Ela

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Espero que gostem da história! Tenho grandes planos para Ela (viu só o que eu fiz?), e espero conseguir concluí-la. Espero ver reviews! :)

Eu nunca soube como lidar com uma mudança. Durante todas as sete vezes em que eu me mudei durante a minha vida (meros dezessete anos), eu nunca soube como reagir, ou o que fazer. Meus pais me avisariam que estaríamos nos mudando para outra cidade, normalmente devido ao trabalho do meu pai, e eu responderia com um simples ''ok’’. Tenho certeza de que os dois deveriam achar esquisito ou até mesmo anormal a minha falta de reação; qualquer outro adolescente da minha idade surtaria com a notícia de se mudar, sabendo que teria de deixar os seus amigos e o seu colégio antigos para trás. Eu, por outro lado, já havia me acostumado. Meu pai havia conseguido um emprego novo, ''repleto de oportunidades’’, dois anos atrás. Desde então, nós não parávamos na mesma cidade por mais de quatro meses. A única diferença seria que desta vez éramos só eu e ele.

Meus pais se divorciaram duas semanas atrás. Durante toda a minha vida, eu caí na mentira de que os dois se amavam e de que estava tudo bem entre eles, até o dia em que me deram a grande notícia. Minha mãe veio até o meu quarto, que por sinal estava repleto de caixas de papelão espalhadas pelo chão, sentou-se na cama comigo e me falou. Percebi que ela não estava triste com a situação, o que foi um choque. Segundo ela, eles nunca se amaram de verdade, e só ficaram juntos por causa de mim. Na hora, eu quis chutar tudo o que via pela frente (o que eu fiz, logo quando ela saiu), mas permaneci sem reação, encarando-a com um olhar inexpressivo. No dia seguinte, ela foi embora.

Meu pai, por outro lado, teve uma reação completamente diferente à situação. Depois que minha mãe saiu de casa, ele se trancou no quarto dele por três dias, e eu só podia ouvir o seu choro durante a noite. Eu me sentia desconfortável ouvindo-o chorar, mas não fiz nenhum esforço para consolá-lo. Afinal de contas, não era só ele que estava sofrendo. Na verdade, somente uma semana depois foi que ele quis falar comigo sobre o assunto. Ele estava com uma aparência horrenda: seus cabelos negros estavam sujos e oleosos, haviam olheiras fundas e escuras debaixo de seus olhos, e suas roupas estavam manchadas e igualmente sujas. Ao falar, sua voz soava rouca e trêmula, e ele evitava me olhar nos olhos enquanto eu o encarava com desgosto, julgando-o internamente.

''Ela não vai voltar.’’, ele disse, antes de tudo.

''Eu sei disso.’’

''Ela voltou para Wisconsin. Foi morar com os seus avós.’’

''Ok.’’

E esta foi a última vez em que falamos um com outro. Pelo menos, a última vez em que nos falamos sem iniciar uma briga. Depois disso, na semana seguinte nós nos mudamos novamente. Porém, desta vez, eu sabia que não tinha nada a ver com o trabalho dele. Ele queria ficar o mais longe o possível daquela casa, sabendo que foi ali que tudo aconteceu, e eu como sempre não protestei.

A casa em que estamos morando agora é muito maior e mais espaçosa do que todas as anteriores. Ela tem tudo para ser uma mansão: pintada de branco e cheia de pilastres decorativos, cercada por um terreno enorme, com muros altos ao redor e um jardim gigante, repleto de estátuas esquisitas e com uma fonte construída exatamente no centro. Por dentro, era tudo igualmente branco e chique. Haviam lustres, cópias de quadros famosos e móveis elegantes. Era tudo levemente surreal, como se veria nos filmes, e pela primeira vez eu me senti levemente feliz de estar me mudando. Isto é, sem levar em conta toda a situação com o meu pai.

Desta vez, eu tenho o pressentimento de que a nossa estadia nesta casa será um pouco mais longa do que as das nossas mudanças passadas. Hoje de manhã, eu flagrei o meu pai arrumando todos aqueles anjinhos de porcelana e vasos inúteis que a minha mãe havia comprado em cima da lareira. Ele também já havia organizado todos os nossos milhões de livros na biblioteca da casa, arrumado os pratos, copos e talheres nos armários da cozinha e guardado todos os nossos casacos de inverno no armário perto da porta de entrada. Normalmente, nós não nos preocupávamos em arrumar as coisas nas casas, sabendo que logo teríamos que nos mudar novamente, mas não desta vez.

Por este motivo, eu também decidi retirar as coisas das caixas e arrumá-las pelo meu quarto. Coloquei todos os meus livros nas estantes, tirei o meu violão de dentro de sua capa, coloquei todos os meus CDs e DVDs dentro do armário e até reposicionei a cama e o sofá. Porém, a minha mala de roupas ainda está intacta dentro do meu closet, só por via das dúvidas.