Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap21.

Durante a semana que precedia o baile, Mell tratou de coordenar todos os preparativos e alfinetou Dora como pode. Mas ela não estava se importando com isso, o que queria mesmo é ficar numa boa com Alonso e descobrir quem era o cara loiro que daria as respostas que ela tanto queria.

Já havia avisado os rapazes da Carnation Street e Leo Turner, que compareceriam para identificá-lo. R esteve mudo todo esse tempo e Alonso não fazia nem idéia das jogadas planejadas para essa festa que iam muito além de dança e diversão.

– Uau!!! O que eu fiz pra merecer isso? – pergunta Alonso quando vê Dora saindo do loft.

Ela estava usando um vestido rosa bebê tomara que caia, longo. Com decote em V discreto e pedraria transparente na parte de cima. Uma presilha de borboleta prendia seus cabelos do lado esquerdo, nas mãos uma bolsa pequena prata e nos pés sapato em estilo boneca com uma fivela da mesma cor. Seu rosto, embora divino tinha um tom de desapontamento.

– O quê foi? Não vai me dizer nada? – pergunta ele novamente dando uma voltinha.

Ela desfaz a cara de desanimo e ri.

– Nossa! Você tá ótimo, nunca vi ninguém ostentar um smoking com tanta finesse. – ironiza.

– Estamos parecidos com Natalie Portman e o Jared Padalecki indo numa entrega de prêmios.

Dora o olha espantada.

– Que ambição o senhor Alonso possui e eu não sabia! Cadê sua humildade?

– Deixei para as noites comuns, hoje é dia de festa! – comemora. – Mas, por que aquela carinha quando você saiu?

– Não foi nada! Eu só tava pensando no último baile que fui e me deu um medo de um Dejavú! – confessa.

– Não se preocupe! Eu sei que não posso voar e ainda por cima, o pátio da faculdade é no térreo. – tenta brincar.

Dora suspira fundo com os olhos cheios d’água e dita.

– Alonso, se você falar alguma coisa assim pra mim uma outra vez qualquer que seja, eu juro que nunca mais olho na sua cara. Sei! Você só estava tentando ironizar o fato, mas certas coisas são mais bem digeridas se engolidas, certo?

Ele não falou nada, apenas assentiu com a cabeça. Com vergonha do que havia acabado de dizer. Somente pegou a mão de Dora e caminharam até o furgão, indo em silêncio para o baile.

Quando chegaram, Alonso tentou com jeitinho mais um comentário para quebrarem o muro que se formou entre eles.

– Que coisa estranha! Você de rosa, parece que essa cor não faz muito o seu estilo!

– É que dessa vez eu não quero errar em nada! – sussurra Dora, respondendo e alisando o vestido com as mãos.

Finalmente entraram e puderam ver toda a turma da faculdade e New Park em peso no pátio todo enfeitado que tinha como tema o cinema clássico. Cheio de fotos e cartazes de astros e filmes pendurados, com um telão gigantesco que projetava películas em preto e branco através de um moderno retroprojetor. Luzes, som, um bar, mesas e um conhecido DJ, além do raio laser que cruzava a pista de dança e mímicos soltando bolhas de sabão e imitando os convidados.

Dora dá uma boa olhada em volta e comenta.

– Puxa! Tenho que dar o braço a torcer, a Mell realmente aprendeu a organizar uma festa!

– A aprendiz nunca é tão boa quanto sua mestra! – defende Alonso.

Estavam passando em volta da pista de dança quando de repente Dora dá de cara com sua mãe.

– Mãe! O quê você tá fazendo aqui?

– Ora filha, você sabe como funciona! Eles me convidam eu venho! Talvez seja pra te controlar! – diz animando-se. – Pensei que você não vinha, mas pelo jeito veio e acompanhada! – termina, desfazendo a alegria enquanto observa Alonso.

Este não deixa por menos ao cumprimentá-la.

– Olá Lara! É muito bom revê-la tão jovial!

Ela ia responder quando uma mão a toca seguida de uma voz vivaz.

– Lara! Há quanto tempo! Que bom que deixou os problemas de lado e resolveu aparecer! Fui eu quem te fiz o convite, tínhamos que ter essa noite à presença da luz de New Park! – rasga-se Mell, a fim de pegar pesado.

– Você sabe como eu sou! Nunca deixo nada me influenciar e sempre acabado dando a volta por cima! Sempre! – diz em tom rústico, olhando para Alonso.

Ele preferiu ser bastante discreto e não comentar nada. Mell, que só agora fez notar Dora recomeçou.

– E você Dorita, está aí tão calada! Pensei que esse ambiente não lhe agradasse mais! Até pelos seus desvios esses dias, tem estado tão ocupada que nem aceitou organizar a festa, logo você! Mas estou vendo que já conquistou seus objetivos! – diz referindo a Alonso, com olhar de conquistadora barata.

Agora é Dora quem se cala com uma meia risada. Achava que não valia à pena responder, e sua mãe com certeza não ficaria do seu lado numa discussão. Mell, se achando a guerreira poderosa dá o golpe final.

– É, mas que bom que todos vieram! Pena que a Dora esteja atrasada com esse vestido, rosa foi o tema do baile passado. Aquele em que você perdeu tudo, inclusive o juízo queridinha! – ri maléfica. – Bem, agora preciso dar continuidade ao baile! Fiquem a vontade!

Ela sai com ar superior de quem disse a que veio. Dora apenas sentia pena daquela coitada que falava mal da roupa alheia, mas vestia um vestido comprido em estilo oriental amarelo ovo agarrado demais com um coque enorme nos cabelos.

– Eu hein, que garota maluca! – comenta Alonso, beijando Dora.

Lara nesse momento se conforma e despede-se para circular pela festa. Pouco tempo depois Mell sobe ao palco e anuncia.

– Sejam bem vindos ao Baile Semestral de Boas Vindas! Essa noite remetam-se aos anos 40 e sintam-se livres pra serem o que quiser! Para isso usem as máscaras que estão distribuídas nas mesas. É proibido ficar sem!

Minutos depois o salão estava cheio de pessoas irreconhecíveis que circulavam com liberdade pelos ambientes. Agora realmente a festa vai começar!

Música – Gramophonedzie — Why Don't You (tradução)

Por que você não faz?

Você teve muito dinheiro, 1922
Você deixou as outras mulheres fazerem você de bobo
Por que você não foi correto como todos os outros homens são?
Saia daqui, e me deixe algum dinheiro também

Saia, sai sai sai, Saia sai sai ...

Saia daqui, e me deixe algum dinheiro também

Saia, sai sai sai, Saia sai sai ... Me deixe dinheiro
Saia, sai sai sai, Saia sai sai ...

Saia daqui, e me deixe algum dinheiro também.
Você está sentado lá e imaginando sobre tudo
Você não tem nenhum dinheiro, eles vão te colocar para fora
Por que você não foi correto como todos os outros homens são?
Saia daqui, e me deixe algum dinheiro também

Saia, sai sai sai, Saia sai sai

Saia daqui, e me deixe algum dinheiro também.



Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap22.

O Baile continua...

A galera se diverte geral na festa cujo Mell não impôs limites nem hora para acabar. Tudo estava normal até que Alonso pede licença e se distancia, desaparecendo entre os convidados mascarados.

Dora tenta passar entre eles para se sentar na cadeira de uma mesa vazia, porém um convidado de estatura média fica em seu caminho.

– Licença senhor! – pede ela.

O homem misterioso dá, mas quando ela tenta passar novamente ele pula em sua frente e impede a passagem.

– Aff! Cara folgado! – Dora sussurra. – Senhor, assim não vai dar!

Até que ele lhe passa um cartão azul com os dizeres.

ADIVINHA QUEM SOU EU!

Ela gelou nessa hora e com os olhos amuados subiu seu rosto até os olhos mascarados e cochichou sem querer estar certa.

– R?

O cara balança a cabeça devagar em sinal negativo, erguendo a mão em sua direção. Ela ia correr, mas ele rapidamente toca na máscara e levanta-a para cima, revelando-se.

– Booo!!!! Credo Dora, que medo! Quem você achou que fosse com esse negócio de R?

Ela respirando fundo, refazendo-se do susto responde com raiva.

– Não sei, nem sei o que ia falar de tanto medo! Mas por que a brincadeira Paris?

– Não deu pra resistir! Você tava aí parada e em que noite mais eu poderia andar sem ninguém pra me encher? O mundo devia ser assim sempre, todos mascarados. Mostrando só o que querem, quando querem, sem compromisso de identidade.

– Mas de certa forma já não é assim? – pergunta Dora.

– Não, eu não acho que seja assim! Pelo menos não pra mim. – argumenta.

Paris percebe que estão olhando e resolve ir.

– É melhor eu voltar a esse mundo que criei e provar minha teoria, só por uma noite. Ser normal e me divertir com todos! Do mesmo jeito que se divertem comigo! – sussurrou.

– Vai! Mas não faz nenhuma besteira! Não se rebaixe ao nível deles! – recomendou Dora. – Nada de assustar ninguém! – gritou quando ele já estava longe.

Um pouco mais adiante, do outro lado da piscina cheia de balões que havia na área das mesas, um cavalheiro de máscara negra ergueu um brinde a ela que ignorou. Ele foi chegando mais perto.

– De novo não! Alonso, cadê você? – pensou.

O cara se aproximou até que não houve como fugir.

– Bela noite não senhorita, especialmente para prender maus elementos!

– Detetive Leo! – surpreendeu-se.

– Eu e os nossos dois espiões. Não vim falar com você antes por causa do seu namorado e daquele cara esquisito que estava aqui até agora. – justificou engolindo o champanhe.

– E como andam eles? – quis saber Dora.

– Até o momento nada! Mas não vamos desistir, sua amiga com esse baile de máscaras enfraqueceu nossos planos. Avante então, vencer as dificuldades! – disse, voltando para o outro lado da piscina.

– A Mell enfraquece qualquer um! – comentou Dora para si.

Alonso, depois de desaparecer um tempão, estava retornando para junto dela quando é surpreendido por um professor que lhe perguntou.

– Você não me é estranho! Nos conhecemos de algum outro lugar?

– Acho que não! O senhor está se confundindo porque eu tenho uma cara muito comum!

– Tem certeza? – insistiu o homem.

– Tenho! Absoluta! Não freqüentamos os mesmos meios, eu sou bolsista! – frisou.

O professor desculpou-se pelo incomodo e Alonso pôde voltar para Dora. Recolocando a máscara urgentemente.

– O que o professor queria com você? – quis saber ela.

– Nada! Só queria me parabenizar por um trabalho.

– CDF! Que demora! Onde estão as bebidas? Não se afaste mais, estou com uma impressão terrível de que alguém me observou o tempo todo, só agora que você voltou é que passou.

– Impressão sua sentindo falta da minha presença protetora!

– Convencido!

– Tá! Eu te mostro o motivo da demora! – disse ele, estendendo-lhe a mão.

Uma música começou a tocar fazendo movimentar o casal que permanecia imóvel em posição de dança.

– Me perdoe por hoje mais cedo. – pede Alonso.

Música – Em algum lugar no tempo – Biquíni Cavadão.

Não guarde mágoa de mim
Também não me esqueça
Talvez não saiba amar
Nem mesmo te mereça
Como as ondas do mar
Sempre vão e vem
Nossos beijos de adeus
Na estação de trem
Um gosto de lágrima no rosto
Palavras murmuradas
Que eu quase nem ouço
Que eu quase nem ouço...

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap23.

Eles dançaram até o fim da música, como se não fossem fazer isso nunca mais.

Não tenha medo de mim
Não importa o que aconteça
Não me tire da sua vida
Nem desapareça
Em algum lugar no tempo
Nós ainda estamos juntos
Em algum lugar
Ainda estamos juntos
Em algum lugar no tempo
Nós ainda estamos juntos
Prá sempre, prá sempre
Ficaremos juntos
Juntos...

Dora estava cansada, mas sorria feito uma criança que ganhou o que mais desejava. Porém, quando voltava para a mesa, viu um vulto que se destacou dos outros, passar entre os convidados do outro lado da piscina.

– O quê foi aquilo? – sussurrou para si própria, se achando louca.

– Aquilo o quê? – perguntou Alonso, que escutou o que ela disse.

– Nada! Deve ser cansaço, acho que vou me refrescar um pouco no toalete. Licença. Vá descansando esses pés de valsa que eu já volto! – brincou antes de sair, dando-lhe um selinho.

Dora saiu dos fundos do pátio, onde se encontrava a piscina e atravessava a pista de dança, quando de repente o vulto cruzou seus olhos novamente. Uma silhueta familiar que a preocupava muito conhecer.

Música – Ben Jelen – Come On – tradução

E finalmente o silêncio

Olhando pra longe,

vendo além do céu

Tentando achar um sentido

Sabendo que deixei tudo aquilo pra trás

Ainda sinto o aroma que demora a ir

Onde ela está indo?

Como ela está indo?

Eu quero, quero saber

Eu quero saber se ela virá

aqui, comigo

Ela ia passando entre as pessoas que agitavam na pista, às vezes vendo-o nítido, outras vezes só reluzindo a vestimenta preta bem mais a frente dela, que não desistia de seu objetivo.

