Eiji
4 Capítulo Três
Izuna sumiu dali tão rápido quanto quando apareceu.
Minhas pernas perderam os movimentos, e por um tempo do qual não tive a menor intenção de contar, permaneci parado no mesmo lugar onde havia sido deixado. Em minha mente só conseguia pensar em ir atrás deles, porém, por sorte ainda havia uma parte sã que me impedia de me mover. Eu precisava pensar com clareza, mas era difícil quando a culpa me consumia enquanto imaginava o que seria de todos ali se eu agisse pelo meu próprio bem como vinha fazendo. Não poderia fazer aquilo, mas o que eu faria então?
“É tudo sua culpa” fechei os olhos ao pensar. “Se não tivesse saído do clã, Eiji estaria seguro. Se a conversa que teve com Izuna tivesse sido com Hashirama e meses atrás, Eiji ainda estaria em seus braços. ”
Chacoalhei minha cabeça com rapidez para tentar espantar aqueles pensamentos, mas eles apenas deram espaço para outros ainda piores. Em minha mente Izuna se livraria de Eiji e jamais o veria de novo. Em outro cenário ele criaria o garoto como um Uchiha e o colocaria contra mim no futuro. Eu não sabia qual desses pensamentos era o pior, mas a certeza era que não poderia permitir que nenhum deles se tornassem reais.
Meu estado inerte só cessou cerca de uma hora depois. Eu fui até o lado de fora por algum tempo, e com certo alívio voltei para buscar minhas coisas. Os shinobi que antes cercavam o lugar tinham desaparecido, não conseguia mais sentir seus chacras, e isso era um bom sinal para o povo dali. Mas não para mim. Se não conseguia sentir Izuna, era porque já estava longe demais, e não o alcançaria a tempo. Eu era rápido, mas apesar de tudo, Izuna era esperto. Ele jamais deixaria seus rastros, pois sabia muito bem que eles me levariam até a base do clã Uchiha. Minha intuição dizia que era para lá que ele havia ido, e isso só complicava ainda mais a situação.
Meus pés foram novamente até a cama, e sem cuidado algum puxei o lençol branco que a cobria. A espada de Izuna estava ali, abandonada como eu. A peguei no mesmo momento em que coloquei meus olhos sobre ela e apertei com força seu cabo.
— Você irá me pagar por isso — sussurrei para a arma como se estivesse falando com seu dono.
Guardei a espada em minhas coisas antes de deixar o quarto. Olhei para trás uma última vez, me lembrando dos meses que passei ali, aprendendo como cuidar de uma criança e também a como ser alguém que jamais pensei que seria. Eu estava devastado. Era estranho, mas sentia como se tivessem tirado uma parte de mim. Meus braços estavam leves demais sem o garoto, e o coração se apertava como se quisesse se esconder em meu peito e nunca mais aparecer.
Eu preferia morrer a continuar me sentindo daquela maneira, mas sabia que não era o caminho certo. Mesmo se morresse naquele exato momento, ainda não teria paz, pois Eiji continuaria sem um destino correto por minha causa. Eu precisava reagir. Como Izuna mesmo havia dito, me tornei lento e descuidado por causa de tanto tempo sem uma ameaça, por causa de Eiji. E exatamente por ele que teria que trazer o antigo Tobirama de volta. Por Eiji, eu atacaria de volta.
Me senti ingrato por não ter dado explicações para os donos da pousada e mais ainda por ser o culpado por eles não poderem se despedir de Eiji. Eu nunca mais voltaria ali, mesmo depois de recuperar meu filho, e foi insensível deixá-los no escuro depois de terem se acostumado com nossa presença. Mas naquele momento eu não podia fazer nada por eles, mal podia agir por mim e meu filho.
Eu corri como nunca naquele dia. Em todos os lugares em que passava, via vultos e poucas coisas familiares, mas foi o suficiente para me lembrar do dia em que passei por ali, mas em um caminho contrário.
Meus pés pararam depois de horas sem descanso e então avistei a cabana. A mesma que nos abrigou um ano antes. Tudo estava quieto e não conseguia sentir a presença de ninguém. O lugar parecia abandonado por fora, e não quis confirmar se por dentro a visão seria a mesma. Não queria imaginar o que havia acontecido com aquele casal, pois no fundo já sabia o motivo de tudo estar daquela maneira. A guerra havia expandido nos últimos meses e o resultado era óbvio demais.
