Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap35.

Música – Paramore – Playning God – Tradução

Não posso tomar minhas próprias decisões
Ou fazer qualquer coisa com precisão
Bem talvez você devesse me amarrar
Para eu não ir aonde você não quer que eu vá

– Não! Mas como é possível? Eu confirmei com a sua mãe que o Aidan existe, ví uma foto dele e tudo! – diz inconformada.

– Claro, uma foto de quando era pré-adolescente, aposto! – desafia David.

– Ela me mandou uma foto por e-mail, contou que ele mora em Roseville e que é sem dúvida muito parecido com você...

– Muito parecido a ponto de pertencer mais a nossa família que o Paris! O mesmo discurso abominável de sempre. E avoada, esqueceu de acrescentar que ele tem doze anos e é aluno num colégio interno. A foto que você viu é dele atualmente.

– Você, você é um monstro igual ao seu irmão, se são da mesma família não é por acaso! Brincaram comigo e com as outras pessoas como se fossemos peças de um jogo idiota no tabuleiro. Esse Aidan nunca me desceu pela garganta, mas agora eu sei que ele era só você sendo o cara que queria ser! – sussurra chorosa com raiva enquanto David a segura. Paris via a cena mais adiante largado nos assentos.

Você diz que eu tenho mudado
Que eu não estou simplesmente envelhecendo
É, mas isso não tem lógica alguma
Apenas continue me jogando idéias goela abaixo

Como resposta, estranhamente magoado com as ofensas, David resolveu contar o começo e quais eram as regras do tal jogo.

– Quando pegamos a Mell, ela começou com isso de peças, já desconfiada da nossa brincadeira! Dá pra acreditar, justo a Mell, que convenhamos num teste de Q.I não obtém lá um número muito significativo. Dois dígitos então são quase um milagre! – ri desdenhoso. – Mas foi brilhante, não foi? Quem desconfiaria do priminho?E se desconfiassem, a desmiolada da minha mãe mostraria a foto e quem adivinharia que o garoto é ele hoje em dia e não o Aidan, no caso eu, na infância?Tá certo! Ela poderia acabar contando ou alguém entendendo, mas o Aidan é quase meu clone e porque não aproveitaria essa coincidência tão a calhar! Correr riscos só faz tudo ter um gosto melhor! – termina vitorioso.

Paris então se aproximou do ex-casal e imprensando-a contra David sentiu o cheiro suave e peculiar do corpo que ele tanto desejou e que até pouco tempo estava sob o domínio de seu irmão.

– Conte a ela como nasceu a idéia que nos trouxe a esse momento! – cochichou.

David, acariciando o rosto de Dora com o olhar orgulhoso no irmão revelou.

– Uma aposta! Esse momento aconteceu por uma aposta! – ri.

Você não tem que acreditar em mim
Mas do jeito como eu vejo isso
Na próxima vez que você apontar um dedo
Eu posso ter que dobrá-lo pra trás
Ou quebrar, quebrá-lo
Na próxima vez que você apontar um dedo
Eu o apontarei para o espelho


– Paris e eu estávamos em casa, assistindo porcaria na TV e tomando cerveja barata que escondíamos pra dias como aquele, que só enchendo a cara pra agüentar quando no meio da conversa surgiu um comentário meu sobre você. “A Dora ainda me amaria mesmo se eu estivesse morto!”. Paris duvidou e disse que te faria me esquecer fácil se tivesse uma chance. A conversa foi ganhando detalhes por toda à tarde até se transformar em aposta e finalmente plano.

– E vocês tiveram a coragem de dizer a palavra amor tantas vezes enquanto não amavam nem a si próprios! – diz Dora abismada se retirando do meio deles.

David sem se abater continuou.

– Nossos primeiros inimigos foram nossos pais, mas eles nos ensinaram a respeitar os papéis de cada um na vida. Mesmo quando se é abandonado pelas viagens desnecessárias que fazem e te transformam num cara supostamente perfeito e outro em total perdedor. Nós mantivemos os nossos papéis até o fim e ninguém jamais desconfiou que nos falássemos em casa.