– Eu só posso estar louca mesmo, pra estar fazendo isso! Vai ver todo mundo tem razão! – pensava.

Venha

Sem você eu nunca sentirei

o amor dentro de mim

Venha

Você sabe que nos pertencemos

Venha, venha,

venha, venha

Dora estava num jogo de gato e rato que ela mesma criou e que não sabia no que ia dar. Na certa, pensou que encontraria o rapaz da roupa preta, ele se identificaria, ela se desculparia por sua gafe e a situação estaria solucionada. Mas não foi bem assim que aconteceu.

Após muito procurar pela pista de dança e arredores já estava desistindo, quando o avistou na sacada de uma sala que estava aberta no primeiro andar. Mell avisou nessa hora sobre a queima de fogos que começaria para saudar o baile, enquanto Dora corria ansiosa para pegá-lo.

Chegou à sacada exatamente no começo do foguetório, mas viu que lá não tinha ninguém.

– Droga! Nem na bebida eu posso colocar a culpa desse meu devaneio. – diz decepcionada por ter gastado seu tempo correndo atrás de um fantasma e constatando que não bebeu nada.

De repente, freneticamente alguém apareceu atrás de Dora, lançou a mão em suas costas e virou-a indefesa para trás, dando-lhe um beijo com meia máscara levantada. Os fogos ardiam no céu, multicoloridos e incessantes como nos melhores shows do gênero. Lá em baixo todos assistiam a cena inusitada, inclusive Alonso que foi procurar por ela. Era impossível não ver o casal mascarado iluminado pela luz do acontecimento.

Ela está vindo

Ela está vindo para mim

Estou precisando

Desejando beijá-la agora

Estou vivendo por ela

Respirando por ela

Cantando por um sinal de vida

Dora, após o elemento surpresa, deu um tapa de imediato no atrevido, que respondeu rindo. Ela olhou para baixo e pode ver Alonso indo embora decepcionado por reconhecê-la na sacada.

– Seu idiota! Olha o que você fez! – grita para o mascarado de vestimenta preta, virando-se para ele. – Paris, não é você, é? Porque se for dessa vez você foi longe demais! – continuou.

Ele não respondeu nada e continuou observando pela máscara.

– Eu mereço! Que espécie de baile é esse que todo mascarado vem me atazanar? – pergunta olhando para o céu.

– Foi você que começou a me seguir. – respondeu o mascarado rindo.

– É que eu tive a insana impressão de ser meu ex-namorado... Mas é impossível! E por isso você já vai beijando a primeira que te seguir! – diz, querendo recuperar a razão.

– Você quase acertou! – fala, retirando a máscara de vez.

Dora, ao olhar para seu rosto fica catatônica sem conseguir ter alguma reação por mais que tentasse.

Enquanto isso na rua, Alonso estava descendo a avenida da faculdade. Quando um carro vem a toda velocidade no silêncio desértico do local e acelera para cima dele que se joga para o lado, saindo do alvo mortal e rolando para o canto da calçada. O veículo continuou sua corrida desenfreada deixando apenas o rastro de pneu queimado até desaparecer no fim da pista.

Ele observa a partida do carro até que o celular toca.

– Alô!

– Você não está fazendo seu trabalho direito! – diz do outro lado uma voz feminina.

– Se eu ficasse lá ela ia desconfiar de tanta panaquice! – justifica.

– Acho que está confundindo seus propósitos.

– Não é nada disso! Eu garanti que ia dar tudo certo e vai dar, confia em mim!

– Acho melhor que sim, ou não quero nem pensar nas conseqüências se tudo for descoberto.

– Pode deixar! Agora preciso ir, tenho que pensar em como dar um jeito no nosso problema. – desliga, se limpando e envolvendo as mãos nos cabelos que ficaram bagunçados.

Alonso pensava intimamente, apesar de querer passar tranqüilidade, que o cerco estava se fechando e ele por mais que não quisesse, perdeu o controle sobre Dora e seus sentimentos. Sentia ciúme e a queria mais que tudo.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap24.

Dora, ao olhar para o rosto do mascarado fica catatônica sem conseguir ter alguma reação por mais que tentasse.

– D a v i d!!!! – sussurra trêmula.

O rapaz então a olha por alguns segundos, fazendo mistério antes de responder, mas continua com o mesmo sorriso debochado na cara.

– Não querida! Esse milagre não aconteceu! – responde. – Sou Aidan, primo do David e por azar, se perguntarem eu nego, do Paris.

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Nome: Aidan Silver Castel

Status: Primo de 1°grau dos Silver Rock.

Idade: 21 anos.

Hobby: Criar situações desafiantes.

Livro de Cabeceira: Revistas Pornôs.

Frase: "Para bom entendedor, meia palavra basta."

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Ela não conseguia falar nada diante da semelhança de ambos que pareciam ser a mesma pessoa. Continuava com aquela expressão de quem viu um fantasma e se sustentava nas pernas por milagre. Vendo aquele rosto, seu mundo que começava a se firmar, novamente veio abaixo.

Aidan se aproxima dela, olha fixamente em seus olhos e baixando o tom de voz lhe diz.

– Nossa! Sua cara tá branca que nem papel! O que você achou? Que seu amor do passado voltou dos mortos pra fazê-la feliz por mais uma última noite! Lamento querida, mas o mundo real não é assim! Contos de fadas, você já tá bem grandinha para acreditar nisso, não acha? Mas admito que foi bonitinho, sério fica charmoso em você! – terminou, segurando a ponta do queixo dela.

Dora então bate na mão direita de Aidan e responde seca, se recuperando.

– O quê eu acho? Eu acho que os Silver Rock são o pior tipo de lobo em pele de cordeiro que há no mundo!

E com lágrimas sem controle rolando dos olhos, correu para fora da sacada, se afastando da sala o máximo que conseguiu. Só pensava em como tamanha semelhança era possível e pior, o quê Alonso estaria pensando sobre ela agora. Estava indo atrás dele, quando sua mãe a interrompeu.

– Ele já foi! Também, depois da sua cena de reencontro de novela!

Dora não deu muita importância para o que Lara disse. Então ela a deteve, segurando o braço da filha que ameaçou insistir na procura de Alonso, continuando.

– É melhor assim, sinal de que as coisas estão voltando aos seus eixos. Isso não ia durar mesmo! Óleo e água não se misturam, já diziam os primeiros. Vá lavar esse rosto e me espere. Hoje você vai pra casa mocinha!

Angustiada, resolveu dar um tempo para tudo que aconteceu e obedecer, indo finalmente para o banheiro. Na saída encontrou com o mascarado da piscina.

– Boas notícias! Um dos caras reconheceu o suspeito loiro!

– Sério? E quem é ele?

– Você vai se chocar, e sendo quem ele é não íamos encontrá-lo na foto com os rapazes nunca!

Curiosa, Dora seguiu Leo, que a levou até os caras ansiosos para revelarem quem era o lorinho e sumirem dalí, evitando problemas.

– É aquele alí! – disse o cara, apontando o dedo indicador para o palco.

– Tem certeza! Que brincadeira é essa? – pergunta Dora, boquiaberta.

– Claro minazinha! Ele vestido dos pés a cabeça parecia um dos nossos, mas eu vi a cara dele que era diferente. Achei o mano bonito e tudo. – confessou, enquanto o outro lhe estranhava.

– Agora você já sabe por que! – diz Leo, rindo.

Dora não quis saber de mais nada, subiu ao palco a fim de desmascarar o loirinho.

– Então, muitas compras na Carnation Street, Mell? Alguma lojinha que eu não conheça? Quem sabe uma noturna que vende coisas “raras”?

– Eu não faço idéia do que você está falando! Aconselho que vá ter seus delírios com outra pessoa! – responde Mell, destoando-se do assunto.

O baile pára e a galera em peso começa a prestar atenção no embate.

– Eu estou falando sobre você, toda disfarçada e o David na Carnation Street comprando meta-anfetamina nas madrugadas antes dele morrer. – acusa enfurecendo-se.

– Olha Dorita, você tá louca! Eu não vou ficar perdendo tempo com mais um dos seus showzinhos. Isso já tá perdendo a graça!

Mell faz sinal para a música seguir e ia recolocando a máscara que tirou para a apresentação no palco quando o acusador grita.

– Tenho certeza que você era o maninho que ia com o finado David lá no nosso gueto pegar uns produtos com a gente. Ficava na surdina, sempre fazendo doce, achamos até que o David era fruta, mas agora tá explicado, ele corneava a minazinha com a melhor amiga! Típico!

– Cala a boca, seu pobretão de merda! Quem foi que autorizou a entrada desse coitado no nosso meio? Gente como ele não merece nem respirar o mesmo ar que o nosso! – grita Mell nervosa.

– Calada você moça, ele e o amigo estão aqui ajudando uma investigação de polícia! – disse Leo, identificando-se detetive. – E se eles quiserem podem fazer uma acusação contra a senhorita por calúnia e vamos todos terminar essa noite na delegacia. Se não quiser acho melhor começar a falar.

Um silêncio constrangedor tomou conta do local, buchichos eram ouvidos em alguns cantos, em outros, pessoas se retiravam sorrateiramente.

– Ah Dora! Como chegamos a esse ponto? – pergunta Mell destruída.

– Eu não sei. Me diz você! – responde Dora, também abalada.

– Está bem! Nunca fui nada perto de você, era só a amiga! Uma ponte pra se chegar até Dora, a rainha de New Park! Eu aceitava porque era isso ou nada, ser só mais um projeto nas mãos da poderosa. Mas aí um dia ele apareceu, recém chegado no bairro e como era lindo, disse se chamar David e parecia tão especial olhando pra mim. E como sempre, você chegou e tudo mudou. Pensei uma noite que ele foi me procurar lá em casa porque me pediria em namoro, mas em vez disso quis saber se eu lhe apresentava à Dora.

– Eu nunca soube disso, me desculpa. Por que você não me contou?

– Será que você realmente queria saber? Acho que não Dora. Aquela época você não estava tentando ser essa santa! E senti tanto ódio quando ví vocês juntos pra cima e pra baixo, aquele namorico adocicado, o casal perfeito! Por favor, me poupe! Comecei a tentá-lo, chamá-lo, seduzi-lo, até que ele caiu e comigo David era verdadeiro, o cara asfixiado por esse bairro, pelos seus padrões impossíveis e dessa gente ordinária!

O pessoal vaiava enquanto Mell continuava.

– Comigo ele se drogava, amava, era violento, divertido, falava absurdos que você jamais escutaria, mas eu sim. Agüentei tudo calada e o convenci a fugir daqui, íamos depois do seu bailezinho cor de rosa, imagine como você ficaria, abandonada pelo seu David. O príncipe fugindo do castelo e trocando a princesa pela bruxa. Seria a vingança perfeita! – ri empolgada.

– Mell, você me odeia tanto assim? – pergunta Dora assustada.

– Você me obrigou a isso! E o pior é que sabe lá como ainda tem sorte, pois na hora H ele não quis vir comigo. Quando você foi ver a briga do Paris lá fora eu o chamei rapidamente para combinarmos os últimos detalhes no terraço e lá, David deu pra trás.

– Ele estava estranho, talvez quisesse me avisar ou me pedir em casamento. Perdão, não sei! – relembrou Dora.

– Aí você se enfureceu e o empurrou para fora do prédio? – perguntou Leo.

– Não foi assim! Eu fiquei furiosa, mas apenas saí e o deixei lá. Não matei o David, eu juro. O casal ridículo não valia isso! Ele a amava!

– Eu tenho pena de você Mell! – sussurra Dora arrasada.

– Pois não deveria, porque meu único desejo nessa vida é te ferrar com todas as minhas forças!

O barraco prometia entrar noite adentro até que o reitor da faculdade interrompeu.

– Bem, creio que seja tudo por hoje. Dêem o baile como encerrado e um ótimo repouso pra todos. Obrigado por comparecerem!

– Essa senhorita deve sérias explicações à polícia senhor reitor. – diz Leo, querendo prendê-la.

– Hoje não! Amanhã cedo ela estará na sua delegacia acompanhada de um advogado, eu prometo e me responsabilizo, conheço a família dela que tem muito prestígio e são meus amigos. Vou contar o ocorrido ao pai dela e tudo será esclarecido! – responde o reitor, tomando Mell pelo braço.

A noite acabou e o que deveria ter sido um baile para deixar Dora mais confiante em sua vida sendo retomada foi uma sucessão de pequenas tragédias.

– Até quando? – ela se perguntava indo embora com sua mãe.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap25.

Na manhã seguinte...

Eram ainda sete horas, Dora virava na cama expressando os rascunhos da noite mal dormida. Ela pensava desanimada em Alonso que dessa vez não a perdoaria, em Aidan e sua semelhança surreal com David e no barraco que aconteceu com Mell, no ódio que a ex-amiga sentia. Só mais detalhes de sua vida toda errada.

Inesperadamente o celular toca.

– Alô! – resmunga.

– Alô, Dora não desliga!

