É agonizante, não é? O sentir falta? O não poder fazer nada? A incompetência? O não saber? Esses sentimentos me matam aos poucos. Como eu, um ser humano comunicativo, proativo e solucionador de problemas, posso enfrentar uma coisa dessas? Nem que seja por uma só noite? Como eu fico sentado esperando os efeitos dos líquidos injetados nela resolverem a situação? Como eu fico parado vendo um bando de estranhos “enjalecados” tomarem decisões sobre a saúde da pessoa mais importante da minha vida?

Voltei para casa sem ela, deixe-a sozinha naquele lugar esterilizado e branco, como uma série sobre (veja a ironia aqui) doutores na TV aberta. No carro, ao voltar pra casa, chorei em desespero, pela incerteza dos acontecimentos seguintes. Tudo pode acontecer. O medo do toque do telefone afoga qualquer outro tipo de sentimento nessa noite. Agora à 01:08 da madrugada só o que eu vejo é a carinha dela quando disse “talvez essa seja minha última noite”, ela, obviamente, disse isso na brincadeira, mas não posso deixar de pensar que talvez seja real. Talvez essa seja a última noite dela, talvez essa seja a minha última noite. Essa com certeza será a última noite de alguém. Talvez a infelicidade seja de alguém no quarto ao lado, ou na cama ao lado, porém só o que eu consigo pensar agora é “queria ter pintado o batente da porta com sangue de cordeiro, assim o anjo da morte a deixaria em paz”. Obviamente eu me esqueço de que ela não é a primogênita, então isso não faria a menor diferença.

Passei tantas vezes pela capela e a imagem de Jesus hoje, todas às vezes pensando “é tão pequeno lá dentro”. Todas às vezes a capela estava vazia, será que as pessoas perderam a fé? Eu não sei. Não sei como está a minha fé nessa situação. Nesse momento de angustia, em quem é necessário ter fé? Em Deus? Ou nas pessoas academicamente capacitadas para fazer este trabalho? E mais importante, será que eu tenho fé o suficiente para acreditar nos dois?

Ao andar pela casa que divido com ela eu vejo as coisas como deixamos antes de sairmos para o lugar esterilizado. Seu maço de Free vermelho com apenas dois cigarros restantes em cima da mesa, junto do isqueiro laranja, que antes era meu, o soro fisiológico em cima da bancada, como o “aparelho verdinho que faz fumaça e limpa seu narizinho”. Tenho certeza que se a TV for ligada agora a Globo vai aparecer em um instante, pois esse foi o último canal que ela assistiu antes de sair. Não posso parar de pensar nela, tudo aqui me lembra de quem não está comigo hoje. As paredes brancas me lembram dela, as duas únicas plantas que temos em casa me lembram dela, as estantes cheias de livros me lembram dela, as cadeiras pretas, as felinas, o travesseiro no sofá, a coberta jogada de qualquer jeito na cama, os quadros nas paredes. Tudo faz lembrar-me dela. É agonizante, mas também é reconfortante.

Acendo um dos seus dois últimos cigarros, só para sentir o cheiro tão conhecido. Não é a mesma coisa. Faço um café, afinal sempre que ela acende um cigarro ela também tem uma xícara de café em mãos, continua não sendo a mesma coisa. Como isso é possível? São as mesmas coisas que ela faz todos os dias, como pode ser tão diferente quando feita por outra pessoa? Mesmo uma pessoa que vive com ela.

Queria estar com ela. Como ela esteve comigo.

Olho ao redor... Cristo, isso é tão difícil. Sento a mesa e escrevo, como estou fazendo agora, nesse instante, essa é a única coisa que me acalma. Ela escreve também, muito melhor que eu, é claro, tudo o que ela faz é melhor, só pelo fato de ter sido pensado por ela já torna tudo mais esbelto.

Amanhã é o rodízio do carro. Não faz diferença, não sei dirigir, pesquiso qual transporte público é o mais rápido. Ônibus. Sei que não vou conseguir dormir essa noite. Tudo bem. Ela também não vai.

Me celular toca. Calma, é só o aplicativo de mensagens.

É ela. “Estou bem, estou quente, com fome, mas já falei com o enfermeiro, estou deitada, pronta para dormir, acho que vou ler um pouco. Estou bem melhor, não deveria ter ficado nessa bosta de hospital, quero minha cama.”

Sua cama também te quer mãe. Sentimos sua falta.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!