Elíseos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os cascos do animal batiam com força sobre o chão arenoso. A mulher ergueu-se com delicadeza até se equilibrar de pé sobre o lombo do cavalo, Harpia, sempre fora conhecida como uma ótima arqueira. O balanço do animal e o ventre já protuberante, não lhe atrapalhavam em nada.
Os olhos da fera brilhavam em amarelo, os rugidos eram altos e escutados por toda área, era apenas mais alguns passos, para que alcançasse a floresta, mais alguns passos para que pudesse se salvar.
Harpia ergueu o arco e colocou a flecha na mira, o olhar da feiticeira petrificou o redor — Morra! — ela exclamou disparando o objeto pontiagudo atingindo em cheio a fera. O grande lobo caiu sobre as pata dianteiras, o sangue escurecido se espalhando com pressa, enquanto a transformação, ao poucos se dissipava. Harpia pulou com delicadeza sobre o solo, a face franzida com certo nojo, aproximou-se passo a passo da mulher caída e riu — A grande fera, não passava de uma donzela — resmungou entredentes. Sua raça tinha extremo ódio daquela espécie, após sua mãe, a rainha Blér, ter sido cruelmente assassinada por um daqueles, sua vida fora guiada a lutar contras os seres, até encontrar o verdadeiro vilão entre eles.
Harpia desceu novamente seu olhar para a mulher, os longos cabelos negros caindo sobre o solo, a pele nua, marcada com as perfurações das flechas e por arranhões. Ela deu as costas ao cadáver e se retirava para sua montaria, quando se lembrou da flecha. Retornou novamente para próximo do corpo, abaixou-se o máximo que a gravidez já avançada lhe permitia, fechou os olhos quando uma leve brisa roçou sua face, levando o perfume que tanto conhecia, já que a própria cheirava como tal — Uma mãe — comentou para si. Retirou a flecha com um único esforço, e rondou o local, um pequeno e fino lençol, pendia sobre os ombros do ser. Franziu novamente a face em nojo, ao tocar na mulher perecida, a virou, sem se surpreender ao ver entre os braços, firmemente protegida, um amontoado de panos ensanguentados. Suspirou tocando os retalhos — Um filhote — cuspiu as palavras com certo rancor, observando as bochechas rosadas do pequeno bebê, ainda adormecido. Pegou a criança adormecida a aconchegando em seus braços, lançou novamente um olhar para a antiga fera, deu-lhe as costas e seguiu com a criatura entre os braços. O lago mais próximo, resolveria esse problema de uma vez por todas.
***
Sete anos depois.
A garotinha corria pelo campo, um pequeno labrador cor de chocolate, corria ao seu lado. Ela carregava um simples graveto em suas mãos, os pés descalços roçando na grama molhada. Ao longe era observada, um jovem vassalo não tirava os olhos dos movimentos sinuosos dos cabelos loiros de Elisa, a princesa estava sobre sua guarda, apesar dos poucos oito anos recém completados, tinha muitas responsabilidade sobre suas costas.
_ Vamos Jásper — o menino se assustou ao escutar a voz de Elisa tão próxima de si, se afastou alguns passos podendo observar o vestido rosado de seda, que corria até o chão, em curtas camadas, o laço pendendo em sua cintura — Anda, vamos. Logo alguém vêm nos buscar e não teremos brincado — ela repreendeu de forma infantil agarrando as mãos esbranquiçadas do outro. Elisa notava o quão peculiar era a aparência de seu acompanhante, os cabelos tão negros como a noite, sendo prontamente acompanhado pelos olhos cor de oliva, o sorriso sendo acompanhado por uma estranha fileira de dentes um pouco mais pontiagudos, as mãos com unhas escurecidas e afiadas.
— Eu não deveria Elisa — ele murmurou quase constrangido, as mãos fechadas e firmes entre os dedos finos. Correram até certa distância, pararam rente a um lago. A garota se virou a ele com um sorriso travesso — Elisa, o que você... — ele não finalizou a frase, a menina pulou sobre ele em um ataque "surpresa", em forma quase automática, ele ergueu as mãos, as garras finas atravessaram vagarosamente o tecido fraco do vestido, atingindo sobre o estômago. Os olhos de Jásper se arregalaram ao ver a menina cair sobre o solo, um pequeno filete de sangue já corria pelo corte.
— Jás...per – a voz saiu levemente amedrontada, os olhos cor de areia marejados. O jovem lobo apenas agarrou a pequena pela cintura, os braços pequenos se esforçando para arrasta-la de volta ao reino.
