Ela é minha paixão
1 Suas novas reflexões
Eu a vejo. A vejo claramente quando fecho os olhos. Tanto tempo a comtemplando fez com que sua imagem aparecesse em minha mente tão nítida e estável. Acho que nunca irá desaparecer. A morte. A morte tem esse poder. Podemos lentamente esquecer das pessoas que um dia amamos, mas quando a morte nos mostra sua face jamais a esqueceremos. Ela me fez lembrar.
Aconteceu a algum tempo, nessa época eu estava contente, feliz. Era um garoto brincalhão, sempre me divertindo com vários colegas, rindo à toa. Então algo me chamou atenção, uma garota. Uma garota sempre estava afastada de todos, suas expressões variavam de melancolia a indiferença, e ficava carrancuda quando se aproximavam. Decidi que deveria falar com ela.
O que você quer? disse ela antes que eu tivesse chance de cumprimentar.
Ahn... Nada demais... Só pensei em te conhecer... eu disse depois de pensar um pouco. Ela continuava com a mesma expressão de indiferença, meneou a cabeça.
Você vai se arrepender. ela disse. Eu insisti na conversa perguntando por que ela disse aquilo. Ela respondeu dizendo que todas as pessoas que se aproximam dela acabam se afastando, que a maiorias das pessoas não são muito legais, e depois um monte de coisas autodepreciativas. Não entendo o porquê, mas naquele momento surgiu em mim o desejo de ajuda-la. Aquela menina que se contradizia, que tem um monte de qualidades que não conseguia ver. Eu queria a proteger, era isso que eu sentia. Depois de me avisar novamente para não me aproximar eu disse:
"Eu assumo os riscos. Por que... não se pode viver com medos de arrependimentos. E principalmente, por que eu sei que você vale a pena." Ela continuou com a mesma expressão. Mas eu insisti, ela foi difícil no começo. Hesitava sempre que eu chegava para conversar, mas logo a conversas começaram a fluir. E sem se dar conta nos tornamos amigos, e então me dei conta que estava apaixonado. Sim, desde a primeira vez que a vi, o interesse que eu senti por aquela figura estranha, aquela melancólica garota, era paixão. Eu a queria.
Então certa noite, nos encontramos para conversar sobre o trabalho da faculdade. Eu não consegui evitar, eu a beijei, com todo o meu desejo. Mesmo sem saber seus sentimentos, revelei os meus. Ela ficou confusa, foi embora correndo, disse que precisava pensar. Ficamos dias sem falar um com o outro. Mas ela veio para mim. Ela veio, ela sentia o mesmo que eu,estava insegura por seus problemas, mas resolveu que não se pode viver com medo de arrependimentos.
Então nós fomos eternamente felizes. Durante um tempo. Foram os melhores seis meses da minha vida, mas então ela começou a ficar estranha. Eu sabia que o humor dela mudaria abruptamente, mas foram seis meses sem crise, que me fizeram me esquecer disso. Ela começou a ficar distante, mas se esforçava para parecer bem. Ela não queria que nossa relação mudasse por conta de seus problemas. Eu acreditei que fosse isso, mas sentia que tinha algo mais.
Fui visita-la a noite, quando estava chegando me lembrei que ela não estaria em casa hoje. Pensei em voltar, mas resolvi ir ver se estava tudo em ordem, então a vi saindo de casa, por instinto me escondi. Ela já deveria estar na casa de seus pais, a segui tomando muito cuidado, queria saber onde ela realmente iria. Ela foi para uma parte da cidade que eu não conhecia muito bem, me perguntei como poderia ela conhecer. As ruas por aqui são desertas, mas não parece ser um lugar muito receptivo. Entrou em um antigo edifício.
Tomando cuidado para ela não perceber fui atrás dela. Subiu as escadas. Quando chego ao topo consigo ver uma porta se fechando na parede a esquerda no meio do corredor. Paro em frente a porta, disposto a descobrir o que está acontecendo abro a porta com força. Não há nada além de uma precária sala de estar, fecho a porta e avanço pelo apartamento sem fazer barulho. Quando entro na próxima porta que encontrei, vejo algo que eu jamais poderia imaginar. Um escritório bagunçado, com papeis espalhados pela mesa e um mural com mapas, notas, e fotos de garotas. Eu vejo as fotos. Jeniffer. Marcela. Jane. Mary. Fotos de garotas mortas. Quando eu estendo a mão para pegar uma foto, ouço passos atrás de mim. É ela.
"O que você... como...?" pergunta ela surpresa. Começa a caminhar para trás lentamente e eu vou atrás dela.
"Eu te segui. Você não deveria estar na casa dos seus pais?... O que... O que significa isso?!" me descontrolo por um momento.
"Eu... eu... Calma. Eu só..." chegamos a uma cozinha, e eu percebo que ela está fitando a faca na pia. Eu corro mas ela pega a faca antes. Ela aponta a faca para mim. Como ela pode fazer isso?! Depois de tudo que nós passamos ela tem coragem de apontar uma faca para mim!
"Como você pode?!" eu grito. Ela não diz nada. Ela vai para sala.
"Lennon!" ela chama alguém. Pior do que eu pensava, tem outra pessoa envolvida nisso. Quem será?. Preciso fazer alguma coisa, penso em aproveitar alguma oportunidade para tirar a faca dela. Eu tento chegar mais perto dela.
"Fica longe de mim!" ela começa a chorar, "Me diz a verdade! Por que se aproximou de mim?!" quase não consigo entender por causa do choro.
"Como assim?... Eu me apaixonei por você, eu queria... Eu... Eu amo você!"
"MENTIROSO!! Você é um monstro!" grita ela insanamente. Eu não sou um monstro, claro que não. Eu a amo,por que ela não consegue enxergar?
"Me dê a faca. Esqueça isso."
"Você... O que iria fazer comigo, hein? O que?... O mesmo que você fez com elas? Você é doente." ela fala com raiva, e eu perco o controle.
"VOCÊ escolheu morrer. Eu te salvei! Elas já estavam mortas. Eu escolhi ajudar você. Por que eu te amo, você não entende?" ela continua chorando, está enfrente a porta.
"Não. Eu nunca vou entender..." ela abre a porta e sai correndo. Eu vou no encalço dela. Consigo alcança-la perto dos degraus, eu a agarro pelos braços, mas ela não solta a faca. Ela grita, eu tento acalma-la, mas é em vão. Eu avanço e piso em falso no primeiro degrau da escadas e nós caímos.
Rolamos até a base da escada, eu em cima dela. Me levanto e ela se afasta, sentada no chão, então eu vejo o sangue. Há sangue espalhado por todo o chão, olho pra ela e vejo suas mãos e roupas encharcadas de sangue. O que eu fiz? sinto uma pontada de dor e ao olhar para baixo vejo que sou eu a fonte de todo esse sangue. Caio de joelhos, tento me levantar mais não consigo, está sangrando muito. Eu vou morrer. Eu não esperava isso, mas estou com medo da morte. Eu sentia tanto prazer vendo o sangue, comtemplava a morte, achava interessante, e excitante. Mas agora estou com medo, muito medo de morrer.
"Meu Deus, meu Deus..." ela continua chorando, mas por que? eu achei que ela me odiasse. "Meu Deus... Eu te amei... você ajudou tanto... Mas... Meu Deus, por quê?..." Eu amo realmente, ela não é como as outras, ela tem algo de diferente. Isso é a única coisa que eu queria. Que ela entendesse.
"Eu te am...." engasgo, " eu realmente... te amo, Mo...."
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