Ela Veste Preto, Mas o Baile é Cor de Rosa
1 Continuação
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap5.
– Eu só estava ensaiando uma coreografia que estou criando e precisava de um lugar calmo pra dar um tempo. – diz refazendo-se do flagrante.
– Ah, claro! Bem que me disseram que ela estava ficando louc... – cochicha Mell, que não engoliu a desculpa.
Dora a interrompe antes que ela pronunciasse a última letra, perguntando.
– Ficando o quê?
O clima entre elas estava cada vez mais tenso e só não ficou pior porque começa uma muvuca perto da piscina e ambas são atraídas pra lá.
– Resolvemos depois! – diz Dora.
– Será um prazer querida! – sussurra Mell rindo maquiavelicamente.
A dona da festa logo entendeu o único motivo que levaria à confusão qualquer recepção dada em New Park, gritando.
– Paris!
– O que ele está fazendo aqui?
– Eu o convidei achando que você ficaria mais à vontade Dorita, mas não precisou e ele levou a sério o convite, eu não imaginava, realmente tenho que admitir que ele tem coragem!
– Nossa Mell... – bufa Dora no cúmulo da paciência.
Os rapazes estavam segurando Paris pelos braços enquanto o garoto que se dizia antes melhor amigo de David falava.
– Se você acha que o quê aconteceu muda alguma coisa, tá muito enganado, você continua sendo um alienígena pra nós e seu irmão covarde provou que era um também! – terminou rindo.
– Ou vai ver se matou porque não agüentou viver com esse maluco. – ri outro deles.
– Caia fora daqui agora ou vai preferir sair jogado?
Paris não responde nada, apenas se mantêm firme e quando iam jogando-o para fora, um deles tem uma idéia.
– Esperem! Antes ele precisa tomar um banho pra não dizer que não aproveitou nada da festa!
– Joga! Joga! – todo mundo grita.
– Calma gente, esse garoto está meio perturbado, ele já tá saindo! – grita Mell tentando acalmar o pessoal.
– Mas Mell você me conv... – tenta falar Paris.
Ela finge que não escuta e continua.
– Dêem um crédito, gente! – diz tirando o menino das mãos dos caras.
Até que Dora não agüenta mais a hipocrisia e explode.
– Cheggaaaa! Parem com isso, que espécie de animais são vocês que se acham melhores que todo mundo! Não respeitam ninguém nem nos piores momentos, um bando de urubus podres que só querem ver a carniça do outro.
O silêncio era geral, todos estavam assustados com a crise que Dora havia acabado de ter, mas no fundo estavam mesmo com medo da verdade que ela havia jogado na cara deles e que se não fosse ignorada destruiria todo o reino dourado de relacionamentos de New Park. Mas o silêncio é quebrado.
– O que foi Dora, se somos urubus você é a nossa rainha porque caso não esteja se lembrando quase todo mundo que está aqui já foi projeto seu, não eram adequados a seus padrões e agora que está por baixo dando uma de maluca quer que a galera te siga também? Acho que não queridinha essa você perdeu. Você tá tão maluca quanto esse Nerd e se quiser sair com ele ninguém vai te impedir, isso eu garanto.
– Eu errei sim, mas reconheço isso agora e ainda a tempo de me salvar de você, sua manipuladora!
Dora tremia, mas estava aliviada por dentro por ter aberto seu coração, aquele sentimento de reprovação estava com ela muito antes da morte de David e este momento era só o estopim.
– Que grupo patético! Um alien, um suicida covarde e uma patricinha neurótica! O que mais falta? – desenha o rapaz dando apoio a Mell.
– Falta o banho! – responde Dora furiosa.
– Alôooo! Que banho? – pergunta Mell sem entender nada.
– O banho que você e esse desgraçado vão levar agora!
E indo pra cima deles, a menina os empurra na piscina caindo junto e brigando com Mell que gritava.
– Ela está me atacando, tragam a camisa de força!
O pessoal não fazia nada, só curtia a cena e Paris acompanhava com espanto e orgulho da amiga. Mas Dora logo cai em si.
– Não vale à pena! E o David não se matou ele foi assassinado, um dia todos vocês vão saber. – diz largando-a e saindo da piscina.
Ela corre até a porta do jardim ignorando os lados, e antes de sair olha para trás e sussurra.
– Adeus New Park!
Música: Goodbye – Natalie Imbruglia
And I don’t understand the things I do
But Ill probably be fine
As long as I keep moving
Ill try to write it down
So things just keep improving
Still the words won’t play
Cause there’s no easy way to say
Goodbye, Goodbye
E eu não entendo as coisas que faço
Mas provavelmente eu ficarei bem
Enquanto eu continuo me movimentando
Eu tentarei escrever
Então as coisas continuaram improvisando
Mas as palavras não funcionam
Porque não existe um jeito fácil de dizer
Adeus, Adeus
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap6.
– Não acredito nisso!
– Dora, você está bem? – pergunta Paris correndo em sua direção para fora da mansão.
– Ah! Estou, é que essa confusão toda me pegou de surpresa!
– E com você estranh...digo Paris, tá tudo certo?
– Ah, claro tá tudo bem e pode me chamar de estranho mesmo, você eu não ligo. – diz o garoto rindo. Você vai pra casa agora?
– É eu vou. Ia pegar um táxi, mas molhada desse jeito é melhor ir andando! – responde Dora tirando o excesso de água dos cabelos com as mãos.
– Nesse caso deixa eu te salvar uma vez na vida e te acompanhar, são só algumas ruas mesmo, logo chegaremos antes que você pegue um resfriado! – brinca Paris.
Começaram a caminhar então com passos lentos e proveitosos, quase que num passeio no meio da tarde ensolarada pelas ruas do bairro.
– Tudo bem então! – concorda. Desculpe se às vezes sou impulsiva demais pra te defender é que eles me tiram do sério e já faz algum tempo. Eu era assim, como pude ser tão cega?
– Não Dora, tá tranqüilo, você só queria que eles me respeitassem e eu sou um tanto permissivo também, preciso ser mais firme, você tem razão.
– E como vai indo a vida estranho? – pergunta querendo mudar de assunto.
– Do jeito que dá! É meio esquisito não ter alguém na casa vindo do nada pra te chamar de bobalhão biruta ou riscar os seus DVDs de ficção científica, até todos os gibis que comprei no mês estão inteiros. Quando é que isso acontecia? – termina tentando ser irônico.
– Ah, sei. Vocês não se davam muito bem, não é? Eu sempre dizia que ele precisava te compreender mais. – diz Dora após algum silêncio.
– Ele compreendia do jeito dele, passou!
– E pra você, Dora?
– Pra mim, as coisas estão acontecendo independente de eu querer ou não, mas acho que é disso que eu preciso impulsividade. Talvez a falta dela me tenha trazido até aqui, então chega, eu preciso mudar, tem umas coisas que eu estou pensado... – ia dizendo quando Paris segura em suas mãos e começa a falar depressa e ofegante.
– Sim! Eu também sinto isso, nós podíamos mudar juntos, eu sempre senti algo por você, algo que caras como o David nem sonham que exista para ser oferecido a uma mulher. Eu posso fazer o que você quiser realizar seus sonhos mais profundos. Eu te amo Dora! – grita no final olhando fixamente em seus olhos, todo vermelho e tremendo não se contendo em si próprio.
Dora ainda em choque com a revelação solta suas mãos e começa a falar.
– Eu respeito esse seu sentimento, mas você entendeu tudo errado, eu preciso de um tempo pras coisas se firmarem em seus lugares, encontrar o meu espaço no mundo e... – hesitou em falar.
– E o quê? – quis saber Paris.
– E se eu me envolver com alguém seja o tempo que for não será com o irmão do David. De alguém que eu amei tanto! – soltou.
– Mas nós não éramos nem parecidos! – tentar argumentar quase chorando, furioso com a rejeição.
– Eu sei, mas é o que eu sinto, não dá pra ser, me desculpe! – desabafa antes de sair correndo e virar a esquina em direção a sua casa desaparecendo das vistas de Paris. Ele não se conforma e quase não se agüentando pensa.
– Ela diz que quer mudar, mas na verdade é como todos os outros. Tudo bem Dora, eu te mostro como o David era príncipe encantado! – rindo descontroladamente.
Não bastasse isso quando ela finalmente entrou em casa sua mãe a aguardava com aquela cara amarrada que só fazia quando tinha alguma verdade atravessada na garganta.
– Onde você estava mocinha?
– Eu vim andando, tô toda molhada! – justifica Dora.
– Eu sei, a Mell me ligou histérica e contou tudo sobre o seu showzinho egocêntrico na piscina. Que descontrole é esse minha filha? – pergunta Lara também se descontrolando.
– Meu showzinho, me poupe a senhora sabe muito bem como é a Mell!
– Sei, mas ultimamente você tem estado tão esquisita sem ânimo pra nada nesse eterno luto trancafiada e no primeiro contato exterior o que podia ser um retorno memorável se transforma num surto psicótico! Que Deus me perdoe, mas o que você quer, ser uma excluída como o Paris, porque é isso que vai acontecer se você defender tanto ele.
– Não se preocupe mãe, eu não vou mais ver o Paris. – diz resignada.
– Que bom, você sabe que eu só quero o seu bem e que a vida é assim, em nenhuma cultura se perdoa um suicida, com as pessoas de New Park não será diferente, em breve vão esquecer o David em definitivo e esquecerão quem estiver preso a ele, mas ele se foi e você está aqui. Me promete que vai pensar a respeito?
Dora fica olhando enigmática a mãe gesticular seu discurso e ao ser perguntada quebra o silêncio e responde.
– Ele não se suicidou, alguém o matou, algum desses covardes infelizes que estão julgando, mas isso não vai ficar assim, um dia a verdade vem à tona. – fala entre dentes sucumbindo ao ódio.
– Ah, minha filha o que te faz acreditar nisso? Queira logo você veja a burrada que está fazendo antes de perder tudo. – resigna-se Lara.
– Me deixa em paz! Eu sei! – sussurra a garota.
A mãe passa por trás dela deixando a sala e lhe dá um beijo na nuca dizendo.
– Tudo bem querida, vá se trocar.