**
Eles foram avistados de longe, dois cavaleiros desceram de seu posto ao ver a pequena princesa sendo arrastada,o pescoço pendido. Jásper rosnou quando Elisa fora arrancada de seus braços, um dos cavaleiros o segurou pelo pescoço – Criatura imunda – o menino se encolheu ao escutar as palavras ferinas, acompanhou de longe enquanto Elisa era levada para dentro.
Jásper estava encolhido no canto, os passos pesados do rei o amedrontavam completamente. Tinha em sua face, as marcas da punição por ter atacado a princesa – Eu sei que você está aqui. Apareça Jásper, apareça exatamente agora – o rei bradou. A criança se ergue saindo do esconderijo.
— Majestade – ele se ajoelhou no chão, a cabeça baixa, os fios negros descendo sobre as orelhas levemente pontiagudas. Bartolomeu era altivo como todo rei, justiça era o que mais clamava, os olhos cinzentos que antes carregavam tanta ternura, passara a carregar frieza, desde que sua bela esposa Harpia partira. Jásper fechou os olhos e rosnou, quando a bengala que o homem carregava atingira sua face.
— Eu sempre fui justo com você Jásper. Mesmo após minha esposa ter falecido, eu continuava a cuidar de você e como me paga? Ferindo minha única filha – o rei bradou – Sua raça jamais será bem vinda entre nós, você irá continuar sob minha supervisão, até que tenha idade o suficiente para partir – o menino mantinha a face baixa – Até que o dia chegue, você está proibido de se aproximar de Elisa, a partir de hoje, você viverá nos currais e junto com os outros empregados, claro, se eles aceitarem sua presença lá. Não o quero dentro dos muros do castelo, a não ser que eu solicite a sua vinda – Bartolomeu finalizou e saiu do local fechando a porta. O menino continuou de face baixa, que observasse notaria as pequenas lágrimas correndo por seu rosto infantil.
**
Oito anos depois
A princesa se equilibrava com delicadeza sobre o lombo do animal, o arco em mãos, firmemente apontado para o alvo. O vestido branco descia até um pouco acima de suas coxas, os pés descalços adornados por pequenos rubis em forma de flores, as mãos delicadamente enfeitadas por rendas que se trançavam entre seus dedos, o cabelo preso no alto, um rabo de cavalo que escorria por suas costas e eram firmados por uma única rosa.
— Katon* — ela murmurou retirando a flecha da aljava e posicionando, o objeto pontiagudo logo se acendeu, Elisa respirou fundo antes de soltar a flecha. Ela correu por entre os dedos finos, a princesa observou enquanto a flecha se incendiava e atingia a árvore a qual havia mirado. A garota fechou os olhos quando a planta se incendiou por completo, logo se tornando cinzas.
— Você está melhorando a cada dia Elisa – a voz doce de Stella invadira o ar – tente usar o Uton, dessa vez – a princesa apenas concordou, novamente mirando em algo a esmo, o cavalo galopando com certa vagareza. Murmurou o feitiço e atirou a flecha novamente, um raio azulado a cobriu no caminho, quando atingindo o alvo, fizera com que a explosão fosse alta – ótimo. Por hoje chega – a mulher agitara a mão fazendo com que o animal parasse e seguisse a seu encontro. Elisa pulou do cavalo, pousando no chão com extrema delicadeza, sorriu e agitou a mão, aprendera a criar belíssimas ilusões junto com Stella, sua ama de leite e sua mais próxima tia. Descobrira com ela sua real descendência, aprendera sobre a vida de sua mãe e o caminho que ela traçara como caçadora nos Elíseos.
— Estou extremamente exausta – a menina murmurou se sentando entre as flores – avise a meu pai, irei banhar-me no rio – Stella sequer pode responder, a menina já avia sumido com os pássaros em meio as flores.- Não deveria ter ensinado essa transformação para ela – murmura ressabida caminhando de volta para o castelo.
**
Elisa parou planando sobre o rio, logo se transformando novamente, se posicionou e despiu-se no caminho. Caíra na água bruscamente, a pele quente se arrepiando diante ao toque gelado. Ela fechou os olhos relaxando, todos os dias, passava momentos ali, em sintonia com sua própria natureza e magia. Mal percebera o tempo passar, a água aos poucos se mornava e o sol se escondia, sentiu o ventre vibrar ao sentir uma conhecida presença próximo ao lago – Jásper – murmurou e sorriu ao sentir os braços do rapaz em torno de si. Os lábios logo estavam unidos em um singelo beijo de cumprimento – Você cheira a orquídeas hoje, esteve próximo aos Elíseos?