– Mas você pulou de um prédio e depois todo mundo te viu jogado na rua lá em baixo!

– Um bom show de magia precisa de detalhes que o façam verdadeiro e amarrando todos os pontos se transforma em realidade. Deu certo, New Park acreditou inclusive você a espectadora V.I.P. Eu pulei sim, mas estava preso a uma corda especial de alpinismo que ficou totalmente invisível na escuridão.

Paris tomou dessa parte a explicação para si.

Se é de Deus que você está brincando
Bom, então temos que fazer mais amizade
Porque tem que ser tão solitário
Para ser o único que é sagrado

– Eu precisava de um álibi então arranjei confusão aparecendo na porta do Clube e quando corri para longe dei a volta no quarteirão a tempo de voltar atrás do prédio, ver Mell indo embora após a briga com David e ele se prender a corda que eu segurava exatamente segundos antes de você chegar. Ele pulou, se soltou rápido e eu sumi na noite antes que alguém viesse. Emocionante!

– Aí Paris! Sempre se contentando com pouco e fazendo de suas ações verdadeiras peripécias! Sinceramente obrigado por você existir e fazer a diferença. – debocha David rindo do irmão.

Paris ofendido corre em sua direção e lhe dá um murro na boca. O outro apenas limpa o sangue no canto dos lábios e depois de uma cuspidela dita frio.

– Fracote!

Dora estava horrorizada com a espécie de “união” que eles tinham e que nem nos piores sonhos pensou em conhecer. Minutos depois ambos se recuperaram e dando as mãos como crianças fazendo as pazes continuaram no clima anterior a briga.

– Nós pagamos e chantageamos um médico viciado que também vendia anfetamina e qualquer coisa que lhe proporcionasse uma viagem para constatar a minha morte no beco. O caixão foi fechado e quando se tem pais relapsos e ricos o poder é ilimitado e eles não vão ligar pro que quer que você faça. Não vão se importar nem se não puderem dar adeus ao filho! – ri David com os olhos marejados recebendo o apoio de Paris. Fui morar em Isla Del Flores nossa ilha particular que meus pais jamais visitaram, mas ajudava Paris a vigiá-la pra saber como ia a aposta.

Dora ouvia a história debruçada numa das cadeiras sem expressão alguma. Era impossível saber sequer se estava realmente alí.

É só a minha humilde opinião
Mas é a única na qual acredito
Você não merece um ponto de vista
Se a única coisa que você vê é você

– Eu estava ganhando de lavada no início, aí o Paris tentou com toda a incompetência dele te conquistar... – dizia David quando foi interrompido.

– O ser perfeito tem que criticar os erros dos humanos. Me desculpe por ser um mero mortal! Na próxima encarnação juro que tentarei ser um ciborg como você! – reclama Paris.

David não deu importância e arrogante continuou.

–... Masvocê o dispensou surgindo assim o R e as pistas de onde ele planejava te salvar nos perigos, porém apareceu o Alonso que ninguém convidou pra entrar no jogo! – grita descontrolado. – Dou colher de chá pro meu irmão, mas pra esse cara mentiroso é demais! Sem falar no detetive a tira colo. O que foi Dora? Você queria montar um harém? Nunca tinha percebido isso em você antes! Talvez tudo fosse evitado se tivéssemos nos mostrado! Eu até que gosto dessa nova Dora, que dá trabalho, mas torna a vida mais interessante e não a previsível do Shopping.

– Eu não ligo mais! – sussurra sem forças, derrotada na cadeira.

– Bem! O jogo acabou, deu empate e todos vão viver pra sempre em Isla Del Flores longe de mais problemas e desse teatro chamado New Park. – termina David carregando Dora grogue para o carro. Paris ia atrás limpando as provas.

