Eiji
2 Capítulo Um
Estava no campo de batalha no dia seguinte, após ter jogado tantas ideias no lixo e guardado apenas aquela. Ainda me sentia inseguro, mas decidido a tentar. Eu precisava.
A intenção era me aproximar de Madara, mas ela se tornou impossível com meu irmão monopolizando sua atenção e não deixando brechas para que outros se aproximassem por conta de seus golpes contra o outro. A luta entre ambos era intensa e por um momento achei que Hashirama finalmente havia tomado juízo, mas logo deixei tal pensamento de lado, pois o ele já havia aparecido em minha mente em diversas situações, e no fim eram estragadas com as falas que sempre ouvia.
— Madara, por favor! — Gritou Hashirama, no exato momento em que parei para observá-los. — Nós podemos mudar o rumo disso. Podemos salvar milhares de vidas!
Madara nada disse para respondê-lo ou não pude ouvi-lo por causa do grunhido impaciente e ao mesmo tempo cansado que soltei ao ouvir meu irmão insistir naquilo mais uma vez.
A conversa, luta, ou seja lá o que estavam fazendo no momento seguinte perdeu minha total atenção com a mesma rapidez que bloqueei a espada que veio em minha direção.
Era ele.
Os olhos negros me encaravam com fúria ao mesmo tempo em que as mãos forçavam a espada contra a minha kunai. Eu sabia que em breve eles se tornariam vermelhos e mais perigosos do que qualquer espada naquele campo, e foi por tal motivo que desviei os meus segundos depois e levei um golpe na lateral de meu corpo.
Nossos encontros sempre eram daquela maneira. Eu estava lutando com um Uchiha ou Hagoromo e então vinha o primeiro ataque pelas costas. Antes mesmo de me virar e olhá-lo, já sabia que era ele. Não pelo chacra quase tão poderoso quanto o de seu irmão, mas pelo ódio que podia sentir sempre que pisávamos no mesmo local.
Não precisavam conhecê-lo de perto para saber que Izuna Uchiha odiava os Senju, em especial a mim, e eu não tinha vergonha de dizer que o sentimento era recíproco. Eu odiava toda a sua família amaldiçoada, e em especial a ele. Éramos perfeitos um para o outro. Perfeitos para batalhar.
Ri em tom baixo com meus pensamentos enquanto lutava contra Izuna. Às vezes, quando nossos olhares esbarravam por meros segundos e eram cortados por nossas espadas, imaginava se, no fundo, ele pensava como eu. Nós poderíamos ser exatamente como nossos irmãos no passado. Tão parecidos em suas visões para o futuro, mas com nossos próprios pensamentos completamente contrário aos deles. Eu queria que tudo acabasse, que tivéssemos leis contra aqueles tipos de comportamentos no futuro, mas jamais confiaria em um Uchiha e sabia que ele nunca colocaria sua vida nas mãos de um Senju. Nós queríamos um fim como todos ali, mas não apenas da guerra, para um de nós também.
Eu queria perguntar a ele sobre minhas suspeitas, mas de algum modo já sabia que receberia uma resposta positiva com palavras de insulto adicionais que sempre gostava de jogar sobre mim. Eu queria perguntar, mas nunca havia tido coragem de agir diferente dele e apenas os insultos restavam no meio de nossas lutas que eram como aquela guerra, sem fim e que não iam a lugar algum.
Izuna era forte. Me doía admitir, mas ele era tão forte quanto eu, e todas as vezes em que nos enfrentávamos, me sentia cada vez mais farto daquilo. Eu queria matá-lo de uma vez, mas ele não me deixava aberturas. Ele era forte e insistente demais. Não como Madara ou meu irmão, mas ele era.
— E eu também sou — disse para mim mesmo, antes de acertar o braço de Izuna com minha kunai.
Ele me olhou com raiva e confuso, pois com certeza me ouviu. Seu braço estava ferido e por isso deu um pulo para trás, ficando sobre um grande tronco de árvore que estava caído não muito longe dali. Izuna segurou o local da ferida e seu rosto ficou destorcido pela provável dor. O corte havia sido profundo, eu podia ver de onde estava. Seu sangue escorria e pingava sem demora no tronco.
Foi naquele momento em que tomei a decisão desprovida de juízo assim como a ideia guardada em meu escritório. Minha fala antes de atingi-lo não havia sido para me convencer de minha força ou provar algo a ele, foi pela mudança de planos que tive no meio do caminho. Eu não conseguia alcançar Madara, mas Izuna estava ali, me dando muito mais do que o prazer em vê-lo machucado por minha arma. Meu irmão... eu não podia fazer aquilo com ele. Meus planos já iriam machucá-lo demais para adicionar mais uma coisa na decepção que sentiria por mim. Mas não me importei naquela época, eu só queria que tudo terminasse de um jeito ou de outro. Pelo bem ou mal, Madara e Izuna seriam destruídos e finalmente teríamos paz.
