Ela morava na minha rua.
Eu gostava muito dela.

Seus olhos eram azuis. Ou será que eram verdes? Castanhos?
Já não lembro mais.

A menina passava pela minha casa sempre que ia a escola. Ou ao trabalho?

Ela sorria para mim.
De seu sorriso eu me recordo. Ela me considerava especial. Sempre trazia um doce para mim.
Ou era salgado? Não, espere, acho que ela não levava para mim. Era para a minha vizinha. Ela sempre levava algo de comer para minha vizinha, e, às vezes, elas me convidavam para comer com elas.

Eu era casado naquela época? Acho que sim. Não, acho que era viúvo.
Oh, eu nunca me casei. Eu vivia com meu cachor- Não! Era um gato.

Espere, acho que eu morava sozinho.
Perdoem-me, já não funciono mais como antes. Sim, eu morava sozinho. E gostava de observar a garota que morava na minha rua. Mas eu sempre me esquecia de seu nome.

Ela parecia não se importar com isso. Parecia compreender. Sempre repetia. Sempre sorria.
Sempre me dava bom dia.
E eu sempre esquecia. Não gostava de fazer papel de bobo na frente dela... Mas era inevitável. Sempre acabava fazendo. Ela era tão compreensiva. Ah, como eu gostava daquela menina.

Eu queria ter tido coragem de falar com ela um dia. Mas nunca falei.
Por que nunca falei? Não sei. Tinha medo? Vergonha? Não sei. Não lembro.
Por que não me lembro? Ah, acho que estou me esquecendo de tudo mesmo. Não quero me esquecer das coisas. Não quero me esquecer dela.

Deus, o que está acontecendo comigo?
Queria que a menina estivesse aqui. Ela me tranquilizaria.

Q... Qual era mesmo o nome dela?

E da rua em que morávamos?

Não, não, não! Espere! Acho que não era uma menina... Era... Era um menino?
Não, acho que não...

Qual é o dia do meu aniversário, mesmo?

Em que ano estamos?

Oh, Deus, já era.

Não sei por que está acontecendo, mas está acontecendo.
Estou esquecendo. Estou perdendo tudo o que me sobrou.

É uma pena, sabe? Eu gostava tanto de minhas lembranças.
Eu gostava tanto daquela menina.

Menina? Que menina?

Ah! Eu conheci uma menina!

Ela morava na minha rua.
Eu gostava muito dela.

Seus olhos eram azuis. Ou será que eram verdes? Castanhos?
Já não lembro mais.

Notas finais
Todo mundo que me acompanha desde o início sabe que sempre escrevo contos que se tratam de uma realidade triste, que gostaria que pudesse mudar ou que nunca tivesse existido.
Mas... Acho que nenhum dos contos que já escrevi me abalou tanto quanto esse daqui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!