Enquanto isso em Holanda Garden a polícia chegava ao loft de Dora. Encontraram a porta aberta e vasculhando rápido viram o bilhete que foi entregue ao Detetive Turner e Romeo que o acompanhava. Leram e correram para a faculdade, mas quando chegaram só encontraram Mell desmaiada em um dos banheiros, era tarde demais, já haviam partido.

Não muito longe David, Paris e Dora se dirigiam a Isla Del Flores e deixavam New Park cada vez mais para trás.

– Nos quatro seremos muito felizes lá! – diz Paris entusiasmado quebrando o silêncio.

– Nós quatro? – pergunta Dora mais consciente.

– Ah! Eu não te contei! O Alonso também veio, ele passou lá pela faculdade e eu resolvi trazê-lo! Está aí atrás no porta-malas! Lá tem muitas paisagens pra você ir visitá-lo num túmulo bem bonito que vamos construir. Você escolhe o lugar! – comenta David eufórico.

Dora mediante a confissão de David baixou a cabeça e começou a rezar punitiva. Não ligava em ser um objeto nas mãos dos dois loucos que de certo modo ela contribuiu para que chegassem aquele estado, mas levaria seu amor a morte por ter sido corajoso para salvá-la. Estava perdida e perderia o seu verdadeiro e único amor.

– Isso sim é perder! – pensava inquieta.

Esta é a última segunda chance
(Eu vou te apontar para o espelho)
Eu não sou tão boa quanto posso ser
(Vou te apontar para o espelho)
Estou nos dois lados do muro
(Eu vou te apontar para o espelho)
Sem uma ponta de arrependimento
Eu vou te prender a ele


Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap36.

Música – Cheryl Cole – Figth For this Love — Tradução

Só saiba que você não está nessa sozinho
Tem sempre um lugar em mim que você pode chamar de lar
Toda vez que sentir que estamos nos distanciando
Vamos simplesmente de volta para o começo
Oooh

Qualquer coisa que valha a pena ter
Vale a pena o suficiente para se lutar por ela
Desistir está fora de cogitação
Quando fica difícil temos que lutar um pouco mais
Temos que lutar por esse amor
Temos que lutar por esse amor
Temos que lutar por esse amor
Vale a pena, vale a pena lutar

Nem todo dia vai ser um piquenique
Amor não é um passeio no parque
Tudo que se pode fazer é tirar proveito do que há de melhor
E não ter medo da escuridão


Já era quase noite do dia seguinte quando após muitos quilômetros de estrada e uma balsa chegaram à isolada Isla Del Flores. Dora e Alonso estavam com as mãos amarradas e de olhos vendados, por isso não puderam se ver quando foram retirados do carro. Ela carregada por David e ele conduzido por Paris. Porém ambos sentiam suas presenças.

– Alonso! Você está bem? Eles te fizeram alguma coisa? – gritou Dora virando a cabeça para os lados em sua procura.

– Eu estou bem! Fique calma que tudo vai dar certo! – respondeu Alonso tentando manter o controle.

Imediatamente foram levados para dentro da casa da península que ficava escondida na copa das árvores centenárias que cresciam em desordem na luxuosa ilha abandonada pela família, até que os irmãos a descobriram.

Cada um foi levado a um quarto e lá foram deixados por seus carcereiros que bateram a porta ao sair. Alonso esperou alguns minutos e sem obter resposta acabou tirando a venda, viu que estava num requintado aposento de hóspedes decorado com motivos de praia e um forro de madeira trabalhada. Tudo da melhor qualidade que o dinheiro podia comprar. Ao centro um enorme espelho e uma cama de casal encontrada apenas nos melhores hotéis. Sentou nela ainda zonzo enquanto pensava o que iria fazer.

Dora foi deixada deitada na cama e também esperou algum tempo até se certificar que estava sozinha, tirou a faixa dos olhos e constatou a mesma pompa no ambiente. Se levantou olhando ao redor, buscando um meio de escapar. Estava vasculhando as paredes quando ouviu bem de perto um espirro.