– Resolveu começar cedo seu plano de vingança contra mim! Você nunca levantou a essa hora antes na vida! Já sei! Deve estar achando que o detetive marcou com você de manhã pra me vingar e quer dar o troco? Se for isso, eu já estava acordada! E não tô a fim de recomeçar o pesadelo de ontem!

– Não é nada disso! Pára de falar e me ouve, é sério! – diz Mell num tom angustiado.

– O quê você tá fazendo? Mell, você tá correndo? Tá fugindo da polícia?

– Não é da polícia! Mas eu preciso ir embora de New Park e antes queria falar com você sobre tudo que aconteceu!

– Não é mais um daqueles planos malucos de vingança, porque se for quem tá passando dos limites agora é você! – diz Dora acordada e elétrica.

– Eu juro que não, você precisa saber de coisas que não faz nem idéia e pensando bem pude ver o quanto fui burra!

– Calma Mell! Não tô entendendo nada, o que você precisa me contar?

– Nós somos só peças manipuladas do jogo, e eu fui a pior de todas elas, agora sei o quanto errei com você Dora! Perdão! – grita.

– Mell? Se a gente se encontrar e conversar é claro que eu te perdôo! Venha e a polícia poderá te proteger! Podemos resolver tudo isso juntas!

– É tarde! Eu queria, mas o jogo acabou pra mim! – grita Mell chorando, seguido de uns ruídos estranhos de alguém se sufocando e esperneando.

– Mell? Mell? Meeeeellllllll!!!!! – grita Dora apavorada sem resposta, só o silêncio.

Música – Tings Ting – That’s not my Name – Tradução

Me chamam de 'Inferno'

Me chamam de 'Stacey'

Me chamam de 'ela'

Me chamam de 'Jane'

Esse não é o meu nome

Esse não é o meu nome

Me chamam de 'quietinha'

Mas sou uma rebeliao

Mary-jo Lisa

Sempre a mesma coisa

Esse não é o meu nome

Esse não é o meu nome

Eu vou errar se me jogarem a bola

Sou a última garota encostada na parede

Acompanhando, Caindo, esses saltos me deixam entediada

Ficando glamurosa e sentada em cima do muro agora

Tão sozinha o tempo todo, e eu

Me tranco

Me escute, eu não sou...

Apesar de eu estar arrumada, na rua e tudo mais

Com tudo isso em consideração, se esquecem do meu nome

(ome, ome, ome)

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap26.

Já fazia duas semanas que a polícia havia rastreado o local onde estava o celular de Mell. Não encontraram qualquer sinal dela ou pista de seu paradeiro, era só um beco perto da Escola de Artes Central, como qualquer outro, com o telefone jogado no chão sem nenhuma informação suspeita.

Depois disso Dora andava mais tensa que nunca, pois se culpava pelo desaparecimento. Os investigadores e até o detetive Leo achavam que Mell devia mais do que se supunha, por isso resolveu se fazer de vítima para Dora e representar seu desaparecimento, enquanto na verdade fugia. Mas ela sabia que não era bem assim, ou isso, ou Mell era o R, porque após voltar do beco na mesma manhã do fato, Dora encontrou o costumeiro cartão vermelho grudado na porta de seu loft em Holanda Garden. E esse dizia.

UM PRESENTE PARA VOCÊ! ELIMINEI UMA PEÇA QUEBRADA DO JOGO. AS PEÇAS NÃO PODEM DESAFIAR OS JOGADORES! NESSA RODADA FICAMOS EMPATADOS!

ESPERO NÃO TER QUE ELIMINAR MAIS NENHUMA, POIS SE PRECISAR EU FAREI! CONTO COM SUA AJUDA E SEGREDO PRA ISSO!

PS. BELA ATUAÇÃO NO BAILE. VOCÊ ESTAVA LINDA!

Dora pegou o cartão, releu-o várias vezes tentando descobrir algo e o guardou com os outros cartões e pistas no quadro Iluminati.

– Tem tanta coisa aqui! – pensou, vasculhando o fundo do quadro.

Mas mesmo com os acontecimentos, ela tinha que seguir a vida, pelo menos aparentemente, talvez R pudesse se distrair e errar. Ele era humano, estava perto para saber tudo sobre ela e cedo ou tarde poderia se entregar com uma frase ou gesto.

Começaram então os preparativos para o New Dad Day. Uma espécie de dia dos pais especial de New Park que conta com a ajuda de todos no bairro e é muito popular e pomposo, todas as famílias aparecem para uma recepção com brincadeiras, competições e um piquenique dançante à tarde no parque. Com Mell fora do caminho, a galera hipócrita voltou a falar com Dora e como era de costume, haviam passado uma borracha no assunto e já a tinham como a rainha que nunca perdeu o trono. Não se lembravam mais o que aconteceu, só tinham boca para falar mal de Mell para Dora e posicionar seu lado na briga.

– Eu jamais acreditei na Mell. Ela sempre foi uma piranha mesmo! Já pegou meu namorado, mas na época não contei porque ela era sua amiga, Dora. – diz uma das patricinhas.

– Mas ele não te largou porque você o chifrou com o motorista? Disseram que virou até padre, coitado! – perguntou Dora, se lembrando do caso.

– Não! Foi ao contrário, sofri tanto! – comenta, enquanto as outras fazem expressão de “mente que nem sente.”

– Nós nunca ficamos contra você Dora, a Mell nos obrigou ou nos matava! Aquela cadela assassina! Sempre ameaçando! – justificavam as outras.

Mas ela já estava vacinada contra isso, era o centro da roda, porém podia cair fora dela a qualquer sinal de deslize e reprovação das outras. Resolveu ficar por um tempo, após uma conversa que teve com sua mãe.

– Filha eu consegui falar com seu pai e ele virá para o New Dad Day desse ano! – grita Lara entusiasmada.

– O papai, aqui! Faz tanto tempo que ele não vem! – anima-se.

– Você sabe como ele é Caxias com o trabalho, mas esse ano eu insisti e ele virá!

– Pelo menos tem um motivo verdadeiro pra eu participar dessa festa idiota. Eu só ia porque o professor de Vitrinismo quer que a gente decore o ambiente. Como se usar os alunos pra coisa sair mais barato fosse trabalho acadêmico. Vá saber lá quanto deve estar ganhando por baixo pra isso! – ironiza Dora, saindo.

– Aonde pensa que vai mocinha? É agora que começa a nossa conversa! – diz Lara, fazendo um gesto com a mão direita para que Dora se sentasse na poltrona da sala de estar.

– O que foi mãe? – pergunta com desdém.

– Você sabe como seu pai é tradicional e não tolera as loucuras que acontecem por aí!

– Sim, e daí?

– Daí que ele não pode nem sonhar com os acontecimentos dos últimos meses! Você sabe, sobre ter ido morar onde Paris Hilton quebrou o salto e suas mudanças, vexames e confusões!

– E o que tem de mais se ele souber? Ah! Já sei, você quer dar a impressão que reinou absoluta, com tudo a sua ordem e gosto! Mas não foi bem assim que aconteceu! – grita Dora.

– Realmente não, mas vamos fazer de conta que foi! Você fica aqui pelo tempo que ele ficar, esquece aquele moquifo, coisas e pessoas que deixou por lá. – instrui Lara orgulhosa.

– Mas ele sabia que eu namorava o David, eu sempre disse que ia apresentá-lo pra ele quando viesse nos visitar! Um cara morto não se esconde fácil, ou a vontade dessa farsa é tão grande que a senhora pretende arrumar um jeito de desenterrá-lo e ressuscitá-lo também? Ou quem sabe o priminho venenoso Aidan tope um showzinho com a senhora? Eu não duvido, vocês são igualmente nojentos! – ironiza Dora, enfurecendo-se.

– Fica quieta garota! – grita Lara olhando profundamente nos olhos da filha. – Nós não somos a família perfeita, mas pelo menos por um dia seremos e todo mundo vai ver isso! – termina.

Dora se cala por um minuto e com os olhos marejados sussurra.

– Você não vê! Não adianta, ele não vai ficar. Nunca ficou por que ficaria agora? – perguntou. – Mas se vocês fazem questão tudo bem! A senhora e o piloto vão ter a minha total cooperação pra essa peça de teatro receber palmas da platéia. Quem sabe até peçam bis! – desabafou subindo a escada horrorizada com o pedido de Lara.

A que ponto a mãe podia chegar para brincar de família perfeita. Seu rosto queimava, as lágrimas rolavam e a cabeça latejava com um único pensamento emaranhado entre tantos, New Park era a sala de recepção do inferno e seus habitantes os recepcionistas.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap27.

Música – Home – Michael Bublé — Tradução

Outro dia de verão

Veio e foi embora

Em Paris e em Roma

Mas eu quero ir para casa

Talvez esteja cercado de
Um milhão de pessoas e eu
Ainda me sinto sozinho
Eu somente quero ir pra casa
Sinto sua falta você sabe

Na manhã de Domingo alguém bate à porta e Dora desce as escadas entusiasmada para abri-la. Embora a mãe tivesse feito toda aquela cena, Dora amava o pai e fazia tanto tempo que o piloto não vinha para casa que decidiu ignorar o acontecido e viver o momento por ele.

– Foi daqui que pediram um piloto particular senhorita? – perguntou o homem parado diante dela esboçando um sorriso.

– Foi daqui sim! E quero tratamento cinco estrelas senão reclamo com os seus superiores senhor! – respondeu.

Apesar da brincadeira, ambos se olhavam reparando como estavam diferentes da última vez que se viram há três anos, quando o pai entrou para uma importante companhia aérea e aproveitou para deixar a mãe veladamente. Lara usava as viagens do marido como justificativa e assim iam caminhando.

Depois de tanta reparação Dora quebrou o gelo perguntando.

– O quê foi? Eu não raptei sua filha e tomei a vida dela, sou eu mesma. Apenas cresci.

O homem ainda espantado comenta.

– Nossa! Eu sou pai de uma gata, e achava que você não ia me dar problema! – brincou observando o estilo paty da filha. – Achei que você teria um estilo mais próprio, mas seguiu direitinhas as regras da sua mãe e de New Park!

– Que bom que gostou! O senhor com esse uniforme também não está nada mal! Pra quem dava a vida por um All Star posso dizer que me surpreendeu na indumentária.

Finalmente se aproximaram e deram um desconcertante abraço nervoso que revelou suas verdadeiras impressões sobre o outro.

Eu continuo guardando as cartas que te escrevi
Cada uma com uma linha ou duas
“Estou bem amor, como você está?”
Bem sei que deveria te enviá-las, mas sei que isto não é o bastante
minhas palavras eram frias e sem graça
E você merece mais que isto

– Mas onde está sua mãe querida?

– Lá em cima se arrumando, pode entrar a casa sempre será sua, mas eu não posso ficar. Tenho que fazer um trabalho pra faculdade na festa. Envolve trabalho escravo de universitários e professores corruptos, mas é uma história chata demais. Te vejo mais tarde? – perguntou ela sorrindo.

– Claro! Não tem nenhum lugar no mundo que eu queira estar mais do que aqui!

Despediram-se e Dora foi para a praça, o pai após bufar entrou com suas malas, certo de que enfrentaria uma situação difícil com Lara.

Alguns minutos e quarteirões depois Dora estava na praça, a turma assim que ela chegou começou a adulá-la, ressaltando como ela era importante para o andamento da recepção e perguntando tudo o que podiam sobre a decoração esperando sua aprovação.

– Está ótimo! – dizia pra todos expressando uma abertura de lábios amarela.

O professor observava tudo e anotava na prancheta que tinha nas mãos. Gesticulando silenciosamente para que fossem mais rápidos. Dora odiava aquilo, estava mudada e se um dia os agitos de New Park a fizeram feliz, agora a entediavam mais que qualquer coisa.

– Vamos Dorita! Sem a sua animação não tem graça! Sabemos que você esteve fora por um tempo, mas volte pra nós! – disseram as garotas.

– Eu estou aqui! E não me chame de Dorita, valeu?

– Ops! – gritou uma delas levando à mão direita a boca.

Ela sabia que era maldoso aquele comentário, mas não se importava, pois seus olhos e ouvidos estavam atentos a outra missão no meio daquele bando de gente. Encontrar Alonso. Não o via desde a noite do baile e a saudade apertava em seu peito, pois ele não ligou mais, não apareceu nas aulas e simplesmente desapareceu. Dora pensou no princípio ser coisa de R, mas depois percebeu que ele só queria um tempo.

Outro avião
Outro lugar ensolarado
Sou sortudo eu sei
Mas eu quero ir pra casa
Tenho que ir pra casa

Me deixa ir pra casa
Estou tão longe
De onde você está
Eu quero voltar pra casa

Quando suas esperanças mais uma vez pareciam desaparecer, eis que Alonso surge como uma visão, do outro lado da rua prestes a entrar no parque. Estava lindo, com os cabelos aparados, uma calça jeans folgada, blusa comprida preta por baixo de uma camiseta azul marinho. O sol reluzia em seu rosto e adornava a feição perfeita trazida com o vento.