Quando voltei a andar, reparei melhor no caminho e em como parecia diferente, triste e abandonado. Talvez fosse meus olhos projetando a maneira como me sentia por dentro, mas era claro que tudo estava diferente do dia em que deixei o meu irmão. A guerra havia destruído muito mais, matando ou afugentando as pessoas, e eu, não tinha mais Eiji e seus choros pelo caminho. Tudo estava diferente, inclusive a mim. Mas parte daquilo não era uma coisa ruim. Eu não tinha mais dúvidas do que fazer como quando andava apressado por ali, com um bebê recém-criado e tremendo de frio em meus braços. Tudo estava planejado em minha mente, havia tido tempo para isso no caminho. Enquanto chegava cada vez mais perto de meu destino, meus planos foram repassados cautelosamente. Cada detalhe era importante para poder desfazer o meu erro e então conseguir pelo menos uma pequena chance de sucesso. Eu falaria com Hashirama, contaria toda a verdade e depois de ouvir o que ele tinha a dizer, se fosse preciso imploraria por sua ajuda. Eu não me importava mais com a humilhação ou desprezo, só queria o meu Eiji de volta.
Não parei quando cheguei nos arredores do meu clã, pelo contrário, a corrida retornou com ainda mais velocidade e só firmei os pés no chão quando já estava dentro de casa. Tudo parecia o mesmo de sempre, até o olhar trêmulo e a grave voz que me chamou com emoção.
Eu já esperava pelo abraço apertado que recebi, mas me senti surpreso com a minha própria necessidade de retribuí-lo. Havia sentido a falta de meu irmão e não me importei quando ele agarrou meu rosto com ambas as mãos e abriu um largo sorriso.
— Está inteiro pelo menos — comentou ele e riu no final da frase. Eu ri como ele, mas a seriedade voltou assim que uma de suas mãos me soltaram e a outra permaneceu em meu rosto. — Resolveu o problema? — Ele perguntou sério e atento.
— Nós precisamos conversar, An-chan — o respondi no mesmo tom que o dele e suspirei fundo ao deixar minhas malas caírem no chão.
E nós conversamos. Na verdade, eu falei na maior parte do tempo, e Hashirama milagrosamente me ouviu atentamente sem interrupções. Quando terminei de falar, seu silêncio me deixou ansioso. Esperava por uma bronca e xingamentos, mas ele permaneceu quieto e me olhando por um bom tempo.
Ele se moveu em certo momento, mas foi apenas para se virar e olhar pela janela e continuar com a boca fechada.
— An-chan — o chamei em tom baixo. Estava impaciente e curioso demais para saber o que estava se passando em sua mente. Eu não só queria, precisava saber o que ele pensava.
Hashirama se virou para mim devagar e piscou na mesma velocidade.
— Eu só preciso de um momento — disse ele enfim, com o tom de voz indecifrável e quando já tivera bastante tempo para pensar. Mas, a fim de respeitar suas palavras, apenas assenti e o deixei sozinho.
Ele estava em choque — era óbvio que ficaria. Hashirama jamais iria imaginar uma coisa como aquela, ninguém iria, e tal pensamento me fez pensar em Izuna e sua reação sobre aquilo. Ele reagiu mais rápido que meu irmão, e mesmo não sabendo da história completa, o que contei foi o suficiente para formar uma opinião sobre mim. Ele me odiava ainda mais pelo o que fiz, e meu sentimento por ele também cresceu por ter levado Eiji.
Pensar no que havia deixado acontecer me fez apertar os punhos e segurar a minha raiva. Cada hora que passava eu me sentia me afundando cada vez mais em um buraco escuro, e a única pessoa da qual poderia pedir socorro permaneceu trancada em seu escritório pelo resto do dia.
Cheguei a pensar em ir embora outra vez quando peguei minhas malas e as levei para o meu quarto, mas agir daquela maneira só me faria um covarde, e continuaria com o meu plano. Nele já era esperado uma reação ruim de meu irmão, mas aquele silêncio estava me torturando e o tempo que passava me deixava agoniado por imaginar como Eiji estava sendo tratado. Era estranho não tê-lo em meu colo ou sequer em meu campo de vista, sentia como se ele tivesse ido para sempre.
Quando me sentei em minha cama, soltei um suspiro trêmulo e abaixei a minha cabeça. Era difícil tentar me controlar daquela maneira enquanto a risada dele ecoava em minha mente e a voz fina chamava por mim. Seus brinquedos estavam na mala ao meu lado e mal conseguia olhá-la, pois conseguia vê-lo brincando como cada um deles. Os olhos grandes sempre me encaravam com divertimento quando me sentava ao seu lado e pegava um daqueles brinquedos, e meu coração disparava. Fazia apenas horas que havíamos tido momentos como aquele, e eu já sentia falta daquilo. A falta de sentir meu coração ter algo além de dor.