– Quem está aí? Alonso é você? – perguntou desesperada percebendo um duto de ar entre os quartos.

– Sim, eu mesmo! Eles te machucaram? – respondeu aflito.

– Não! Mas eu não me importo! O que me preocupa é você que não tem nada a ver com essa história absurda e acabou alvo dela.

– Não se culpe por nada Dora, como você já deve saber, eu sou o cara das confusões, e se não estivesse nessa com certeza estaria sofrendo atentados na Baviera, sendo alvo de tubarões em alguma viagem sem sentido, ou sabe lá Deus o quê! Mas principalmente porque eu acredito que eles não vão nos fazer nada, pois não passam de dois garotos mimados querendo chamar atenção!

– Não se arrisque tentando me salvar! – alertou Dora ao ouvir os argumentos dele.

– Você também não! – aconselhou Alonso.

Um minuto apreensivo de silêncio tomou conta dos dois, porém Alonso tomou coragem para dizer o que queria.

– Dora, eu te...

Estava quase terminando a frase quando a maçaneta da porta se moveu. Paris apareceu ligeiro diante dela carregando algumas roupas.

– Se você tentar alguma gracinha a Dora é quem vai sofrer as conseqüências. É o preço que se paga por amar, nunca se está livre ou sozinho em seus atos. – disse ameaçador, porém com inveja nos olhos por não ter o mesmo que Alonso.

Como resposta ele baixou a cabeça e Paris entrou no quarto deixando as roupas sobre a cama e desamarrando-o em seguida.

– Se vista para o jantar com essas roupas, o banheiro é naquela porta, lá já estão toalhas e produtos de higiene pessoal. Não demore, nós não toleramos atrasos! – instruiu seco apontando para a porta do banheiro.

Já estava saindo quando Alonso o alertou.

– Você não vai se sair bem dessa! O David eu não sei, mas você com certeza vai se dar mal, quem você acha que ele vai culpar quando vocês forem pegos? Quem vai acabar como o irmão malvado dessa história?

Paris parou de costas enquanto ouvia, mas após uma pausa continuou a caminhar e fechou rápido o quarto feito quando entrou. Dora aproveitou a saída para perguntar.

– O quê você estava dizendo?

Ele retomando a coragem continuou.

– Eu te a...

Novamente foi interrompido, dessa vez pelo barulho na maçaneta do quarto de Dora. Paris também entrou no quarto levando um vestido que colocou na cama e depressa desamarrou as mãos dela como se salvasse sua amada do sofrimento, beijando-as quando finalmente ficaram livres. Dora retirou-as com nojo, e Paris percebendo se levantou saindo furioso.

– Você era tão legal, tão meigo! Se tivesse alguém com quem dividir um segredo no mundo esse alguém seria você Paris! O quê aconteceu? O David não merece isso e você sabe, vai acabar pagando por ele! Quem sabe se você melhorasse a gente podia recomeçar a amizade! – sugeriu amenizando a cena.

Paris se volta para ela com os mesmos olhos nebulosos da saída se aproximando voraz. Apesar de querer dizer alguma coisa permaneceu em silêncio engasgado em seus sentimentos, com a garganta apertada, ofegante por não conseguir se libertar. Apenas voltou-se para o lado e com uma chapa de ferro tapou o duto, não sendo mais possível escutar o que se passava no outro cômodo.

As horas passaram e o jantar ia ser servido. Alonso foi trazido para a sala de jantar de luxo igual ao restante da casa e alocado à enorme mesa comprida que definia o ambiente. Dora foi trazida por David que não pôde deixar de comentar.

– Você está linda meu amor! Melhor do que nos tempos de patricinha, esse toque selvagem fez bem a você!

Dora realmente estava linda, num vestido preto de veludo longo que delineava seu corpo e esculpia suas perfeições com maestria. O cabelo estava preso num coque improvisado de muito bom gosto, além de um escarpã preto nos pés e apesar de abatida sua beleza ainda a salvava da imperfeição.

