Alguns minutos depois, Thony saía de um bueiro em frente à entrada do aeroporto, muito abalado. Logo ele já estava dentro do avião em direção à Paris. Agora podia respirar e refletir sobre os últimos acontecimentos.

Durante a viajem, Thony olhou de relance para seu medalhão e, emocionado, observou seus detalhes, lembrando-se de sua família.

Era um medalhão redondo com detalhes complexos. Uma cobra se enrolava por todo ele e, no centro, uma espécie de adaga com um rosto esculpido. Era meio sombrio e assustador, mas Thony o tinha como seu bem mais precioso, afinal foi a única lembrança que sua família deixara. E, além de tudo, ele tinha a impressão de ter visto aquele símbolo em algum lugar, só não conseguia se lembrar onde.

Horas mais tarde, Thony chegou à Paris. Quando saiu do aeroporto, alguém com um sotaque francês o chamou:

- Sir Anthony Mandrak! Aqui senhor!

- Quem é você? – Thony perguntou se virando.

- Ah, péssima recepção! Bonju para o senhor também.

- Me desculpe, estou muito nervoso com as coisas que estão acontecendo.

- Entendo. Deixe me apresentar: meu nome é Milla Phohié. Encantada em conhecê-lo…

- Muito prazer – Thony apertou a mão da francesa – me desculpe a indiscrição, mas a senhorita é muito bonita.

- Obrigada – ela abriu um grande sorriso – e o senhor é um verdadeiro cavalheiro…

Milla era realmente muito bonita: tinha olhos castanhos claros e cabelos da mesma cor presos num elegante coque, com alguns fios caindo em seu rosto. Ela vestia um casaco pardo que caía até os pés.

- Senhor, me acompanhe…

Os dois seguiram até uma Pajero preta estacionada no grande pátio do aeroporto. Durante o caminho eles conversaram bastante.

- Gostaria de agradecer por me acompanhar – Thony disse – você foi contratada por Jonh Glover, não é?

- Não, não trabalho para ele…

- O quê? – Thony se desesperou-o que você quer comigo, então?

- Calma, levaremos o senhor para um hotel. Só te busquei no aeroporto para te alertar: não confie totalmente em Jonh Glover, ele é muito ambicioso.

- O que a senhorita sabe sobre ele? – Thony perguntou intrigado.

- Eu sei que ele tem pistas sobre sua família e vai obrigá-lo a trabalhar para ele em troca dessas pistas. Mas, apesar disso, ele não é mau.

- Mas a senhorita disse que não devemos confiar totalmente nele…

- Sim, mas eu lhe peço, mantenha contato comigo. Me avise de qualquer coisa que Glover lhe pedir – Milla tirou da bolsa um cartão – aqui estão o número do meu celular, do apartamento e meu endereço. Qualquer dúvida ou necessidade me procure.

- Senhorita Milla, chegamos no hotel – o motorista disse olhando pelo espelho retrovisor.

Thony olhou para a francesa se sentindo mais perdido e confuso que antes. Ela, no entanto, continuou impassível e disse séria:

- Agora vá e diga a Jonh Glover que pegou um táxi até aqui, ok?

- Tudo bem, mas quando nos veremos de novo?

- Em breve, meu amigo. Muito breve.

E, em uma atitude ousada, Milla se despediu de Thony com um longo beijo em seus lábios, pegando-o de surpresa. Depois sussurrou:

- Não se esqueça: diga ao Glover que você pegou um táxi, entendeu?

- Acho que sim – Thony respondeu com um filete de voz – então… adeus.

- Eu diria até logo…

Thony desceu da Pajero atordoado e surpreso pelo beijo de Milla.

O hotel era muito grande e, na entrada, havia placas de cobre e ouro com o nome e algumas decorações em estilo antigo.

- Sr. Anthony Mandrak, aqui – ele ouviu uma voz no fundo do saguão.

- O senhor é Jonh Glover? – Thony correu até o homem, ansioso. Era um rapaz alto, magro e de barba bem feita.

- Não, fui contratado por ele para receber o senhor no aeroporto, mas não o encontrei lá.

"Esse cara deve ser milionário para contratar tantas pessoas, ainda mais em missões com risco de morte", Thony pensou sem conseguir evitar um sorriso irônico.

- Sr. Mandrak, o Sr. Glover irá encontrá-lo amanhã as dez da noite na torre Eiffel. Seu quarto é o 805, aqui está a chave. Você ficará no hotel até amanhã, suas despesas estão pagas. Se quiser comprar alguma coisa, use o dinheiro que tem.

Thony recebeu as chaves, perplexo. Aquele rapaz aparentava estar nervoso e falava tudo muito rápido, tanto que a cabeça de Thony começava a doer.

- Ah, muito obrigado – ele disse – afinal, qual o seu nome?

- Cláudio Hanish.

- Que nome estanho!

- É que eu venho do Brasil.

- Ah, entendo…

- Mas afinal, como o senhor achou o hotel? Quem o trouxe?

- Ah, é que… eu vim de táxi – Thony ficou preocupado. Cláudio poderia perguntar como ele encontrara o hotel certo, aí ele não saberia responder.

- Então creio que o senhor já leu a carta que o Sr. Glover deixou dentro do seu passaporte –Cláudio estava com cara de poucos amigos.

"Carta? Ele deixou uma carta?" Thony pensou enrugando a testa.

- Ah, sim, li – ele mentiu – claro que li…

- Então descanse senhor…

- Mas ainda são nove horas da manhã.

- Faça o que quiser, então. Só aconselho o senhor a não sair do hotel.

- Por quê?

- Porque o senhor pode não voltar mais…

Cláudio seguiu para o lado oposto do saguão, deixando Thony atordoado e com medo. Ele então decidiu ir para seu quarto.

Era um quarto grande. Thony foi até a janela aberta e vislumbrou o museu do Louvre. Ele tinha muita vontade de conhecê-lo, ainda mais depois das histórias impressionantes que ouvira. Há um ano houve alguns acontecimentos desagradáveis no museu: roubos, acusações e um segredo que acabou caindo nas costas de sua amiga Natany Ousborne. Thony queria encontrá-la novamente, há muito tempo não se viam.

Thony se deitou na cama confortável e, perdido em seus pensamentos, acabou adormecendo. Estava cansado do que estava acontecendo e queria que tudo acabasse. O dia se passou normalmente e a noite chegou fria. O telefone do quarto tocou e Thony correu para atender.

- Alô? – ele atendeu ansioso.

- Anthony, sou eu, Samy Thollar, sua advogada. O que aconteceu com você?