— Qual é o nome dele?
A voz de meu irmão chamou a minha atenção e levantei a cabeça rapidamente. Ele finalmente havia saído de seu escritório, e com a guarda baixa não o notei na entrada do quarto.
Hashirama me olhava com as sobrancelhas juntas, mas não parecia com raiva. Sua expressão se mostrava triste enquanto andava até mim. Ele se sentou ao meu lado e ficou em silêncio outra vez.
— Eiji — respondi em tom baixo e me virei para ele, esperando as palavras duras que sabia que viriam e que eu merecia.
— Eu não sei o que dizer sobre o que você fez — Hashirama começou a falar enquanto mantinha seu olhar para a porta à frente. — Não consigo entender o que estava passando em sua mente para fazer uma coisa dessa — ele se interrompeu e respirou fundo antes de virar o rosto em minha direção. — Mas consigo ver o que se passa em seu coração agora.
Eu abaixei o meu olhar ao ouvi-lo. Ele realmente podia ver? Entender o quanto me importava com Eiji e como aquilo me machucava? Eu acreditava que sim, e de alguma maneira aquelas palavras me trouxeram ainda mais tristeza. Senti meus olhos arderem de repente e me vi caindo ainda mais no escuro, mas a voz de Hashirama mais uma vez interrompeu o que estava acontecendo comigo.
— Nós o recuperaremos — disse ele com seriedade e imediatamente voltei a olhá-lo.
— O quê?
Não estava esperando por aquelas palavras antes de fazer o meu pedido.
— O que fez foi errado, mas está feito, não há como voltar atrás — disse meu irmão com seriedade. — Mas não importa como foi feito, ele é seu filho, certo?
Assenti sem hesitar e me sentindo orgulhoso mais uma vez por afirmar aquilo. Mas tal sentimento passou com uma rapidez incrível e meus ombros caíram. De que adiantava meu orgulho por Eiji se nem ao menos conseguia mantê-lo a salvo? Toda a confiança em meus planos para quando voltasse para casa não passavam da consequência da raiva que sentia por Izuna, mas eu não estava realmente daquele jeito. Havia apenas a raiva e o medo. Eu havia me tornado em um inútil.
— Eu realmente não gosto disso — a voz de Hashirama me chamou a atenção mais uma vez e o vi se levantar da cama. — Eu pedi a você que voltasse para casa do mesmo jeito em que saiu, mas não me deu ouvidos — ele me olhou indignado e apontou em minha direção. — Isso não é você. Você é forte. Se alguém o golpeia, revida no mesmo instante! — Sua voz se alterou na última frase e esperou alguns segundos para poder se acalmar. — Esse é o Tobirama que conheço. Ele revida, e é o que vai fazer agora. Irá revidar e pegar Eiji de volta — seu olhar sério sobre mim me fez assentir mais uma vez. — E eu o ajudarei.
O olhar decidido e a maneira que ele colocou as mãos na cintura e inflou as bochechas me fizeram rir em tom baixo. Hashirama me olhou ofendido, e imediatamente pedi que me desculpasse. Eu me levantei e fiquei ao lado dele, e quando o encarei seus olhos, me senti tolo por todos aqueles meses achar que ele precisava de mim, quando na verdade era eu quem precisava de meu irmão.
— Você se lembra do que lhe disse no enterro de nosso pai? — Ele voltou a falar de repente.
“Eu não deixarei que perca mais nada, Tobirama. É uma promessa” eu me lembrava bem dessas palavras e de como me senti naquele dia. Hashirama sempre conseguia me levantar em todos os momentos.
Eu assenti para ele e recebi um fraco sorriso quando sua mão tocou o meu ombro.
— Você é meu irmão e o protegerei com tudo o que tenho. Sempre. Não importa qual o tipo de ameaça — afirmou ele, ainda sorrindo. Sua mão desceu de meu ombro para meu peito e ele me encarou outra vez. — Amor... é uma mentira o que dizem sobre ele. Se ele é verdadeiro, não lhe tornará fraco, Tobirama, só o fará mais forte. E só cabe a você saber o que fazer com essa força — ele sorriu triste ao falar, e por um momento achei estar falando dele mesmo. — Então, levante a sua cabeça agora mesmo, e seja forte.