A batalha teve fim de forma abrupta. Izuna seguiu seu irmão e o resto dos Uchiha para fora do campo. Algo havia acontecido entre eles. Eu deveria ter pensado em um plano para segui-los e atingi-los em um momento de fraqueza, ou feito o mesmo com o meu clã e ir embora dali para nos recuperarmos, mas eu fiquei após todos irem, e minha única companhia de volta para casa fora parte daquele tronco banhado pelo o que Izuna havia me dado e a kunai com um pedaço de sua carne.
“Não faça isso” minha própria voz dizia em minha mente. “Irá se arrepender se der certo. Você não é Deus, Tobirama! ”
A voz em minha cabeça me atormentou por todo o caminho, mas, ainda assim, fui em frente e passei dias trancado em meu laboratório. Hashirama me perguntava todos os dias o que era tão importante para eu ficar tão isolado, mas não conseguia respondê-lo. Não podia.
Em momento algum me senti orgulhoso com aquilo, mas a possibilidade de derrotar Madara me incentivava a continuar. Aquilo era loucura, mas me fascinava a cada passo que parecia dar certo.
Muitos dias depois, ele estava pronto. Eu ainda não sabia se realmente daria certo, teria que esperar por algum tempo, mas estava feito e o arrependimento já queria começar a aparecer. Não era certo. Hashirama diria que estava brincando com algo pecaminoso quando soubesse, ele sentiria nojo e desprezo por mim ao ver que estava tentando criar algo que sempre desprezamos. Eu sabia e me arrependia, mas não havia como voltar atrás e só esperava que ao menos que ele fosse a resposta para os nossos problemas.
Em certo momento torci para que minha ideia desse errado. Eu implorei para os céus que tudo fosse por água abaixo, e minhas preces foram ouvidas, mas não como desejei.
Semanas depois, ele estava desperto e em meus braços, mas não era o que foi escrito nos papeis, o que veio de minha mente. Não era o shinobi poderoso que imaginei, aquele que teria o meu poder e o de Izuna misturados, podendo superar até mesmo Madara. Ele tinha de fato os genes de nós dois, porém, não era uma arma contra os Uchiha, era apenas... um bebê, chorando em meus braços como se tivesse acabado de sair de sua mãe. Mas não havia mulher alguma naquele cômodo. Não havia mãe ou qualquer outra pessoa além daquela criança e um homem louco o bastante para criar uma vida com pensamentos totalmente errôneos. Não era Hashirama quem precisava de ajuda e conselhos, era eu, mas muito antes de fazer aquela besteira.
Antes de morrer, meu pai disse que eu era inteligente de uma maneira que ele nunca havia visto em alguém. Ele me elogiou enquanto tocava em meus cabelos, mas não o vi sorrir em momento algum, e sua face se tornou séria ao pedir para que no futuro eu tomasse cuidado com a minha própria mente. Mas eu não tomei cuidado e passei dos limites.
Quando segurei aquela criança pela primeira vez, tive a certeza de que havia decepcionado meu pai, e que decepcionaria muitas outras pessoas a partir dali. Por esse e tantos outros motivos eu me apavorei.
Ele não parava de chorar enquanto o enrolava desajeitado em uma coberta. Eu não conseguia pensar. Por um momento minha mente foi tomada por uma lentidão inexplicável. Eu consegui me sentar sobre uma cadeira. O bebê ainda chorava. Olhei para ele e pensei em chacoalhá-lo, alimentá-lo ou fazer qualquer coisa para que ficasse quieto, mas tudo o que consegui foi observar cada detalhe daquele ser em meus braços. Era tão pequeno, mas tão perfeito como um bebê comum, como deveria ser, mas aquele não era igual aos outros.
“Ele não é real” a voz em minha mente voltou, baixa e perturbadora. “Se jogá-lo na neve lá fora, irá parar de chorar. Não precisa de alimento ou conforto, porque não é real. Se livre disso, Tobirama, e tudo voltará a ser como antes”
— Não — sussurrei para o nada, mesmo tendo consciência de que aquilo tudo era loucura. A voz, a criança... eu mesmo. Eu estava ficando louco.
E então, ele parou de chorar. Tornei a olhar para baixo e o vi imóvel em meus braços.
“Ele está morto” a voz voltou sussurrada e amedrontada.