– Hum! Quanto tempo, dinheiro e vida perdidos! Tudo porque não sabíamos quem éramos. Se é isso que você quer eu aceito, vamos embora pra um lugar onde possamos nos descobrir como somos de verdade, onde ninguém nos conhece, só nós dois! Tudo que peço é que deixe o Alonso pra trás! – propôs Dora suplicante numa última cartada enquanto se encaminhavam para a sala de jantar.

Ele não respondeu nada apesar de perceber sua mão tremer por alguns segundos. Apenas a colocou na frente de Alonso naquela mesa enorme, ambos se olhavam desconcertados vestidos para a festa macabra dos irmãos malucos.

– Olha, não é interessante todos nós aqui juntos hoje depois de tanta perseguição e reviravolta! Esse mundo é mesmo louco! Claro que nós ajudamos um pouquinho, mas se não fossem as coincidências da vida o que teria sido da nossa história? Um brinde a isso! – bradou olhando para os outros três na mesa enquanto erguia uma taça com vinho.

Paris brindou rindo como irmão, ignorando a gravidade do que acontecia. Alonso e Dora não fizeram qualquer gesto, estavam com uma das mãos algemada na cadeira e a situação era revoltante demais para brindes.

– Alonso que ama Dora, que amava David, que é irmão de Paris, que não é amado por ninguém! Não é interessante? – perguntou se dirigindo a cada um deles, rindo como um descontrolado.

Do nada ele se refez e sério ditou.

– Paris, vá buscar o prato principal!

Paris se retirou trazendo em seguida uma travessa de prata fechada por um tampão redondo. Ele se posicionou feito um chefe de cozinha orgulhoso na frente do irmão esperando que ele o contemplasse.

– E o cardápio de hoje senhoras e senhores é... Miojo? – perguntou espantando, surpreso e com ódio do irmão por fazê-lo pagar aquele mico. – Miojo, Paris? Sorte que você passou do prazo de devolução, pois você conseguiu, eu te devolveria agora! Achei que tivesse algum dote gastronômico no meio de tanta esquisitice, mas tudo bem. Foi erro meu te dar competência pra alguma coisa! – termina culpando-se.

– Só porque eu sou mais inteligente que a maioria isso me dá super poderes pra saber cozinhar? – pergunta Paris ofendido.

– Eu não disse exatamente inteligente, quis dizer bichona esquisita, todas sabem cozinhar! – David grita histérico tentando deixar claro seu ponto de vista na resposta.

Porém do mesmo jeito que antes, ambos se acalmaram do nada e se abraçaram.

– Por que somos assim? – se perguntaram.

Dora e Alonso assistiam a cena boquiabertos.

– Não se preocupe Paris, está tudo bem! Quantos caras no mundo puderam se gabar por terem tido miojo na última ceia? – perguntou David desdenhoso olhando para Alonso.

O jantar transcorreu sem mais alardes a não ser pelos olhares preocupados que Dora e Alonso se davam de vez em quando. Até que David o finalizou.

– Jantar encerrado, é hora do grande acontecimento da noite! Alonso você parece cansado meu amigo, mas agora vai descansar em paz, pra sempre!

Nessa hora Paris entra com uma pá e produtos de jardinagem, além de um saco preto. David algema Alonso e o faz seguir para fora da casa enquanto Paris faz o mesmo com Dora.

– Não! Por favor! – gritava ela apavorada.

– Escolha um lugar! – mandava David implacável. – Escolha ou eu mato ele agora e você nos ajudará a arrastá-lo até o pior lugar que eu puder encontrar!

David colocou uma arma na cabeça de Alonso e começou a deslizá-la fingindo apertar o gatilho de vez em quando.

– Escolha! – gritava cada vez mais sem paciência.

Até que ela sem saída gritou.

– Na beira do rio! – referindo-se ao riacho que cortava a ilha e ia dar no mar.

– Ótima escolha!

