Ela
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Há muitos anos, enviei-lhe uma mensagem, pedindo que caminhasse ao meu lado. Ela veio.
Dama discreta, oculta o rosto, mas lhe intuo belos olhos sedutores e sei que a boca guarda o meu último beijo.
Vamos a todos os lugares de mãos dadas.
Ela observa os meus passos e os caminhos que escolho seguir. Demonstra cuidado por mim em situações em que corro algum risco. Protege-me quando se anuncia um perigo. Atenta, sempre atenta. Suporia até cuidadosa.
É uma companheira calada, embora de vez em quando me sussurre bem baixinho: "Não tenho pressa." A voz, de moça bonita.
Às vezes, eu a provoco e falo, por exemplo, que "a poesia, além de antena para dores e desassossegos, é faca cravada no meu peito", e ela ri.
A nossa convivência é tranquila.
Ela aprendeu que a vida não costuma ser simples, dependendo a cada segundo de um instável equilíbrio entre inúmeros fatores físicos, fisiológicos, psicológicos. Já entendeu, igualmente, que não é nada fácil, considerando as dificuldades, os sobressaltos, as incertezas, mais o tanto de trabalho exigido para o sustento, uma breve alegria, uma calma fugaz.
Ela me vem ensinando as lições mais complicadas para seres humanos: a brevidade do tempo, a transitoriedade das circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis, a minha desimportância, a minha impotência. Às vezes, pede que me esmere em ser humilde, gentil, compassiva, leve. Acha que é bom, justo e certo.
Ela me faz ver que sou apenas um nome que será esquecido, um corpo que desaparecerá. E até o que posso considerar como legado se dissipará.
Ela fica contente porque a verdade não me abate, e troco vaidades por coragem. Ela se compraz quando sacudo fora uma tristeza antiga e invento uma nova piada irreverente.
Ela é a companheira perfeita, porque me mantém responsável por atos e palavras.
E a provoco mais: digo-lhe que já fiz o que tinha que fazer, que estou velha, somente para ouvi-la soprar ao meu ouvido: "Ainda não."
Fale com o autor