Eu deveria ter ficado aliviado, mas, foi completamente o contrário. Era apenas um bebê. Eu o havia feito artificialmente, e nem ao menos sabia se funcionava como um humano normal, mas, não era certo deixá-lo daquela maneira. Me desesperei mais uma vez. O estado entorpecido passou e uma forte adrenalina correu por meu corpo. A mesa ao meu lado foi esvaziada sem cuidado algum e coloquei o pequeno corpo sobre ela. Tentei passar meu ar para ele, pressionei meus dedos em seu peito por diversas vezes. Tentei até quase perder minha mente mais uma vez, e de forma inédita senti alivio ao ouvi-lo chorar novamente.
O enrolei na coberta mais uma vez e o deitei sobre meu peito. Minhas pernas andaram de um lado para o outro enquanto o chacoalhava nervosamente e só parei quando aquele barulho todo cessou. Meus olhos arregalaram com o silencio e pensei tê-lo perdido de vez, mas suspirei aliviado ao ver que o bebê apenas havia se cansado e estava dormindo.
Naquele momento em que parei, me perguntei o motivo de estar aliviado quando deveria ficar completamente apavorado. Eu havia salvo a vida daquele bebê, mas em primeiro lugar ele nem ao menos deveria existir.
— O que eu faço? — Perguntei em tom baixo enquanto voltava a andar pelo cômodo e sem rumo algum.
Estava esperando um homem, um shinobi, não aquilo. O que eu faria com um bebê? Ele poderia sim ser um grande shinobi, mas se realmente fosse como um humano comum, levaria anos e não tinha todo aquele tempo. Quem o criaria? Como esconderia de onde havia vindo? E se como em meus planos ele tivesse um sharingan algum dia? Diriam que sequestrei uma criança Uchiha e o que fariam com ele? E comigo?
Eu definitivamente não deveria ter sequer pensado em fazer aquilo, isso era o que dominava a minha mente, mas assim que a palavra “sharingan” apareceu, mais daquela realidade me estapeou no rosto e me fez voltar para a cadeira e ao estado entorpecido.
Aquela criança era um Senju e Uchiha, como se não bastasse tamanha heresia, ele era parte de mim e Izuna.
— O que diabos eu fiz?
Meus olhos arderam assim que sussurrei mais uma pergunta para o vento. Eu não poderia estar mais mortalmente arrependido naquele momento em que finalmente pensei o que realmente havia feito ali. Não havia apenas brincado de Deus ao criar uma vida, eu criei uma junção de mim e o meu pior inimigo. Parecia a ideia perfeita para derrotar os Uchiha, mas isso foi antes de ter a realidade em meus braços, dormindo como se nada o afligisse. Como se não fosse uma aberração criada em um laboratório. Como se fosse um ser normal.
Eu só conseguia olhá-lo naquele momento e me perguntar o que eu faria. Ninguém poderia saber sobre ele, principalmente meu irmão, e preferia morrer da maneira mais dolorosa possível do que deixar Izuna tomar conhecimento do que eu havia feito. Mas eu não podia jogá-lo na neve ou fazer qualquer outra coisa que o machucasse. Podia ser louco, mas não sem coração.
Precisava pensar rápido. Era manhã e alguém viria para me procurar em algum momento. Hashirama poderia aparecer ali como sempre fazia, e não teria como me explicar ou inventar uma mentira com tantas provas ao meu redor.
Quando finalmente me levantei da cadeira, ainda não sabia o que faria exatamente, só tinha certeza de que deveria tirar aquela criança de dentro do clã o mais rápido possível. O bebê acordaria eventualmente e isso complicaria ainda mais a minha situação.
Obviamente eu não tinha um berço ou qualquer coisa feita para colocar bebês, então esvaziei uma grande caixa que tinha em meu laboratório e com o maior cuidado que consegui ter, o coloquei ali dentro.
Meus pés se moveram mais rápido do que nunca. Assim que saí dali, corri até a minha casa. Meu coração batia tão rápido por conta do medo de ser descoberto, e tudo piorou quando entrei na casa principal do clã. Hashirama estava lá e me olhou confuso e preocupado quando nada disse quando passei por ele. Estava nervoso. Não queria vê-lo, mas enquanto apressadamente guardava algumas roupas e mantas em uma mala, me deixei pensar com clareza por poucos segundos e suspirei trêmulo com a obrigação que tinha de avisá-lo sobre minha saída repentina.
— O que houve? — Ouvi a pergunta preocupada que me assustou levemente. Por sorte consegui esconder minha surpresa e sem saber o que dizer, continuei a ignorá-lo. — Aonde está indo?