Ela ia deixando a sala também e com o primeiro pé na escada viu quando empurraram um cartão vermelho por debaixo da porta, olhou pelo olho mágico, mas não avistou ninguém. Dora pôde notar a figura de uma rosa enorme no cartão e ao virá-lo estavam escritas apenas essas simples palavras.
SEU NAMORADO NÃO SE MATOU.
ELE FOI ASSASSINADO.
ASS. R
Dora leu aquilo com uma terrível dor dentro de si, mas também tinha um egoísmo alegre por provar que estava certa, se não estivessem brincando com ela, claro. Apenas ficou em pé ao lado da janela para refletir.
– Eles vão ver David, vão ver!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap7.
Dois meses depois...
Música: Bruno Mars — Just The Way You Are
When I see your face
There's not a thing that I would change
'Cause you're amazing
Just the way you are
And when you smile,
The whole world stops and stares for awhile
'Cause girl you're amazing
Just the way you are
Quando eu vejo o seu rosto
Não há nada que eu mudaria
Pois você é incrível
Exatamente como você é
E quando você sorri
O mundo inteiro pára e fica olhando por um tempo
Pois, garota, você é incrível
Exatamente como você é
– Nossa como o tempo passou rápido, e quanta coisa aconteceu! Essa não era pra ser a minha vida! – pensa enquanto entra no enorme prédio da Escola de Artes Central.
Logo ela se dirige para o interior do pátio onde todos os alunos estão esperando para iniciar a aula inaugural do primeiro dia desse semestre.
Só não contava com o esbarrão que recebeu de repente de alguém já conhecida que deveria estar em outro lugar.
– Mell? Você por aqui, não era pra estar nesse momento na Faculdade de Moda em Florence? – espanta-se.
– Eu resolvi mudar de curso, me deu uma súbita vontade de fazer artes, designer ou é só você que pode ter essas crises de consciência? – pergunta sarcástica.
– Não, é que eu pensei que moda era tudo pra você!
– Pensou errado! E se acha que se livrou de mim e de New Park está muito enganada também, ninguém se esqueceu da sua loucura e principalmente eu daquele empurrão na piscina! Não pense que sua estadia aqui será fácil porque eu farei o possível pra que não seja. Eu e toda a galera, certo meninas? – perguntou para as meninas que a acompanhavam enquanto ria.
– E a propósito, você piorou muito cortando esse cabelo curtinho. E esse macacão com coturno, sabe a quantas eras não se usa mais isso? Realmente Dora, você se tornou um fracasso e o pior chegou aí sozinha! Tá precisando de um daqueles seus projetos!
E vendo que o Reitor terminava seu discurso despediu-se.
– Bye! AMIGA!
Dora engoliu em seco, estava cansada de brigar, agora era hora de ter calma e deixar os dias rolarem. Mas ela seria novamente posta a prova com o que lhe aguardava na porta da sala de aula!
Seu coração começou a saltar, sua boca ficou seca e a cada passo que dava mais pra perto dele ela ia, era Paris que a olhava se aproximar fixamente.
– Ah não! E agora ele também, tá todo mundo me seguindo? Coragem Dora – sussurrou.
Mesmo assim seguiu adiante, meio sem jeito chegou ao inevitável encontro.
– Oi Dora!
– Oi!
Um breve silêncio encabulado tomou conta dos dois.
– E então, tá sumida! – recomeçou Paris.
– Não, só dando um tempo de tudo, mas agora acabou! – reanimando-se.
– Mas e você, resolveu fazer designer, um geek?
– É eu pretendo ir para o lado dos quadrinhos com os projetos, na verdade eu queria estudar filosofia, mas meus pais não quiseram jogar o dinheiro que gastaram com a matricula do David e me “mandaram” em seu lugar. – fazendo aspas com as mãos para justificar o mandaram como obrigação.
– Você deveria seguir o caminho que escolheu e não para cobrir alguém. – ela reclama.
– Mas e você, não está aqui por ele está?
– Não, embora pensem eu realmente gosto de designer, montar coisas e desenhos do nada.
O professor já se aproximava para a aula e Dora ia se afastando para entrar na classe quando Paris a chama mais uma vez.
– Me desculpe! – cochicha.
– Pelo quê?
– Você sabe! Aquele discurso louco depois da festa, eu me exaltei, não tinha nada a ver. Seja minha amiga! Me perdoe! – suplicou.
Dora estava insegura quanto a perdoá-lo e depois ter outra surpresa daquelas, ela ia acompanhar o professor, porém gira de volta e segura na mão de Paris que estava entristecido e sorri após ver o sorriso que ela lhe deu quando segurou em sua mão. Ambos foram para a sala. A aula ia começar.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap8.
O professor se apresentou como sempre se faz no início das aulas, disse o nome do curso e muito blábláblá sobre a matéria ensinada que seria história da arte.
– Como se já não soubéssemos. – sussurra Dora entediada.
– O que mocinha, disse alguma coisa? – pergunta o professor que parece ter ouvidos supersônicos.
– Não foi nada, só estava admirando a beleza dos quadros que o senhor está mostrando nos slides.
– Melhor assim, pois eu não admito gracinhas de espécie alguma durante a minha aula. Os engraçadinhos que guardem suas lorotas pra outro professor, eu respeito a arte e vou ensiná-los a amar também ou...
– Ou o quê professor? – pergunta um dos alunos curiosos.
– Ou... vocês descobriram durante o semestre. Certo senhorita? – perguntou para Dora fazendo cara de nojo.
Ela apenas deu um meio sorriso, pensando que precisava desfazer a má impressão que passou pra esse professor, sempre foi ótima aluna e não pretendia estragar sua reputação agora.
A aula transcorreu sem mais alterações e tudo que ela queria era a tal oportunidade de se redimir, finalmente se apresentou no final quando o professor depois de explicar estilos de pintores de uma forma geral disse que daria um ponto a mais no semestre se alguém respondesse de quem era a obra que ele apresentaria agora no slide.
Dora estava ansiosa e levou um susto com a pintura que retratava um homem disforme amarelo que gritava sobre uma ponte multicolorida.
A sala estava em silêncio e ninguém ousava chutar um nome.
– Eu sei, é aquele quadro que minha mãe brincava sobre desespero de quem nunca usou botox. Tão caro, se lembre criatura sua vida nessa matéria depende disso. – pensava tentando se lembrar.
– Lembrei!!!! O quadro se chama... – grita Dora histérica.
– O Grito e está no Museu do Oslo na Noruega. – diz outra voz.
– Perfeito rapaz, realmente teremos alguns bons seguidores que se destacarão e a briga será boa! Melhor sorte e rapidez na próxima senhorita. – deseja o professor dando o ponto para o garoto que respondeu.
Ela bufava por dentro olhando para ele, mas precisava manter a pose. Paris observava de longe sentado num lugar do fundo que havia restado.
– Garoto metido, sempre tem algum CDF querendo causar! Quem ele pensa que é? – pergunta em pensamento, pois jamais o havia visto em todas as suas andanças por New Park ou até mesmo pelo Centro.
Fim da aula e o professor começa a fazer a chamada quando chama um nome em especial.
– David Silver Rock. Onde está? – pergunta após não obter resposta.
– Já faltou no primeiro dia, começou mal mocinho!
Até que um rapaz responde.
– Ah professor acho que ele tá de licença permanente porque quando soube que o senhor ia pegar tão pesado com a gente ele se matou de imediato e se o senhor quiser alguém vivo no final do semestre é melhor pegar mais leve. – termina.
Outro continua.
– Mas não se preocupa não Fessor porque já mandaram um substituto, o alienígena ali atrás. – diz apontando para Paris.
A confusão era geral, todo mundo estava zoando até que Dora se cansa e sai da sala mesmo sem responder chamada. Mell se deliciava com a zona que com certeza teve o seu comando.
– Chega é demais pra mim!
Saiu tão apressada que não notou que o garoto que a atravessou na resposta do quadro a observava com olhos vidrados e cara misteriosa de quem com certeza pensava algo sobre ela.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap9.
Sábado de manhã.
– Nossa como é maravilhoso! – espanta-se Dora observando do lado de fora o loft que alugou.
O loft fica em Holanda Garden, um bairro mais afastado e carente, bem diferente dos que ela já havia visitado na vida. Abriu a porta com ansiedade e descobriu um salão vazio de médio porte com grandes janelas e muita luz onde só o banheiro e a cozinha eram separados do resto.
– Meu primeiro canto, minha mãe vai ter um treco quando souber! – pensava ela enquanto tirava suas coisas do furgão.
Ela tira primeiro as malas com roupas e seus pertences que estavam distribuídos numa sacola e um nécessaire até que percebe que uma mesa de madeira estava atravancando a retirada das outras coisas. Tenta tirar sozinha puxando-a o máximo que pode, porém não consegue nem fazê-la se mover.
– Droga! Só essa que me faltava! – sussurra raivosa de sua impotência. – Calma ninguém disse que morar sozinha é fácil. Vamos Dora você consegue! – terminou encorajando-se.
De repente alguém vem subindo a rua rumo a seu encontro.
Música: Passos pela rua – Marcelo Mirra.
Passos pela rua, lá vem o amor
Vem cambaleando entra pra um café
Sem carro do ano
Sem anel dourado
Na mão uma rosa
Sapato furado
Passos pela rua, lá vem o amor
Vem sorrindo alto, lá vem o amor
Hoje ela já sabe que o amor é raro
Hoje ela passeia com o amor ao lado
– Calma aí, deixa eu te ajudar! – diz o rapaz.
– Não, tudo bem! Eu me viro! – agradeceu e tirou-o do caminho.
– Pelo que eu sei arrogância ainda não dá super poderes. – brinca.
– Cara dá um tempo, eu nem te conheço tô no meio de uma mudança e tava tudo bem até você chegar com as suas gracinhas. Cai fora! – ordena Dora grosseira.
– Nossa que grosseria! Eu não te conheço quero te ajudar e você vem com sete pedras na mão enquanto deveria me agradecer pelo favor prestado. Esse mundo tá perdido mesmo!
Dora finalmente olha para o rosto do rapaz e vê que ele realmente estava sendo sincero, é que estava tão vacinada contra a galera de New Park que pensava que qualquer coisa podia ser uma retaliação deles. Reconsiderou.
– Olha me desculpa! É que as coisas não têm sido muito fáceis pra mim ultimamente e eu ando muito irritada, mas não vou te alugar mais, você não quer saber. – anima-se.