Chegando lá, Paris logo aprontou uma cova num canteiro de flores silvestres debaixo de uma árvore tão antiga quanto às outras, na margem direita do riacho que a luz do luar ganhava um azul escuro intrigante e belo ao som apenas das corredeiras inquietas.

– Cenário de filme, se deu bem Alonso! Agora vamos levá-lo a sua última morada. Anime-se, vai morar nas minhas terras e nem vou te cobrar aluguel por isso! – ri David indevidamente.

Alonso percebe que não tem mais jeito e olhando para Dora mergulhada em lágrimas e dor soltou uma lágrima de arrependimento, não por ter participado da vida dela, mas por não poder participar mais.

David recolocou o revólver na cabeça de Alonso e divertiu-se.

– Preparar, apontar, fogo!

– Naaaaaããããoooooo!!!!!!!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap37. Final.

– Ups! Não foi dessa vez! – diz David alucinado ao perceber que o tiro havia falhado. – O próximo não vai falhar, eu não deixei tantos buracos vazios! – termina.

Alonso e Dora por uma pequena fração de segundos respiraram aliviados pela falha do revólver. Apenas aproveitavam o tempo que parecia infinito mediante a situação vivida. Nesse momento se entreolharam profundamente, fechando os olhos em seguida na mesma hora, relembrando todos os episódios e acontecimentos desde quando se conheceram até ali.

– “Quando conheci meu amor, a vida era um mistério sem sentido que havia levado embora tudo que costumava conhecer e chamar de amor, mas estava errada, era engano, eu não existia, enquanto pensava possuir entre todas as coisas também o mundo. Mas ele chegou e me mostrou a duras penas que eu não possuía nada, não era nada. Não existia, nem sequer respirava de verdade para agradar quem não me enxergava, e ainda dizia ser feliz.”

– “Quando conheci meu amor, usava máscaras por medo de assumir quem eu era. Não que fosse mal, só não era verdadeiro. Já havia enfrentado tantas coisas que nem havia escolhido, e quem podia pensar que fugindo dos problemas iria encontrá-los aos montes e decidir enfrentá-los com prazer em nome dela.”

– “E nós rimos.”

– “Choramos.”

– “Lamentamos.”

– “E agora estamos aqui, na reta final de uma vida, de uma jornada que deveria continuar e se prolongar perante os séculos imortalizados, mas não será assim e é por isso que eu te pergunto...”

Eles abriram os olhos, e fixamente o imortalizando na memória Dora lhe perguntou apenas movendo os lábios trêmulos de emoção.

– Valeu à pena?

Alonso, rindo docemente, satisfeito em viver só mais aquela cena respondeu.

– Cada segundo!

Ambos sorriram chorosos frente a frente e todo o drama seguinte deixou de existir. Mesmo separados estariam juntos para sempre.

Música – The Scientist – Coldplay — Tradução

Vim pra lhe encontrar, dizer que sinto muito,
Você não sabe o quão amável você é
Tenho que lhe achar, dizer que preciso de você,
E te dizer que eu escolhi você
Conte-me seus segredos, faça-me suas perguntas
Oh, vamos voltar pro começo
Correndo em círculos, perseguindo a cauda,
Cabeças num silêncio à parte

Ninguém disse que seria fácil,
É uma pena nós nos separarmos
Ninguém disse que seria fácil,
Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim
Oh, me leve de volta ao começo...

Eu só estava pensando em números e figuras,
Rejeitando seus quebra-cabeças
Questões da ciência, ciência e progresso
Não falam tão alto quanto meu coração
Diga-me que me ama, volte e me assombre
Oh, quando eu corro pro começo
Correndo em círculos, perseguindo nossas caudas
Voltando a ser como éramos


Ninguém disse que era fácil,
É uma pena nós nos separarmos
Ninguém disse que era fácil,
Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim
Eu estou indo de volta para o começo...