Eu não consegui respondê-lo. Meus braços se moviam sozinhos enquanto arrumava a mala e foi o mesmo enquanto colocava a roupa de inverno.
— Tobirama!
A voz alta e autoritária me fez parar de imediato. Meus olhos finalmente encontraram com os de meu irmão e ele parecia bravo e ao mesmo tempo preocupado.
“Pense rápido. Não o deixe perceber seu nervosismo” lá estava a voz outra vez.
— Eu preciso... — hesitei e gaguejei atipicamente, o que o deixou ainda mais desconfiado. — Eu preciso ir a um lugar, An-chan — disse com um pouco mais de clareza e levantei minha mão quando percebi sua intenção de falar algo. — Sei que vai parecer estranho, mas, é importante que eu viaje por algum tempo.
— Por quê? — Ele parecia aflito. — Tobirama, nós estamos em guerra. Você não pode simplesmente ir seja lá para onde pretende! O que deu em você? Anda estranho desde a última vez que confrontamos Madara. Não fala mais comigo, está sempre distante quando preciso...
— Eu sei! — Sem notar acabei gritando minhas palavras.
— Estou preocupado — disse ele com magoa em seu tom de voz.
— Eu sei — abaixei minha voz e o olhar para a mala à minha frente. — An-chan — voltei a olhá-lo e me senti amedrontado — tudo o que faço sempre é pelo nosso bem, não importa o que seja. Você sabe disso, certo? — Ele assentiu para a minha pergunta. — Então... se me afastei e agora digo que preciso ir, você acreditaria se eu dissesse que é pelo bem de nosso futuro?
— Tobirama... — Hashirama deu um passo à frente e olhou em meus olhos com preocupação. — Confio em você, mas precisa me dizer pelo menos um terço do motivo de estar agindo assim para que eu possa aceitar sua saída.
Hashirama ficaria desapontado, eu não queria ver sua expressão quando soubesse a verdade, mas ao mesmo tempo não podia mentir completamente para ele.
— Eu fiz besteira — confessei em tom baixo e ele me olhou desconfiado. — Não posso dizer o quê, mas... é algo que pode complicar ainda mais a nossa situação — fechei os olhos com força. — Mas posso consertar isso. Deixe-me consertar, An-chan, e depois será tudo do que jeito que quiser, eu prometo.
— O que você fez?
Meus olhos se apertaram ainda mais ao ouvir sua voz pesar em meus ouvidos.
— Não posso dizer. Eu sinto muito.
Por longos minutos o silencio foi tudo o que tivemos em meu quarto. Quando ouvi Hashirama finalmente se movimentar, abri meus olhos e o vi sentar sobre a cama. Sua expressão era séria.
— Para consertar o que fez, terá que machucar alguém? — Perguntou ele sem olhar em meu rosto. Era como ser tivesse medo da resposta.
— Não — respondi imediatamente e fui até ele. — Eu prometo, An-chan, ninguém irá se machucar.
Eu me sentei ao lado dele e tenso esperei que me olhasse.
— Então você pode ir — disse ele seriamente e sem desviar o olhar. Era como se esperasse me ler através de meu jeito de agir. — Mas... — ele suspirou devagar e a expressão séria se tornou triste. — Antes me prometa que retornará do mesmo modo que irá sair daqui. Vivo e uma boa pessoa — sua voz se tornou embargada e pediu desculpas em tom baixo. — É a primeira vez que vamos nos separar, eu não consigo me sentir confortável com isso.
— Eu estarei bem — respondi mais tranquilo do que realmente estava por dentro. Mesmo sendo pouco comparado se ele soubesse a verdade, eu o estava decepcionando, o abandonando em tempos difíceis.
Ao me levantar, senti meus pés pesados, e assim que coloquei a mala em minhas costas, o pavor de mais cedo retornou. Eu não fazia ideia do que estava fazendo, e completamente apavorado estava deixando para trás a única pessoa em quem confiava.
Ele me acompanhou até a porta, mesmo o dia estando tão frio que nossos pés afundavam na neve. Em meu peito eu só conseguia sentir um peso incômodo sempre que olhava para meu irmão, mas, ainda assim, mantive a cabeça erguida para olhá-lo pela última vez.
Minha agilidade voltou assim que me distanciei de casa e tomou mais energia quando finalmente consegui sair do clã e com a criança em meus braços. Estava muito frio, não podia ficar ao ar livre com ele por tempo demais, e cada passo que era dado, diversas preocupações me tomavam a ponto de trazer aquela mesma voz de volta.
