Ela por ela
4 Capítulo 4
Meu pai não sabe da minha existência, minha mãe descobriu uma traição no momento em que descobriu estar grávida de mim. Pediu o divórcio o mais rápido possível e sumiu logo em seguida, sem dizer pra onde ia, sem deixar rastros.
Ficou na casa de uma tia por cerca de dois anos, até o momento em que conheceu meu padrasto, juntos construíram tudo o que têm hoje e batalharam incansavelmente para obterem esses resultados.
Ela deletou qualquer contato possível que podia ter com ele, fotos e tudo lembrasse seu passado ao seu lado, inclusive abriu mão da pensão de Karina, que é a única filha reconhecida por ele, realmente excluiu meu pai de nossas vidas.
Até hoje não sei muito sobre ele, o pouco que sei é que mora no litoral ou morava... Nem sei se ainda está vivo. Lembro de uma vez que tive uma conversa com a minha irmã no qual ela me contou que ele bebia muito e chegou a agredi-las fisicamente duas vezes, isso quando Karina ainda era criança. Falar dele em casa é um assunto extremamente proibido, e todas as vezes que tentei tocar no assunto para descobrir algo, resultou em briga. Considero meu padrasto como pai, inclusive o chamo assim, ele me cria desde os meus 3 anos. Mas confesso ter muita curiosidade em saber mais sobre meu pai biológico e até em conhecê-lo.
***
Charlie foi em casa depois da aula, tínhamos que estudar para as provas que estavam por vir, ele tinha que fingir ser hétero toda vez que ia em casa, isso é completamente ridículo. Meus pais têm uma carinho enorme por ele, mas se soubessem que é gay ia passar a ser odiado no mesmo momento. Não entendo o porquê. Por que o mundo tem que ser tão injusto assim? Tanto ódio e julgamento das escolhas alheias. Por que a felicidade e o amor não podem ser mais importantes do que tudo isso? São muitos perguntas, para nenhuma resposta.
Não havia ninguém em casa no momento, apenas alguns dos funcionários.
Peguei dois copos de suco e algumas besteiras para comermos, como: bolacha, salgadinho, chocolate....
Charlie se jogou de braços abertos na minha cama.
— Já disse que amo sua cama?
— Todas as vezes que vem aqui — Respondi revirando os olhos — Dá um espaço — Resmunguei, empurrando-o com a bunda, enquanto segurava o notebook.
— Ai sua gorda e olha que tem uma academia em casa — Brincou.
Na parte externa de casa realmente tem uma academia, minha mãe e minha irmã são obcecadas por corpos magros, se pudessem passavam 5 horas por dia lá, já meu pai não liga muito pra isso, o que é perceptível pois é só olhar pra ele que nota-se uma enorme pança. Eu costumo ir todos os dias no fim tarde, mas não tenho a mesma fixação que elas. Na verdade sempre gostei de praticar esportes e de me movimentar, aliás eu participava do time de vôlei feminino na escola, ganhei muitas medalhas e garantimos muitos troféus para o colégio. Inclusive foi assim que conheci a demônia da Ashley, ela era líder de torcida.
— Nossa, agora você me ofendeu. Não passo 1 hora naquela academia todos os dias pra ouvir isso — Brinquei.
Ele caiu na gargalhada.
— Estou brincando. Seu corpo é escultural, sabe que tenho até uma certa invejinha né?
— Obrigada pelo elogio, isso é raro vindo de você.
— Você sabe que sou difícil — Sorriu e mudou de assunto em seguida — Baby? (Ele me chama assim carinhosamente, desde sempre).
— Oi? — Estava concentrada procurando os emails que os professores haviam mandado com o conteúdo das provas.
— Qual foi a reação da angel quando contou sobre a Ashley?
Ele tem mania de apelidar todas as pessoas do seu ciclo de convivência.
— Ela ficou com ciúmes, não que tenha admitido mas estava na cara. Porém ela entendeu a situação e essa história já se encerrou. Ashley e eu somos apenas colegas de classe que ao menos se falam.
— Pra falar a verdade, te achei bem incomodada no primeiro momento que a viu na sala, como se ainda tivesse sentimento, sabe?! Pensei que ia ter que te segurar. Ai imagina uma rainha como eu tendo que te segurar... — Comentou enquanto enrolava as pontas do meu cabelo com os dedos.
— Fiquei incomodada sim, mas o único sentimento que tenho em relação a ela é RANÇO. A última coisa no mundo que esperava ver, era ela ali. Como queria que eu ficasse? Aliás não quero mias falar sobre isso, já encerrou o assunto.
O silêncio se instalou no quarto por longos minutos.
— Desculpa baby, minha intenção não era que ficasse brava, vamos esquecer isso — Disse quebrando o silêncio.
— Está tudo bem, isso é passado... — Falei abrindo as cortinas a fim de tomar um ar.
Da varanda vi o carro da minha mãe entrando.
— Conheci um boy novo maravilhoso do curso de engenharia — Comentou suspirando, apoiando as mãos sobre a cabeça ainda deitado na cama.
— Sério? Você é rápido hein...
— Minha filha, quem é o flash perto de mim, me diz?
Sorri e balancei a cabeça negativamente.
— Só você mesmo...
Estudamos por longas horas, quando demos conta o céu já havia escurecido. Olhei para o relógio sobre o criado-mudo, já passava das 8:00 PM. Fomos interrompidos com algumas batidas na porta.
— Entra! — Gritei.
Era minha mãe com um sorriso simpático, segurando uma bandeja de lanches.
Estava como sempre bem vestida, camisa e saia social e um salto bem alto.
— Achei que estariam com fome e vim trazer pessoalmente pra vocês — Disse cheia de simpatia se aproximando com a bandeja.
Ela fica muito animada toda vez que Charlie vai em casa por pensar que estamos tendo alguma coisa, e que Julie era apenas uma fase rebelde minha.... Iludida.
— Oi meu amor — Disse cumprimentando-o com um beijo no rosto.
— Oi dona Adele.
Eu me segurei ao ver aquela cena, Charlie engrossando a voz pra falar com a minha mãe, isso sempre acontecia mas ainda não consegui acostumar.
— Oi filha, acabei de chegar de uma reunião com alguns sócios para abrirmos mais algumas academias, ainda não definimos a quantidade, mas serão em três estados diferentes.
— Hum, teve sucesso? — Perguntei deitada de bruços no meu tapete peludo, estava rodeada por livros.
— Sim, provavelmente mês que vem vamos iniciar as obras. Estou exausta — Afirmou.
— Legal — Disse um pouco desinteressada no assunto.
— Bom.. Acho que vou nessa! Já está tarde e acordar cedo não é fácil — Anunciou Charlie levantando e arrumando suas coisas na mochila.
— Apareça sempre que quiser, te acompanho até o portão.
— Mas não vou desperdiçar um lanche desses — Disse pegando um da bandeja.
Eu estava estranhando essa simpatia, ela já estava começando a exagerar. Certeza que tinha alguma coisa em mente, mas nem dei muita importância.
Assim que Charlie foi embora, tomei um banho longo e relaxante, estava exausta mentalmente e com as vistas cansadas de tanto ler e fazer resumos.
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