– Ah! Sei aqueles dias no mês! – ri.
Dora fecha a cara de novo.
– Não é nada disso! – responde.
Ela estava ajudando a segurar o móvel, mas bravinha larga e entra apenas indicando o caminho, o rapaz fica tentando arrastar a mesa dando-se conta do quanto realmente era pesada. Arrependendo-se de seu ato.
– Isso! Vai ajudar a garota frágil, quem vai acabar fragilizado aqui é você Mané! – grita para si próprio.
– Acho que já vi esse cara em algum lugar. – pensa Dora que é péssima de fisionomia, mas logo se esquece e empolgada começa a arrumar as coisas pelo apartamento.
Música:Dog Days Are Over–Florence And The Machine.
The dog days are over
The dog days are done
Can you hear the horses?
'Cause here they come
Os dias de cão chegaram ao fim
Os dias de cão acabaram
Está ouvindo os cavalos?
Porque aí vêm eles
Ela dançava e se mexia pulando de um lado para o outro para ajeitar pufs e almofadas que trouxe de New Park. Sua idéia era ser bem despojada, o moderno ateliê de uma designer antenada. Havia se esquecido da vida quando rodopiando percebe no meio do giro uma imagem parada à porta.
– Aí! É você! – assusta-se.
– Sim, sou eu. Ou você deixou mais alguém na rua pra morrer trazendo seus trecos? – diz bufando, irônico e destruído pelo trabalho.
– Foi você que insistiu! – ironiza ela.
– Depois dessa eu vou ser canonizado. Onde coloco? – pergunta referindo-se a mesa atrás dele.
– Ah! Pode ser lá dentro no quarto. – diz Dora quase rindo com a cara de pavor que ele faz medindo a distância.
Porém o moço não se deixar abater e começa a arrastá-la. Nesse momento surge um estalo na mente dela.
– Claro! Ele é o garoto da aula de história da arte que tirou a minha nota! Que cara sujo ainda por cima veio até aqui pra me espionar, desgraçado!
Dora irada começou a lhe dar murros e o cara sem entender apenas foi rápido em segurar suas mãos.
– O quê você tá fazendo? Você é louca, é?
– Você é um espião pra eles, não é? Bem que eu desconfiei, bonzinho demais pra ser verdade. – grita.
– Eu não sei do que você tá falando! – grita também.
– Da aula de história da arte, da nota e sua falta de educação exibicionista. Foi tudo idéia dela não foi? – pergunta eufórica.
– Ah! Você lembrou! Mas foi tudo uma grande coincidência infeliz, quando ví já estava respondendo e quanto ao bairro eu moro aqui é que tenho uma bolsa lá naquela escola e preciso mostrar que mereci. Agora tava passando na rua e te ví precisando de ajuda e resolvi ajudar, te reconheci a pouco também. Não tem nada a ver, acredita em mim e se desarma só um minuto. – terminou.
Dora se acalma em parte. O suficiente para perguntar.
– Então qual o seu nome?
– Alonso Aloha. Como você já percebeu, ao seu dispor. – responde ironizando uma reverência. – E o seu, irritadinha? – continuou.
__________________________________________________________
Nome: Alonso Aloha
Status: Cara Legal
Idade: 22 anos.
Hobby: Inovar, improvisar.
Livro de Cabeceira: O Retrato de Dorian Gray.
Frase: "Quem pensa segundo a opinião dos outros, está muito longe de ser um homem livre."
__________________________________________________________
– Isadora Réquiem, mas todos me chamam de Dora. Aloha é, igual a saudação havaiana? – debochou.
– Isso mesmo! Mas tá debochando do quê com um sobrenome desses. Réquiem, como a marcha fúnebre? – devolveu.
– É, e não tem me dado sorte! – terminou.
– Mas mudando de assunto, tem algum lugar pra eu me lavar antes de ir? – perguntou tirando a camisa e mostrando seu abdômen moreno de tanquinho.
Dora não pôde ignorar aquilo, porém se sentiu meio estranha por não tê-lo ignorado, disfarçando.
– Ah! Claro, tem uma pia no banheiro, eu não testei, mas acho que tá funcionando.
Alonso foi para lá a fim de se refrescar enquanto Dora ouve barulhos na porta da frente, correu para abri-la, estranhando quem poderia ser. Porém o mistério não durou muito.
– Minha filha! Você está bem, não fizeram nada com você? Quando li o seu bilhete quase tive uma síncope. – despeja a mãe afoita.
– Não mãe, eu estou bem! – respondeu desvencilhando-se da agarração.
– Pegue suas coisas, vamos embora já! – ordenou. – Você está maluca, o que deu na sua cabeça pra vir pra um bairro cheio de mortos de fome como esse?
– Eu vou ficar! Você não me entende mãe! – Dora esbraveja.
Nesse momento Alonso sai do banheiro rumo à saída e assusta Lara.
– Quem é esse daí?
– Pode deixar, sou Alonso, um morto de fome local, mas já estou indo. – diz recolocando a camisa. – Ah Dora, agora já sei por que você é tão educada. – termina saindo.
Lara ainda está de boca aberta quando Dora reinicia.
– Eu vou ficar ao menos por um tempo, esse será meu ateliê e não casa, eu volto pra lá. É que preciso de um lugar. Estar longe pra juntar as peças e descobrir a verdade ao mesmo tempo em que preciso ficar perto pra perceber os detalhes que ainda não vi. Ninguém finge pra sempre e um dia eles vão cair! – termina astuciosa.
– Minha filha você continua com isso! Ao menos me prometa que fará uma refeição por dia em casa.
– Eu prometo! Palavra de escoteiro. – diz cruzando os dedos atrás de si.
A mãe despediu-se e foi embora no mesmo táxi que veio e pediu que a esperasse. Dora continuou com sua arrumação até que um tempo depois ela nota um cartão vermelho debaixo de sua porta que dizia:
BEM VINDA AO LAR!
ASS: R
Novamente não havia nem sinal de quem o tivesse deixado.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap10.
Após o fim de semana Dora já tinha arrumado seu apartamento, não havia voltado nenhuma vez para casa enlouquecendo sua mãe e não estava nem um pouco a fim de voltar para a Faculdade depois daquele começo inesperado. Porém o que mais a atormentava o pensamento era Alonso que estaria lá e ela não sabia qual era a dele.
– Eu devia estar preocupada com o R, com as investigações e com o David, mas gasto o meu tempo pensando sobre o que esse Alonso metido quer! Que burra que eu sou! – pensava enquanto chegava a Escola de Artes Central.
A primeira parte da aula transcorreu normal para ela só Paris que chegou um pouco atrasado em Desenho Moderno e os garotos ficaram mexendo como sempre. Alonso a ignorou completamente e isso começou a lhe dar raiva, mas Dora não entendia por que.
– A aberração, não desistiu no primeiro dia! Vê se deixa as pessoas normais em paz sem ter que suportar a sua presença!
Paris só os olhava sem expressão e voltava a fazer seus desenhos. O professor olhou tudo sem intervir para não desrespeitá-lo, porém no final da aula antes que ele saísse o professor segura em seu braço impedindo sua saída.
– Ei, rapaz o que eles fazem com você é um crime e se chama bullying. Não deixe, ache um jeito de se proteger, se você quiser eu posso te ajudar.
Ele não deixou o professor falar mais nada e soltando bruscamente seu braço da mão do homem apenas agradeceu estranhamente.
– Obrigado professor, mas eu sei me cuidar! Não se preocupe tudo vai ficar bem cedo ou tarde e nesse dia eles vão ter o que merecem!
Paris assumiu uma face maquiavélica enquanto dizia, como se ditasse uma profecia, até o professor ficou meio que em transe quando ele falava e de repente ao final volta a sua expressão de antes inocente e sai correndo deixando o homem intrigado com ele.
– Eu hein! Esses alunos de hoje a gente tenta ajudar, mas vá entender! – rindo de nervoso.
Dora o vê no intervalo e vai falar com ele, porém ele foge correndo como se não a percebesse. Naquela hora estava em transe aparentando um fantasma. Sendo assim, ela ficou sozinha num canto, pois na falta de Paris ela era a atração favorita para pegarem no pé.
Logo essa solidão acabou Alonso veio chegando e ficou parado de pé na frente dela que estava sentada no chão.
– Não vai ficar com seus amigos? – pergunta Dora.
– Na verdade eu não os conheço e acho que nem eu nem eles fazemos questão de nos conhecer. – responde Alonso.
– Te disseram pra vir falar comigo pra fazer mais uma brincadeira, não é?
– Na verdade eles me disseram que você é louca e que em hipótese alguma devia falar com você porque senão queimaria o meu filme, mas eu não sou muito obediente.
– Você é quem sabe. E como vai com o ramo de mudanças, muitas mesas pra carregar? – pergunta com um sorrisinho maléfico.
– Ah, vai bem! Sem nenhuma irritadinha pra atrapalhar e abusar. – ri também.
Nesse momento o sinal toca, ele lhe dá a mão para que ela se levante, porém ela disfarça e se levanta sozinha.
– Até a próxima mudança irritadinha. – se despede ele lhe dando um beijo rápido na bochecha que ela não consegue evitar e vai embora.
Música: U Smile — Justin Bieber
You smile, I smile
I smile, I smile, I smile
You smile, I smile
Make me smile, baby
Você sorri, e eu sorrio
Eu sorrio, eu sorrio, eu sorrio
Você sorri, e eu sorrio
Me faça sorrir, querido
Dora fica ali parada e confusa tocando com a ponta dos dedos a bochecha beijada parecendo gostar daquele ato enquanto todos entram de volta a sala para a próxima aula. Mell vê escondida e faz cara de quem gostou também de saber desse fato novo.
Quando voltou, na classe havia um cartão vermelho em sua mesa que agora ela já conhecia bem ser do R que dizia.
OLÁ QUERIDA! O JOGO VAI COMEÇAR!
ASS: R
Novamente embora a classe estivesse uma zona não havia ninguém suspeito que ela pudesse desconfiar de ser o R. Esperou que as aulas acabassem e voltando pra casa chamou um policial que disse que iria visitá-la à tarde. Ela esperava ansiosa para acabar com a palhaçada desse R desconfiada da hipótese dele e o assassino serem a mesma pessoa.