Quando o bebê acordou, eu me senti aliviado por ter encontrado uma cabana para nos abrigar. Tive sorte de encontrar alguém por ali, pois todos haviam se afastado daquela área por conta da guerra. Mas não aquele casal. Eles eram velhos demais para tentar fugir em uma época como aquela, segundo o que me disseram ao me acolher e ouvirem minha história mentirosa de fuga para sobreviver longe dos confrontos com aquele bebê.
— Ele é seu filho? — Perguntou a senhora ao me ajudar a alimentá-lo. Ela me olhou com desconfiança quando afirmei que sim enquanto nem ao menos sabia como cuidar dele.
— Eu perdi a minha esposa por causa da guerra — minha vergonha por mentir daquela maneira me ajudou a fingir tristeza. — Era ela quem cuidava dele. Estou perdido sem ela.
A expressão desconfiada foi substituída por empatia e até mesmo recebi um afagar em minhas costas. Eu estava morrendo de vergonha por aquilo, por tudo, mas realmente foi muita sorte achar aquela cabana. O casal nos acolheu por algumas horas e aprendi ao menos como alimentar a criança e também que ela deveria ter roupas o mais rápido possível. Eu nem havia pensado naquilo, apenas o enrolei em diversos cobertores e saí sem rumo no meio da neve. Nem mesmo sabia se deveria ser tratado como um bebê comum, o que pareceu que precisava ao ver aquela senhora cuidar dele como deveria. Eu era um idiota.
Ao pisar do lado de fora novamente, tudo foi muito mais difícil. O bebê estava completamente acordado e se incomodava com o frio ou com qualquer coisa que acontecia em nossa volta. Ele chorava e parava a todo momento e eu não sabia mais o que fazer. A caminhada era demorada porque tinha medo de correr com ele nos braços, mas parecia ainda pior permanecer no meio do nada com uma criança gritando e podendo alertar inimigos, então eu deixei qualquer pensamento de lado de corri.
Inesperadamente ele gostou da velocidade, e arqueei as sobrancelhas, confuso com sua tranquilidade em meus braços enquanto eu corria em minha velocidade máxima.
— Eu acho que você realmente é meu filho, hm? — Disse com intensão de zombar daquela situação, mas a frase me trouxe um gosto amargo na boca. Porque era verdade, ele era meu filho. Metade daquela criança vinha de mim, e isso me apavorava, mas não mais do que saber de quem era a outra metade que se fundia com a minha.
A corrida cessou por um momento e fiquei parado ao tirar um pouco da coberta do bebê e vê-lo bem. Soltei um suspiro cansado ao olhar para a frente e nada ver, e ao voltar a andar, finalmente me pus a pensar no que fazer exatamente.
O silêncio do bebê me ajudou a montar o meu plano. Eu o levaria o mais longe possível e encontraria um daqueles lugares em que deixavam crianças que não tinham pais. Ensaiei dizer que havia encontrado a criança por aí e a resgatei, e então iria embora como se nada tivesse acontecido. Voltaria para o meu clã, e não traria mais preocupações para o meu irmão. Esse era o plano.
Eu me sentia mais confiante depois de pensar no que fazer, mas me tornei impaciente no caminho. Levaria algum tempo até levá-lo para longe, estava ciente, mas não contava com o tempo piorando e atrasando nossa viagem. A neve voltou a cair e não pude correr como anteriormente. A caminhada foi vagarosa e a criança mais uma vez dava sinais de desconforto pelo frio, mas não o culpava, até mesmo eu começava a me incomodar com a baixa temperatura.
Antes de anoitecer, finalmente achei outro lugar para ficar. Já estava longe do clã e algumas casas começavam a aparecer, assim como comércios.
Uma pousada com termas foi a nossa parada, e mais uma vez me vi enrolado em mentiras com as perguntas sobre o bebê em meu colo. Surpreendentemente as pessoas acreditavam e me olhavam com pena, e minha vergonha aumentava ainda mais.
Ao me acomodar em um dos quartos, coloquei o bebê sobre a cama. Ele ainda estava sem roupas, mas o lugar era quente e o deixei se mover como queria. Ele chacoalhava as perninhas e braços com muita energia para alguém daquele tamanho. Um barulho engraçado saiu de seus lábios quando tentei tocá-lo para acalmar aquela agitação toda, e sem perceber, um baixo riso escapou por meus lábios. Minhas mãos subiram até a pequena cabeça e a toquei com cuidado. Ele sem dúvidas era real e idêntico a qualquer outro bebê, e mesmo com toda a confusão que criei com aquilo, me senti estranhamente orgulhoso ao olhá-lo.
