Ela
1 Capítulo Único
Um café e um cigarro, é assim que todas minhas manhãs começam, todas elas cinzas e monótonas... Sombras de um passado colorido, uma vez cheio de planos entram pela janela.
Planos de sumir do mapa e vivermos felizes no mato, eu e ela. Ela que um dia recebeu todas as minhas juras de amor e depois me abandounou ao dizer que nossos sonhos eram fúteis e sem base, que nosso ideal Arcadista não era possível, mas a pior parte estava por vir, ela iria se casar... Com um cara boa lábia ,rico... Totalmente contrário ao nosso sonho em conjunto.
Até hoje ecoam em minha mente imagens dela: os cabelos castanho claro quebradiços e mal-penteados presos com uma faixa na testa, o brinco de pena e a longa saia estampada. Eu e ela. Sentados em meio a uma clareira, longe de fumaça e buzina de carro desejando que aqueles dias durassem pra sempre.
Fechei a cortina.
De volta ao meu mundo cinza.
A papelada em cima da mesa de centro, a tv zumbindo um jornal matutino escandaloso, um toque na campainha. Me levanto e vou até a porta. É Carmen, a moradora do 2º andar que entrega as cartas, já tive um caso com ela, mas ela terminou comigo. Uma amiga dela me disse que o motivo foi minha depressão, foi melhor assim, Carmem não me entende. Eu não tenho depressão, são as lembranças... a culpa é toda delas, como esperam que eu me recomponha após ter tudo e perder, ser obrigado a viver neste mundo canibal e capitalista, cinzento, catastrófico e cheio de outros adjetivos ruins com C.
Carmem sorriu:
-Bom dia Jorge, chegou esse cartão postal lá embaixo, é de uma mulher aqui que diz ser sua amiga.- Ela disse virando o cartão e lendo a letra impressa no verso.
Tirei o cigarro da boca como se fosse dizer algo... Não disse, ela me encarou ainda em sua mente me achando estranho.Peguei o cartão. Fechei a porta. Me sentei no sofá e por longos minutos fiquei encarando o cartão a minha frente.
Era ela.
Uma foto dela e do marido em frente ao MASP... Ela estava de volta à cidade, muito diferente, a sabedoria em seu olhar se fora... Aquele olhar de quem havia sofrido e sabia lidar com a vida foi substituído por uma olhar fútil sem graça, como dessas garotas que tem de tudo. O nariz dela, antes uma batata, tão perfeitamente moldada e encaixada em seu rosto agora dera lugar a um nariz fino e pontudo. Fora seus cabelos, os longos cabelos emarranhados e naturais agora brilhavam num liso perfeito e louro artificial.
Não, não era mais ela...
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