– É R, os jogos começaram! O seu e o meu! Resta saber quem vai vencer?– diz Dora amassando de raiva o cartão entre as mãos.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap11.
Naquela tarde em Holanda Garden...
Alguém bate a porta.
Toc – Toc. Dora atende.
– Olá, eu estou procurando pela senhorita Isadora Réquiem.
– Sim, sou eu mesma e o senhor é...
– Detetive Leonard Turner, mas todo mundo me conhece por Leo Turner, a sua disposição.
__________________________________________________________
Nome: Leonard Turner
Status: Policial recém-formado.
Idade: 24 anos.
Hobby: investigações corriqueiras e crimes não resolvidos.
Livro de Cabeceira: Todos de mistério.
Frase: "É elementar meu caro Watson."
__________________________________________________________
– A senhorita ligou para nós essa manhã porque vêm recebendo cartões anônimos de alguém que assina apenas com a sigla R, não é?
– Isso! Ele sabe sempre aonde eu tô e quando menos espero, lá está um cartão desses sempre falando em uma linha no máximo aquilo que eu tinha certeza, mas ninguém acredita em mim.
– E que certeza é essa senhorita?
– Que o meu namorado David foi assassinado e não que se matou como todo mundo julga!
Dora passou todos os cartões para as mãos de Leo que os analisou um a um meticulosamente. Comentando.
– Cartões estranhos para um assassino não acha senhorita?
– Só Dora já está bom e não, não acho. Vá saber lá o que se passa na cabeça desses loucos.
O detetive assentiu com a cabeça e continuou a perguntar.
– Não é verdade que a senhor... ou melhor você Dora não é bem vista por ninguém em New Park e que vêm tendo desde a morte de David problemas com seus antigos amigos?
– É verdade, mas não por isso e sim porque pude ver agora quem eles são realmente! – protestou.
– Você não acha que as pessoas que tem tudo e são contrariadas são capazes de ir ao extremo para conseguir provar seus pontos de vista?
Dora nesse momento se exaltou.
– Onde você está querendo chegar?
– Eu a lugar algum, só quero compartilhar meu ponto de vista. Às vezes as pessoas pensam que vêem coisas, colocam uma idéia fixa na cabeça e começam suas obsessões para não aceitar um fato! – terminou.
– Quem você pensa que é pra me falar essas coisas. Não está acreditando em mim, eu sei o que ví, estou recebendo esses cartões de algum louco, brincalhão, idiota ou o que quer que seja e você vem com essa de obsessão. Que espécie de policial você é? Aliás, não sabia que a polícia recrutava crianças! – diz debochando vingativa pelo que Leo havia lhe dito e por sua jovem aparência.
– Calma lá, eu só estou conversando, analisando os fatos!
– Pois analisou mal, eu chamei a polícia pra que me ajude e não pra ter mais um que duvide. Pra isso eu tenho New Park toda.
– Tá garota, mas é que...
– Mas nada, agora é tarde, eu tenho coisas a fazer! Passar bem! – termina Dora abrindo a porta e a segurando firme pra que ele saísse.
O detetive levanta-se, deixa os cartões sobre a mesa e sai pensando risonho.
– Nossa! Que menina, essa é das minhas!
Dora bate a porta atrás dele que fica mais risonho ainda, como se estivesse testando-a.
Enquanto isso ela pensa furiosa por não ter conseguido a ajuda da polícia e toma uma decisão.
– Se não consigo quem me ajuda farei tudo sozinha mesmo!
O mais incrível é que como encanto Dora recebe mais um dos conhecidos cartões vermelhos por debaixo da porta que habitualmente dizia.
QUER SABER QUEM ERA DAVID?
A RESPOSTA DESSA PERGUNTA ESTÁ NO FIM DA CARNATION STREET HOJE ÀS 23H00MIN HORAS.
ASS: R
Nesse momento a garota parece consumida pela curiosidade e pela impaciência do mundo todo em busca de um fim pra toda essa história que não a deixava viver em paz. Mesmo sendo perigoso resolveu ir. Enquanto se arrumava para a noite de aventura pensou em várias possibilidades que iam desde encontrar a verdade, ser mais uma brincadeira da Mell e a turma ou até de ser o assassino R querendo matá-la e acabar com tudo de vez. Fosse o que fosse ela estava decidida a enfrentar e descobrir qual delas era de uma vez por todas.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap12.
Na Carnation Street 22h55min...
Dora já estava a um bom tempo esperando na esquina daquela rua que tinha fama de ser uma das mais violentas da cidade, observava e procurava por alguém suspeito, porém ali todo mundo era suspeito.
– Nossa! Em que arapuca eu fui me meter! – pensou nervosa, sentindo um frio na espinha cada vez que um daqueles caras enormes cobertos com capuz se aproximava cambaleando em sua direção, mas acabavam apenas esbarrando e passando reto.
Até que viu um rapaz que ela achou já ter visto em algum lugar.
– Deve ser engano. – pensou.
As pessoas que ela conhecia não passariam por aquela rua imunda talvez nem pra salvarem suas próprias vidas. Decidiu atravessar a rua pra se certificar.
– Oi! – disse ao rapaz.
– Oba! – ele retornou.
Depois de algum silêncio continuou.
– Você é o R?
– Olha já me chamaram de muita coisa, mas letra consoante é a primeira vez. Se bem que pra uma gata como você eu sou o que você quiser mina. – respondeu se aproximando.
Dora se afastou.
– Você conhece alguém com esse nome, apelido, sei lá?
– Não, não conheço, tenta na próxima esquina. Quem sabe uma vogal o conheça. – terminou rindo.
– Imbecíl. – resmungou Dora enquanto saia. Ela não queria saber se era bandido ou não a raiva lhe subiu a cabeça naquela hora.
– Espera! – gritou ele quando ela já estava a uns passos de distância.
Ela volta com receio e sem nenhuma paciência.
– Eu tô te reconhecendo, tá longe da tua área mina. Você é a garota daquele mauricinho assassinado que era meu chapa.
– Seu chapa? Impossível, o David era um cara espetacular, jamais se envolveria com alguém... – fez silêncio como se escolhesse as palavras.
– Alguém como? Como eu, com o meu ofício? Você se surpreenderia quanta gente é meu cliente e paga de santo por aí!
– Cara, cala a boca e não suja o nome de quem não pode se defender! – grita ofendida.
– Não quer acreditar não acredita, mas o seu namoradinho vinha aqui sempre comprar umas balinhas pra se sentir mais ligado nos esportes, na vida. A gente se conheceu porque eu pego meus clientes em lugares onde sei que podem me pagar, minha beca me dá essa vantagem. – Gaba-se o rapaz por ter carinha de anjo. E continua. — Aí ele se tornou meu amigo, arrumava uns clientes novos, eu dava uns descontos pra ele, que arrumava uns convites pras festas de New Park e a gente ia se entendendo. Eu te conheço desses bailes.
– E como é que eu nunca te vi? – pergunta Dora.
– Olha minazinha não me leve a mal, mas naquelas festas você só enxergava quem queria enxergar.
Dora sente-se mal, pois fazendo uma breve reflexão ela viu que era verdade.
– Não pode ser! Isso tudo é louco demais!
– Se não acredita pergunta pro cara loiro que vinha sempre com ele.
Dora então pega uma foto de David e os amigos e mostra ao rapaz.
– Tem certeza que é esse moço que vinha aqui? – pergunta.
– Absoluta! É ele mesmo, agora o cara loiro tava sempre encapuzado, o único que o viu uma vez foi meu amigo que foi preso e só sai daqui a alguns dias. Deu azar gata!
Dora estava atônita depois de ouvir tudo aquilo, começou a caminhar devagar dando pequenos passos cabisbaixa.
– Até você David. – pensa.
Mas o cara, que mesmo não parecendo tinha um coração a chama mais uma vez e diz.
– Aí! Ele era um rapaz meio triste, parece que fingia ser aquele super cara, mas de uma coisa eu tenho certeza, ele gostava de você. Quando ele era verdadeiro, ele mandava tudo pro espaço menos você.
– Obrigada! – cochicha deixando uma lágrima cair.
Porém essa cena não se firmou muito, pois um homem gigantesco veio de algum lado incerto da rua e agarrou Dora junto com seus capangas perguntando.
– Princesinha da onde foi que você veio? Se perdeu do castelo, foi?
Ela não podia dizer nada porque o grandalhão estava tapando sua boca. Dora só gemia e se debatia na esperança de se soltar.
– Solta ela, Tampinha! A moça só veio comprar um negócio comigo cara! – diz o rapaz com quem ela havia conversado.
– Mas como é que eu vou saber se ela não é uma daquelas repórter Baby tentando sucesso? Eu solto, mas só depois de uma conversa particular entre eu e ela lá no meu apê. – termina.
Dora nesse momento entra em pânico achando-se perdida. Entretanto, de repente alguém grita.
– Larga a moça agora cara!
Todos se espantam.
– Quem é esse? — pergunta o homem.
Dora conseguiu soltar sua boca das mãos do grandalhão respondendo com seu chamado desesperado.
– Aloonnsooo!!!!!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap13.
Por milagre Alonso apareceu do nada na hora certa. Mas como era possível, pensava Dora.
– Cara, solta ela! Ou eu vou ter que ir aí pra te obrigar! – gritou novamente.
– Olha playboy, como fala comigo ou vai acabar num lugar muito pior do qual eu ia levar sua namoradinha! – diz o grandalhão com raiva.
– Ninguém quer brigar aqui. É só você ser cavalheiro e largar a menina, todos vão embora, esquecemos o que aconteceu e a noite continua. Simples assim, e a propósito ela não é minha namorada! – termina olhando para Dora que olha de volta surpresa por ele frisar uma coisa dessas naquela situação.
O homem rindo, abaixa a cabeça em direção a ela e comenta.
– Xiiiii gata! Tu é carne de pescoço mesmo, nem o cara que tá te salvando quer nada contigo!
Vendo que o homem se distraiu, Alonso se aproxima dos dois e dá um empurrão nele que abranda os braços em torno de Dora com o susto. Ela consegue finalmente se desvencilhar dele e corre para perto de Alonso.
Eles já estão indo embora, tentando passar pelo meio das pessoas que se juntaram para ver o ocorrido muito comum naquela rua, porém Alonso sente uma mão enorme lhe passando pela frente e tomando o colarinho. Sendo puxado para trás num só impulso e caindo no chão, ele não pôde fazer nada para evitar a queda com tanta violência que acabou raspando o braço no asfalto.