O meu toque desceu até as bochechas coradas e isso chamou sua atenção mais uma vez. Os olhinhos se direcionaram para mim pela primeira vez e senti um leve arrepio passar por meu corpo. Eram da mesma cor que os meus.
— É por isso que todos acreditam em minha história? — Perguntei em tom baixo e a única resposta que recebi foram estranhos sons que ele fazia com a língua.
Eu ri mais uma vez e sem perceber já estavam com ele no colo. Os olhos ainda estavam em mim e voltei a tocar as bochechas que eram tão gordinhas e rosadas, tão diferente do resto do corpo completamente pálido. Foi então que notei, a pele era como a dele. Até mesmo os cabelos, ainda que poucos fios, eram escuros.
Suspirei mais uma vez e o segurei à minha frente. O levantei para que ficasse com a face em frente à minha e o olhei atentamente. Era apenas um bebê, e não havia como ter semelhanças tão cedo. Eu não sabia como ou talvez fosse meu medo pelo o que havia feito me pregando peças, mas conseguia ver que tinha coisas parecidas.
Outro suspiro e o trouxe para mais perto.
— Na situação atual, eu realmente gostaria que ele fosse a sua mãe que morreu na guerra.
Eu ri de minhas próprias palavras, mas o bebê não parecia tão contente. Suas mãozinhas esbarraram em meu rosto e em seguida ouvi aquele som que havia se tornado costumeiro naquele dia. Ele chorou por um bom tempo, e apenas parou quando outra vez se alimentou e enfim dormiu.
Foi difícil ter que fazer tudo aquilo, mesmo depois de ter sido ensinado, mas ao que parecia, havia feito certo, pois o bebê dormiu sem interrupções por horas.
— Você deve estar cansado, hm? — Perguntei ao me deitar do seu lado. — Eu também estou — disse ao olhar para o teto.
Meu corpo estava cansado, mas não tanto quanto a minha mente. Àquele ponto minha ansiedade havia sido controlada, e os pensamentos que pareciam vir de outra pessoa cessaram. Eu era o Tobirama de sempre mais uma vez, o que me deu liberdade para pensar sobre tudo o que havia acontecido.
Eu estava errado de todas as maneiras, tinha a total consciência disso. Meu novo dever era cuidar daquela criança até achar um lugar seguro para deixá-la. Havia prometido a meu irmão que ninguém se machucaria, e eu realmente não queria aquilo. Aquele bebê ao meu lado, ele tinha as mesmas necessidades que um comum, o que aumentava ainda mais a minha responsabilidade em protegê-lo. E era o que faria. Era o mínimo que podia fazer para reparar o meu erro.
O sono não veio naquela noite. Fora o arrependimento repassando todos os meus erros em minha mente, estava assustado com a ideia de algo acontecer com o bebê enquanto dormia. Temia deitar sobre ele sem perceber ou empurrá-lo durante o sono. Cuidar de alguém tão novo era desesperador.
Eu ri comigo mesmo ao imaginar o que Hashirama diria diante de meus pensamentos. Ele zombaria de mim e diria que era de tal maneira que nossos pais se sentiram por quatro vezes. Meu irmão sempre costumava dizer que eu era o que havia dado mais trabalho quando nasci, e com certeza diria que estava pagando pelas noites mal dormidas de todos em nossa casa.
Pensei bastante em Hashirama naquela noite. Eu queria falar com ele, mas não podia. A única pessoa que eu podia conversar sem esconder nada, ironicamente, era aquela extremamente pequena ao meu lado, e que era o meu maior segredo.
No dia seguinte, descobri que não poderia sair da pousada por tempo indeterminado. A neve não deu trégua e acabou bloqueando a saída e também dificultando a circulação do lado de fora. Eu realmente só tinha aquele bebê para me preocupar e conversar, e foi assim que passamos aquela semana.
Ele estava ficando esperto a medida que os dias passavam, e algumas vezes podia jurar que me entendia, pois reagia com suas agitações nas pernas ou choros ensurdecedores. Eu pensava que teria um bom ouvinte, mas na verdade ele era tão falante quanto Hashirama — mesmo sendo de modos diferentes.
No final daquela semana, o bebê parecia muito mais calmo do que no início. A partir do segundo dia ele não conseguia dormir na maior parte da noite e seu choro alcançava até meus sonhos durante a tarde. Mas após todos aqueles dias, ele parecia ter se acostumado.
