Nós estávamos caminhando, em direção ao Catete. Não era muito longe do clube, mas com aquela maldita chuva tudo ficava mais difícil, e com Pedro berrando no meu ouvido logo atrás era mais ainda. Estávamos encharcados, e ele pelo jeito, um pouco machucado, ou melhor, comparado à Cobra, bem machucado.

– AH ELA FICA SE AGARRANDO COM AQUELE RÉPTIL, FAZ O MAIOR ESCÂNDALO, ME CHAMA DE IDIOTA E AGORA RESOLVE FAZER A MUDINHA, NÃO VAI FALAR NADA NÃO É GAROTA? — desde a hora em que saímos do clube ele berrava, e eu andava a sua frente respirando fundo pra não falar nenhuma besteira ou terminar de arrebentar a aquela cara linda dele.

– OLHA AI AGORA RESOLVEU FICAR QUIETA, VOCÊ NÃO DISSE QUE A GENTE TINHA MUITO O QUE CONVERSAR ? VAI FALA LOGO QUE EU SOU UM IDIOTA, AH NÃO NEM PRECISA NÉ ISSO VOCÊ JÁ FEZ QUESTÃO DE FALAR NA FRENTE DE TODO MUNDO ! — acho que minha cara deveria estar vermelha porque depois que ele terminou aquele discurso eu me virei e ele me olhou assustado

– É Pedro você tem razão, você é mesmo um grande idiota, do contrário, a gente não ia estar aqui, nessa maldita chuva e eu tendo que ouvir você resmungar esse monte de asneira ! — ele revirou os olhos e chegou mais perto de mim, me mostrando os hematomas vermelhos que ele tinha no rosto e o corte na boca que ainda sangrava

– Se você acha tudo isso porque se deu ao trabalho de vir embora comigo ? Porque não ficou lá com o minhoca ? Porque não foi cuidar dele ? Eu sei que você gosta dele não é ? — ele não falava, apenas cuspia aquelas palavras na minha cara, e o rancor e ódio que ele sentia era palpável na sua voz, o problema era que eu não entendia o porque de tudo isso já que ele estava com a minha prima de novo

– Você tem razão de novo Pedro Ramos, eu devia mesmo ter ficado com Ricardo, devia ter ficado cuidando dele, devia tudo isso, porque ele gosta de mim, ele se preocupa comigo... — enquanto eu falava ele me encarava furioso e a chuva escorria pelos nossos rostos, e provavelmente derretia toda aquela maquiagem ridícula que eu tinha na cara — Mas não, eu não consigo, porque eu sou uma grande idiota, até mais que você, e sabe porque? Porque eu me preocupo com você, porque apesar de todo esse circo que você armou e essa vergonha que me fez passar eu ainda continuo completamente apaixonada por você, e completamente retardada de não conseguir pensar em outra pessoa, ou esquecer você, mesmo sabendo que você não dá e nem nunca deu a mínima pra mim, e só arrumou essa briga toda por causa de uma merda de reputação e moral que você acha importante ter ! — ele me encarava agora boquiaberto e eu consegui me tocar da grande merda que eu havia falado e a consequência terrível que logo isso teria, mas agora eu tinha que ir até o fim, não podia fugir — Ah agora quem vai ficar quieto é você ? Agora resolveu que não vai fal.. — eu não consegui terminar de falar, porque em uma hora eu estava despejando todas aquelas verdades na cara dele, e em outra a boca dele já estava grudada na minha e nós estávamos nos agarrando ali, no meio da chuva, no meio da rua, sem medo, e sem pensar em mais nada. Ele me apertava contra ele e eu tinha afundado minhas mãos naqueles cabelos tão lindos, e que agora estavam todos molhados. O beijo era rápido e nossas línguas pareciam que já se conheciam há muito tempo, mais mesmo assim tínhamos pressa em explorar um a boca do outro. Eu não entendi nada do que estava acontecendo, mas ali, naquele momento eu nem quis me preocupar com nada, eu só queria aproveitar aquela sensação maravilhosa de estar nos braços dele, do Pedro...

Eu nem sei quanto tempo passou, mas sei que quando nos separamos estávamos ofegantes e sem capacidade alguma de falar qualquer coisa. Eu ainda estava de olhos fechados, e podia sentir a respiração quente e descompassada dele batendo no meu rosto, enquanto nossas testas ainda estavam coladas.