Dora ouvia uma canção entoada por anjos errantes em seus ouvidos e parecia ter poder suficiente para voar até ele, mas ficou ali paralisada pela surpresa, olhando focada para o ser mais importante de seu mundo, o centro do quadro onde sem Alonso nada teria simetria ou faria sentido. Ele trazia cores à tela em branco.

– Alonso eu te amo! – sussurrou para si como da vez que se descobriu apaixonada.

Este passou direto por ela e foi ajudar os outros alunos. Apesar dela tanto olhar e esbarrar, Alonso sequer notava sua presença e fingia muito bem que Dora não existia para seu desespero. Até que não agüentando a situação pulou em sua frente e lhe disse.

– Eu quero explicar, mas você não deixa!

– Eu já vi esse filme e achei muito ruim! Não gosto de reprises com cenas de escândalo e finais felizes que desandam. – ironizou seco.

– Não vou fazer cena, sei que você não gosta! Se pudesse me escutar só um pouquinho...

– Explicar o quê? Pra mim está claro que a dona de New Park cansou de brincar de menina pobre e voltou para seu lar!

Dora não sabia o que fazer para convencer Alonso, ainda mais por estar vestida como antigamente, deixando provado e inquestionável seu ponto de vista.

– Maldita hora que eu fui concordar com os planos delinqüentes da minha mãe! – pensava.

Para piorar a situação Aidan apareceu do nada ao seu lado. Alonso respirava pausadamente como quem se equilibrava para não cometer uma loucura.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap28.

Sinto como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa
É como se estivesse fora
Quando está tudo indo bem
Eu sei apenas porque você não poderia
Vir comigo
Mas isto não é o seu sonho
Mas você sempre acreditou em mim

– Esse elemento tá te incomodando amor? – perguntou irônico.

Alonso ia aproximando-se, mas viu o professor logo à frente. Preferiu guardar o que sentia e saiu. Aidan vitorioso continuou.

– É incrível como esses bolsistas só porque estudam com a elite acham que podem falar a altura! Por favor! – riu abraçando Dora. – Provavelmente se fizessem uma varredura a única coisa que iam encontrar de iguais em nós é a letra inicial do nome.

Ela o tira imediatamente perguntando perturbada com o rosto de Aidan.

– Olha pro que você tá dizendo, nem estuda aqui! Aliás, como foi que você veio parar aqui?

– Meus tios me mandaram fazer companhia pro Paris!

– E cadê ele? – perguntou olhando em volta.

– Por aí! Eles me disseram para acompanhá-lo e eu fiz, mas não falaram nada sobre ficar ao lado dele!

– Você é muito canalha mesmo! Coitado do Paris com você e o David tão iguais e cafajestes!

– Pode até ser, mas você gostava! Quem sabe ainda goste! – sussurrou apertando-lhe a cintura.

Dora sai correndo de Aidan que apenas ri pela brincadeira.

Nesse momento chegou Romeo procurando por Alonso, ele olha para Dora e imagina ser ela pela descrição, mas continua procurando pelo amigo. Aflito, finalmente o encontra.

– Alonso! Alonso!

– Romeo, você por aqui! Veio visitar as futuras nobres damas da sociedade? – brinca.

– Não é nada disso! Mas até que não são de se jogar fora! – comenta. – Mas não é por isso que eu vim!

– Então o quê é? Tá me assustando!

– Seus pais descobriram sobre algum acontecimento familiar na faculdade e estão chegando lá em casa pra te visitar!

– Tá de brincadeira! Como eles descobriram? Andou falando demais Romeo num ataque de pânico?

– Não! Eu não faço idéia! Só sei que se você não for lá vão acabar é chegando aqui!

– E agora, eu não posso sair com o cão de guarda do professor fungando nos nossos pescoços!

– É uma emergência! – grita Romeo sem ar.

– Tá! Tá! – diz Alonso olhando em volta enquanto pensa. – Ah! Eu não acredito, ela não! – lamenta avistando Dora.

– Eu preciso sair urgente daqui! Você pode me cobrir com o professor? – sussurra.

– Como? Se for por causa dos outros eu posso ir até eles e... — ia continuar Dora quando Alonso a interrompe.

– E eles vêm até mim como cães amestrados apresentar um número enquanto na verdade querem me matar, só porque a soberana mandou! Não, eu não preciso disso! – termina indo embora.

Outro dia de inverno está vindo
E indo embora
E mesmo em Paris ou em Roma
Eu quero ir pra casa
Me deixa ir pra casa

Enquanto isso pai e mãe tentam acertar suas diferenças em casa.

– Me surpreendi quando você disse que viria após tanto tempo fora! – comenta Lara. – Isso seria um recomeço? – sugeriu apoiando suas mãos sedutoramente nas costas do piloto.

– Não, não é e você sabe muito bem disso! – afirmou retirando as mãos dela instantaneamente.

– O quê você veio cheirar aqui então?

– Vim resolver o nosso divórcio! – diz retirando a papelada da pasta de viajem. – Quando fui embora acertamos tudo de boca, já é hora de legalizarmos nossa situação para seguirmos nossos caminhos!

– Como se um papel mudasse tudo! Você já seguiu o seu há muitos anos quando deixou a mim, nossa filha e nossa vida maravilhosa! – grita Lara.

– Vida maravilhosa, perfeita! Com você foi sempre assim, esse lugar vem primeiro que qualquer um. É tudo por New Park, sobre o que vão pensar, o que vão fazer, como vão receber! – grita também o pai.

– Como pode dizer assim do nosso lar! – admira-se a mãe.

– Um lar é onde nos sentimos bem e esse lugar só me sufoca, me aprisionou a vida inteira. Eu tentei, mas não queria ter a vida dos meus pais presos num porta retrato e mortos por dentro. Mas parece que pra você tá tudo bem, não é?

– Então a Dora é quem paga por você brincar de Peter Pan?

– Nisso eu errei, deixei-a aqui e agora ela é uma bonequinha de luxo! Nossa menina tem tanto potencial, não merece ser um objeto superficial na mão dessa gente!

– Isso você nem imagina! – sussurrou Lara.

– O quê? – perguntou o pai.

– Nada. Só estou chocada com tudo!

– Agora eu sei o que é paz, pois a tenho vivendo com a Mao na Indonésia onde só temos uma cabana, a praia e as águas.

– Já chega! Eu não quero saber da sua versão ridícula de Lagoa Azul. Se você quer a separação pode deixar os papéis aí! Vou pensar no seu caso. – disse a mãe virando-se de costas para o piloto, desolada.

Ele arrumou seus pertences e já na porta falou.

– Tomara que um dia você veja a verdade e seja tão feliz quanto eu estou sendo agora. – partindo e deixando a ex-mulher em prantos.

Estou cercado por
Milhões de pessoas
Me sentindo sozinho
Me deixa ir pra casa
Sinto sua falta você sabe

Na saída cruza com Dora que estava indo buscar os pais para as festividades.

– Onde você tá indo? – pergunta desconfiada.

– Estou indo para um hotel, mas já volto para irmos juntos! – mente o pai.

Dora não aceita e o piloto a consola.

– É preciso! Quando estamos longe muito tempo nossa volta causa a desorganização natural das coisas!

– Mas não é justo! Aposto que é coisa da Lara! – grita.

– Ela pode parecer forte, mas precisa de você. – e quase partindo no táxi lhe pede. – Filha me promete uma coisa, por mais que sua mãe peça não se dobre pra ela nem pra ninguém nesse seu jeito de ser!

– O senhor sabe sobre mim! – espanta-se. – E eu sei que dentro dessa mala tem um All Star surrado bem escondido!

– Por isso você é minha filha! Nós somos incorrigíveis! – brinca. – Até daqui a pouco! – grita na janela do carro partindo.

– Até mais tarde! – grita Dora chorando.

Me deixa ir pra casa
Eu tive minha chance
Baby, pra mim, chega
Estou indo pra casa

Dora voltou da porta de casa para o parque e quando chegou, lá estava Alonso recebendo no fim da arrumação uma bronca enorme do professor na frente de todos. Correu até lá dizendo.

– Ah Alonso! Você está aí! Obrigada por salvar a minha vida!

– O que a senhorita está dizendo? – perguntou o professor.

– O Alonso foi um herói trabalhando em off na arrumação, indo buscar os materiais que os fornecedores se negaram a entregar alegando falta de pagamento! Ele acertou com todos eles, inclusive levando um soco do entregador de toalhas de mesa! – contou com entusiasmo em detalhes.

– É mesmo? – perguntou Alonso espantado.

– Foi sim! Bem aqui! – mostrou agarrando e unhando vingativa a bochecha esquerda. – Imagine professor, podia ter sido o senhor! – gritou.

O mestre analisou e após um tempo discursou.

– Nesse caso o senhor dessa vez está perdoado, foi um verdadeiro herói! Mas se houver outra vez me avise, heróis anônimos são muito sem graça!

– Pode deixar! – afirmou Alonso.

Dora olhava para ele com cara de vitória.

– Viu como você precisa de mim? Não vai dizer nada, sei lá, algo como palavrinhas mágicas! – ironizou.

– Obrigado! – sussurrou.

– Podia pedir mais alto, mas como estou em falta com você isso já serve!

– Eu tinha coisas pra fazer e não dava para adiar! Você salvou o dia!

Ela ficou tão feliz que lhe deu um beijo selinho na boca e correu de volta para casa feito uma moleca. Alonso só ficou olhando sorrindo profundamente.

Chegou chamando por seu pai para contar o episódio, mas a casa estava em silêncio e ao vasculhar os cômodos encontrou a mãe virada para cama de pé, chorando encolhida olhando para um papel que estava sobre a cama. Quando viu a filha tentou disfarçar limpando as lágrimas.

– Ah! É você minha filha!

– O papai disse que viria pra cá pra irmos juntos ao New Dad Day! – disse estranhando o clima.

– Ele pediu desculpas, mas precisou viajar novamente! Acho que esse ano não vamos! Quem sabe o ano que vem? Eu estou com uma dor de cabeça terrível! – queixou-se Lara.

– Eu entendo! Quem sabe o ano que vem! – consola Dora lendo o papel.

– Se ele ficasse eu era até capaz de dizer que faço uma obra social com aquele Afonso!

– É Alonso mãe! – corrige a filha dando lhe um abraço entre risos e lágrimas. – Dona Lara a senhora é única.

Me deixa ir pra casa
Ficará tudo bem
Estarei em casa hoje à noite
Estou voltando pra casa

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap29.

Os dias passaram rápidos após o New Dad Day frustrado de Lara, que no primeiro momento não se conformou no ponto final dado pelo marido na relação. Mas a mãe de Dora não é mulher de se deixar abater por problemas de ordem maior. Segundo ela, o marido foi enterrado numa luxuosa e íntima cerimônia particular. Pelo menos é o que imaginava contar para os conterrâneos de New Park nos mínimos detalhes. Dora não agüentou a nova neura da mãe que até de viúva resolveu se vestir, indo ao shopping e reformulando o guarda-roupa inteiro com essa desculpa.

Voltou para seu loft em Holanda Garden, local que ela conhecia há tão pouco tempo, mas que já amava como se vivesse ali a vida toda. Chegou à noite e sem examinar nada resolveu cair direto na cama, só acordou de manhã com estranhas batidas na porta. Parecia que arranhavam e esmurravam-na com desespero até parar, recomeçando tudo de novo.

De início ficou com medo, pensando em ligar para alguém ou ignorar as batidas, mas depois com a incessante insistência, foi se encaminhando devagar para o barulho e quase sem respiração encostou seu ouvido esquerdo junto à porta. Apenas o silêncio era notado para de repente surgir um arranhão que prometia rasgar a madeira, Dora controlava-se para não gritar. Olhou pelo olho mágico e não viu ninguém, até que se encheu de coragem e gritou.

– Se for você R acho bom parar e ir embora porque eu já chamei a polícia e meus amigos!

Ouviu como resposta o silêncio, acompanhado de resmungos sem nexo. Como sempre, ela perdeu a paciência e se encheu de coragem para abrir a porta, furiosa. Já ia gritando novamente, quando observa o motivo daquilo tudo a seus pés.

– Mell! Meu Deus, o que fizeram com você? – pergunta anestesiada olhando o estado da moça.

Mell estava encostada na porta parecendo um trapo humano, vestindo um pijama velho e sujo, com os cabelos crequentos. Via-se que não tomava banho há muito tempo, não dizia coisa com coisa em seus sussurros e também estava faminta.

– Mell! Quem fez isso com você? Como você chegou aqui? Quem te trouxe? – perguntava sem pausa, desesperada tentando levantar a garota que teve medo dela quando se aproximou e arranhou a porta como protesto.

Dora tinha a mostra pela primeira vez do que realmente R era capaz. Pensava que só podia ter sido ele a fazer aquilo para não deixar nem sombra do que foi Mell. A brincadeira de gato e rato havia ficado séria e se tornado crime comprovado.

– Eu vou cuidar de você, vai ficar tudo bem! – disse chorando com raiva do R.

Pegou o telefone e discou.

– Alô!

– Alô, Alonso! Eu preciso de você, venha me ajudar, por favor, agora! – diz nervosa.