Hashirama bateu levemente em meu peito e se afastou, ficando de costas para mim. O ouvi suspirar pesadamente antes de olhar para trás e dizer:
— Venha, já ficou tempo demais de férias.
Nós rimos ao mesmo tempo daquela frase, e concordando com ele, o segui pela casa.
Mais uma vez estávamos no escritório dele, mas foi a vez de Hashirama falar na maior parte do tempo. Ele me explicou o que Izuna havia dito quando nos encontramos na pousada, e me surpreendi por aquilo ser verdade. Hashirama realmente havia atacado Madara na primeira oportunidade que teve, e destruiu um de seus acampamentos, local onde naquele instante estava sendo ocupado por nossos homens. Os Uchiha estavam com menos homens, isso era motivo para comemorar, porém, meu irmão logo cortou a minha animação ao dizer que um de nossos acampamentos também havia sofrido danos. Apesar de ainda pertencer aos Senju, muitas vidas foram perdidas.
Ele se tornava cada vez mais sério enquanto me atualizava os acontecimentos dos meses em que estive afastado, e outra vez me senti mal por não ter voltado mais rápido para oferecer ajuda. Cheguei a me desculpar com Hashirama, mas ele não aceitou as minhas palavras, alegado que fiz o que tinha que fazer, que a criança precisava de mim.
Assim que o assunto se voltou para Eiji, Hashirama se levantou de sua cadeira e foi até a cômoda ao lado. Ele abriu a única gaveta trancada por chave — o que imediatamente me deixou alerta — e voltou para o seu lugar com um mapa em mãos. Quando ele o colocou sobre sua mesa e pude olhar as anotações do mapa, voltei a olhar para Hashirama.
— Então, é isso o que vêm fazendo?
— Você estava certo — ele me olhou ao dizer, mas logo voltou a dar atenção para o mapa. — Não posso esperar pela paz sustentando uma guerra por causa de meus próprios sentimentos.
— An-chan...
Tentei dizer algo sobre aquilo, mas Hashirama levantou a mão, dando sinal para que eu me calasse. Eu deveria amenizar aquela situação que havia criado, aquelas palavras que joguei para cima dele anos atrás por conta da raiva. Realmente achava que os sentimentos dele por Madara poderiam nos custar muito, mas a maneira que disse não foi certa, e aquilo me incomodava mesmo depois de tanto tempo, e ficou ainda pior por ouvi-lo concordar com minhas palavras.
Nós ficamos em silêncio por um tempo, e o primeiro a voltar a falar foi Hashirama. Ele retornou o assunto do mapa, e me explicou os detalhes sobre aquilo.
Os círculos que ele apontava no papel era o que já desconfiava. As possíveis localizações dos Uchiha. Hashirama havia trabalhado muito naquele ano. Por fora parecia que os Senju não estavam tão à frente, mas aquele mapa dizia completamente o contrário.
Se fosse antes de Eiji, eu diria que Hashirama guardava aquilo por conta de sua hesitação em derrotar Madara, mas tudo era diferente em nosso presente. Eu estava errado quando voltei para casa. O lugar estava igual, mas meu irmão, não. Em alguns momentos em que ele me explicava seus planos até mesmo parecia a mim, e isso me incomodou. Ele ainda era gentil e se preocupava com as vidas dos inimigos que foram perdidas, mas a falta de emoção ao falar sobre as estratégias e como atacaria Madara não era nada como Hashirama. Pensei em dizer algo sobre isso, mas ele estava tão concentrado no que dizia que optei em permanecer em silêncio. Os assuntos pessoais teriam que vir depois, foi o que pensei, mas tudo foi jogado para o alto quando Eiji voltou para o assunto.
Hashirama apontou para um dos círculos e disse suspeitar que aquele suposto acampamento Uchiha era o mais próximo do núcleo do clã, o que esperava nos levar até Eiji.
Os Uchiha tinham suas próprias estratégias, mas era óbvio que os acampamentos mais próximos seriam visitados pelo líder ou seu braço direito com mais frequência que os outros, e naquele círculo vi a minha oportunidade não só de pegar Madara desprevenido mais uma vez e de maneira ainda mais intensa, mas também saber para onde diabos haviam levado o meu filho.
