Ela É Minha!
1 Sasuke - A stalker da minha infância, parte I
“Kami-sama... Por favor, olhe por mim!”
Hinata suspirou profundamente e saiu para a rua gelada, abraçando um pequeno embrulho vermelho contra o peito. As lojas piscavam cheias de luzes brilhantes e pessoas apontavam alegres pra vitrines, mas ela mantinha o olhar nos próprios passos atrapalhados em meio à neve fofa.
Eram tempos de paz em Konoha. Sasuke Uchiha, o maior espinho da nação, havia finalmente sido arrastado de volta e com isso a maior parte dos problemas estava resolvida. A Akatsuki fora desfeita e os membros que não foram presos estavam mortos. Toda Konoha podia enfim respirar tranquila.
Hinata estava muito feliz por tudo estar bem e principalmente por ter Naruto de volta. Mesmo que ele estivesse constantemente ocupado e fosse uma missão quase impossível conseguir falar com ele a sós agora. E mesmo que ele não tivesse a procurado ou dito qualquer coisa sobre a sua declaração dolorosa em campo de batalha. Ou sequer um “oi’.
Hoje Naruto deveria ter um dia de folga das suas obrigações. Afinal, é feriado em Konoha. O primeiro que pode ser comemorado sem o peso na consciência de ter vilões espreitando e pessoas inocentes sendo mortas. É véspera de Natal.
Com as melhores esperanças Hinata atravessava as ruas, levando nas mãos os doces que fizera esperando que os dois pudessem comer juntos e conversar um pouco. Havia coisas que ela precisava dizer, urgentemente. Coisas que envolviam seus sentimentos e o seu crescimento, um discurso que ela treinava diariamente com as plantas do seu quarto com tanta emoção e convicção que faria a samambaia chorar se ela tivesse vias lacrimais.
De cabeça aérea Hinata mal percebeu que ia em direção à outra pessoa até que já estivesse perto demais e os dois se chocassem, ela escorregasse na neve e desabasse feito uma jaca no chão.
– Olhe pra onde anda, cacete! — A pessoa falou, antes que Hinata conseguisse cuspir o gelo que lhe enchera a garganta e as narinas para pedir desculpas.
– E-eu sinto muito! – Hinata se levantou sozinha, desajeitada, a neve derretendo e fazendo água gelada entrar nas suas narinas. – Ah... Você... Eu lhe conheço?
O estranho grosseiro era estranhamente familiar. Alto, talvez do mesmo tamanho que Neji, e com a mesma pele branquinha. Cabelos escuros, olhos também. Cara carrancuda de quem não encontrou papel higiênico no banheiro. Não o conhecia de algum lugar?
– Deve conhecer – ele respondeu, grosso. – Todo mundo daqui me conhece.
– Ah! – Hinata bateu uma mão fechada na outra, subitamente animada. – Já sei! Você é aquele detetive, não é? Que está tentando pegar o assassino do ataque cardíaco! E que tem problema na coluna! Como é o nome, mesmo? É uma letra, eu lembro... Hm... A, b, c, d, e, f, g, h, k... Vocês contam o K como letra? Não é K, é?
O estranho grosseiro franziu a testa, incrédulo, e balançou a cabeça.
– Tá brincando comigo?
– Isso é tão divertido, eu sempre quis conhecer um detetive de verdade. Aqui, adivinha quantos dedos eu tô escondendo!
– Mas isso é coisa de vident—...esquece – Sasuke sacudiu a cabeça, aquela conversa estava lhe deixando confuso. Já não bastasse ter que lidar com todos os seres vivos de Konoha lhe enchendo de beijos babados e olhares de “volte pro mato, capeta”, fora todas as garotas histéricas, precisava aturar isso agora. E logo na primeira fugida que tentava dar em uma semana inteira. — Eu não sou um detetive. Nem vidente – acrescentou, por via das dúvidas.
– Não? – Hinata soltou um muxoxo de decepção, abaixando-se para pegar os seus biscoitos – Quem é você, então?
Sasuke ponderou, mal-humorado. Ela não podia estar falando sério. Um ninja de Konoha que sequer tivesse ouvido a sua história era a coisa mais impossível de se existir. Mesmo que não a conhecesse – embora sua cara não lhe fosse completamente estranha.
Inferno, só queria dar uma volta, respirar ar puro, chutar umas árvores. Será que isso era pedir muito?
– Não sente frio com essa roupa? – Hinata perguntou outra vez, e Sasuke seguiu o seu olhar, baixo na altura de seu peitoral, exposto pela abertura da blusa branca. Não era a primeira garota a lhe encarar descaradamente e ele já estava enjoado desse tipo de atenção, mas ela continuou, contrariando seus pensamentos. – De onde você vem as pessoas são todas sem vergonha na cara assim? — OUCH– Como dá pra alguém manter uma conversa séria olhando pro seu umbigo? E alí ainda tem uma coisa rosa que--... A-AAAAAAAH! S-SINTO MUITO!