Uma das pessoas que estava hospedada na pousada também tinha um filho, e a agradeci diversas vezes por nos presentear algumas roupas. Quando pudemos ir para o lado de fora, ele até mesmo parecia ser cuidado por uma boa mãe, e tal pensamento me trouxe um estranho sorriso nos lábios. Eu havia ajudado a cuidar de meus irmãos quando era mais novo, mas nada naquele nível. Eu realmente não sabia o que fazer em muitos momentos, mas me sentia bem quando o via calmo ou agitado de uma maneira boa. Em tão pouco tempo eu havia me acostumado com ele.
Nós visitamos a área ao redor da pousada e mesmo sendo um pouco longe de casa, e um lugar praticamente escondido do mundo, era estranho ver pessoas sem medo algum. Eles pareciam não fazer ideia de como as coisas eram terríveis e dolorosas fora dali. Eu não estava acostumado com aquilo, mas foi muito fácil me envolver naquele clima de paz.
O lugar era simples e havia muitos pobres, mas viviam bem. Eu gostei dali, mas tive que me lembrar de minha realidade com pressa e de como meu irmão estaria naquele momento. Precisava consertar as coisas o mais rápido possível, e com tal pensamento, voltei para a pousada e me preparei para continuar em frente.
Tudo estava preparado quando o dono da pousada me pediu por um favor em troca de uma noite de graça. Ele foi tão persuasivo que acabou me convencendo que já era tarde e frio demais para sair com uma criança tão pequena. E eu fiquei.
“Só por uma noite” eu pensei, mas o favor acabou se tornando grande demais e quando vi, estava ajudando-o a consertar até mesmo o telhado na segunda semana em que estava ali.
Eu não estava sendo enganado, na verdade, o deixei fazer os pedidos e até me oferecia. Sabia que precisava pensar em Hashirama, nos Senju e em me livrar de meu problema, mas... Todas as vezes em que precisava deixá-lo por algumas horas nas mãos da esposa do dono da pousada, por pouquíssimo tempo, meu peito se apertava. Eu sabia o que estava acontecendo, mas negava e pensava mais uma vez: “Só por mais uma noite. ”
Na terceira semana eu percebi que precisava repensar no que faria. Eu não conseguia parar de pensar em como o tratariam no lugar em que o deixaria, se alguém iria adotá-lo, e se isso acontecesse, se iriam maltratá-lo ou até mesmo usá-lo para tantos fins que faziam meu corpo se arrepiar de repulsa.
E novamente eu não sabia o que fazer. Mais uma vez me senti como no dia em que saí de casa com apenas uma mala e aquele bebê no colo: apavorado e sem rumo. Mas era por motivos diferentes.
Havia um pequeno jardim nos fundos da pousada, e no dia em que mais uma vez estava a pensar no que fazer com aquela criança, fui até lá. Me sentei em um dos bancos dali com ele em meu colo. Ainda estava frio, mas não havia mais neve, então deixei que o pequeno respirasse ar fresco. Ainda era muito novo, eu sabia, mas novamente me senti estranho ao me ver naquele olhar. Ele se mostrou curioso com o novo ambiente à sua volta e soltou mais daqueles sons estranhos que me faziam rir como bobo. E então, eu me senti ainda mais estranho. Meu sorriso se fechou e o coloquei sentado em meu colo.
— Isso é esquisito, pequeno — disse em tom baixo. — Eu acho que gosto de você.
Ele não me deu atenção, é claro. Saborear o punho que parecia querer enfiar por completo em sua boca era com certeza mais interessante do que a declaração de um pai falho que o criou para ser uma arma.
Imediatamente eu me levantei e o aconcheguei em meu colo. Aquilo sem dúvidas era novo para mim. Quero dizer, ele era completamente fofo e quem conseguisse o ignorar com certeza teria uma pedra no lugar do coração, mas em minha situação aquilo era estranho. Ele era meu, eu havia aprendido a aceitar aquilo durante aquelas semanas, mas, não podia me apegar daquela maneira em tão pouco tempo, enquanto ainda faltava tanto para finalmente deixá-lo.
Eu precisava deixar aquele lugar o mais rápido possível, mas simplesmente não conseguia. Meus pés travavam sempre que via a mala arrumada em um canto e o pequeno em meus braços dispersava a minha atenção em qualquer coisa que não fosse ele.
Eu estava perdido. Sabia muito bem disso, mas ficou ainda mais claro ao notar o orgulho que crescia em mim sempre que alguém novo na pousada perguntava se aquele era o meu filho e sem hesitar ou vergonha dizia que sim. Era estúpido e mais uma vez estava agindo apenas por mim mesmo, mas eu não me importava. Ele realmente era o meu filho, afinal.