– Bom dia pra você também, Dora! Não é muito cedo pra brincadeiras?

– Não é brincadeira, eu preciso de ajuda! – grita, já com raiva de Alonso também pela enrolação.

Ele percebe que é realmente sério e com uma melhor entonação responde.

– Tá! É que você sempre brinca, já tô chegando, fica calma! – fala desligando o telefone e correndo para se vestir.

Dora levantou Mell com muita paciência, se aproximando devagar e praticamente a carregou com dificuldade até o banheiro onde a limpou como pôde e depois a colocou na cama. Quando Alonso chegou, ela estava deitada, mas muito agitada, Dora correu para recebê-lo.

– O quê aconteceu? – perguntou mostrando-se desalinhado como quem se vestiu as pressas, trazendo consigo uma surpresa.

– Você não imagina! Eu estava dormindo e de repente ouvi umas batidas estranhas na porta, fiquei com medo de abrir, mas depois me enfureci!

– Claro! É a nossa Dora! – desdenha Alonso.

– Me deixa terminar! Aí abri e quem estava caída aqui na frente? A Mell, ou o que restou dela!

– Ela estava morta? – perguntou frio.

– Não, mas tá quase de tão mal tratada. Acho que ela foi seqüestrada e os caras não tiveram a mínima pena.

– E por que você não chamou aquele detetive metido a sabichão, o Leo Turner?

– Eu nem pensei direito, você estava mais perto. Mas por quê? Não queria vir me socorrer? – desconversa Dora que não queria revelar sobre o jogo de R a fim de protegê-lo.

– Não é nada disso e você sabe!

Só depois de toda essa conversa é que Dora notou a surpresa de Alonso, ele estava acompanhado de um rapaz.

– E quem é esse? – perguntou curiosa.

– É meu amigo Romeo, que mora comigo, lembra? Achei que você podia precisar de mais ajuda e resolvi trazê-lo.

Romeo que estava calado até esse momento cumprimenta.

– Olá! É um prazer finalmente conhecer a razão de tantas loucuras do meu amigo!

– Ele está fazendo tipo! – diz dando uma cotovelada em Romeo.

– Vamos vê-la então! Quem sabe vocês me ajudam a arrancar alguma informação dela!

Iam se dirigindo para o quarto quando Romeo comenta baixinho com Alonso.

– Eu tenho que reconhecer que ela é uma ótima candidata para ficar com você no futuro! Parece ter as qualidades exigidas. – anima-se.

– Fica quieto, não é hora e nem lugar pra esses comentários!

Entraram quietos no local onde se dividia como quarto e puderam ver a garota um pouco melhor pelo trato que Dora lhe deu, deitada na cama muito debilitada. Não tinha nada do glamour que ela tanto defendia antes de desaparecer. Alonso e o amigo se impressionaram.

– Dora, temos que chamar o seu amigo detetive e um médico com urgência! – sussurra Alonso.

– Avisar os pais dela também seria uma boa idéia! – acrescenta Romeo.

Este, curioso aproxima-se de Mell para observar seu estado mais de perto quando a garota acorda num susto e recomeça sua lamúria descontrolada. Agarra as mãos de Romeo lhe olhando profundamente com olhos marejados dizendo.

– Eu sou uma peça quebrada! Todos nós somos, precisamos ser consertados antes que nos joguem fora!

Todos se assustaram, principalmente Romeo que não era atraído por fortes emoções. Tentou se soltar.

– Alonso me ajuda! Essa maluca não quer me soltar, bem que você me disse que a vida dessa Dora não era comum! Estou aqui só há meia hora e quase virei comida de zumbi! – confessa baixinho para o amigo.

– Cala a boca Romeo! Fica aí apoiando a Mell que eu vou fazer umas ligações com a Dora e já volto!

– Não Alonso! Aqui sozinho! E se ela for uma louca agressiva? – pergunta trêmulo.

– Não fale besteiras Romeo! Não queria ajudar? Conhecer a Dora? Pois teve o que queria! Bem vindo ao nosso mundo de aventuras! – respondeu Alonso deixando o amigo só.

– Nervoso o seu amigo! – comenta Dora.

– É só o jeito dele, mas é a melhor pessoa que você pode ter ao lado numa emergência. – defende Alonso.

Foram chamar toda a cavalaria enquanto Romeo segurava a mão de Mell que não o soltava por nada. Após algum tempo ela se acalmou dos ataques e dormiu profundamente, o amigo medroso de Alonso então começou a gostar de ser o porto seguro de alguém, pensou em como a garota seria sem toda aquela sujeira e psicose, olhando em volta para tocar rápido e com os dedos tremendo o rosto de Mell, num afago carinhoso que a fez suspirar aliviada.

Um barulho se fez e ele disfarçou o ato com um meio sorriso que não escondia a alegria repentina, Mell curiosamente também pareceu sorrir. Sua expressão era da menina que agora sonhava bons sonhos e apesar de presa por muito tempo numa torre havia finalmente sido libertada por seu príncipe.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap30.

Pouco depois das ligações de Dora e Alonso os pais de Mell chegaram acompanhados por um médico e pelo Detetive Leo. Uma confusão de curiosos, imprensa e interessados tomou conta do lugar e Alonso aproveitou a oportunidade para sair à francesa. Até Romeo foi esquecido na fuga. Dora reparou bem nisso e quando a situação se acalmou decidiu que iria descobrir porque ele fugia sempre que tinha alguma coisa pública acontecendo.

– Eu vou descobrir seu segredo Alonso, seja você príncipe, bandido ou super-herói! – pensou.

Ligou para Leo Turner e pediu para acompanhá-la nessa investigação. Ficou combinado que iniciariam no dia seguinte, após a saída da faculdade.

– Olá Dora!

– Olá Detetive! Obrigada por me ajudar nessa suspeita!

O carro de Turner seguia Alonso de longe que dava passos cautelosos em cada rua que entrava. Como se estivesse com medo de ser seguido. Dora preocupando-se cada vez mais comenta.

– Se o Alonso for o R eu não vou me perdoar por ter caído tão fácil no jogo dele. Principalmente depois de tudo que passamos e das coisas que eu descobri sobre o David.

– Não se preocupe Dora! Se for ele é só o típico caso de dedo podre pra escolher homem! Mais comum do que você pensa! Você ficou com o David enquanto ele aprontava todas, depois com o Alonso quase de imediato pra descobrir sobre o outro, enquanto eu estava aqui e você não me enxergou! É o que eu ganho por ser um bom rapaz! – suspira concluindo a brincadeira.

Dora foi ficando vermelha, e desconcertada não respondeu nada. Chamou a atenção de Leo para onde Alonso ia.

– Olha ele está entrando naquela mansão! – gritou.

– Nossa! Seu amigo deve ter grandes influências pra conhecer alguém na Golden Rose! – disse Leo.

Ela com o coração apertado defendeu.

– Não! Com certeza ele está só trabalhando! – gritou.

– Ah! Claro, ele trabalha de quê mesmo? – desdenhou Leo.

Dora calou-se sem resposta com a insegurança lhe roendo a alma.

Ambos seguiram Alonso a semana toda e sempre era esse o caminho principal depois da faculdade. Com cuidado dobrava as ruas até ir parar na frente do casarão em Golden Rose. Ficava por lá uma hora aproximadamente e quando saía fazia coisas que não condiziam com seu status bancário. Comprava roupas em lojas de mais altas grifes, ia a restaurantes badalados e conversava com figurões. Alguns lugares eram classificados altos demais até para os padrões de Dora.

Ela só acompanhava toda a esbanjação do mais novo milionário, abismada, pensando como ele era capaz de ser tão humilde e diferente na faculdade diante dela e parecer outro longe. Pois enquanto ela se segurava para não deixar transparecer que o seguia, ele contava dias inteiros de uma vida que ela sabia serem mentira. A única coisa que fazia sentido na história que ela já nem sabia que partes eram reais é que toda a tarde ele voltava para Holanda Garden, para uma casa que de longe era a melhor do bairro e Romeo também morava lá.

Leo acompanhava a angústia de Dora.

– Calma! Eu investiguei aquela casa e descobri que pertence a estrangeiros da Baviera erradicados no país por cortesia do Consulado. É só um homem que está viajando chamado Inaldo e sua esposa Corália. Então eu juntei os pontos e... – não quis terminar.

– E o quê? – pergunta Dora soltando os bofes.

– Acho que ele se faz passar pelo cara ou é um simples michê, garoto de programa ou até cafetão! – lançou.

– Não é possível, ele não tem cara dessas coisas!

– Se você tivesse a experiência que eu tenho saberia que não há caras para o que as pessoas fazem! – explica.

Dora estava acabada achando que já sabia o segredo de Alonso, combinou de se encontrar com Leo no sábado de manhã para surpreendê-lo. Porém o Detetive ligou um pouco antes do horário combinado desmarcando o flagra, pois estava preso numa ocorrência, teriam que fazer isso outro dia. Ela entendeu, mas ficou furiosa por não poder acabar com o suspense de vez.

Coincidentemente Lara estava chegando nesse momento para visitá-la quando ela tomou uma decisão tempestiva.

– Se não tem você Leo Turner, tem Lara! – sussurrou para si.

E gritando para a mãe começou a alertá-la sobre uma liquidação que precisavam ir imediatamente senão perderiam as melhores peças.

O furgão não pegava então ela correu para o carro de Lara.

– Pisa fundo mãe! – gritou.

– Nossa é a minha filha mesmo! O quê você tomou? Onde é essa liquidação, aliás? – perguntou brecando o carro desconfiando das intenções da filha.

– Fica em Golden Rose! – respondeu Dora entusiasmada.

– Não precisa falar mais nada, já gostei! – Arranca novamente com o Jaguar, recuperando o ânimo.

Dora pretendia encontrar Alonso na frente da mansão para por tudo em pratos limpos, coisa que Lara nem desconfiava, mas a mulher que se mantinha fina até certo ponto seria muito útil se houvesse um barraco básico com os moradores da casa.

Enquanto isso, numa clínica psiquiátrica não muito longe dalí, Romeo estava visitando Mell. Entrou devagarzinho, por não saber qual seria a reação dela.

– Olá moça! – cumprimentou segurando um buquê de azaléias.

Mell, abrindo os olhos preguiçosamente respondeu.

– Olá! Desculpe, mas você é...

– Romeo! O cara que você não soltou mais a mão até chegar aqui. Eu estava na casa da Dora com você, quando... você sabe! Mas como está passando? Melhorou, lembrou quem fez isso com você?

– Não! Mas eu tenho dúvidas se quero lembrar, devo ter sido muito ruim para terem feito isso comigo! – responde entristecendo-se.

– Pelo que me consta você não fazia parte da Liga da Justiça, mas também não trabalhava para Lex Luthor. – brinca.

– Ha-Ha-Ha! – ri Mell do comentário – Mas independente de eu me lembrar ou não, vou ser diferente do que eu fui e seguir adiante. – termina séria.

– Mas para ser diferente é preciso se lembrar e isso vai acontecer na hora certa. – apóia-lhe acariciando o rosto como na primeira vez.

Ambos ficam quietos, imóveis se entreolhando. Aproximando-se cada vez mais sem notar, porém Mell quebra o clima.

– As flores são pra mim? – pergunta desviando o olhar.

– São sim, pra você! – responde Romeo dando-lhe sem tê-las onde colocar.

Conversaram a tarde toda após o ocorrido, como sempre ele segurava a sua mão para se divertirem com os desenhos que passavam na televisão. Mell reluzia sorridente e em nenhum momento trazia de volta a sombra perversa de outros tempos.

Mas em Golden Rose, Dora e sua mãe chegavam ao portão da mansão.

– É aqui querida? Abriu alguma nova sede da Taslu?

– É mãe! Como você sabia! E parece que tá tendo uma festa de inauguração! – diz Dora.

Realmente estava havendo uma festa na mansão, e totalmente louca seguiu o plano adiante e entrou de penetra. Felizmente os seguranças apenas perguntaram o nome a Lara e anotaram, pensando ser da imprensa.

– Filha, as pessoas estão super bem arrumadas, algumas até de gala! Será que não é melhor irmos pra casa nos arrumarmos melhor? – perguntou Lara enquanto andavam pelo jardim da casa.

– Não! Estamos perfeitas, despojadas para o dia, essas pessoas é que são bregas por ostentarem, amanhã vão aparecer nas colunas sociais como despeitadas! – convenceu Dora.

Ela olhou para todo o canto, do garçom até o último convidado, mas nada do Alonso. Resolveu entrar no casarão que mais parecia um palácio. Esbarrou enquanto admirava num mordomo que ao olhar para ela admirou-se, parecendo saber de algo.

– A senhorita é perfeita mesmo! Seja bem vinda! – cumprimentou saindo.

– Eu, hein! Cara mais estranho! – disse espantada.

Tudo soava confuso até que os alto-falantes instalados pela casa anunciaram.

– Senhoras e senhores, chefes e representantes de nações eu tenho a honra de apresentar a vocês os Digníssimos representantes da Baviera nesse país. O Cônsul Inaldo Aloha juntamente com sua esposa Corália e seu filho Alonso.