– O que foi agora? – Sasuke perguntou, irrequieto, vendo a garota explodir em vermelho.
– EU VI! – Hinata gritou, virando bruscamente a cabeça pro lado, os braços tapando seu rosto. – EU VI SEU MAMILO! SINTO MUITO, EU JURO QUE NÃO QUERIA TER VISTO! MEUS OLHOS VÃO QUEIMAR NO INFERNO!!
Sasuke demorou um pouco para entender. Aquilo era absurdo demais para estar acontecendo de verdade.
– DESOOONRA! – Hinata rodava o corpo de um lado pro outro, desesperada. — DESONRA PRA SUA FAMÍLIA, DESONRA PRA MINHA FAMÍLIA, DESONRA PRA TODO MUNDO! DEVO COMETER SEPPUKU PARA LIMPAR NOVAMENTE NOSSO SANGUE!
– Pare de escândalo, não é nada demais.
– NÃO POSSO! EU CONSIGO SENTIR SEUS MAMILOS ESQUISITOS ME ENCARANDO! ELES TRAZEM A CULPA E A DESOOOOONRA!
– Porra. Eu fecho a blusa, tudo bem? – Sasuke resmungou, irritado, puxando a camisa e apertando o cinto de corda. Olhou pros lados, ainda ninguém parecia ter notado o escândalo barulhento, por sorte – Pronto. Pode olhar.
Hinata espiou entre os dedos. Ele não mentiu. Pegou uma das mãos dele e a segurou com as suas perto do peito.
– Eu sinto muito, muito mesmo por ter violado o seu corpo dessa forma – falou, os olhos rasos d’água compreensivos encarando Sasuke tão ternamente que ele sentiu como se tivesse sido estuprado por um bando de caminhoneiros bêbados.
– Quanto barulho. Nem Orochi fazia tanto drama assim – bufou mais para si mesmo, desviando o olhar, mas alto o suficiente para que Hinata ouvisse.
– Orochi? Ah, será que!... – Os olhos de Hinata se arregalaram, aos poucos, enquanto a conclusão óbvia se desenrolava. — Você é o... Uchiha... Sasuke?
Sasuke não respondeu, achou que fosse óbvio o suficiente. Já estava tão acostumado a ser reconhecido que era como se andasse por aí com uma placa de “condenado do vilarejo” pendurada no pescoço.
– Entendi — Hinata sorriu. – Então é você o Sasuke-kun que desde o primário convive com o Naruto-kun e que tem uma personalidade tão forte e contrária à dele que é impossível para os dois não gritarem um com o outro ou tentarem se matar a cada cinco minutos e que mesmo assim exerce tanta influência e atração sobre as pessoas que fez com que Naruto-kun dedicasse todos os seus dias à difícil e quase impossível tarefa de lhe resgatar, fazendo com que ele estivesse sempre lutando e viajando e assim crescesse como uma pessoa forte e se tornando o único objeto merecedor da sua atenção durante esses longos anos, criando uma fixação tão forte sobre ele que não poderia ser saudável e que fez Naruto-kun inconscientemente ignorar todos outros tipos de sentimentos que tentassem se aproximar do seu coração tão determinado, não importa o quão puros eles fossem e quão duro eles estivessem tentando, arruinando assim a possibilidade de um relacionamento amoroso durante todo esse tempo, não é? – Ela riu, inclinando a cabeça e fazendo seus cabelos balançarem. — Eu sou Hyuuga Hinata. É um prazer lhe conhecer, Uchiha-kun.
A cena era realmente, realmente assustadora. Sasuke deu um passo para trás, sem querer admitir para si mesmo se estava assustado ou só surpreso com a aura negra instalada por trás do sorriso dócil. Uma lembrança vaga, porém, foi o suficiente para lhe distrair.
– Hinata? ...A herdeira do clã Hyuuga? – Ela concordou com a cabeça, sorrindo. Ele achou que se lembrava de algo parecido. De uma época bem distante. De uma pessoa pequena e de bochechas vermelhas. — Nós estudamos juntos, não foi?
– Fico feliz que tenha lembrado, garoto mamilo.
– Oe, que tipo de apelido é esse? — Perguntou, irritado.- Então, você e Naruto estão namorando? Porque eu sempre pensei que ele gostava mais das rosad—Se interrompeu, vendo um mapa de veias se sobressaírem na testa e ao redor dos olhos da Hyuuga, o sorriso se comprimindo tanto que parecia prestes a rasgar o resto da cara. – Esquece. Você e Naruto, han?