O lycan apenas ergueu a sobrancelha – Sim! Escutei... Um chamado – comentou com falsa casualidade. A menina se virou no abraço e encarou a face de Jásper, suspirando com pesar. Os olhos cor de Oliva se encontravam quase dourados, o sorriso canino, denunciava a origem lycan que ele carregava.
— Não gosto disso – os olhos dourados fugiram da face da garota e encaravam agora um ponto qualquer – Sou uma bruxa caçadora Jásper,não posso aceitar isso em silêncio, é como se eu estivesse participando – ela se afastou alguns passos, conseguindo observar o corpo dele por completo. O peito nu marcado por arranhões e algumas mordidas, um filete de sangue seco, escorrido pelo pescoço do mais velho – você prometeu parar.
Jásper a encarou com seriedade, mas logo suspirou – Elisa, é minha origem,meu instinto. Eu não posso parar, vai ser como se eu tivesse negando a minha descendência, rejeitando a minha espécie – parou um pouco pensativo e continuou – eu não sou um monstro, eu não ataco pessoas Elisa, você sabe.
— Mas até quando? — perguntou sentindo a garganta secar – até quando você vai ter esse alto controle, você sente fome Jásper, eu sinto a sua fome. Eu...eu percebo o controle que você usa e o quanto isso está te ferindo, eu percebo suas feridas de alto controle — o rapaz baixara os ombros e a olhava de forma derrotada — Não pode fazer isso com você mesmo.
— Pense em como você se sentiria se fosse obrigada a selar a sua magia — a fala saia cautelosa — Como você iria conseguir viver sem suas caçadas Elisa, pense um pouco no meu lado também.
— Eu penso, mas antes de você, eu tenho a obrigação de proteger os humanos.
— Humanos que tentam destruir a sua espécia dia a pós dia, esses mesmos que muitas vezes torturam um igual a você — ele apontou e nadou para fora do rio. A garota seguiu seus passos. A noite já havia caído enquanto o casal se observava, o silêncio era desconfortável e a tensão palpável.
— Jásper, por favor. Não participe mais disso, eu não quero ter que...- ela se interrompeu apertando o vestido entre os dedos — eu não quero...
— Não quer ter que me caçar — o rapaz apontou com o cenho franzido — não quer ter que me colocar como mais um troféu de caça nessa sua maldita lista — Jásper passou as mãos pelos cabelos molhados em clara tentativa de controle, em uma clara tentativa de se manter consciente de seus próximos atos — então eu sinto muito por isso.
—Jásper... — ele apertou as mãos em punhos e lhe deu as costas.
— Eu não vou abrir mão da minha origem Elisa, sinto muito por isso — a última frase tamborilou na mente dela, enquanto em passadas rápidas o garoto se afastava.
**
Um ano depois
Bartolomeu encarara com a face séria os olhos do rapaz — Você está livre das suas correntes e livre da minha supervisão — a voz era fria e clara. Jásper o olhava com certa rebeldia, um sorriso travesso brincando entre os lábios — eu fiz tudo que podia, Harpia já não pode me cobrar isso. Eu salvei a sua vida Jásper.
— Depois que a sua esposa, assassinou a minha mãe — ele vociferou — eu sei de minhas origens, Majestade — falou de forma irônica — desprendo-me completamente de teu reino.
O rei apenas observou o rapaz, em que o garoto mirrado que havia salvado se transformara, respirou fundo finalizando a fala — Não quero ouvir dizer se suas caçadas, desapareça como os outros da sua espécie.
Um pouco distante, a princesa observava o desenrolar, não se falaram mais desde o encontro no lago, desde que o outro abrira mão de seu amor para ficar com os outros de sua espécie.
Jásper passara por ela, sem olha-la nos olhos, o rosto sério, e os passos com altivez, estava livre.
**
A fera corria nas quatro patas, o toque pesado levantando poeira por onde passava. O fogo se espalhava rapidamente pelo campo aberto, o lobo rugiu ao ter uma das patas atingidas, conseguia reconhecer somente pela cor, o "Pure"* que o havia atingido — Estamos quase lá — pode discernir ao longe a voz de uma das caçadoras, acabou por cruzar o caminho delas em plena noite de transformação. Acelerou um pouco as passadas, a floresta estava logo a sua frente, apesar do Elíseos, ser o mais seguro, não poderia colocar em risco a vida dos mais jovens.
