Ela disse, Ele disse
29 Mal entendido
Notas iniciais
– Gastronomia? — Pedro me perguntou enquanto andávamos pelo corredor da escola em direção a sala de aula.
– É Pê...um concurso de culinária...um dos jurados principais vai ser o Alex Atalla! — falei empolgada, Alex era um grande cozinheiro reconhecido mundialmente. O restaurante dele era um dos melhores do mundo. Imaginei se ele visse o que eu sabia fazer e gostasse de mim. Era uma chance que não se podia desperdiçar.
– Jura Bella? Isso é incrível mas...- ele falava passando as mãos nervosas pelos cabelos, e lendo o panfleto me deixando preocupada.
– Mas o que Pê? — perguntei ansiosa
– Mas pelo que eu tô lendo aqui, a ganhadora do concurso vai ganhar um estágio para trabalhar no restaurante dele...- ele deixou o resto da frase no ar
– Eu sei Pedro! Ah eu tô tão empolgada...se eu conseguisse esse estágio ia ser incri...- foi então que Pedro me puxou de volta pra realidade. Que não era tão incrível assim.
– Bella o restaurante é em São Paulo! São Paulo Bella! Você iria pra lá? — foi então que chegamos em frente a sala e eu parei de andar e me dei conta de tudo que podia acontecer se eu levasse aquela história a frente e se ganhasse o concurso. Eu abri a boca algumas vezes e ele parou na minha frente esperando uma resposta, ou no mínimo, uma reação decente, o que não veio.
– Já que você não tem resposta, pensa bem, e ai, depois, só depois, me procura! — ele saiu marchando e com os punhos cerrados.
(...)
– E foi isso que aconteceu...- falei suspirando enquanto Ricardo terminava de guardar as luvas e ataduras da academia.
– E ai você ta indecisa se deve ou não participar do concurso e tudo mais? — ele perguntou sentando no tatame e chamando pra sentar ao seu lado.
– Na verdade eu tô indecisa sobre tudo Cobra! Não sei se participar é uma boa ideia...e se eu ganhar? Como é que eu vou pra São Paulo? — eu falei tampando o rosto com as mãos. Eu havia passado a manhã toda com isso martelando na minha cabeça e nada. Dispensei minha aula extra no período da tarde porque cozinhar com raiva não rende. Liguei pra Jade pra desabafar, mas quem atendeu foi a mãe dela, a professora de dança do Pedro na Ribalta. Ela havia me dito que a Jade estava um pouco indisposta e não podia falar...Então a única opção que me restou foi o Ricardo. Eu sabia da birra de Pedro com ele, mas nós éramos amigos e nenhum ciúme bobo ia mudar isso, fora que ele e a Jade estavam ficando, ele finalmente havia cedido aos encantos da minha amiga desorientada, pelo que ela tinha me contado. Então não, eu não tinha com o que me preocupar.
– Primeiro Bella: respira! Você ta muito tensa, desse jeito não vai chegar a nenhuma decisão...- eu respirei fundo algumas vezes e ele continuou — e segundo: esse concurso não é certeza de nada! Você pode muito bem participar dele sem compromisso porque ganhar não é certeza! E ai, se, você ganhar, pensa com calma no que vai fazer...- ele falou com calma. E surpreendentemente me acalmou também. Esse jeito calmo e sensato de Ricardo era o que me ajudava a manter o equilíbrio. Talvez fosse isso que o fazia ser tão perfeito pra Jade, um era o que o outro precisava, ele só precisava perceber isso.
– E se eu ganhar? — perguntei baixinho e ele suspirou e apertou os olhos
– Bom...ai eu não posso decidir por você loira, mas olha só, o que você decidir eu vou te apoiar...Mas você tem que pensar bem...se esse é o sonho, resta medir o que realmente é prioridade pra você! — ele falou daquele jeito seguro de sempre e eu tive que perguntar pra poder de vez, sanar minhas dúvidas.
– Mas Cobra...e se eu decidir ir pra São Paulo? E o Pê? — ele fechou os olhos de novo e jogou a cabeça pra trás passando as mãos pelos fios negros e curtos.
– Leva ele contigo! Faculdade em Sampa é o que não falta! Só...me promete que não vai desperdiçar tua chance...teu sonho! — ele me encarou e eu assenti
– Obrigada Cobra...de verdade! Você é um amigo incrível! — falei dando um sorriso de lado e ele piscou pra mim e me puxou pra um abraço reconfortante. O abraço durou segundos porque o telefone de Ricardo começou a tocar uma música de luta e nos assustou.
Ligação On
– Alô? — vi Cobra atender a ligação preocupado
– O que? Mas...como? — de repente ele ficou branco, com os olhos arregalados e eu automaticamente fiquei nervosa, e sussurrei perguntando o que havia acontecido.
– Em casa? Ta legal eu tô indo pra ai! — ele desligou o telefone e deu um pulo do tatame me assustando.
Ligação Off
– O que foi? O que aconteceu? — levantei indo atrás dele nervosa. Ele passava as mãos pelo cabelo nervoso e apertava a mandíbula com força arrastando a barba falha pelos dedos.
– A-a-a Jade, Bella...ela...ela...- gaguejava e andava de um lado pro outro fechando as portas e pegando suas coisas.
– ELA O QUE COBRA? O QUE ACONTECEU COM A MINHA AMIGA? FALA LOGO! — gritei irritada e ele parou de andar automaticamente
– Ela desmaiou em casa Bella, ta branca, gelada e mole, a Lucrécia me ligou desesperada porque o Edgard teve que ir visitar as tuas que estão doentes no Irajá! Eu tô indo pra casa delas pra levar a dam... a Jade pro hospital...- ele deixou a frase no ar e saiu correndo comigo em seu encalço.
– Calma Cobra respira! Você vai pra lá como? — perguntei enquanto ajudava ele a trancar as últimas portas.
– Eu vou pegar o carro do meu pai, eu tenho que ir Bella! Beijo! Depois eu te ligo dando noticias! — ele saiu correndo e eu fiquei parada, nervosa, preocupada.
Saí da fábrica e dei cara com Pedro parado, sentado no banco da praça vermelho e passando as mãos no cabelo daquele jeito nervoso.
– Pê? Ta tudo bem? O que aconteceu? — me aproximei devagar, e vendo de perto reparei que ele tentava regular sua respiração acelerada.
– NÃO SEI! ME DIZ VOCÊ ISABELLA? PORQUE PELO JEITO VOCÊ NÃO ESTAVA NADA BEM AGARRADA COM AQUELE MINHOCA!
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