Os três desciam as escadas do salão principal imponentes, trajando roupas de gala onde Alonso mais parecia um príncipe.

Dora respirava fundo para não chorar, confusa e desesperada por não entender o que estava acontecendo.

– Então ele era um príncipe! – sussurra para si mesma, pensando em suas três suspeitas iniciais enquanto esperava ao pé da escada.

Alonso a vê conforme vai se aproximando, porém cumpre angustiado o protocolo até o final. Assim que pode vai em direção dela e da mãe que está petrificada.

– Esse morto de fome é rico! Não pode ser! – bufava.

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– Não comenta muito alto Lara senão o Cônsul escuta e percebe que eu roubei o filho deles e tô me passando por ele. – ironiza vitorioso.

Alonso pega Dora pelo braço e a leva para uma sala reservada. Ela está meio alheia, sem digerir o acontecido, sua cabeça balançava num pesadelo bizarro e encantado onde ela era a criada enganada.

– Se divertiu muito se fazendo de pobre coitadinho enquanto ria dos suburbanos? – pergunta chorosa.

– Agora é a minha vez de explicar! – enfatiza Alonso.

– Eu não tenho tempo para hipócritas! – grita Dora que lhe dá um tapa na cara, mas é rendida com um beijo ardente.

Música – Name – Go Go Dolls — Tradução

Cicatrizes são recordações que você nunca perde
O passado nunca está longe
Você mesma se perdeu em algum lugar lá fora?
Você conseguiu ser uma estrela?
E você não fica triste por saber que a vida
É mais do que nós somos?

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap31.

Música – Un-thinkable (I’m Ready) – Alicia Keys – Tradução

Momento de honestidade
Alguém tem que tomar a liderança essa noite
Quem vai ser?
Eu vou ficar sentada bem aqui
E dizer enquanto se trata de mim
Se você tem algo a dizer
Você deve dizer isso agora

Mesmo sucumbida pelo beijo de Alonso, Dora foi mais forte para voltar a si e dar-lhe um tapa na cara que não aceitaria suborno como forma de explicação. Ficaram quietos por um tempo, um em cada canto da sala. Pensando cabisbaixos por onde começar as resoluções dessa longa história. Até que Alonso resolveu começar.

– Eu posso explicar agora? – sussurrou.

– Se você for começar com mais mentiras é melhor...

– Não! Dessa vez será tudo verdade, eu juro que só lhe brindarei com a verdade, pra provar o meu amor de uma vez por todas! E se depois da explicação você disser que não me perdoa, eu entenderei e sumirei da sua vida pra sempre!

Dora pareceu relutante no início, mas depois se sentou calada, concedendo-lhe uma chance. Alonso recomeçou.

– Você já ouviu falar na Baviera?

– Acho que sim! Um país que fica do outro lado do oceano! Mas o quê isso tem a ver? – ela perguntou sem entender.

– Meu pai é Cônsul de lá! E eu deveria estar lá também se não fossem alguns problemas sérios! – respondeu pensativo.

– Problemas? Você não é daqui então? – Dora espantou-se.

Alonso, nessa hora a olhava com olhos tristes, sabia que contar seus segredos custaria o amor que tinha. Mesmo assim, tomou coragem e replicou.

– A Baviera é um importante centro comercial que une diversos países nos mais diferentes ramos de negócio, por isso o país vive pisando em ovos para ser bem guardado em seu direcionamento, pois se alguma coisa sair errada as conseqüências poderiam ser catastróficas. O maior problema que eles tem por lá é a família real que por mais que o parlamento tente dissuadir sempre acaba falhando e são eles quem tomam as decisões finais.

– Mas você não precisa ficar no meio disso, seu pai é só um Cônsul e está tão distante da Baviera. Não sei como isso te afetaria?

– Meu pai é só um Cônsul como você diz, mas eu sou o próximo representante da família na linha de sucessão! Deveria ser meu pai, mas a verdade é que nós somos desse país e não da Baviera. E com certeza eu seria só um bolsista na Faculdade se não fosse por meu tio o Rei, que não tem filhos nem mulher descobrir-nos em Holanda Garden.

Dora o ouvia boquiaberta sentindo as palavras de Alonso pesadas conforme saiam de sua boca, ganhando seus ouvidos em choque.

– Isso tudo é inacreditável e confuso demais! E eu que achava que já tinha todos os conflitos do mundo. Agora você me vem também com todos do universo? Acho que não posso ouvir mais nada! – diz Dora saindo da sala, quando Alonso segura em seu braço e pede que fique.

Ela cedeu, retornando de fasto para trás ficando a poucos metros da porta no que seria a última e indecisa chance de explicar.

– Há uns dez anos meu tio estava sozinho e doente pressionado pelo parlamento a entregar o poder, porém ele é um homem teimoso e mandou em segredo que investigassem por parentes desconhecidos. Foi quando ele soube que o pai dele, meu avô teve um caso com uma secretária particular que era estrangeira. O rei então na época querendo abafar o escândalo mandou a secretária de volta a seu país de origem sem saber que ela esperava um filho dele. Meu pai então nasceu e ficou sem saber sobre sua paternidade até o dia que meu tio mandou nos buscar e o nomeou Cônsul da Baviera pra que ele e minha mãe pudessem desfrutar das mordomias da realeza.

– Esse enredo tá pior do que das novelas que minha mãe assiste! Mas ainda não ouvi nada que te obrigasse a fazer parte do Clube do Pinóquio! – gracejou Dora querendo aliviar o clima super tenso.

– Meu tio tentou de qualquer jeito validar os direitos do meu pai, mas o parlamento negou dizendo que ele era ilegítimo e não tinha a formação adequada. Aí ele muito esperto deslumbrou meus pais com tudo que pôde e o poder subiu-lhes a cabeça, tanto que se esqueceram de mim. Meu tio distorceu as leis e me fez seu sucessor que se prepararia com a devida formação. Passando a perna no parlamento e fazendo muitos inimigos radicais.

– Mas isso é um absurdo! Alguém te perguntou alguma coisa? – revolta-se Dora.

– Não! E mesmo que perguntassem eu só tinha doze anos! O pior foi crescer no meio dessa guerra de gente falsa que me adulava enquanto tinham seus próprios interesses. E como eu correspondia as expectativas exigidas para assumir o trono, conspiravam até sobre meu assassinato.

– Eu imagino seu sofrimento! Se há uma coisa que eu não permito é que me controlem! – Dora comove-se.

– Não tenho dúvidas de que em qualquer parte do mundo, em maior ou menor escala todos nós vivemos numa New Park! Há uns dois anos eu simplesmente cansei da minha vida e voltei pra Holanda Garden, pra terminar minha formação e cumprir meu destino. E nesse meio tempo eu devo me encontrar, me divertir e procurar uma esposa a altura da Baviera. – disse olhando-a carinhosamente. – Condições impostas por meu tio pra que eu viesse. Meus pais ficaram irados, achando que iam perder a boa vida com o meu retorno, por isso vieram também e se acham os donos do mundo. O rei e a rainha fora do reino, por isso eu os escondo da minha vida universitária, ou logo as coisas seriam como na Baviera. – terminou.

– Mas ainda ficaram algumas pontas soltas! Por exemplo, o Romeo?

– Ele é meu secretário e melhor amigo. Nos conhecemos desde crianças antes de eu ir embora.

– O medo da polícia e tudo que represente ser público?

– Eles poderiam me reconhecer ou ainda contar o que fiz a meus pais que inventariam uma desculpa pra que eu tivesse que voltar pra Baviera.

– É, parece que você tem resposta pra tudo! – sussurra Dora indo embora.

– Espera! Aonde você vai? – pergunta Alonso sem entender.

– Pensar, Alonso! Pensar... – já estava passando da porta quando Lara a puxa com violência pra dentro novamente e discursa escandalosa.

– Filha eu não sei o que esse sujeito te contou, mas com certeza é mentira! Isso tudo é uma armadilha pra te prender. Eu jamais faria qualquer coisa pra te prejudicar, só queria te proteger!

Dora encara a mãe com surpresa e dispara.

– Eu não faço idéia do que você está falando Dona Lara!

Lara recobrou o juízo percebendo que havia falado demais no afobamento. Começou a puxar a filha em sentido contrário.

– Me desculpe! Nem sei o que estou dizendo depois desse King-Kong que você me fez passar! – desculpa-se fitando Alonso misteriosamente.

Dora desvencilhou-se da mãe e se sentou novamente.

– Lá vamos nós outra vez! Mãe quer ter a honra de começar a falar ou eu vou ter que arrancar a verdade em suaves e cansativas prestações?

– Dora querida eu mandei que esse rapaz... – Lara ia dizendo quando Alonso tomou a palavra.

– Dora nós não nos conhecemos por acaso! Sua mãe queria alguém que ficasse perto depois dos momentos difíceis que você passou, por isso contratou alguém pra te proteger!

– Vigiar! Você quer dizer! E esse alguém é... – soltou bufando de raiva pelo abuso, apesar de já ter atinado quem era o espião.

– Foi pra chamar sua atenção que eu respondi atravessando sua resposta, e não foi por acaso que eu apareci pra te ajudar na mudança. – contou envergonhado.

Lara recomeçou.

– Você estava se descontrolando com facilidade, as pessoas comentavam por todo lado. Então resolvi contratar um segurança, mas como você jamais iria aceitar, ele teria que vir disfarçado de amigo! Aí procurei os nomes dos bolsistas da faculdade porque eles aceitariam o trabalho e estariam lá o tempo todo sem desconfiança! – conta com ar de vacilo.

– Foi então que Lara me encontrou por engano, pois eu só me matriculei como bolsista pra despistar! Eu ia recusar, mas quando ví sua foto minha voz comandou meu corpo e acabou aceitando e eu não me arrependo! – disse Alonso sorrindo. – Ela começou a me instruir onde você estaria e como deveria fazer pra chamar sua atenção.

– Por isso você apareceu pra me ajudar em Holanda Garden e logo depois ela chegou! – compreende Dora enojada.

– Tudo se perdeu quando obviamente não aceitei o dinheiro e Lara pensou que eu tinha intenção de ficar com você pra dar um golpe!

– Pensava não! Ainda penso! – grita Lara.

– E estamos nessa guerra que você já conhece quando nos encontramos, mas ninguém teve coragem de revelar nada pra você!

– Era pro seu bem, pra te proteger minha filha! Se esse cara não fosse tão complicado você não se machucaria com mais essa sordidez! Vamos querida, você não precisa ficar aqui nem mais um minuto ouvindo esse verme!

– Ela me xinga com a boca cheia, mas se esquece que tentou me atropelar no final do baile e ligava fazendo cobranças! Agora não se lembra como me agradeceu por eu ter te seguido até a Carnation Street daquela primeira vez! – ofende-se Alonso.

– Eu só te liguei, e se alguém tentou te atropelar é porque você deve mais do que pensa! – retruca Lara.

Dora estava no meio dos dois exaltados, com as mãos tapando as orelhas na tentativa de não escutar nada daquilo. Seus olhos jorravam lágrimas dolorosas na respiração profunda. Até que dá um ponto final na discussão.

– Príncipe, espião, o que mais você vai me contar até o fim do dia? Vem cá! Você é desse planeta? Porque se não for é só piscar e dizer que esse é o momento! E claro a Santa Dora compreensiva vai entender! – ironizou irada.

Mal ela terminou as portas se abriram bruscamente e o Detetive Leo apareceu do nada. Nenhum dos três entendeu sua aparição, mas Lara tinha que desabafar a curiosidade em um comentário.

– Ah não! Só falta o país dele ser simpatizante ao terrorismo e eles revelarem que escondem Osama Bin Laden em algum buraco!

Detetive Leo que conhecia Lara resolveu ignorar o que ela dizia e ser direto. Já haviam muitos ultrajados com a situação, especialmente os pais de Alonso.

– Estou apenas dando uma busca geral em conta de uma denuncia anônima recebida esta manhã.

Não demorou muito e Leo desceu as escadas com uma mochila reconhecida como sendo de Alonso que continha diversos cartões vermelhos, fotos de David, de Mell sendo torturada, algemas, remédios, drogas e uma arma. Tudo confiscado para averiguação. Alonso ao ver a cena se desesperou, porém não mais do que Dora. Chorando e algemado desvencilhou-se dos polícias para falar com ela.

– Dora acredita em mim! Eu não fiz isso, jamais teria coragem de te trair e brincar com você desse jeito! – diz trêmulo e embargado pelo nervosismo.

Ela apenas olha para ele, e como se não estivesse enxergando nada fala.

– Pois não foi isso que você e minha mãe acabaram de provar!

Após dizer isso ela sai deixando para trás um rapaz de coração quebrado, uma mãe desnorteada e um circo de luxo.

– Eu preciso de ar! – grita desesperada enquanto corre pelas ruas sem destino.

Alonso é levado para a delegacia.

– E eu que vim pra cá pra ficar longe de confusões! – pensa.