Fiquei agitado em descobrir que, sem saber, Hashirama havia começado parte de meu plano, mas me senti frio novamente quando coloquei a cabeça no lugar e encarei a realidade. Ainda não poderíamos ir imediatamente, e levaria algum tempo para confirmarmos sobre o acampamento. Mas não me deixei abalar novamente e tratei de respirar fundo. Meu irmão tinha razão. Abaixar a cabeça não era uma coisa que eu fazia com facilidade, e o medo por perder Eiji havia embaralhado meus sentidos. Mas aquilo não aconteceria mais. Já havia passado da hora de voltar à ativa. Poderia levar o tempo que precisasse, eu sabia que ficaria impaciente em alguns momentos, mas não desistiria e ficaria pronto para agir a qualquer segundo.
Quando me viu agir de tal maneira, Hashirama sorriu pela primeira vez desde que havia aberto aquele mapa, e me olhou com confiança ao dizer:
— Sempre pensaremos em nossa família primeiro. Quando estivermos prontos, vamos buscar Eiji.
***
Eu esperei como havia prometido. Esperei, mas não quieto em um canto. Havia trabalho a fazer, e como Hashirama tinha dito, minhas férias acabaram durando demais e muita coisa me esperava.
Os outros círculos no mapa também eram nossos objetivos, e se não fosse por Eiji, seriam nossa prioridade. Para aliviar a minha ansiedade e também agilizar nossos planos, me encarreguei de investigar um dos acampamentos um pouco mais longe daquele que certamente poderia ver Madara ou Izuna. Ele era de fato ocupado pelos Uchiha, mas a quantidade de shinobi ali era grande demais para atacar sem chamar a atenção, o que nos fez recuar e deixar aquele círculo no mapa para um momento vantajoso para nós.
O restante do tempo foi ocupado visitando os nossos próprios acampamentos, e tendo certeza que a segurança estava impecável, retornei para casa exatamente um mês depois de ver Eiji pela última vez. O trabalho foi contínuo até ali, mas, ainda assim, a ansiedade me corroía por dentro. As lembranças que tinha com o pequeno ainda estavam vivas em minha mente e acabava sonhando com ele em todas as noites. Os brinquedos na mala foram retirados depois de uma semana, e olhar para eles ao mesmo tempo que apertava meu coração por conta da preocupação e saudade, também me ajudavam a me manter firme e confiante de que Eiji estava vivo e bem.
Uma semana e meia depois de voltar dos acampamentos mais próximos, Hashirama finalmente me trouxe a notícia que esperava agoniado. Aquele realmente era o local dos Uchiha, e poderíamos partir assim que todos estivessem prontos.
Eu já havia esperado demais, e minha paciência que já não existia me fez apressar a todos e checar nosso plano por mais de cinco vezes.
— Tudo dará certo — Hashirama repetiu a mesma frase em todas as vezes que me via encarando o círculo no mapa.
Eu não o respondi em nenhuma das vezes, mas concordava com ele internamente. Era claro que daria certo, eu não permitiria que aquela oportunidade escapasse de minhas mãos.
Os preparativos para partir foram mais rápidos do que Hashirama esperava e mais lentos para mim. Três dias depois, estávamos prontos para sair de casa e nos encontrar com cerca de cento e cinquenta Senju do lado de fora. Havíamos nos preparado bem e estávamos confiantes, porém, tínhamos consciência de que aquela batalha seria apenas para enfraquecê-los, não derrotá-los de vez. Mas para mim, o que realmente importava ali era a informação que buscava e somente meu irmão e eu tínhamos conhecimento.
— Lembre-se, se ver Izuna, não ataque para matá-lo — Hashirama disse assim que ficou ao meu lado.
— Eu sei — afirmei com impaciência enquanto ia até a porta, na intenção de sair imediatamente. A ansiedade estava me deixando sufocado.
— Eu falo sério, Tobirama — Hashirama colocou a mão em meu peito, me impedindo de continuar, e me olhou com seriedade. — Sei que está com raiva, mas precisa dele para saber onde está a criança.
Ele tinha razão. Eu precisava me controlar e também contar com a possibilidade de não encontrar Izuna naquele lugar. Se Madara estivesse lá, talvez ele nos desse uma pista sem notar, mas era Izuna quem eu precisava ver. Nós não sabíamos se ele havia contado da origem de Eiji para seu irmão ou qualquer outra pessoa, nem ao menos tinha certeza de que Madara sabia da existência do pequeno, então teríamos que ser ainda mais cautelosos se não fosse Izuna no acampamento.
Eu tentei me acalmar naqueles três dias de preparação, e consegui guardar a minha sede pelo sangue de Izuna, porém, não conseguia segurar a minha ansiedade. Hashirama tinha razão quanto ao mantê-lo vivo até saber o paradeiro de Eiji, mas não tinha como opinar no que eu planejava fazer depois. Alguém como Izuna, que ameaçava uma criança e depois a tirava dos cuidados do pai não merecia viver.