Me sentia péssimo por meu clã e principalmente meu irmão. Eu sentia a falta dele e me preocupava em como estava lidando com a guerra que ainda estava no mesmo ponto de tanto tempo atrás. Queria vê-lo, mas me perguntava se tinha o direito de voltar para casa, se eu deveria, se seria aceito.
Um ano foi o tempo que aceitei trabalhar na pousada, e continuei a cuidar da criança. Os meses passaram uma hora com rapidez e outra com a lentidão que a dificuldade de cuidar de uma criança causava. Tentei pensar em alguma saída no início, mas não consegui fechar os meus olhos para o apego que tinha com aquele bebê, com meu filho. Eu até mesmo havia dado um nome a ele e o pensamento inicial de levá-lo para longe foi aos poucos sumindo de minha mente.
— Papa! — Era a única coisa que Eiji falava o tempo todo e tentava não me sentir feliz quando o ouvia e este direcionava seus braços em minha direção, pedindo que o pegasse no colo, mas não conseguia resistir a ele desde a primeira semana em que o tive em meus braços.
Meu trabalho na pousada era tão simples e fácil que me sobrava muito tempo para ficar com ele, que era tão inteligente que qualquer coisa que tentava ensiná-lo, conseguia me imitar em poucas horas. Meus treinamentos como shinobi continuaram, mesmo sem saber se algum dia voltaria a usar aquelas habilidades. Eiji gostava de me observar treinando. Ele ria sem motivo algum na maior parte do tempo, e eu havia me acostumado com aquele som, assim como o choro e as incontáveis vezes que precisava limpá-lo. Ainda era horrível em todas as vezes, mas ele sempre ria de minha cara de nojo, o que me fazia rir da mesma maneira.
Me sentia bem em cuidar de Eiji, mas o grande sentimento de culpa nunca me deixava, assim como o fantasma da outra parte naquele garoto, que me alertava que aquela paz era temporária e a guerra um dia chegaria até ali. Mesmo depois de tanto tempo, eu tinha responsabilidades naquele confronto. Era uma guerra que tinha a obrigação de ganhar. Por meu irmão, por nosso clã e ancestrais, não podia permitir que os Uchiha tomassem controle.
Eu sabia, através de terceiros, que a luta entre os clãs estava longe do fim, o que me cutucava por dentro, pela vontade de voltar para a minha antiga vida. Sentia a falta de ser um shinobi, de lutar pelo o que acreditava, mas também tinha responsabilidades com aquela criança. Foi enfim pensando no que vivia ali e no passado como uma única coisa, como minha vida, que finalmente decidi o que fazer. Eu havia sido covarde e lento demais, mas tive a minha resposta definitiva depois de tanto tempo. Não podia mais ficar longe de casa e também não poderia levar Eiji para longe e dar as costas.
Havia passado um ano quando finalmente arrumei minhas malas e as tirei daquele quarto. Tinha mais bagagem do que de início, mas eu as levaria para casa sem me importar com o peso e enfrentaria as consequências de meus atos. Teria que pedir perdão ao meu irmão e recorrer a sua ajuda para esconder as origens daquela criança, tudo o que quis tanto evitar de início, mas eu estava pronto para aquilo. E mesmo sabendo que decepcionaria Hashirama, também tinha a certeza de que ele não me daria as costas, fui tolo em achar que daria.
Eu estava pronto. Minhas malas fora do quarto e só faltava Eiji, que brincava sobre a cama. Meus olhos se descuidaram por um momento, e nos últimos meses havia perdido a mania de infundir chacra para saber se havia shinobis por perto, pois eles nunca passavam por ali. Mas foi um grande erro meu. Mais um erro que mudou a minha vida outra vez.
Quando notei uma outra presença no quarto, já era tarde para tentar reagir. Ele estava lá, ao lado de Eiji. Eu teria conseguido me mover com rapidez e pego o pequeno, o teria protegido imediatamente, mas o choque que senti me prendeu onde estava e apenas consegui encarar a espada em sua mão.
— Que diabos, Tobirama?
Ao ouvir sua voz depois de tanto tempo e ver a espada se levantar em minha direção, finalmente encarei seu rosto, que tinha a expressão confusa por olhar para mim e a criança ao seu lado.
— O que faz aqui, Izuna? — A pergunta saiu mais confiante do que eu esperava, pois em meu interior só havia agitação.
Eu não o via há tanto tempo, mas jamais havia me esquecido dele. Cada detalhe de sua aparência, jeito e estilo de luta ainda estavam guardados em minha mente e eram revividos sempre que olhava para Eiji, mas foi diferente encará-lo de frente depois de todos aqueles meses. O ódio ainda estava ali entre nós, mas também novos sentimentos surgiram dentro de mim. E um deles era o medo.
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