– O que vo.. você fez.. — eu tentei falar, mas foi em vão, Pedro me beijou de novo, com aqueles lábios macios, e quando nos separamos ele passou a mão pelo meu rosto gelado e me olhou intensamente ainda com a testa colada à minha

– Eu sou mesmo um idiota, tão idiota, porque tive que te ver com outro cara pra perceber que eu estou totalmente louco por você... — eu estava totalmente estática, ouvir aquilo...dele, não parecia verdade...

– Mas e...mas e a minha prima ? — eu perguntei receosa e ele riu

– A sua prima não quer nada comigo linda...e eu tive que levar outro fora dela pra perceber que isso não tinha me atingido, porque o meu coração já era de outra pessoa...

– Então quer dizer que...- eu nem conseguia falar

– Quer dizer que eu espero que você não termine comigo, porque eu quero fazer esse namoro valer a pena, dessa vez, de verdade...eu preciso de você Bella... — eu devia estar vermelha, mas foi impossível conter um sorriso quando ouvi tudo aquilo...

(...)

– Aii... Ta doendo bella ! — ele reclamava enquanto eu limpava seu rosto todo cheio de marcas e a boca que estava cortada por causa da briga, ele sentado no sofá e eu no braço do mesmo com uma caixa de curativos e remédios

– Você não para de se mexer, assim eu não vou conseguir terminar nunca ! — ele revirou os olhos e eu fiz uma careta. Depois da festa nós tínhamos ido pra sua casa, eu e ele estávamos todos molhados e mortos de fome, seus pais tinham ido jantar fora para comemorar o aniversário de casamento e não tinham dado garantia de que voltariam. Então antes de comer eu estava fazendo no mínimo um curativo decente no rosto dele

– Vem cá e os seus pais....eles não ligam de chegar tarde assim em casa? — dito isso o olhar de Pedro baixou e ele parecia triste — ahn desculpa...eu não...não devia ter tocado no assunto é só que a sua irmã sempre reclama dizendo que eles nunca estão em casa e...

– Tudo bem eu...às vezes é bom falar sobre isso, porque o Johnny não é o tipo de amigo que tem saco pra desabafo...- ele respirou fundo — meus pais vivem no restaurante e quando não estão eles não ficam muito em casa, dizem que trabalham demais e precisam se divertir, então resumindo eu e a Maria Antônia ficamos mais sozinhos do que com eles, talvez seja por isso que somos tão ligados... — ele parecia triste e eu me arrependi de ter perguntado

– Você ta triste...eu...eu não devia ter perguntado sobre isso...desculpa — eu falei e ele sorriu de lado

– Ta tudo bem...eu não estou triste, aliás quem consegue ficar triste sabendo que tem uma namorada linda e incrível assim igual você ? — eu dei uma gargalhada e dei um selinho nele que me olhou com um ar de reprovação

– Ah não...esse selinho ta sem graça demais...eu quero um beijo decente, porque eu sei muito bem que você sabe dar... — eu ri de novo e ele fez um biquinho irresistível, então eu não sei com que coragem mas eu sentei no colo dele e o beijei com toda paixão que eu tinha. Ele segurou minha cintura e com a outra mão colocou na minha nuca enquanto eu afundava minhas mãos naqueles cabelos que eu amava tanto, ele aprofundou mais o beijo e ouvimos um pigarro e na hora eu pulei do colo dele e ouvi uma gargalhada, uma gargalhada muito conhecida

– Isso é algum tipo de miragem, delírio ou eu vi mesmo vocês dois no maior amasso ai no meu sofá ? — Maria Antônia falava tudo divertida enquanto eu deveria estar totalmente vermelha porque estava morta de vergonha

– Tomtom...isso é jeito de falar ? — eu reclamei e ela revirou os olhos, então senti Pedro ao meu lado e ele me deu um beijo na bochecha e segurou minha cintura

– A gente ta namorando Maria Antônia ! — Pedro disse e Tomtom revirou os olhos e fez cara de deboche e Pedro continuou — dessa vez....estamos namorando de verdade Tomtom ! — dito isso ela arregalou os olhos e abriu a boca em um sorriso gigantesco

– Então quer dizer que...que...- eu dei graças a Deus por ela gaguejar e não terminar a frase porque eu já estava com medo de ela falar alguma besteira o que era bem comum vindo dela

– É, é isso mesmo, eu e o Pedro estamos namorando amiga...ou melhor...cunhadinha ! — eu me aproximei dela e ela começou a bater palmas e dar uns pulinhos exagerados enquanto Pedro ria de tudo

– Bom, se vocês vão ficar ai de fofoca, eu vou preparar alguma coisa pra comer, porque eu tô morrendo de fome !

