POV MAGLOR

–Pai?

Maglor acordou de seus pensamentos, só para reparar que sua cara estava molhada de lágrimas e a figura de uma jovem elfa em sua frente, encarando-o com olhos cor-de-rosa:

–Níneirien! Me perdoe, sobre o que falávamos?

–Sobre seus irmãos pai! Estávamos a falar sobre nosso povo, e quando perguntei se tinha tios, parece que tua mente te fugiu!

–Sim, e é verdade. Histórias de tempos a muito esquecidos pelos homens, minha filha. Agora cala-te, e dorme.

–Amanhã me contarás dos teus irmãos! Canta-me uma canção, pai?
Os olhos cinzentos se fecharam e um leve sorriso surgiu na boca do grande cantor, e sua cabeça se moveu levemente, consentindo.

O sol queimava nas praias do norte. Vinte anos haviam se passado desde que Celírithil havia sido adotada por Maglor, e com ele havia aprendido muito das artes de cantar, escrever e ler, e até das artes marciais, pois o elfo era espadachim sem igual, e seu arco soava como uma harpa. Dera de presente quando completara quinze anos para ela um belíssimo, feito de cerejeira de Beleriand, dos tempos antigos, de terras nem mais existentes, e Celíritihil o usava com grande proeza, acertando alvos mais longe até que seu pai.

Celírithil tornara-se famosa entre os elfos que restavam por seus belos olhos e seus cabelos cor-de-rosa, algo que espantava os homens, que a temiam e a amavam. Os orcs chamavam-na de Flor Peçonhenta, e a odiavam, pois ela havia matado muitos em suas viagens com seu pai pelas longas praias da Terra Média. Maglor se recusava em deixar o litoral, e também não a deixava vagar só até as vilas dos homens ou as cidades que restavam de seu povo, e frequentemente a repreendia por fazer perguntas demais sobre o passado.

''Quando fizeres 200 anos, deixarás de ser uma jovem, e ai te contarei sobre o passado, e permitirei que vagues só. Por enquanto, fica quieta e me segue!'' Maglor repetia, e a jovem elfa tornava-se cada vez mais irritada, pois seu espírito a impelia a ver as grandes florestas do interior, as montanhas que via de longe, as maravilhas das grandes cidades dos homens, que via apenas raramente, das ruínas de tempos antigos, pois tudo que era antigo a causava admiração, e muitas vezes trazia para Maglor pontas de flechas e moedas antigas de milênios atrás, que encontrava nas praias, e seu pai passava a mão em sua cabeça e dizia ''Sou mais velho do que isto'' e cantava para ela canções sobre tais objetos.

–Que bela trilha esta pai! Vamos seguí-la? — Perguntou ansiosa, segurando seu arco, e o olhando com seus olhos róseos:

–Hoje é teu aniversário, minha filha, então farei o que desejares. Seguiremos a trilha, a menos que leve às montanhas. — Maglor relutava em realmente fazê-lo, mas amava imensamente a jovem e queria dá-la essa pequena satisfação, mesmo que por pouco tempo.

Foram pela trilha élfica, ladeada de arbustos selvagens e algumas árvores, e a partir de certo ponto o caminho começava a subir, levando para um bosque. Maglor frequentemente olhava para trás vendo a distância que estavam do Mar, e estava decidido que voltariam assim que alcançassem o bosque. Assim que chegaram, olhou para trás e o Mar havia desaparecido há muito, e se arrependeu, pensando que não deveria ter deixado Cilírithil tão a vontade, e virou seu olhar para ordenar que voltassem, mas não mais via também sua filha. Havia corrido para dentro do bosque em seu momento de oportunidade, enquanto seu pai divagava como era comum, e seguia trombando nos galhos e rindo, cantando as canções que aprendera, e sentia pela primeira vez o que chamam de liberdade.

POV CILÍRITHIL

Chegou a uma clareira e caiu de costas, rindo, e seus longos cabelos rosas espalharam-se pela grama. Havia flechado frutas, alvos imaginários e algumas coisas vivas, tudo sem que seu pai a repreendesse. ''Não voltarei ao litoral,'' pensava incessantemente ''aqui é onde pertenço. Não sou eu uma elfa da floresta, como diz meu pai?'' e fechou os olhos, respirando profundamente, e sentiu um forte sono, pois já havia escurecido, e a brisa, diferente da do mar, a tranquilizava.

Após um tempo escutou um barulho de seu lado, e o medo a tocou. Seria seu pai, furioso por sua insubordinação, ou algo pior, algum horror vindo das montanhas ou dos túmulos que diziam existir não longe dali? não estava disposta a descobrir. Queria fugir pro lado de seu pai, aonde sempre estivera segura, por sua música e pela sua espada, e exitava em abrir os olhos. O barulho se tornou mais alto, e sabia que estava perto. Não tinha o que fazer, e abriu os olhos:

–Pai! — Chamou, quase sem voz, tomada de terror, enquanto encarava nos olhos um enorme lobo negro, de braços e pernas longas, quase bípede, sua boca espumando e ofegando, coberto pelas sombras, a apenas alguns metros de distância.