Jásper chegou próximo as árvores e uivou o mais forte que pôde, sentia a pata machucada ir aos poucos se roendo. Ergueu as orelhas escutando os gritos das caçadoras, se embrenhou um pouco mais para dentre a floresta, os troncos jaziam em cinzas a cada flecha que atingia. Já estava próximo a margem do lago, quando o clarão se fez presente. Jásper batera contra as pedras, a cabeça pendia dentro da água do rio — Perfeito Elisa, esse animal não vai escapar jamais de um Uton Purific*- ele pode escutar ao longe a frase de uma das caçadoras, a flecha presa em suas costas queimavam como ácido e o corroíam como tal.
**
Alguns dias depois
Jásper tornou a consciência com pesar. Era comum ver corpos mutilados dos de sua espécie caídos pela floresta, principalmente nas épocas de caçada, mas era difícil ver um lobo sobreviver a um feitiço tão poderoso quanto Uton Purific*.
— Você está bem? — a voz de Elisa fora facilmente reconhecida pelo lobisomem, Jásper se ergueu com pressa, sentindo as dores se espalhar por seu corpo. O clarão que invadiu seus olhos repentinamente, fizeram com que ficasse cego por alguns poucos segundos — Jásper?
— Você me salvou! — ela assentiu positivamente — por que?
— Eu não quero que você morra — ele ergueu a sobrancelha desconfiado, ela o olhou com mágoa — e você sabe o motivo Jásper, eu não...eu não poderia viver sabendo o que eu fiz a você.
O lican riu de forma irônica — ou seja, você não queria ser a responsável pelo derramamento do meu sangue, não poderia suportar a culpa pela minha morte — ele acusou. A garota apenas deu de ombros conformada, aquele já não era o seu Jásper.
— Você poderia ao menos agradecer. Estaria morto, seu eu não tivesse arriscado minha vida para salvar a sua.
Jásper tornou a sorrir, dessa vez docemente e se aproximou poucos centímetros da face da garota. Elisa enrubesceu com a proximidade calculada que os dois se mantinham, cerrou os olhos e suspirou, quando o nariz de Jásper roçou próximo ao seu, aproximando suas bocas em um casto selinho — acho que isso, já é agradecimento o bastante — ele murmurou se afastando. Elisa baixou os ombros com derrota e se ergueu, torcendo o vestido sob os dedos, Jásper notara com esse movimento que não estava mais tão próximo ao rio, mas estava em baixo de um amontoado de árvores, farejou o ar, sentindo o cheiro do feitiço de proteção que ela usara — Colocou uma ilusão sobre o meu corpo — ele afirmou, a moça soltou novamente um suspiro e assentiu.
— Jásper, eu encontrei você quase morto com a cabeça pendida no rio — ele notou o tremor passar pelo corpo dela — Madalena e as outras caçadoras estavam se aproximando...
— Então você achou que a melhor opção fosse jogar um feitiço sobre mim — ele finalizou com certa irritação.
— Eu fiz isso para te salvar — a garota se apressou — eu...você estaria morto em algumas horas — gritou exasperada diante o olhar cínico — minha flecha ainda estava sobre suas costas quando eu retornei, eu...eu não conseguia pensar em mais nada Jásper.
— Você lançou uma ilusão sobre mim Elisa, não serei reconhecido no meu próprio bando — vociferou. Elisa soluçou diante a raiva do outro.
— Jásper... Eu salvei a sua vida — mais um soluço em meio a frase, algumas finas lágrimas corriam pela face pálida — Elas iriam te matar, eu tinha que fazer alguma coisa, eu...eu não podia deixar você morrer. Entende-me!
O garoto se levantou e seguiu para a beira do rio, ignorava completamente as palavras faladas. Olhou sua face e franziu o cenho. A pele pálida e os lábios finos com o sorriso canino continuavam lá, os olhos de Oliva haviam se transformado em azul lúcido, e os cabelos negros em curtos fios ruivos — o que você fez comigo? — choramingou, caindo de joelhos sobre a água. Desceu os olhos por seu corpo, vendo rente a seu estômago a assinatura das feiticeiras, a marca que todo lobo traidor recebia.
— Volte para o reino comigo, podemos ser felizes juntos Jásper, eu estou em idade para casar, meu pai vai me oferecer assim que completar meus dezoito — falava com velocidade, algumas vezes sendo interrompida por soluços, ou para secar o rosto com as lágrimas que não haviam parado — Eu... Eu poderia te curar Jásper, você se tornaria um humano, uma pessoa normal, sem ter que carregar essa maldição — finalizou.
Jásper a olhou primeiramente intrigado e logo o semblante de terror encobriu sua face.