– Ah eu também! Vou te acompanhar Pê ! — eu gritei indo até ele que puxou minha mão em direção à cozinha

– Então vem namorada ! — ele disse me abraçando de lado e me dando um selinho

– Se eu não estivesse tão feliz por esse namoro de vocês realmente sair do fingimento ia dizer que isso tava meloso demais, mas não vou dizer ! — Tomtom disse rindo sendo acompanhada de nós dois

Fizemos sanduiches e depois de comer, eu fui pra casa, já estava tarde, e minha mãe me surpreendeu de ainda não ter ligado. Pedro me levou em casa — do outro lado da praça — e prometeu que no domingo iríamos sair e aproveitar o dia como um casal normal.

(...)

Eu acho que nunca tinha me senti assim na minha vida...essa sensação de estar completo. A Isabella é tão incrível que me faz perceber o quanto eu sou sortudo de ter uma garota como ela apaixonada assim por mim. Faz duas semanas que nós estamos juntos, e tem sido os dias mais felizes. Não é como quando eu estava com a prima dela, a gente se diverte, se entende, e eu não tenho que ficar fazendo cada vontade dela, porque ela não é o tipo de garota que fica reclamando de tudo, ela consegue se divertir com as pequenas coisas. Será que eu pareço um bobo falando assim ? Dizem que quando ficamos apaixonados, ficamos bobos, mas eu não me sinto bobo, eu me sinto leve...me sinto feliz. Cada vez que ela me olha, com aqueles dois oceanos dentro dos olhos, eu sinto uma calma inexplicável, e quando a gente se beija, sei lá...parece que o meu lugar é pra ser ali do lado dela, com ela. Meio gay isso né? Meio não, totalmente, o João disse que eu tô "gamadão" é, talvez eu esteja mesmo. Mas quem está estranho mesmo é o Johnny, nesses últimos dias ele anda muito na dele, não fala muito, e quase não aparece mais aqui em casa. E olha que eu não sou o tipo de amigo que largo os parceiros por causa de namorada, até porque a Isabella como nerd que ela é, passa um bom tempo estudando, e gasta muito mais naquelas aulas de culinária. Então o problema do João talvez seja comigo, às vezes parece que ele está me evitando, mas na escola principalmente ele fica sozinho, eu conheço meu amigo, sei que ele não sabe lidar com os próprios sentimentos, com as emoções dele. Quando acontece alguma coisa, ele simplesmente se exclui, ele é o tipo de cara que prefere sofrer sozinho, e é isso que me preocupa, ele , sozinho, fazer alguma besteira.

(...)

A morena observava o casal feliz do outro lado da praça. Bianca tinha uma raiva profunda toda vez que via Isabella feliz, ou dando um mero sorriso, a felicidade da garota a incomodava, porque Bianca sentia que nunca teria algo assim. A falta que sua mãe fazia,e a mágoa de ter sido largada por ela, ocupava todo o espaço dentro da atriz, além de outras coisas. Será que aquilo era inveja ? Talvez fosse, ou talvez fosse apenas uma grande tristeza de saber que talvez ela nunca teria uma família ou alguém que a amasse de verdade, como Pedro amava Isabella. Bianca achava que se ela não tinha esse direito, Isabella também não deveria ter.

– Ta fazendo o que aí, secando o casal de comercial ?

– Ah que susto garoto !

– Sabia que a inveja mata bianquinha ?

– E a curiosidade matou o gato sabia ?

– Eu tô mais pra rato, do que pra gato Bianca.. mas você...

– Eu ? Eu não sou gata, e muito menos rato Johnnyzinho...acho que estou mais pra Cobra...