– Um pra mim. Zero pra você! – grita o marginal sentindo-se vitorioso.
– Ainda não! – diz Alonso se levantando.
Dora puxa Alonso pra perto dela e cochicha.
– Alonso, vamos embora! Não precisa fazer isso, olha como tá o seu braço. – aponta para o braço direito todo ralado.
– Não foi nada! E eu acho que eles não vão deixar a gente ir embora antes de uma boa briga. Só sair correndo você viu que não vai funcionar!
Mal completou essas palavras foi puxado de novo pelo grandalhão que dessa vez dava socos nas costas. Alonso se protegia e conseguiu acertar algumas mãos certeiras no queixo do marginal.
– Eu sou canhoto! – sussurrou para Dora que não entendia como ele iria brigar com o braço direito ruim. Ela sorriu pela ironia apesar de tudo.
O homem começou a cambalear, pois tinha queixo de vidro, as pessoas do local não estavam gostando do forasteiro estar ganhando até que uma delas dá ao cara uma garrafa de vidro e num descuido de Alonso, lá vai a garrafada direto na sua moleira.
– Não é justo! – grita Dora.
Alonso cai desmaiado no asfalto, sangrando muito na nuca. Dora quer socorrê-lo, porém ninguém deixa.
– Finaliza! – gritavam.
Quando o grandalhão ia fazer isso ouvem a sirene da polícia despontar no começo da rua. A situação é de pânico geral e todos correm tentando achar um buraco para se esconder deixando Dora e Alonso lá no meio do asfalto.
Ela pula para perto do moço e começa a verificar o que aconteceu com ele que abre um pouco os olhos.
– Tá tudo bem Dora? A gente ganhou? – pergunta olhando para os lados e não vendo ninguém ao redor.
– Parece que sim! – responde passando a mão em sua cabeça para estancar o sangue.
– Não se preocupa Alonso. Vai ficar tudo bem!
Tentando tranqüilizá-lo, ela lhe diz isso vendo que a polícia se aproxima. Eles param e um deles desce lhe dizendo.
– Ora, ora, mas que mundo pequeno esse!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap14.
Dora não acreditava na coincidência, mas era o detetive que esteve na sua casa a tarde.
– Ah! Não pode ser, é demais pra minha vida!
– Sou eu sim senhorita Dora, detetive Leo Turner. E vejo que como eu você também não pára, não é?
– Só quando a polícia não me ajuda.
– Mas precisa colocar seus namoradinhos nas suas insanidades? Ah, o amor o que não faz com os pobres coitados ingênuos!
– Eu vim sozinha seguindo uma pista do R, lembra? Aquele que o senhor acha que eu inventei, mas por sorte o Alonso apareceu e me ajudou, diferente da polícia que só chega quando tudo acaba! E só pra constar, ele não é meu namorado! – diz olhando pra ele sentindo-se vingada.
– Dora! – chama Alonso.
Ela o ajuda a se levantar totalmente zonzo prestes a cair de novo a qualquer momento. Leo observa e após um olhar fumegado de ódio dela ele resolve ajudar também apoiando do outro lado do ombro.
Colocam Alonso dentro da viatura.
– Ele precisa ir pra um hospital, está ferido demais. – comenta com Dora.
Nessa hora Alonso tem um estalo e diz agoniado.
– Hospital não, podem me deixar na rua da Dora, já está bom, eu me viro! – grita.
– Mas você bateu a cabeça, está sangrando é melhor examinar. – argumenta o detetive.
– Não! E se insistirem eu não vou a lugar nenhum com vocês!
Dora intervém.
– Tudo bem, ele está assim por minha causa então eu cuido dele. Alguns caras não assumem, mas tem medo de hospital. Pode deixar eu me responsabilizo. – cochicha com Leo.
– Tá bem rapaz, se ela se responsabiliza é você quem sabe. Mas por pouco não acho que você tem alguma coisa a esconder.
– Vamos logo detetive, o senhor desconfia demais, com o que tem que desconfiar não liga. – grita Dora impaciente.
Seguindo caminho no carro o detetive então começa a perguntar.
– Como você descobriu que a Isadora estava na Carnation Street se ninguém sabia a não ser o R?
– Eu não sabia, passei de ônibus e a ví na esquina tarde da noite por coincidência. Até agora pelo que conheci das loucuras dela boa coisa não podia ser e de fato não era. – responde Alonso com dificuldade.
– Mas você a salvou tão bravamente por nada? É complexo de herói, amor ou ego inflado? – debocha Leo.
Alonso olha para Dora quase que respondendo algo que ela não iria gostar de ouvir naquele momento, ela percebe e responde em seu lugar.
– Claro que não detetive, ele é só um dos últimos cavalheiros que existem tentando cumprir o seu papel no mundo, diferente de outros que tem a obrigação de fazer e mesmo assim não fazem. E chega de perturbá-lo ele está fraco, quase desmaiando e o senhor vem com essas perguntinhas sem sentido. Como se o que ele dissesse agora fosse fazer algum sentido. – termina aliviada com a certeza que Leo não perguntaria mais nada para Alonso.
– Mas e R afinal, apareceu te disse alguma coisa? A senhorita descobriu algo?
– Não, nada! Foi só mais uma graça dele. E pela milésima vez é Dora. – diz escondendo suas descobertas a respeito de David.
Logo estavam em seu loft onde ela com a ajuda de Leo deitaram Alonso num sofá cama que possuía. Dora se certificou de que ele estava dormindo profundamente, tirou um quadro grande da parede que ela chamava de Iluminati. Atrás havia coisas que ela havia reunido desde que tudo aconteceu, recortes de jornal, fotos, os cartões de R, suas perguntas todas reunidas, pregadas nessa espécie de mural do crime aonde agora ela colocava junto com o cartão de R recebido a tarde também a pergunta. Quem era você David Silver Rock?
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap15.
Após ter recolocado o quadro no lugar, Dora foi buscar no banheiro alguns materiais de primeiros socorros para limpar os ferimentos da cabeça e do braço de Alonso. Quando voltou ele ainda dormia estirado no sofá-cama e ela pode notar o quanto era serena sua expressão.
– Como esse intrometido é bonito! – pensou, abrindo o mercúrio para passar no braço ralado.
Começou a espalhar o remédio com algodão, no começo rápida e ríspida, sentindo uma raiva sem razão que se não sentisse acabaria revelando outro sentimento. Alonso então começou a mostrar feições de dor e a se revirar no sofá-cama. Dora percebeu seu sofrimento e culpada, imediatamente pára. Recomeçando bem devagar o trabalho.
– Garota você precisa se controlar! – repetia para si própria enquanto continuava.
Após passar o mercúrio, enfaixou o braço e repetiu o mesmo procedimento na cabeça de Alonso que na opinião dela precisaria ser olhada com maior cuidado depois.
Terminado o trabalho foi buscar um cobertor e ao cobri-lo olhou vagarosamente para seu rosto, percebendo em detalhes seus olhos amendoados e doces, sua pele morena cobrindo uma boca carnuda e cabelos lisos e negros que caiam até a orelha. Não resistiu em chegar perto para sentir sua respiração e atraída por seus encantos foi se aproximando devagar a ponto de acariciar seu rosto e imperceptivelmente tocar seus lábios com os dela.
Ao perceber que Alonso ficou inquieto, saiu em pânico, dando um pulo que a deixou em pé inexplicavelmente.
– O que aconteceu? – perguntou ele resmungando.
– Nada! – respondeu Dora, paralisada no lugar. – Você devia dormir pra amanhã estar curado e poder sair aprontando mais por aí. Mas em vez disso fica fazendo essas perguntas estúpidas! – terminou enquanto o cobria mais nervosa ainda.
– Mas eu senti uma coisa estranha!
– Meu querido, você é estranho! Sentir alguma coisa normal é que seria diferente pra você! E agora boa noite, bom descanso, adeus! – cumprimenta saindo da sala.
– Até que você não é tão má assim irritadinha! Boa noite! – diz acomodando-se.
Ela pára ao ouvir a confissão de Alonso tremendo toda com medo do que estaria acontecendo.
– Só pode ser alguma coisa estragada que eu comi e com efeitos alucinógenos, amanhã há de passar! Tomara!
De manhãzinha, Dora deixou a porta de entrada entreaberta e uma visita chegou de surpresa vendo Alonso dormindo.
– Minha filha! – grita Lara. – O que é isso! Esse elemento te seduziu a tal ponto de já dormir aqui?
– Mãe, foi a primeira vez e tem um motivo completamente explicável pra isso. – responde vindo da cozinha ao seu encontro.
– Eu sei! Esses caras de bairros perdidos são espertos. Ele está tentando fazer com você como o Juan na novela “Marcas de um Usurpador”. – diz diminuindo a voz para não acordá-lo.
– Como? Me poupe! – ri Dora.
– É sim, lá o pobretão do Juan engravidou a inocente Mercedita que era rica e se achava abandonada como você. Aí ele se aproveitou disso e usou o filho pra chantagear a moça e ficar no luxo aproveitando de tudo que era dela. – dramatiza.
– Ai Meu Deus! As vezes eu fico pensando se você faz de propósito ou se essa é realmente você. – diz voltando para a cozinha.
Nesse momento Alonso abre os olhos e se levanta parecendo ter ouvido tudo e só esperando sua deixa.
– Olá senhora, é um prazer revê-la, como vai?
– Poderia estar melhor.
– Não liga pra ela. Esse é um ótimo plano. Não tinha pensado nisso ainda, mas agora que a senhora falou... As novelas são uma fonte inesgotável de conhecimento público mesmo. – termina ironizando com um largo sorriso.
Lara se sente ofendida com a brincadeira de Alonso, mas Dora vem chegando antes que ela possa responder a altura.
– Que bom! Você já acordou machucadinho. Como se sente?
– Bem melhor, depois da enfermeira que eu tive!
Lara ouve tudo parecendo que vai explodir e quanto mais percebiam isso mais melosos ficavam.
– Agora eu já vou, obrigado por tudo. – agradece.
– Não, obrigada você. Não sei como seria se você não tivesse aparecido.
– Você é esperta e louca pra não dizer mais. Sério, você teria dado um jeito.