POV MAGLOR

Respirou fundo. O som das folhas, os ruídos dos animais, tudo se silenciou. Tantos anos em solidão renderam talentos únicos ao grande cantor, e aprendera a escutar as vozes dos ventos, e assim escutou ao longe a voz de Cilírithil. Maglor a ensinara a caminhar sem deixar rastros e a não ser encontrada, mas nunca imaginava que a jovem elfa pudesse ter tamanho talento, pois embora muito a perseguisse, desesperado, nunca encontrava seu rastro, e a escuridão se fechava a cada minuto que passava.

Rumou em direção ao que ouvira escutando as vozes dos ventos, mas muito o estranhava que sua direção nunca parecia que dimininuia, e imaginou que o vento o pregava peças, e o próprio bosque o desviava de seu caminho, levando-o sempre aos mesmos lugares, e internamente sua fúria queimava. Tinha visto muitos dos que amava morrerem para ter o sangue de sua filha em suas mãos, e sabia que a região, após o longo castigo trazido pelo Rei Bruxo, era perigosa. Torturava-se por ter permitido que Níneirien escapasse, e rangia os dentes no escuro.

Deteu-se, transtornado pela pilhéria do bosque. Tomou sua lira, e, como um trovão, iniciou uma canção terrível, de ira e arrependimento, e também de medo e incerteza, e sua voz soou tão alto quanto uma tempestade trovejante, e a terra tremeu. Nada vivo, bom ou ruim, ousava se aproximar, e até mesmo as árvores pareciam temê-lo, e o vento aquietou-se, e nada se ouvia além de sua voz. Havia algo se sobrenatural e mágico na floresta, podia sentí-lo, e a melodia de todas as coisas estava fora de tom. Sentia uma grande tristeza na floresta, algo que trazia desequilíbrio, esquecimento, morte. Agora se lembrava de ter trilhado antes esses caminhos, mas algo o havia feito esquecê-lo. Bruxaria, magia antiga de ruína, de currupção, e sabia que Cilírithil era jovem demais para percebê-lo, e se descuidaria, tornando-se vulnerável aos perigos. Deu cabo à canção, acreditando ter domado o bosque, e voltou a correr, menos furioso, mas ainda terrívelmente arrependido.

Se deteu novamente ao pé deu uma enorme árvore, totalmente branca, de aspecto horrível, cheia de arranhaduras e ossos ao seu redor, e suas folhas de um amarelo pálido, não belas como as de Lothlorien, mas doentes, finas e murchas. O lugar fora cenário de um terrível ritual, e ele se lembrava de ter o visto antes, quando os senhores do escuro ainda reinavam pela terra. O chão estava desolado ao seu redor, e um cheiro fétido emanava da própria terra, onde haviam cadáveres das mais diversas bestas. Enojado, se preparava para iniciar novamente sua busca quando reparou em algo enfiado no tronco do carvalho doente, um brilho macabro, de uma lâmina totalmente negra. Seus olhos não acreditavam no que viam, pois era a espada Anguirel, ou o que restava dela, e se perguntava quem a usava para fins tão macabros, quando o vento lhe trouxe uma voz desesperada: ''Pai!''

POV CILÍRITHIL

Nunca dantes havia sentido tamanho medo. A criatura parada em sua frente a encarava com olhos vermelhos na escuridão, parada, e parecia se deleitar com seu terror. Suas mãos tremiam, e seus olhos se encheram de lágrimas. O perigo, outrora sempre mantido longe pelo poder de seu pai, estava a apenas alguns metros de distância agora. O que faria? Lutar? Correr? Tudo o que queria era fechar os olhos no escuro, se encolher e chorar, e esperar que quando abrisse os olhos tudo tivesse sumido, bosque, clareira e lobo, e voltasse ao lado de seu pai, no litoral. Mas, sabia que não havia escapatória. Seu estômago estava embrulhado, e não conseguiu resistir e virou a cara e vomitou na grama alta ao seu lado. Soluçava e chorava, e tentou entoar uma canção ensinada por Maglor, que acalmava os ânimos, até dos animais.

Conseguiu se acalmar, e se perguntou por que não havia sido atacada ainda. Talvez o lobisomem não fosse seu inimigo, e talvez nem lobisomem fosse. Respirou fundo e olhou para sua direção, levantando o corpo rapidamente.

TUUuuuuuu.....................

Sua visão estava embaçada. Viu-se no chão, e sentiu uma forte dor na barriga. Estava coberta de sangue, e uma marca terrível da garra do lobisomem atravessava todo seu abdomem. Cuspiu para o alto sangue, e tentou segurar o sangramento em sua barriga com as mãos, mas levou uma mordida no braço e foi arremeçada. Sentia seu braço ser quebrado em muitos pedaços e sua visão não mais via com qualquer clareza. A dor havia acabado com seus sentidos, e não conseguia nem mais chorar. ''Vou morrer'', pensou quando via a figura negra aproximar-se novamente, e fechou os olhos, ''Desculpe-me, pai!''.

Ouviu um uivo agonizante antes de desmaiar, e uma voz conhecida:

–NÍNEIRIEN!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.