Oh (4x)


David e Paris observaram a reação derrotados. Nada do que haviam feito podia separar o casal que se formou com tanta adversidade. Estavam feridos e tudo o que queriam agora era acabar com a dor que só aumentava. Além dos pais também foram rejeitados da pior maneira possível por uma mulher. David então ia voltando a apontar a arma, dessa vez implacável para a cabeça de Alonso quando ele lhe deu uma cotovelada. Um golpe que seria tudo ou nada. Ele caiu para trás e antes que pudesse recuperar o equilíbrio acabou prendendo o pé num entulho que estava à beira do riacho e acabou caindo em sua ribanceira, prendendo-se com as mãos.

– Dora, meu amor me ajuda, por favor! – gritou David ao perceber que ela o procurava na beirada, esforçando-se para enxergar algo na escuridão.

– Sinto muito! Dessa vez eu não devo, mesmo que pudesse! – responde aturdida.

Paris, ao ver o que aconteceu com o irmão se jogou para cima de Alonso e ambos rolavam no chão numa briga selvagem.

– Dora, você é melhor que ele! Se você pode salvá-lo faça isso e deixe que outra pessoa faça o que tem que ser feito! – grita Alonso com dificuldade no meio da briga.

Dora ia puxá-lo com a ajuda de um galho, porém David havia escutado que ela estava fazendo aquilo só porque Alonso havia pedido. Ele a observou nos olhos e debulhado em seus próprios pesadelos se soltou antes que ela pudesse pegá-lo. Ela novamente presenciou aqueles olhos verdes se perderem depressa em meio à noite. Olhos que se perderam mais uma vez, olhos que sempre estiveram perdidos.

De repente um barulho de sirene se aproximava do local e Paris congelou ao notar que David não estava lá.

– David!!! David, cadê você!!!! Seu idiota, você disse que sempre estaríamos juntos se perdêssemos ou ganhássemos! – gritou inconformado.

Paris, desesperado se soltou de Alonso que tentou segurá-lo e sem saída foi para a ribanceira, olhou ao redor como se despedisse de tudo e afastou-se para trás até que não houvesse mais chão. Caiu envolto num grito trágico de Dora.

Minutos depois a polícia chegou trazendo Leo, Romeo e Mell que se lembrou finalmente onde esteve enquanto desapareceu. O casal os esperava abraçados, consolando-se sem acreditar que agora havia acabado.

PARIS, TRÊS MESES DEPOIS.

Dora, Alonso, Romeo, Mell e o Detetive Leo Turner que em Paris preferia apenas ser chamado de Leo passeavam pela Chans Elisé. Estavam tentando esquecer aos poucos todo o sofrimento dos últimos meses e devagar a vida ia voltando ao normal, daqui um tempo esperavam voltar ao seu curso naturalmente.

– Não acredito que entre tantas cidades da Europa a gente veio parar justamente nessa! – comenta Dora.

– Dora, qual é? A gente não tem culpa se uma das melhores cidades do velho mundo foi usada pra homenagear quem não prestava, não é? – pergunta Mell.

– Mell, olha esses comentários querida! – repreende Romeo beijando-a.

– Desculpe! É que às vezes eu tenho umas recaídas... E sorry, é Paris!

– Tá não precisa ficar repetindo! – chateia Leo.

– Calma gente! O Leo só está assim porque ainda não conheceu uma gatinha européia pra espantar o frio! – debocha Alonso.

– Ah tá! Vai rindo da desgraça alheia! Vocês estão acompanhados enquanto eu me sinto uma vela gigante! Casaizinhos melosos! Tão romântico! – devolve Leo.

– Não se preocupe amigo, se você não achar ninguém aqui eu te arranjo alguém na Baviera nem que seja por decreto real!

– Obrigado, mas e eu lá sou homem de precisar que decretem algo pra ficar comigo, acho que não!

Alonso e Leo continuavam o embate enquanto andavam brincalhões pelas ruas de Paris. Mell e Dora vinham mais contemplativas atrás.

– E então Dora, o futuro te promete um reino? – pergunta Mell mais introspectiva que antes.