Alonso estava na porta quando Dora grita.
– Espera! Eu tenho umas coisas pra você.
Corre até a cozinha e volta com uma sacola. A entregando a ele.
– Toma! É a sua jaqueta lavada das manchinhas de sangue de ontem, uns mercúrios e faixas pra você trocar mais tarde e um lanchinho pro café da manhã. Não quer ficar e tomar aqui?
Alonso olha para Lara e responde.
– Não, obrigado! Mas deixa pra outro dia menos agitado.
– Não quer que eu te leve então pra sua casa, ou pra algum outro lugar?
– Não pode deixar. Só vou avisar meu patrão que não vou trabalhar hoje e ir pra casa descansar.
– Tem certeza? – pergunta se aproximando dele.
– Minha filha, ele já disse não. Não é não! Então senhor Manolo passar bem! – cumprimenta afastando a filha e fechando a porta bruscamente.
Alonso sai rindo abertamente.
– Mãe o que foi isso? Como você é grossa! E é Alonso!
– Eu não tô gostando de nada do que tá acontecendo aqui! – grita Lara.
– Não tá acontecendo nada, a senhora que é exagerada! – revida.
– Ah é! Então por que você tá assim?
Dora olha para o espelho e percebe sua revolta, seus olhos vermelhos e lacrimejados de quem se importa em ser separada do insultado, o rosto corado e quente.
– Não pode ser! Eu estou apaixonada! – sussurra para si.
Música: Pete Yorn — Ever Fallen In Love
Ever fallen in love with someone
Ever fallen in love
In love with someone
Ever fallen in love
In love with someone
You shouldn've fallen in love with
Você já se apaixonou por alguém?
Você já se apaixonou?
Se apaixonou por alguém?
Você já se apaixonou?
Se apaixonou por alguém?
Você não deveria ter se apaixonado.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap16.
– Não pode ser! Eu estou apaixonada! – sussurra para si.
Após essa conclusão, Dora se refaz rapidamente e pega Lara com uma pergunta.
– Com essa sua entrada teatral nem pude perguntar, mas o que te trouxe aqui tão cedo? Vontade de visitar os pobres? – diz voltando-se para mãe.
– Não querida, os céus são testemunha do quanto é difícil pra eu pisar nesse lugar, mas eu recebi uma ligação ainda de madrugada de um detetive chamado... – tentou se lembrar.
– Leonard Turner! – resmungou Dora enfurecida.
– Ele mesmo! Me ligou dizendo que te trouxe pra isso que você insiste em chamar de casa com um amigo ferido e que vocês estavam num lugar muito perigoso. Me aconselhou a por juízo nessa sua cabeça.
– Tudo bem mãe, você já fez o seu trabalho agora com licença que eu tenho mais o que fazer! – diz abrindo a porta.
– Mas filha eu pensei que já que estou aqui, a gente podia passar a manhã no shopping, como nos velhos tempos! O quê você acha?
Ela então se acalma e responde.
– Não, obrigada, eu realmente tenho outros planos como arrumar a casa e fazer os trabalhos da faculdade.
– Nossa, realmente você me excluiu. Não passo de um passado vergonhoso pra você! – volta a dramatizar.
– Não é nada disso, vamos marcar, eu vou pra casa e a gente vai. Prometo! – diz beijando os dedos.
Lara finalmente aceita saindo e despedindo-se da filha.
– Tá bem, promessa é divida, hein! Senhorita Isadora Réquiem.
Quando ela entra novamente, está bufando como não é muito raro de acontecer. Na verdade nem sabe direito se é pela visita inesperada da mãe, ou se por achar que gosta de Alonso, mas naquela hora, achou um alvo certo para descontar seus sentimentos.
– Leo Turner você me paga! – gritou.
Pegou o telefone e um cartão em cima da mesa, esmurrou com os dedos os números e deixou tocar do outro lado da linha. Quem atendeu foi o próprio citado.
– Alô, detetive Leo Turner, pois não!
– Seu idiota! Quem pensa que é pra se meter na vida dos outros desse jeito. Mas também é isso que dá recrutarem crianças pra fazer o serviço de um homem.
– Calma Dora! Bom dia pra você também! Mas que saudade é essa que não esperou nem o dia amanhecer direito?
– Eu só vou falar uma vez, ou você me ajuda a descobrir o que eu preciso ou me deixa em paz. Se avisar minha mãe sobre o que eu faço de novo você vai se arrepender. Escolha outra pessoa pra bancar a criança que tenta ser grande. Isso não me impressiona nem um pouco, vê se cresce! – termina desligando.
Ele pensa um pouco cabisbaixo, mas logo põe o telefone no gancho e surpreso brinca.
– Nossa! Assim eu me apaixono! Que garota mais maluca essa! Sorte dela! Se eu não fosse uma criança, ela já estaria presa por desacato a autoridade. – ri.
Do outro lado da linha Dora respira ofegante e já arrependida do seu ímpeto de loucura.
– Acho que exagerei. – conclui.
Enquanto isso, no outro lado de Holanda Garden, Alonso bate à porta de um sobrado grande e conservado que destoava das outras casas da rua, na verdade do bairro todo. Insiste um pouco, até que alguém vem atender.
– Alonso! Nossa, é você! Finalmente, onde estava, já tava quase ligando pros seus pais!
– Relaxa! Eu passei a noite no apartamento de uma amiga. – diz entrando.
– Amiga, sei! E o que é isso, tá todo machucado?
– É que eu tive que defendê-la, bancar o herói!
– Tem certeza que ela é confiável? Pensei que tivessem descoberto que você... – parou com medo das paredes terem ouvido.
– Ninguém descobriu nada, você que é paranóico!
– Cuidado Alonso! Mas, e o que é isso na sua mão?
– Umas coisas que ela me deu pra trazer.
– Me deixa ver! Ahan! Roupinha lavada e passada, cheirosa! Remedinho e até lanchinho! Alonso, o que você anda aprontando? Quem é essa garota? Como não fiquei sabendo dela antes? Tem certeza que ela não sabe que você é...
– Xiiiiuuuu!!!! Ela não sabe de nada, e não saberá se você não contar. – termina Alonso, calando-o com os dedos.
– Tá! Nesse caso essa garota parece ser bem legal! Mas me promete que vai tomar cuidado.
– Com essa menina você faz isso o tempo todo pra não acabar em confusão. Você vai ver quando a conhecer.
– Eu vou?
– Vai, quando as coisas acontecerem. E agora vamos, eu tenho planos pra noite.
– Vamos aonde?
– Pro médico, não quis ir à noite passada porque iam descobrir, mas preciso fazer um check-up, descansar e executar meus planos. Vamos, tá tudo bem, não precisa ficar com essa cara de pasmo Romeu.
__________________________________________________________
Nome: Romeu La Verona
Status: Amigo, fiel escudeiro.
Idade: 22 anos.
Hobby: Tem um jeitinho pra tudo.
Livro de Cabeceira: Cem anos de Cinema.
Frase: "Luz, câmera, ação."
__________________________________________________________
Os dois saíram em disparada logo após.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap17.
Música: Teenage Dream – Katy Perry – Tradução Sonho de adolescente
Você me acha bonita sem maquiagem
Você me acha engraçada quando eu conto uma piada errada
Eu sei que você me entende, então eu me solto
Antes de você me conhecer eu estava bem, mas
A coisa ficou pesada, você me trouxe à vida
Agora todo Fevereiro você sempre será o meu namorado, namorado
Ao anoitecer, alguém bate desesperado na porta e Dora vai atender ainda com o clima de cedo.
– Calma, já vai! O mundo não vai acabar se eu não atender a porta nuns segundos a menos!
– Olá! – cumprimenta risonho.
– Oi Alonso! Esqueceu alguma coisa aqui de manhã? – pergunta sem jeito.
– Não, mas a pergunta não foi irônica, como naqueles seus momentos crazy, foi? Porque senão eu posso ir embora.
– Não! Eu só perguntei por que me surpreendi com você aqui essa hora.
– É que com você nunca se sabe quando é brincadeira ou tá naquele clima de guerra. – brinca.
Dora dá uma esmurrada no braço dele.
– Ai! Doeu! Sua louca irritadinha!
– Ah é! Parecia que já estava bom, até com outro curativo está! – observa irritada.
– Ah, é que eu segui o conselho de vocês e fui ao médico, mas não foi nada mesmo, só uns dias e já posso bancar o herói novamente. Pelo visto você sempre precisa de um à postos.
– Mas o que você queria mesmo? Hoje eu não tenho nenhuma mobília pra arrastar. Sinto muito!
– Eu tô devendo por hoje de manhã, então pensei em passar e te convidar pra conhecer Holanda Garden de verdade. Um tour por minha conta e com exclusividade. Tem que ser muito VIP pra conseguir esse passeio.
Dora se desarma soltando um sorriso.
– Ai Alonso, você não tem jeito mesmo! Vamos antes que eu me arrependa! E não se preocupe, hoje sou eu quem te protegerei.
Até o fim essa noite, sem arrependimentos, só amor
Nós podemos dançar até morrer, você e eu seremos
jovens para sempre
Você me faz sentir como em um sonho de adolescente
Você me deixa tão excitada que não consigo dormir
Vamos fugir e nunca olhar para trás
Nunca olhar para trás
Meu coração para quando você olha para mim
Apenas um toque, baby, agora eu acredito que é real
Então arrisque-se e não olhe para trás
Nunca olhe para trás
Lá estavam eles, andando pelas ruas do bairro, e Dora descobriu um lugar bem diferente daquele que falavam, com vielas iluminadas de lusinhas nas árvores e crianças correndo, brincando inocentemente cuidadas por suas mães que conversavam sentadas em bancos nas suas portas. Os muros eram preenchidos com Arte Pop que os jovens faziam e esses também curtiam música na praça central, numa espécie de competição, mas todos eram amigos e tudo sempre acabava bem e se repetia a muito tempo.
Um mundo novo se abria para ela que olhava maravilhada para a simplicidade, pureza e riqueza de espírito das pessoas.
– Se New Park fosse assim! – pensava. – E ainda se dizem ricos.
Alonso descrevia tudo entusiasmado, pois conhecia cada pedaço do lugar que ele amava. Porém Dora não parecia ouvir qualquer coisa que ele dizia, apenas admirando a princípio a paisagem, mas depois passou também a observá-lo em como falava, se expressava fazendo gestos para explicar tudo que podia ser importante.
