindo de dentro do crânio pesado de 5500B, era como se olhasse o reflexo pelo pequeno objeto novamente, dessa vez nas cores mais que reais. Observou o robô debater-se movendo suas articulações de forma aleatória e desesperadora, dando passos para trás e pendendo ao chão.
Quando chamas avermelhadas brotaram do ser em pane, a curiosidade deu lugar ao desespero.
Fogo.
Gritos.
Passos.
A mulher correu pelas ruas estreitas e os transeuntes desviavam e afastavam-se, abriam caminho.
Steven viu seu colega de metal parar de mexer-se gradualmente e ouviu o alarme ensurdecedor soar por toda a área.
Reforços.
As forças especiais certamente haviam sido acionadas.
Em um salto levantou-se e pôs-se a correr pelas ruelas e becos, desviando de enfeites jogados a Deus dará e empurrando qualquer ser que se colocasse entre ele e a mulher misteriosa.
—- P-posso saber o seu nome?
—- Elene. Elene Meladrian.
"Elene Meladrian"
Seu suposto nome.
Elene não lembrava de seus pais, não se lembrava de ter nascido, apenas de estar no mundo. Neste mundo.
Tudo o que tivera para chamar de recordação não passava de um papel velho. "Elene Meladrian, nascida às 3h55min (três horas e cinquenta e cinco) da manhã do dia 8(oito) de agosto de 2972(dois mil novecentos e setenta e dois) no hospital regional cr" E era isso que ele dizia.
Apenas um papel rasgado.
Agora, dando largas passadas, perguntava-se se cometera um erro ao acreditar nas escritas daquela certidão, poderia muito bem não ser sua identidade. Pronunciar aquele nome lhe causava estranheza. Ouvi-lo ecoando de seus lábios dava-lhe arrepio.
Quem era Elene?
Ao ouvir o som reverberante das sirenes, soube que aquele não era o momento para se obter respostas. O cenário dos corredores fechados tornava-se cada vez mais aterrador quanto mais Elene adentrava no bairro tradicional.
Ouviu latidos.
Ouviu vozes. Conversas.
Estavam próximos, seus perseguidores.
E seu medo também.
Sua respiração pesava, dilatava-se em desespero enquanto seus pés corriam por labirintos sem saída.
— Aqui!! Achei!!
Um homem surgiu logo após a curva de um beco. Elene estacou, paralisada. O homem segurava uma arma, pronto para atirar.
— Parada, ou eu atiro!
No centro, a mulher viu luzes ofuscando-a por todas os lados. Os murmúrios e conversas e ameaças eram mais altos, mais próximos, mais amedrontadores.
Estava encurralada.
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