– Prefiro morrer sob as garras de um companheiro, a aceitar que me tire o que resta minha espécie – a frase saíra de forma ferina – Somos inimigos Elisa, a partir de hoje, qualquer uma de suas caçadoras que se aproximar, não terei a menor piedade de persegui-la – a garota dera alguns passos para trás, os olhos azuis, passaram a dourados fortemente, sua ilusão não tinha sido forte o suficiente, para selar o sangue de lobo que corria por suas veias.
Elisa se arrepiara com a profundidade do olhar do rapaz. Jásper travou no lugar quando a garota simplesmente desvanecera no ar. Aproximou-se de onde ela estava, vendo uma única rosa ali, a fragrância forte da planta o inebriava de prazer.
**
Dois anos depois
Bartolomeu nunca realmente esperou pelo dia que sua filha sairia de seu reino, Elisa tornara-se uma bela mulher e uma das melhores caçadoras, era forte o suficiente pra incendiar a floresta estando sozinha. O homem suspirou quando a menina entrou desceu os olhos por seu corpo mordendo o lábio consternado, os anos de dedicação colocaram em sua pele grandes cicatrizes. Há poucos anos a menina despertara completamente seu poder, os cabelos tornaram-se violeta e os olhos mudaram para um profundo negro.
— Você está idêntica a sua mãe – o rei sorriu – mas ainda falta uma coisa – a menina ergue a sobrancelha logo sorrindo, Bartolomeu colocara sobre sua cabeça a antiga coroa de Harpia – minha menina – acariciou a face dela e a puxou para um abraço.
Elisa apenas retribuiu o abraço, não havia realmente palavras para dizer o que sentia, era o dia de seu casamento. Logan a esperava atrás das portas de madeira.
— Eu sei que não era quem esperava, mas ele vai te fazer feliz – o rei comentou quase causalmente. Segurou o antebraço da filha a levando para frente às portas – você está linda – murmurou novamente. Elisa dera dois passos a frente, o longo vestido branco e rendado moldando seu corpo, os cabelos violetas presos em um alto coque, um rosa encaixada perfeitamente no interior, um buquê de rosas brancas se estendia em seus braços.
A música começara, os convidados prenderam a respiração ao verem a jovem noiva. Logan sorriu, o rapaz vinha de uma distância descendência de magos, utilizava seus poderes para a cura, conheceram-se através da caça a lobos. Elisa se ferira muito profundamente quando fora atacada por um bando, o grande lobo de pelos vermelhos a mordera e arrastara seu corpo para dentro dos Elíseos, onde os outros esperavam.
— Hoje viemos celebrar a união. Uma caçadora e um Mago da cura – o celebrante iniciara – Elisa Muller e Logan Trian, dois nomes poderosos, que darão a linhagem ainda mais poder – ele erguera um pequeno punhal enquanto falava – marquem em suas peles o enlace de amor – estendeu a arma para Elisa que segurou trêmula – Princesa Elisa Muller, marque em seu companheiro, a promessa de amor eterno – ela ergue o punhal e o tocou sobre o pescoço do mago, Logan retesou sentindo o gelo da lâmina.
— Eu prometo lealdade – ela descera um pouco fazendo um curto filete de sangue brotar – prometo amor, prometo dar minha vida a você se necessário for – girou a mão mais uma vez, fazendo a corrente sanguínea aumentar – Logan Trian, serei tua, pela eterni...
— Elisa – a caçadora fora interrompida pelo rugido. As caçadoras presentes se ergueram e apontaram as armas contra a criatura. Elisa o olhou, os pelos negros cobrindo o enorme corpo, as patas pesadas batendo com força contra o chão – Não continue com isso – outro rugido, Elisa teve certeza que somente ela o entendia, quando olhou para a face pálida do futuro esposo. O lobo retesou o corpo se posicionando para o ataque, flechas em chamas já voavam em sua direção, sendo simplesmente repelidas antes de toca-lo. A jovem arregalou os olhos, quando a criatura se atirou contra seu corpo, Logan entrara em sua frente.
— Ah! – exclamou em terror, o corpo de Logan se desintegrava gradualmente, onde a pata havia atingido. A fera tornou a olha-la, um tremor se apossou pelo corpo de Elisa ao encarar firmemente os orbes dourados – Jásper – conseguiu pronunciar, antes que ele saltasse sobre seu corpo. Não sentiu o peso e nem a queda.
Bartolomeu gritou em ódio, ao ver a fera desvanecer com sua filha, humanos não entravam no Elíseos.
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