Hinata baixou o olhar e chutou um montinho de neve, mordendo o interior das bochechas.
– Nós não estamos exatamente namorando...
– Entendi – Sasuke disse, mais confortável pelo sorriso psicopata ter ido embora. – Você só continua perseguindo ele de longe e desmaiando toda hora.
– Isso não é verdade! – Era verdade.
– Admita, você é só uma stalker.
– Não sou! – Hinata quase gritava, estava tão zangada por saber que ele estava dizendo a verdade que conseguia o encarar mesmo sentindo suas bochechas queimarem. – Eu também cresci todos esses anos... Eu sou forte agora! Estava indo agora mesmo entregar isso ao Naruto-kun e conversar com ele sobre meus sentimentos!
– Verdade? – Sasuke ergueu as sobrancelhas, desdenhoso, e deu uma olhada no embrulho vermelho berrante que ela apertava contra o peito. – Eu duvido que você consiga.
Hinata fervia de vergonha e raiva.
– Você vai ver, eu sou capaz!
Marchou na neve, furiosa e determinada. Deu três passos e caiu.
Hinata gemeu dolorosamente, o rosto escarlante fazendo a neve soltar fumaça. Começava a se reerguer nos cotovelos, sentindo-se extremamente pesada, quando percebeu o Uchiha abaixado ao seu lado.
– Realmente, você é um exemplo de determinação e equilíbrio – ele disse, sarcástico. — Certeza que não vai cair num poço antes de encontrar o loiro idiota?
Sasuke a viu tremer o corpo semi-erguido pelas mãos, de cabeça baixa, e imaginou que talvez ela fosse chorar. Afinal, garotas eram fracas daquele jeito. Porém ao invés de ver lágrimas somente sentiu algo pesar sobre a sua cabeça e antes que fosse capaz de reagir estava com a cara enfiada na neve também.
–Você é muito mal educado pra um detetive, sabia? – Ele ouviu Hinata dizer e depois de chacoalhar a cabeça feito um cachorro para se livrar da neve dos olhos e dos ouvidos a viu de pé na sua frente, batendo as mãos pra se livrar da neve acusatória.
–Empurrar alguém na neve também não é a exata definição de boas maneiras – disse, fungando água gelada pra dentro do nariz. Também levantou e tentou bater pra fora das roupas a areia gelada. Sentiu um puxão na sua blusa.
– Vamos logo, está ficando tarde – Hinata reclamou, abraçada com seu embrulho por um braço e lhe puxando com o outro.
– O que você quer dizer com “vamos”? – Sasuke perguntou, desconfiado.
– Você vai comigo encontrar Naruto e vai ver o quanto eu sou corajosa – ela respondeu.
Sasuke soltou uma risada seca e desdenhosa, tirando a neve de dentro das mangas.
– Não mesmo. Não estou nem um pouco a fim de ver aquele animal oxigenado hoje.
O desenho de veias saltadas medonhas voltou ao rosto da garota, envolvendo seus olhos e lhe dando um ar de demônio furioso. Só agora Sasuke lembrou que aquelas eram características do Byakugan. Ela era uma Hyuuga, afinal. Dessa vez ele conseguiu captar de relance a mão dela se mover, tão rápida que era quase imperceptível, e lhe atingir em algum ponto pelo cotovelo, com certeza atingindo bem perto de um de seus pontos de chackra, considerando a dormência esquisita que o encheu.
– Que droga, não faça isso de novo! – Sasuke resmungou, com todos os pêlos de seu corpo eriçados pelos calafrios nervosos na espinha.
As veias sumiram outra vez e Hinata sorriu, inocente demais.
– Fico feliz que tenha mudado de ideia, Garoto Mamilo!
Ela começou a andar à sua frente, dessa vez mais cuidadosa com onde pisava. Sasuke estranhou que não o escoltasse ou colocasse nele uma coleira com corrente. Talvez estivesse acostumado demais a ser prisioneiro.
Mesmo estranhando a liberdade atual ele pensou em se aproveitar, dar meia-volta e sumir antes que a garota stalker da sua infância o percebesse, entrar na floresta e passar o resto da sua noite surrando seres com clorofila e chutando neve sozinho, como queria. Poderia, claro.
Ainda estava pensando nisso quando viu a Hyuuga tropeçar em um montinho de neve dura e apressou o passo para acompanhá-la.
Notas finais
Não deixe os ânimos se esfriarem com a neve! Hinata irá se confessar? Irá ter pesadelos com os mamilos esquisitos do Uchiha? Não percam tudo isso, no próximo capítulo!
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