Por que desistir antes de tentarmos?
Sentir os baixos antes dos altos
Amarre as nossas asas antes de voarmos para longe
Não posso dizer que não se pode comparar
Estou suspensa no ar
Você não vem ficar no céu comigo?

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap32.

Música – New Perspective – Panic! at the Disco

Eu sinto as ondas salgadas chegando
Eu as sinto bater contra minha pele
E eu sorrio ao respirar, porque eu sei que elas nunca irão ganhar
Há uma neblina sobre minha TV
Que muda tudo que eu vejo
E talvez se eu continuar assistindo
Eu perderei os traços que me preocupam

O relógio marcava o tempo perdido das horas de angústia em que Dora só queria esquecer que existia. Deviam ser cerca de 22h45min quando ela finalmente achou o rumo de casa. Apenas entrou e se deitou na almofada em frente à TV, seu corpo doía, a cabeça pesava em pensamentos confusos que não davam em lugar algum. Ligou-a para tentar esquecer o mundo, e a luz repentina em meio à escuridão fez notar a expressão pálida e seca de tanto choro e lástima.

Para variar, os canais não sintonizavam e ela não conseguia ver nada, procurou numa gaveta algum DVD que pudesse assistir. Foi quando encontrou um em especial, colocou-o imediatamente e assistiu jogada na almofada as cenas que se passavam em New Park há pouco mais de um ano. A galera se divertia junto com Dora e David, Mell sempre estava ao lado e eram tão felizes. David era tão lindo, jovem, puro. Mell a amiga que morreria para defendê-la e Dora, a garota mais cega e egocêntrica que já deve ter pisado na face da Terra.

Ela via a filmagem com ar de pavor, era como se um estranho estivesse assistindo sua vida passada. Aquela Dora ria demais, maltratava pelo simples prazer de dominar e não enxergava nada do que se passava a sua volta.

– Que garota idiota! Ela merece tudo que está acontecendo! Pena que agora ela sou eu! – conclui confusa pegando no sono.

Nós podemos ir logo ao que interessa?
Espere um pouco me deixe corrigir isto
Eu quero viver a vida de uma nova perspectiva
Você veio junto porque eu amo seu rosto
E eu irei admirar seu gosto refinado
E quem liga para intervenção divina
Eu quero ser elogiado de uma nova perspectiva
Mas partir agora seria uma boa idéia
Então me acompanhe para cair fora daqui

De manhã o celular toca e num susto ela pula da almofada, sentindo os primeiros sintomas da noite mal dormida.

– Alô!

– Eu preciso que você venha aqui na delegacia imediatamente prestar seu depoimento! – intima Leo Turner.

– Ah! Bom dia pra quê, né? Agora já virou bagunça. Ninguém diz o nome só ordena e a essa infeliz, cabe obedecer! – ironiza Dora.

– Bom dia Dora! Me desculpe, é que estou atrás de você desde ontem à tarde, aliás não só eu como sua mãe, mas você sumiu e eu preciso que venha depor sobre o que aconteceu ontem, urgente! Quem diria que seu amiguinho cafetão acabou virando suspeito dos crimes!

Dora, seca não deu trela ao comentário de Leo e apenas respondeu.

– Vamos acabar com isso! Daqui a pouco estarei aí! – desligando em seguida. Leo ficou abismado com a reação dela.

Não demorou muito, ela estacionou o Furgão na frente da delegacia e recepcionada pelo Detetive contou tudo o que fez desde a hora que mentiu para a mãe até o momento em que ele rompeu a porta da sala do casarão.

– É só isso que aconteceu? – perguntou Leo sério.

– É sim! Se você cumprisse melhor suas promessas estaria lá comigo e veria tudo, sem a necessidade de tanto interrogatório! – respondeu irritada.

Ele já ia liberá-la quando um carcereiro cochichou em seu ouvido. Leo então se virou para Dora e disse.

– Olha, eu sei que você está cansada e que não é fácil o que vou te pedir, mas peço que pense com carinho! É que o rapaz ficou sabendo que você estava aqui e quer te ver, acho que deveria aceitar porque poderíamos observar se ele diz algo suspeito, que o acuse!

Dora começou a lacrimejar os olhos, sua pulsação aumentou e ofegante respondeu sem pensar.

– Pode ser!

Mais importante, eu preciso mostrar
O quanto eu posso ir e voltar
Outros planos falharam
E colocaram uma carga pesada em você
Eu sei que não há nada mais que precisa ser dito
Quando eu estou me arrastando pela sua cama
Ao invés disso olhe em volta e me veja partir

E lá estavam os dois frente a frente numa saleta escura, com uma mesa os separando. Um espelho enorme em um dos lados, Alonso permanecia algemado e demonstrava abatimento pela noite na cadeia.

– Quem é R? – perguntou Alonso sussurrando de cabeça baixa.

– Você deve saber muito bem! – respondeu Dora enfática.

– Você realmente acha que eu sou esse louco que te persegue, que até ontem nem fazia idéia que existia? Nossa garota, eu acho que não te conheço! Em que parte da história você decidiu me fazer de palhaço enquanto andava pra cima e pra baixo atrás desse suposto assassino? Quando ia me contar da sua compulsão de Sherlock Holmes?

– Pronto! Já vai se fazer de vítima! – ela grita quase se levantando.

– Não, pelo que eu sei esse não é meu papel! – ironiza.

– Eu não faço idéia se você é o R, um príncipe ou o espião da Lara. Tudo que eu sei é que você mentiu demais e agora não quer pagar pelo que fez!

– Se eu menti não foi mais do que você, foi pra te proteger...porque eu te amava! – confessou desconcertado.

– Então somos dois porque a ingênua e indefesa aqui pensou a mesma coisa!

– É, parece que nosso erro foi amar demais! Mas isso agora acabou! – dita Alonso.

Dora então se cala surpresa. Alonso continuou.

– Isso não está dando certo! Desde que eu conheci você, minha vida tem sido uma sucessão de desastres, e olha que antes já não eram poucos. Eu nunca sei o que vai acontecer no próximo minuto numa escala entre a melhor coisa do mundo e ir parar na cadeia acusado de assassinato. Eu adorava a sensação, mas não dá mais! – E tomando fôlego sentencia. – É melhor parar por aqui antes que aconteça o que nem sei como ainda não aconteceu, a morte de um de nós dois!

Agora é ela quem abaixa a cabeça tentando esconder as lágrimas, não disse nada como resposta, saiu apressada na primeira oportunidade em que a porta se abriu. Alonso apenas suspirou magoado quando Dora o deixou sozinho na saleta sem sequer dar-lhe adeus.

Não é justo, apenas me deixe aperfeiçoar isto
Não quero viver uma vida que era compreensiva
Porque ver claramente seria uma má idéia
Agora me acompanhe em sair fora daqui
Então me acompanhe, eu estou caindo fora daqui

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap33.

Toc – Toc!

A porta se abre rápida ficando nas mãos de quem batia a incumbência de fechá-la.

– Não perderam tempo em fazer o trabalho sujo! Ou você ainda continua com os planos de vingança? – pergunta Dora.

Ela se referia a Mell que finalmente deixou o hospital, acompanhada de Romeo que não se separava mais dela.

– Nem uma coisa, nem outra! Só vim agradecer o que você fez por mim! – respondeu Mell docemente.

– Então por que trouxe junto o Capitão Coragem aí?

– Ele está cuidando de mim! Acho que pela primeira vez na vida posso dizer que tenho de verdade um amigo. – ela respondeu tocando o ombro de Romeo.

Dora, engolindo a crítica real comentou sem jeito.

– É, dizem que ele faz isso!

Um silêncio constrangedor tomou conta dos três. Mell então respirou fundo e começou.

– Eu não me lembro de nada ainda do que aconteceu, mas tenho certeza que Alonso não é o cara que estão procurando. Não foi ele quem me pegou, eu não sinto nada de estranho em relação a ele!

– Pronto! Tava demorando com a comissão de defesa! Olha pra quem tem essa cara de santo eu tenho que concordar, o Romeo é muito bom manipulador. Ele e o Alonso estão fazendo o serviço direitinho! – diz Dora.

– E depois dizem que a malvada da história sou eu! Dora presta atenção no que você está dizendo, junte os fatos, pense um pouco. O Alonso não fez outra coisa senão ficar do seu lado. Te protegeu nas horas mais improváveis que ninguém mais acreditaria ou te ajudaria. Te perdoou tantas vezes! – grita Mell segurando a amiga.

– Ele só fez isso porque era o trabalho dele pra me espionar pra minha mãe! – sussurra Dora balançada.

– Não foi nada disso, e você sabe! Só não quer dar o braço a torcer, por ter magoado um cara tão legal quanto ele. – termina.

– E se for verdade? O que eu faço? É tarde demais, ele encerrou qualquer possibilidade de relacionamento quando fui à cadeia. – desilude-se.

Romeo que ouvia toda lamuria inconformado desabafa.

– Você e o Alonso são tão Shakespirianos! Sempre colocando empecilhos no que deveria ser simples! Você gosta dele, ele gosta de você. Claro, tem um maluco atrás de você e há pouco tempo ficou viúva! Mas... – deduzia resmungando até que Mell lhe dá um tapa. – Mas o importante é que vocês se amam e deveriam se unir pra enfrentar juntos tudo o que acontece e ao invés disso saem brigando ao menor sinal de problema. E o pior, fazem meus ouvidos de pinico, quando não me insultam ou me taxam de assassino honorário. – continuava.

– Romeo! Romeo! – chama Mell.

– O quê foi? – grita irritado com a interrupção.

– Ela já entendeu, não é Dora? – diz Mell com expressão de “Pelo amor de Deus concorde pra ele calar a boca.”

– Com certeza! Ele está na casa de vocês? – pergunta Dora esperançosa.

– Não! Os pais o obrigaram a ficar com eles em Golden Rose ou teria que voltar para a Baviera. – responde Mell pesarosa.

Dora então corre para o Furgão, deixando os amigos que agora ela sabia serem de verdade dentro de casa observando sua reação. Em poucos minutos estava nem sabe como na frente da mansão em Golden Rose. Os seguranças não a deixavam entrar, tentou pular o muro atrás da casa, mas foi pega e levada para uma salinha dos empregados para ser interrogada.

Esperou tristemente, achando que seria presa sem falar com Alonso, porém a portinhola se abriu dando lugar a uma conhecida voz.

– Ora, ora! Como o mundo dá voltas! – desdenha.

– Por que tanta gente me fala isso? Você se surpreenderia com o número! – diz envergonhada.

– Não será porque você sempre age impulsivamente achando que está por cima da carne seca, mas o mundo te prova o contrário bem rapidinho?

– É, eu até assisti as cenas! Tenho gravadas pra provar seu ponto de vista!

– Mas o quê de tão importante te trouxe aqui, a ponto de invadir a casa de um assassino. Correndo o risco de ser assassinada? A necessidade realmente faz coisas incríveis com as pessoas! – comenta irônico olhando para cima.

– Segundo dois amigos meus, você não é tão perigoso quanto pensei!

Alonso se aproxima de Dora misterioso, a expressão não revelava suas intenções. Foi chegando devagar, se agachando, tão perto de seu rosto a ponto de Dora estremecer os brios e quase beijá-lo mandando tudo as favas. Porém quando ele conseguiu o efeito que queria, apenas empurrou a cadeira em que ela estava sentada dizendo.

– A polícia não precisa perder tempo com os seus chiliques! Vamos para a sala de reuniões e aí você fala o quer de uma vez!

Dora desnorteada apenas o seguiu. Ele ainda mantinha a cara enigmática quando entraram e se sentaram. Alonso estava muito formal na cadeira de reuniões. As roupas sociais eram adequadas a posição ocupada, até seus cabelos estavam diferentes, penteados como os de um engomadinho. Ela percebeu isso e esperava que Alonso não tivesse se transformado também por dentro. Antes de iniciarem a conversa um senhora uniformizada entrou e manteve-se calada e carrancuda de pé ao lado da porta, até que ele a dispensou.

– Nada por agora Helga, obrigado!

A mulher saiu do mesmo jeito, feito um soldado recebendo a dispensa de seu general.

– Você tem três minutos antes da Conferência Internacional. – intima ele.

– Eu só vim pedir desculpas pelo que aconteceu na prisão. E te dar outra chance. Proponho que a gente se una pra descobrir quem é o R de uma vez por todas!

– E o que te fez mudar de opinião? Pelo que eu saiba até hoje de manhã o tal R era eu!

– Uns amigos me abriram os olhos, e se não é você então essa é sua chance de provar!

– Primeiro, eu não pedi pra que esses amigos te procurassem! Segundo, não preciso provar nada pra ninguém! E terceiro, você tá me magoando mais uma vez me pedindo isso! – diz pausadamente sentindo-se ferido.

Dora então se levanta indo em direção a saída. Alonso mantêm-se imóvel com as mãos sobre a mesa, embora quisesse não interrompeu a partida assim como ela também não olhou para trás. Mais uma vez o orgulhoso imperava sob o amor.

Chegou em casa contrariando o estado de espírito com que saiu. Mas a resposta definitiva a seus problemas estava lá, debaixo da porta em forma de um cartão vermelho e dizia.