O momento crucial foi quando num desses gestos expansivos de explicação, Alonso voltou a mão para o lado de Dora e pegou na sua, não soltando mais durante o passeio. Ela se sentiu incomodada no início, mas depois relaxou e deixou rolar, tão natural como se não tivesse percebido.
Dirigimos até Cali e ficamos bêbados na praia
Achamos um hotel e fizemos uma fortaleza de lençóis
Finalmente te encontrei
A peça que faltava no meu quebra-cabeça
Eu estou completa
Mas o que veio a seguir foi realmente inesperado. Alonso puxou Dora para perto de um muro e se aproximou.
– E aqui, onde é Alonso?
– Não interessa, é só um muro, mas essa noite ele pode se tornar importante.
– Ah é! Pra quem, por quê?
– Pra nós, como local do nosso primeiro beijo! – diz Alonso disparando um beijo daqueles em Dora que mais encolhida não podia estar na hora.
Até que ela se solta dele.
– Não faça isso de novo! – sussurra sem respiração, dando-lhe um tapa na cara.
Vou disparar seu coração com o meu jeans apertado
Ser o seu sonho de adolescente essa noite
Deixo você colocar as mãos no meu jeans apertado
Ser o seu sonho de adolescente essa noite
Ela foi se afastando para trás e quando sentiu o fim da calçada com o começo dos pés, se virou e saiu correndo, chegando a sua casa tão depressa que era duvidoso como ela acertou o caminho.
– O desespero faz milagres! – pensou enquanto ainda respirava atrás da porta meio que rindo e um tanto assustada com o inesperado acontecimento na lembrança.
Novas batidas na porta, Dora abriu-a de imediato apenas numa fresta, mas era Alonso e ele ofegante começou a falar, sem brechas para o que Dora teria a dizer.
– Dora, deixa de ser covarde e fica comigo!
Ela não sabia o que dizer, nem ele e após um silêncio constrangedor Alonso repetiu o gesto que havia feito no muro, beijando-a como ela havia sonhado em fazer na noite anterior. Seus lábios se tocaram e explodiram idéias maravilhosas e mais beijos e sorrisos que já havia esquecido como era. Entregaram-se a paixão e a noite fria e prazerosa transformou-se em manhã de sol quente e acolhedor aos jovens amantes. Um novo casal estava nascendo.
Você me faz sentir como em um sonho de adolescente
Você me deixa tão excitada que não consigo dormir
Vamos fugir e nunca olhar para trás
Nunca olhar para trás
Meu coração para quando você olha para mim
Apenas um toque, baby, agora eu acredito que é real
Então arrisque-se e não olhe para trás
Nunca olhe para trás
Com os primeiros raios de sol, Alonso deixava mais uma vez e inesperadamente por obra do destino a casa de Dora.
– Tchau, meu amor! – cochicha Dora.
– Tchau irritadinha! – retorna Alonso no mesmo tom.
– Ainda sou irritadinha pra você?
– É seu apelido carinhoso! Combina direitinho com você e me faz lembrar as suas qualidades.
– Tá, mas só me chama assim quando estivermos sozinhos!
– Tudo bem! Eu já vou então. Tenha um bom dia, porque as noites serão minhas a começar pela de hoje. – diz Alonso após um beijo.
Ele já está no meio da rua quando grita.
– Agora sei por que “o amor é dor que desatina sem doer”. Sábio poeta!
– Você está me comparando a dor? Alonso... – já ia se enfurecendo gritando de volta quando pisa num papel que não havia percebido que estava ali até então.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Abaixou os olhos devagar com medo do que seria e suas suspeitas estavam certas. Dessa vez não era um cartão e sim um envelope grande e vermelho, lacrado que ao ser aberto deixou cair em suas mãos fotos de David, rindo, feliz, sério, de todos os jeitos e uma última onde ele parecia encará-la.
Havia também o costumeiro bilhete de sempre que dizia.
VOCÊ ESTÁ PERDENDO O FOCO! CONCENTRE-SE NO JOGO!
ASS. R
PS. GOSTOU DO PASSEIO? NO PRÓXIMO SE SEU NAMORADINHO VIER NÃO SOBREVIVERÁ! (EU SEI, ELE NÃO É SEU NAMORADO) HÁ-HÁ-HÁ!
Dora, que por algumas horas pareceu tão aliviada do terror que sua vida se transformou voltou a sentir tudo de novo e como era horrível voltar a realidade. Apenas deixou uma lágrima rolar e voltou para dentro caindo em si.
Música: Dreaming With a Broken Heart– John Mayer – Tradução Sonhando Com Um Coração Partido
Quando você está sonhando com o coração partido
Acordar é a parte mais difícil.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap18.
Toc – Toc!
– Dejavú! Vai ser assim todos os dias? – pergunta Romeo ao atender a porta.
– Não meu amigo! Hoje foi melhor! Ela ficou comigo! – conta Alonso rindo e chacoalhando os ombros do amigo.
– Já tava me preocupando de novo! Quase liguei pros seus pais, você tá diferente. Tem certeza que essa garota vale a pena?
– Lá vem você de novo Romeo! Sempre tão desconfiado, pode ter certeza, dessa vez será diferente eu sei me cuidar! – termina indo para o quarto.
De lá recomeça a conversa gritando.
– Ah! E tem mais, hoje à noite você vai conhecê-la!
– Conhecê-la? Como assim? Alonso o que você está aprontando?
– Nada! Só pensei em fazer um jantar romântico onde você estará de saída assim que ela chegar e aí poderá conhecê-la. Assim que a ver você vai mudar essa sua cara de receio e vai passar a ser seu fã.
– Tanto assim? Acho que não, meu nome não é Alonso. Obrigado amigo, mas sou vacinado nesse negócio de amor. – diz olhando pela janela, se achando o mais esperto dos caras.
– E como você vai explicar esse lugar pra ela? Afinal de contas é meio diferente desse bairro! – pergunta rodando com os braços esticados mostrando o sobrado.
– Vou dizer que é seu!
– Como? – pergunta Romeo quase tendo um ataque de pânico.
– Calma Romeo! Vou dizer que você ganhou de herança de um pai que deixou sua mãe grávida e abandonada e que nós dois trabalhamos duro pra manter essa casa e quase não conseguimos.
– Tinha que meter minha mãe e meu pai no meio né! Tava demorando! Se minha mãe descobre o que você tá inventando sobre ela e meu pai...
– É por isso que a Dora precisa te ver aqui pra ter certeza que eu não inventei nada.
– Cedo ou tarde ela vai acabar descobrindo sobre você, e se ela for metade do que você me contou isso vai acabar muito mal.
– Não vai não! Tudo se resolverá a seu tempo! Vou ligar pra ela agora.
Alonso liga para Dora que atende ainda desanimada com o cartão e fotos de R. Ela tenta disfarçar e sem saída aceita o convite para jantar.
– Mal posso esperar pra chegar de noite e a gente se encontrar de novo. Afinal, já faz algumas horas que não brigamos, o universo perderá seu equilíbrio desse jeito.
Ela ri nervosa. Até que Alonso pergunta.
– O que foi Dora, um jantar te assusta? Não se preocupe, não sou nenhum tarado serial killer, é só um jantar. Além do mais meu amigo estará aqui e ele é bem medroso.
– Tudo bem! Até a noite então! – diz anotando o endereço e desligando em seguida.
– Ai meu Deus! O que eu faço agora? Sigo o que o R quer e me submeto a esse idiota ou vou e acabo colocando Alonso em perigo!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap19.
O dia todo Alonso só passou pensando nesse jantar, o que preparar, como agradá-la e mais, iria cozinhar.
– Você cozinhando! Ou a gente se surpreende muito ou vai acabar morrendo com o seu cardápio essa noite. – ironiza Romeo ao saber.
Música – Muse – Invencible. Tradução
Invencíveis
Vá em frente
Faça nossos sonhos se realizarem
Não desista da luta
Você ficará bem
Porque não há ninguém como você
No universo
Enquanto isso, Dora está em casa andando de um lado pro outro sem saber o que fazer. – Logo agora que tava dando tudo tão certo! O Alonso não vai me perdoar se eu não for, mas e o David? Tenho que provar que ele não se matou! – pensava. Olhou ao redor e parou naquela foto em que David a encarava, que veio no envelope de R. Pegou seu material de pintura, colocou uma tela em branco no tripé e começou a rabiscá-la, esboçá-la, pintá-la com formas livres e precisas de quem fazia algo com muita concentração. Passou horas alí, nesse ritual de entrega que nem a fez ver o tempo voar, tempo em que Alonso preparou um belo Spaghetti com Almôndegas que até Romeo estava dando o braço a torcer só pelo cheiro. Agora arrumava a casa para dar um clima romântico, se aprontaria e esperaria por ela.
Não tenha medo
Do que a sua mente esconde
Você deveria resistir
Resistir pelo que você acredita
E essa noite nós poderemos verdadeiramente dizer
Que juntos, somos invencíveis
Já era noite quando Dora deu por si, sua aflição aumentou ainda mais, precisava de uma decisão e tinha que ser agora.
– Ah! Que se dane! – gritou, correndo em direção ao armário para se trocar.
Estava saindo quando o telefone toca.
– Alô!
– Alô! É a Mina do falecido David.
– Aff! É a Dora, quem fala?
– Oi, aqui é o carinha da Carnation Street que você procurou e te bateu uma real do David, lembra?
– Ah, claro! Como não lembrar! O que você quer?
– Tu tá com sorte Minazinha, soltaram o meu brother hoje e ele tá aqui pra te dizer quem é o cara loiro que vinha comprar nossos produtos junto com o David.
– Nossa! Que bom, vou levar a foto pra ele então! Mas tem que ser hoje, porque eu tava de saída...
– Mina se tu tá interessada tem que ser agora, porque meu mano vai dar uma sumida por uns tempos, se é que você me entende, mas o interesse é seu.
– Então ele não poderia vir aqui, você lembra o que aconteceu quando eu fui aí na última vez.
– Não dá! Ele não pode ficar dando mole por aí, ou você vem aqui até o fim da noite ou vai ficar sem saber!
– Tudo bem, eu vou!
– Desculpe Alonso, foi melhor assim! – pensou, desistindo de ir.
