Ela
2 Capítulo 2
Notas iniciais
—Olá, meu nome é Nicholas Tamer. Dezessete anos.
‘’Lá vamos nós de novo.’’, penso. Já tive que repetir esta frase sete vezes na frente de uma sala de aula, e a oitava não seria diferente. Todos me encarariam com curiosidade, iriam querer saber de onde eu sou, o porque de ter mudado de escola no meio do ano letivo, e muitas outras coisas que não eram de sua conta. Simplesmente coloco as mãos nos bolsos das calças e espero que me bombardeiem.
—Muito obrigada, Sr. Tamer. Bem vindo à nossa escola. – A professora diz, simplesmente, insinuando para que eu me sentasse. Suspiro, aliviado de não ter que responder nenhuma pergunta idiota, e me sento numa cadeira ao lado de um rapaz de cabelos negros despenteados, que me olha com uma curiosidade tão intensa que me deixa desconfortável. Jogo a mochila ao lado da cadeira, me sento numa posição relaxada tentando parecer entediado (o que foi muito fácil, dando em conta a aula monótona que eu estava sendo obrigado a assistir), cruzo os braços e olho em sua direção. Ele sorri para mim, o que acaba arruinando toda a minha encenação, e me faz franzir as sobrancelhas.
—Nicholas, né? – Ele pergunta baixinho, olhando para a professora com o canto do olho para ter certeza de que ela não iria lhe dar um sermão.
—Sim. – Respondo, simplesmente. Para ser sincero, eu não estou interessado em saber o seu nome, então não o pergunto. Somente observo-o, tentando achar algo em sua face agitada que pudesse me dar alguma informação extra. Ele olha para mim com uma expressão divertida e os seus olhos sorriem para mim. Tenho que fazer esforço para não parecer irritado.
—Meu nome é Erik. – Ele responde, e eu permaneço em silêncio. – De onde você veio?
—Califórnia.
—Nossa! Viagem longa, hein? – Ele pergunta em um tom de afirmação, e eu lhe lanço um sorriso sarcástico que infelizmente parece não lhe afetar. Depois de um tempo em silêncio no qual tudo o que eu podia ouvir era a voz entediada da professora e o som de vários alunos roncando, ele disse: — O seu nome é muito longo. Eu posso te chamar de Nick? Ou quem sabe Nico? – Olho para ele, tentando saber se aquilo era uma brincadeira. Franzo as minhas sobrancelhas novamente ao perceber que não.
—Não. É Nicholas. – E com isso me virei para a frente, fingindo estar prestando atenção à aula. Percebi que ele ficou um pouco desconcertado, mas ele não insistiu em falar comigo depois disso. Por outro lado, nada o impedia de me olhar de relance durante grande parte da aula, ainda com aquele olhar curioso extremamente enervante. Ele parecia ser um daqueles garotos que acham graça de tudo, que não aceitam ouvir não como resposta e que são muito insistentes, o que eu odeio. Quando o sinal toca, uma onda de alívio toma conta de mim, eu pego a minha mochila o mais rápido possível e passo pela porta como um relâmpago, torcendo para que ele não me seguisse.
E ele não me segue.
Na verdade, só vejo Erik novamente na última aula do dia, de História. Avisto-o imediatamente ao entrar na sala de aula, sentado na frente da classe lendo o que me parecia ser o livro de História, e faço questão de me sentar o mais longe o possível dele, o que acabou sendo no fundo da classe. Infelizmente, ele me segue e se senta na cadeira livre ao meu lado, o que me faz revirar os olhos, irritado.
—Nico, então também temos aula de História juntos?
—É Nicholas. – Lhe corrijo, impaciente. -O que você quer? – Pergunto, sem olhar em sua direção. Torço para que o meu tom irritado e as minhas mãos posicionadas no rosto em exaustão lhe passem a mensagem de que eu não o quero por perto. Tudo o que eu consigo, porém, é lhe arrancar uma risada.
—Bem, eu só estava pensando que já que você é novo aqui no colégio, você estaria precisando de um amigo, sabe, um cara com quem conversar. – Ele sorriu aquele mesmo sorriso de antes, o que fez o meu sangue borbulhar levemente. Todos sempre me disseram que eu sou muito esnobe, sarcástico e temperamental, e estou até começando a acreditar agora, enquanto observo o garoto sorridente ao meu lado. Porém, não consigo deixar de me irritar ao menos um pouco.
—Ah, sim... Claro. – Digo, com um nó na garganta. Tento ao meu máximo não dizer nada sarcástico ou ignorá-lo, e o esforço excessivo faz uma veia pular no meu pescoço. Minha língua está firmemente presa entre os meus dentes, impedida de dizer qualquer outra coisa que seria considerada ‘’rude’’.
—Bem... somos amigos, então? – Erik me pergunta, e eu me questiono que idade ele tem. Ninguém me faz esta pergunta há, pelo menos, sete anos. Para falar a verdade, pode ser que ninguém houvesse me perguntado isto na vida; mesmo quando criança eu não era o mais amável, muito menos o mais social. Enfim, engulo o nó na minha garganta com dificuldade.
—Que seja. – É tudo o que eu consigo dizer, o que parece ser o suficiente para ele. Ele sorri novamente e, satisfeito, volta a sua atenção para o seu livro. Recapitulando o que havia acabado de acontecer e me arrependendo de cada momento, eu volto a olhar para a frente, observando as pessoas que entram dentro da sala de aula.
No último segundo, logo antes do sinal tocar, uma garota passa pela porta, levemente ofegante. Ela possui longos cabelos ruivos e cacheados, olhos verde claros e várias sardas em seu rosto, visíveis mesmo de longe. Está vestindo um vestido de mangas curtas florido, combinando com a mochila apoiada em ambos os seus ombros. Sua expressão é tímida e envergonhada com um toque de alívio, provavelmente por ter conseguido chegar na aula à tempo. Sua aparência é como a de um dia ensolarado e, antes que eu me dou conta, estou com os olhos grudados nela.
Fale com o autor