OK! EU NÃO SOU O ALONSO! MAS FOI DIVERTIDO VER VOCÊS NESSA DÚVIDA DE DRAMALHÃO MEXICANO. O JOGO ACABOU!

VOU MOSTRAR QUE SÓ EU A MEREÇO E FAREI ISSO HOJE!

ME ENCONTRE NA ESCOLA DE ARTES CENTRAL À MEIA NOITE.

ASS. R.

PS. VOCÊ NÃO SE ARREPENDERÁ, EU GARANTO!

Ela olha no relógio e percebe que já são 21h34min, apenas deixando o cartão na mesinha, correndo rumo a escola para descobrir finalmente quem R era.

Estava entrando quando encontrou Paris no portão.

– É só assim que a gente se encontra! – grita Paris animado.

– A vida anda complicada, você sabe! – diz Dora ofegante.

– Algum problema Dora? Parece abatida, posso te ajudar? – preocupa-se.

– Não! É só a correria mesmo! Mas me diz, o quê você está fazendo aqui essa hora? A faculdade fecha as dez! – ela pergunta curiosa.

– Eu prefiro esse horário porque é vazio e ninguém me enche! – justifica.

– Já eu, vim pra pegar um livro de última hora que faltou pra um trabalho. Espero que não tenham trancado a biblioteca!

– Eu te faço companhia então! – diz Paris.

Dora tentou dispensá-lo, mas não teve jeito, ele a acompanhou até que disse que iria ao banheiro e o encontraria na biblioteca.

– Rápido, senão nos trancam aqui! – gritou enquanto Dora seguia.

Ela esperou até que a escola fechasse e as luzes apagassem, contando que Paris tivesse ido embora a essa altura, cansado de esperar.

Começou a procurar no escuro pelas salas e corredores algo de suspeito, alguma luz acesa, qualquer coisa que desse sinal de vida humana, porém não havia nada. Caminhou sem direção certa até escutar urros no escuro, percebeu que vinham do teatro, Dora andou pé ante pé entrando sorrateira pela lateral. De repente constatou num susto que os urros vinham de Mell que estava no chão a frente do palco amarrada e amordaçada. Correu trêmula para ajudá-la.

– Mell, de novo o quê está acontecendo aqui? Você viu ele? Quem é, a gente conhece? – perguntou chocada.

Mell de volta ao velho estado só conseguia dizer.

– Eu disse pra ele que eu tô consertada, mas ele não quer acreditar! Uma peça quebrada não tem conserto! Diz pra ele que é mentira! – grita descontrolada.

Dora a solta e manda buscar ajuda. Continuou sua busca pelo doente perseguidor.

– Eu sei que você tá aqui em algum lugar, não adianta continuar com esse joguinho de gato e rato. Eu sei que sou mulher o bastante pra me expor aqui sozinha, disposta a te conhecer e ouvir seus argumentos. Resta saber se você é homem pra fazer o mesmo! – grita olhando para todos os cantos escuros de que R poderia estar observando. Seu medo é que ele pulasse de onde menos se esperasse para surpreendê-la.

Enquanto isso Romeo ligava as pressas para Alonso.

– Cara eu estou preocupado com a Mell e a Dora! – diz amedrontado.

– Por quê? Não se preocupe, se há uma coisa que eu aprendi em New Park é nunca confiar nas garotas! Devem estar fazendo uma besteira qualquer pra depois jogarem na nossa cara que foi culpa nossa! – fala Alonso despreocupado.

– Não meu! A Mell não está em lugar nenhum, depois que voltou ela tem pânico de ficar sozinha. Já liguei pra todo mundo que ela pudesse estar e não a encontrei. A Dora nem em casa está! – desespera-se.

– Vai ver estão juntas! – suspeita Alonso. – Mas tudo bem, vou até aí!

Alonso encontra-se com Romeo na frente do loft de Dora. Bate, insiste, mas nada dela. Já preocupado manda que Romeo vá buscar o detetive Leo. Pensa, até que toma uma decisão.

– Desculpe Dora, eu juro que conserto! – diz arrombando a porta.

O cartão foi a primeira coisa que viu e ao lê-lo saiu correndo também para a Faculdade.

– Droga! O quê você pensa que está fazendo Dora. Eu já te disse uma vez que arrogância não dá super poderes! – pensa.

Na Escola de Artes Central Dora ainda não havia obtido resposta de R, quando de repente as grossas cortinas vermelhas do palco começaram a se levantar, por trás delas é revelada uma visão aterradora. Paris estava no meio do cenário pendurado pelo pescoço com uma corda o enforcando, parecia morto. Dora gritando tentou tirá-lo dela, mas foi inútil.

Ela apenas se virou e desceu para a platéia. Ficou parada com o choque sem perceber que uma movimentação acontecia atrás dela. Foi sentindo uma mão gelada e suada tocar-lhe os ombros que vivaz perguntou.

– Booo!!!!! Eu sou um ótimo ator não sou? Merecia um Oscar pela minha atuação. Não é fácil interpretar essa personagem sonso que é o Paris. Fica pior se a peça se chama vida!

Dora diante disso só conseguiu gritar.

– Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!

Música – Depeche Mode – Wrong – Tradução

Errado (4X)
Eu nasci com o signo errado na casa errada
Com ascendência errada
Eu peguei a estrada errada
Que levou para
As tendências erradas
Eu estava no lugar errado na hora errada
Pela razão errada e a rima errada
No dia errado da semana errada
Usando o método errado com a técnica errada
Errado (2x)

Há algo errado comigo
Não pode ser algo errado comigo
Inerentemente
A mistura errada nos genes errados
Eu alcancei os finais errados pelos meios errados
Era o plano errado nas mãos erradas
Com a teoria errada pelo homem errado
As mentiras erradas, nos sentimentos errados
As questões erradas com as respostas erradas
Errado (2x)


Eu estava marchando para o tambor errado
Com o imoral errado
Urinando a energia errada
Usando todas as linhas erradas e os sinais errados
Com a intensidade errada
Eu estava na página errada do livro errado
A opinião errada do gancho errado
O movimento errado
Toda noite errada
Com a nota errada tocada até que soe certa Yeah
Errado (2x)

Errado

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap34.

Ela se vira em direção à voz.

– Paris! Que brincadeira idiota é essa? Dessa vez você passou de todos os limites! – grita Dora histérica.

– Ha-ha-ha! Nossa! Nem se eu enfiar uma faca no seu peito você vai perceber, não é? – diz Paris possesso. – Por que você me acha tão incapaz, fraco e inocente? No fim tudo isso é perda de tempo porque você jamais descobriria que eu sou o R. – termina decepcionado.

– O R é você, mas por quê? E justo comigo, eu que só te ajudei e não fiz outra coisa senão te defender de New Park inteira a ponto de ser expulsa! Você não sabe o quanto sofri esses meses!

– Ah eu vi sim! Olha o que você tá dizendo? Me ajudou? Defendeu? Será que era isso que eu queria de você? Sempre me viu como um garotinho ingênuo e bobo, alguém que jamais estaria à altura da divina Dora. Talvez pegasse bem defendê-lo, mas dar a ele o que merecia, a atenção que queria aí já era demais. Porque como todos os outros, você me acha um estranho e no fim das contas o único sentimento seu em relação a mim é pena! – grita encarando-a.

– Se é realmente isso que você acha eu não posso fazer nada! – sussurra trêmula deixando uma lágrima solitária escorrer. – E se eu já senti alguma coisa boa por você se transformou nisso tudo que você disse, pois só sendo muito covarde e estranho pra seqüestrar e aterrorizar pessoas como você fez!

Quando Paris se afastou frustrado com as palavras duras que ouviu Dora tentou correr para a mesma saída lateral que havia entrado, mas ele foi rápido e conseguiu agarrá-la pela cintura arrastando-a de volta e jogando num assento da platéia.

– Você é um covarde! Desgraçado mentiroso, mas foi perfeito! Realmente enganou todo mundo sendo o incompreendido! Quem dera usasse essa habilidade para o bem, pra enfrentar os problemas! – diz limpando-se enojada dos braços de Paris.

– Eu te falei quem eu era o tempo todo, no baile e em todos os lugares. Usando máscaras de injustiçado, de amigo, de bonzinho, carente. E você é uma hipócrita porque disse pra todo mundo que mudou, mas não foi capaz de ver a verdade bem de baixo do nariz. Francamente, alguém que passa por uma transformação interior tão profunda de monstra líder fashionista a defensora dos pobres sem estilo certamente perceberia o quanto o “Pobre Paris” era Fake. Mas você não viu nada, não é? Porque nunca olhou realmente pra mim! – grita com violência avançando sobre ela.

Dora encolheu-se na cadeira assustada e ofegante. Surpresa com esse novo Paris desequilibrado que possuiu o corpo do outro.

– Mas qual o motivo real de toda essa história? Você só falou e falou e eu ainda não entendo, por que ser vítima quando podia ser o maior dos vilões?

– Porque eu te amo Dora e só um coitadinho perfeito poderia te conquistar pela dependência! Meu Paris estava na medida certa, mas você se encantou pelo David sabe-se lá o motivo e depois com o caminho livre surgiu o Alonso. O que você viu nesses caras? E olha o nome desse outro! – responde debochando.

– É simples, eles eram de verdade enquanto você é uma mentira!

– Ah tá! Um macho alfa que não valia nada e um príncipe falsificado de um paísinho de quinta que te seguia pra sua mãe e só te contou a verdade porque foi obrigado! Mas você mereceu eles, você me merece e nós todos nos merecemos, essa é a grande verdade final! – ri ironizando.

– Não é bem assim, nossas escolhas foram com a intenção de fazer a coisa certa, enquanto você só pensou em ferrar New Park inteira! – desespera-se Dora.

Paris sentou-se na cabeceira do palco e observando Dora acabada no assento falou vitorioso, porém carregando uma expressão de pesar.

– Pistas pra você ganhar o jogo não faltaram! Eu realmente fui bonzinho! – diz fazendo doce. – Mas agora você perdeu e terá que se casar comigo! – dita eufórico.

– Ca-ca-sar!!! diz Dora recuperando-se do seu estado de letargia.

– Ha-ha-ha! Sua cara tá impagável! Faz a minha loucura valer à pena! Acalme-se! Eu só tava brincando, pelo menos por enquanto! O objetivo do jogo foi outro, provar a você (e eu consegui) que ninguém desse lugar maldito presta a não ser eu e agora você irá embora comigo!

– Pra briga ou casamento é preciso que os dois queiram e de você agora só quero distância! – esbraveja tentando sair mais uma vez.

Paris a alcançou e a pegou pelos cabelos arrastando novamente até o assento. Dizendo sem paciência.

– David era o sol enquanto eu era o asteróide invasor do sistema solar!

Só então ela se deu conta do pior ponto em Paris ser R e nesse momento Dora fez a pergunta mais difícil de toda sua vida.

– David? Quer dizer que você matou seu irmão? – espanta-se, pois tinha uma esperança que ele havia enlouquecido com o assassinato e não o cometendo.

– Não, eu jamais seria capaz de matar o meu querido irmãozão! – responde Paris após certo mistério.

Logo após a resposta ouviram a porta principal do teatro ranger ao fundo, era impossível distinguir quem estava entrando em meio a escuridão. Dora não se levantou, pois sábia que Paris a agarraria novamente. Decidiu então gritar rapidamente.

– Soocoorrro!!!! Tem um cara louco aqui querendo me seqüestrar!!!

Após o pedido de ajuda Paris facilmente a soltou e ela instintivamente correu na direção do suposto salvador. Só quando chegou bem perto pôde perceber que tinha a silhueta de alguém conhecido e de repente num susto confirmou suas suspeitas.

– Aidan? – perguntou trêmula. E sem ouvir uma resposta continuou. – Seu primo está louco, quer me raptar! Foi ele quem matou o David, seqüestrou a Mell, me manda os cartões! Ele se faz de sonso, mas na verdade quer destruir com todo mundo! – conta desnorteada.

Ele pega em seus braços e começa a rir compulsivamente. Olhando fixamente em seus olhos, dizendo algo sem dizer, mas que na verdade ela já deveria saber.

– Aidan, você está nisso também? Acorda! Ele matou o próprio irmão, seu primo! Aidan? – pergunta desconfiada.

– Tente de novo, querida! – ele responde recompondo-se.

Dora sem acreditar na loucura que se passava na sua cabeça perguntou novamente.

– David?

Escutando a seguinte resposta.

– Olá Dora! Que saudades que eu senti de você!

Música – Snow Patrol – Ask Me How I Am – Tradução

Ninguém nunca te perguntou como você está?
você parece que não vai durar até o fim do dia
Eu não teria conseguido ir muito longe
então nós poderíamos formar um bom time agora mesmo
Eu não compensei por ontem
Meu lábio não vai me tirar disso
Acordar tremendo, ouvindo contos
De que todos os meus pesadelos são verdade

Eu tomo fôlego e pego o telefone
Secretamente esperando que você não esteja em casa

Eu deixaria uma mensagem — que eu estava fora
Fora de mim, bêbado e drogado

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!