E durante a batalha,
Eles irão nos rebaixar
Mas por favor, por favor, vamos usar essa chance para
Reverter às coisas
E essa noite nós poderemos verdadeiramente dizer
Que juntos, somos invencíveis
Concluiu que não poderia chamar Alonso para ir com ela, então tomou uma decisão que não seria fácil realizar. Pegou o telefone, um cartão de cima da mesa e discou os mesmos números que do dia anterior.
– Alô!
– Ora, ora! Como o mundo dá voltas! Boa noite Dora! – cumprimenta Leonard Turner.
– Oi! Eu preciso que você vá comigo a um lugar! – diz Dora afoita.
– E por que eu iria?
– Porque é seu trabalho de policial investigar uma pista.
– E que pista seria essa?
Dora explicou a Leo a conversa que teve com o rapaz da Carnation Street e depois de algum desdém e ir a forra só para enlouquecê-la e se vingar da manhã anterior foi buscá-la e minutos depois estavam na frente dos dois rapazes. Longe dalí, Alonso espera com uma paciência esperançosa de que Dora só estava atrasada para irritá-lo.
Faça isso por si mesmo
Não faz diferença pra mim
O que você deixa pra trás,
O que você escolhe ser
E qualquer coisa que disserem
Sua alma é inquebrável
– Olá! – cumprimenta Dora.
– E aí! – responde o carinha com que Dora havia falado.
– Esse é Leonard Turner, um amigo. – apresenta Dora.
– Oi gente! Ela quis dizer detetive Leonard Turner. – diz mostrando o distintivo.
Os caras riram e Dora revirou os olhos.
– Bom, esse é o mano que viu o amigo lorinho do David.
– Claro! Aqui está a foto! — diz Dora entregando a foto ao cara.
O rapaz olhou e olhou e depois de analisar bem se voltando para a luz deu seu veredicto.
– Olha Mina desculpe, mas o carinha não está nessa foto.
– Mas como assim! Não pode ser, toda a turma está aí! – desanima Dora.
– Você tem certeza rapaz? – pergunta Leo.
– Absoluta! O Lorinho não tá aí!
– Então isso só prova que ele tinha outras amizades também.
– E agora, como vamos saber quem é esse cara loiro? – pergunta Dora aflita.
– Numa reunião em New Park aonde todo mundo vá, vocês tem sempre essas coisas, não tem? É preciso reconhecimento pessoal.
– Logo haverá um baile na Faculdade que todos com certeza irão. – responde Dora.
– Então vocês dois vão e ele poderá dar uma boa olhada em todos os convidados.
Os caras se animam com a notícia.
– Eu também irei, claro! Para evitar que vocês se metam em alguma confusão. – conclui Leo, desanimando os rapazes.
– Até o baile então! – despede-se Dora antes de se dispersarem.
Foram para a casa no fim da noite, Dora ficava cada vez mais apreensiva pensando em Alonso que naquela hora devia odiá-la mais que em qualquer outro dia. Na verdade, no sobrado naquele exato momento ele apagava as velas que acendeu para enfeitar a mesa e dizia.
– Chega! Acabou a palhaçada, você tinha razão e ganhou mais uma vez sábio amigo Romeo. Boa noite!
E durante a batalha,
Eles irão nos rebaixar
Mas por favor, por favor,
Vamos usar essa chance para reverter as coisas
E essa noite nós poderemos verdadeiramente dizer
Que juntos, somos invencíveis
Juntos, somos invencíveis
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap20.
No outro dia de manhã...
A aula começa e Alonso sente a falta de Dora.
– Que covarde! Nem na aula aquela garota aparece com medo de dar uma explicação. – pensa, enquanto olha para a carteira vazia. – Ela vai ter que ser muito convincente se quiser ao menos minha amizade de volta. – se enfurece.
Enquanto isso, em Holanda Garden, Dora aflita termina o quadro que começou na noite anterior pensando em como chegaria a Alonso. Até que nota a solução bem na sua frente.
– É isso! Coragem garota, você consegue! Só mais um mico público pra quem teve tantos nos últimos tempos é bico!
Pegou o quadro e enrolou-o com cuidado, levando em seguida para o furgão rumo a Escola de Artes Central. Dirigiu pensando em como iniciaria a conversa que levaria para uma convincente desculpa, pois Dora não queria envolver Alonso no jogo de R com medo de que ele sofresse as conseqüências.
Estava entrando na faculdade quando dá de cara com Paris no portão principal.
– Paris! O que você tá fazendo aqui? A primeira aula já tá quase acabando!
– O mesmo pergunto pra senhorita, e que embrulho enorme é esse? A gente tinha que entregar algum trabalho hoje?
– Não! Isso é rolo meu! – responde ela.
– Aham! Mas que saudade das suas confusões, as coisas ficam bem paradas quando você não tá por perto. Você anda sumida moça! – acusou Paris.
– Engano seu! Estou aqui agora bem na sua frente, não estou? – questionou Dora. – E pelo jeito estamos no mesmo barco dando “um tempo” aqui fora enquanto a aula acontece lá dentro. – concluiu.
– Não tô com a mínima vontade de encarar idiotas hoje! – confessa Paris.
– Pois eu não quero encarar alguém que não merece que eu faça isso com ele! – sussurra Dora.
– Então o encare! Dora se tem alguém que dá conta de qualquer situação maluca esse alguém é você! E eu não preciso ficar listando, nós dois sabemos muito bem da guerreira de piscinas e defensora dos fracos e oprimidos você é! – ele ri.
– Pára! Falando assim até parece que eu sou uma descontrolada!
– E não é? – comenta Paris, abrindo um largo sorriso.
– Tá! Me convenceu! Tô indo encarar meu desafio, mas antes me responde uma coisa. Na intimidade você e o David eram mais próximos do que pareciam? Porque eu já não me surpreendo com mais nada!
Um silêncio confirmador abateu-se entre eles. E Dora continuou.
– Hum! Eu sabia! E você foi com ele alguma vez a Carnation Street?
– Não! O David não era tão ruim em casa, mas sair comigo era demais pra ele!
– E ele nunca te falou, ou você mesmo viu, um cara loiro de capuz, saindo com ele sempre tarde da noite?
Paris nessa hora fica nervoso, com a respiração ofegante e responde.
– Claro que não! Porque você fica só perguntando do David, sempre é isso! Deixa os mortos descansarem em paz e presta atenção nos vivos! – grita, correndo para a casa logo em seguida.
– Coitado! Acho que ele ainda está sentindo a perda. – ela pensa.
Dora deixa esse acontecimento de lado para dar continuidade ao plano atual. Entrou na Escola de Artes Central indo direto para o pátio. O sinal marcou o final da primeira aula e todos os alunos transitavam trocando de salas. Alonso vinha adiante.
– Se você não gosta de comida italiana era só me avisar! – diz ele.
– O quê? – pergunta ela sem entender.
– Eu fiz spaghetti com almôndegas ontem, mas pelo jeito você descobriu por telepatia e resolver me dar o cano! É isso ou meu amigo me traiu, mas ele é medroso demais pra isso, então... – disse seguindo adiante.
– Não é nada disso! – Dora tentou explicar.
Até que ela coloca o enorme embrulho na sua frente e grita para todos ouvirem.
– Abre!
Ele a princípio, parece não querer, meio desconfiado e inseguro com os olhares de todos do pátio, mas resolveu dar um voto de confiança e abriu.
– O quê é isso? – perguntou espantado.
– Isso é a prova definitiva de que eu te amo e de que o David já não representa tanto pra mim.
Ela se referia ao quadro que tinha pintado na noite anterior, que deveria ter o rosto da foto de David, mas que por instinto acabou tendo no final a imagem de Alonso. Todos estavam quietos esperando sua reação, até que ele respondeu nervoso.
– Tudo bem! Vamos conversar!
Dora também nervosa, quase chorando sorriu correndo e deu um abraço nele comemorado pela galera com palmas e zoeira.
– Eu te perdôo, irritadinha! – sussurrou Alonso, lhe dando um beijo e levando o quadro para a próxima aula que já tinha começado.
Mell apenas observava como sempre fazia ultimamente. Estava quieta demais e explodindo por dentro, mas o troco viria a seguir.
A maioria dos alunos chegou atrasada a aula de Design e após levar uma bronca do professor foram surpreendidos com a notícia de que o Baile Semestral de Boas Vindas seria naquele fim de semana. Ele então explicou.
– Preciso de pessoas que mexam com decoração e tenham agilidade para determinar tudo o mais rápido possível. Perguntei ao clube local quem me seria útil e eles me deram o nome de Isadora Réquiem que é aluna dessa aula.
Nessa hora todo mundo recomeçou a bagunça e um deles brincou.
– Professor, se ela coordenar o baile nosso tema será o hospício e todos terão que vir vestidos de camisas de força!
Todo mundo começa a rir, Alonso quer dar na cara do garoto, mas Dora não deixa e responde.
– Obrigada professor, mas no momento não estou mais mexendo com esse tipo de atividade.
– Que pena! Alguém se candidata? – pergunta o professor.
– Eu mesma! – grita Mell, levantando a mão. A turma agita e após um tempo o professor obtêm o controle da sala e a aula recomeça normal.
– Você tem com quem ir? – sussurra Dora.
– É, eu não sei. São tantas propostas! – ironiza Alonso.
– Comigo as emoções serão mais fortes! Você já viu! – ela propõe.
– Tá certo, você venceu! Mas se receber proposta melhor eu mudo de idéia!
– Cafajeste! – diz Dora, dando-lhe um soquinho.
– Ai, ai!
Uma semana depois o locutor da faculdade anunciava.
– Moças e rapazes o Baile Semestral de Boas Vindas vai começar.
– Ele pediu desculpas, mas precisou viajar novamente! Acho que esse ano não vamos! Quem sabe o ano que vem? Eu estou com uma dor de cabeça terrível! – queixou-se Lara.
– Eu entendo! Quem sabe o ano que vem! – consola Dora lendo o papel.
– Se ele ficasse eu era até capaz de dizer que faço uma obra social com aquele Afonso!
– É Alonso mãe! – corrige a filha dando lhe um abraço entre risos e lágrimas. – Dona Lara a senhora é única.
Me deixa ir pra casa
Ficará tudo bem
Estarei em casa hoje à noite
Estou voltando pra casa
Fale com o autor