– Talvez, mas na verdade eu não faço a mínima idéia! Só sei que estou bem com Alonso, com minha mãe e quero continuar assim. Passamos por muita coisa estranha e agora que estamos vivendo a parte boa queremos ficar assim por um tempo. O futuro espera e inesperado acontece. – responde Dora apoiando-se na amiga.

De repente, ao olhar por uma viela Dora reparou num vulto que pensou conhecer e com a espinha gelada tomou um susto e reagiu de imediato.

– O quê foi meu amor? – perguntou Alonso retirando-a do transe.

– Não, nada! Não foi nada! – respondeu recuperando-se.

Alonso então a abraçou e como lhe fazia bem um abraço como aquele, acariciando seus cabelos e apoiando a nuca com cuidado. Brevemente ele a fez esquecer seus medos e juntos seguiram viagem no que seria uma tarde divertida.

PARIS, MEIA HORA DEPOIS.

O telefone toca num condomínio de luxo em Montmartre, quem atende é uma francesinha afetada e muito conhecida nas altas rodas de dezenove anos chamada Amélie.

Trim! Trim!

– Oui! Olá mon amour! – atendeu com entusiasmo. – O quê vamos fazer essa noite, mon petit?

– Nós vamos sair, vamos a um baile muito especial na Torre Eiffel! – respondeu a voz do outro lado.

– Mon dieu! Então tenho que me preparar com toda elegância que essa cidade puder me oferecer! – assustou-se.

– Não! Você será sempre linda, não importa se estiver de pijama ou moleton! Mas se quer uma dica o baile é preto e branco!

– Prometo que não vou te decepcionar! J’ taime!

– Te amo também meu amor, sempre!

De repente outra voz se ouve ao fundo.

– É Amélie? Espera, eu quero falar com ela! – grita.

– O idiota do meu irmão quer falar com você! Não precisa ser gentil!

O primeiro passou o telefone com rudez para o segundo e saiu vitorioso.

– Olá Amélie! Quanto tempo, hein? Só saindo com o bobo do meu irmão!

– Ele é uma pessoa incrível e você também é! Pena que não se entendam e possam descobrir isso!

– Mas vá ao baile também Bizarre! Pardon! Posso te chamar de Bizarre?

– Claro, você pode tudo!

– E você vai?

– Vou ver o que faço!

– S'il vous plait! Estou te esperando!

– Tá, você ganhou! Eu vou!

– Ihupí! Merci!

Turim desligou o telefone confiante enquanto Tarso aplaudia sua performance de coitadinho.

– Muito bom, realmente muito bom, mas eu duvido que Amélie fique com você nem que seja pra salvar a minha vida! – desafia Tarso.

– Isso é uma aposta? – perguntou Turim.

– Pura e simples!

– Podemos até inverter as personalidades se você quiser, mas eu ganho assim mesmo! Nem que seja um coitado moribundo! Eu ganho sempre, mas é só pra te provar, afinal aposta é aposta. Sempre!

– Dessa vez vamos até o final e nada nem ninguém vai nos impedir!

Ambos apertaram as mãos e seguiram e busca do domínio da cidade.

Amélie não sabia, mas estava preste a ir a uma festa onde ela veste preto, mas o baile é em Paris.

Música – Sale El Sol – Shakira — Tradução

Estas semanas sem te ver
Me pareceram anos
Desejei tanto te beijar
Que me doem os lábios

Veja, o que o medo nos fez
cometer burrices
Nos deixou surdos e cegos
Tantas vezes

E um dia depois da tempestade
Quando menos pensar, sai o sol
De tanto somar, perde a conta
Porque um e um nem sempre são dois
Quando menos pensar, sai o sol

Chorei até o extremo
Do que era possível
Quando acreditei que eu era invencível
Não há mal que dure cem anos
Nem corpo que o agüente
E o melhor sempre espera adiante

E um dia depois da tempestade
Quando menos pensar, sai o sol
De tanto somar, perdes a conta
Porque um e um não são sempre dois
Quando menos pensar, sai o sol.


Fim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!