— Eu tirarei respostas dele, — disse seriamente — mas não posso prometer que o manterei vivo depois.
Hashirama não alterou a expressão ao me ouvir e devagar retirou a mão de meu peito.
— Faça o que tem que fazer — disse ele com seriedade enquanto arrumava a faixa em sua testa.
Eu me surpreendi com a resposta, e parei por um momento e o observei se afastar. Lá estava ele novamente. Não meu irmão, mas a mim, e mais uma vez aquilo me incomodou. Semanas antes daquilo Hashirama havia dito que eu não o ouvi e voltei para casa como outra pessoa, mas ele também tinha mudado de certa forma, e não era de uma maneira tão boa quanto o meu eu do passado achava que seria. Eu estava inclinado a dizer tudo isso para ele antes de sairmos, mas quando nossos olhos se encontraram, as palavras morreram em minha boca.
— Vamos — disse ele em tom baixo e desviou o olhar antes de passar por mim, e com alivio mais uma vez notei que estava errado. Hashirama não havia mudado, só estava escondido por trás de uma máscara. Ele ainda não queria tudo o que estava acontecendo, mas a necessidade de agir para proteger nosso clã o obrigou a se fechar.
***
Tivemos que partir no começo da noite. O acampamento ficava a horas dali, e nosso plano era surpreendê-los ao amanhecer. Nossa corrida pelas florestas foi feita da maneira mais silenciosa possível, e nossos pés somente pararam quando estávamos a meia hora de distância.
Nós descansamos por um momento e logo voltamos a nos mover e ainda mais quietos que antes. Os Uchiha tinham homens fora do acampamento, mas não contavam que soubéssemos daquelas informações. Eu me encarreguei de nocautear três deles enquanto meu irmão e os outros cuidavam do resto. Em poucos minutos nos reunimos novamente e não foi surpresa quando repassamos informações e soube que a primeira etapa de nosso plano havia sido um sucesso.
Nossos passos se tornaram vagarosos ao chegar ainda mais perto do local, e o sol nascendo nos obrigava a ter ainda mais cuidado para não sermos vistos. A claridade do dia já limpava a visão de todos quando finalmente avistamos o acampamento, e de cima e rodeados de árvores nos escondemos para observar os Uchiha já ativos logo cedo.
— São tantos — o comentário veio em tom baixo e ao lado de Hashirama. Foi naquele momento em que reparei nos olhares dos outros Senju, e vi que estavam claramente assustados com a quantidade maior dos Uchiha dali.
— Não estamos aqui para acabar com todos eles, lembrem-se — Hashirama explicava em tom baixo. — Derrotem o máximo que puderem, e quando atingirem seus limites, recuem. Estamos aqui para enfraquecê-los, a grande batalha não será hoje.
Todos assentiram, estavam a confiança recuperada ao ouvi-lo, e fiz o mesmo quando os olhos de meu irmão caíram sobre mim. Era hora de fazer a minha parte mais uma vez. Encostei a palma de minha mão sobre o chão, sentindo a terra sujar minha pele, e fechei os olhos. Eu procuraria primeiramente pelos líderes — um deles em especial — porém, mais um comentário de um dos nossos shinobi me desconcentrou.
— Droga, Izuna está aqui — o shinobi atrás de mim sussurrou assustado, e abri meus olhos imediatamente.
Meu coração bateu rápido quando olhei para baixo e o vi dando ordens a alguns dos outros Uchiha. Minha mão se afundou na terra ainda mais e juntei um punhado ao cerrar os punhos. Sem perceber comecei a tremer, tamanha era a vontade de agarrar aquele pescoço e quebrá-lo instantaneamente. Eu já havia acumulado tanto ódio por ele no passado e imaginado como acabaria com sua vida, mas jamais me senti daquela maneira. Tão sedento pela morte de alguém.
— Tobirama — a voz de Hashirama me despertou subitamente e soltei a terra no mesmo momento em que parei de tremer.
Nossos olhares se encontraram mais uma vez, e antes de assentir para meu irmão, suspirei profundamente, recuperando minha concentração.
— Kuroi, Isamu — voltei a olhar para Izuna ao longe assim que disse os nomes de meus companheiros. — Vocês ficam comigo.
— O resto de vocês, ao meu sinal — Hashirama avisou ao levantar o braço. Antes de abaixá-lo ele me olhou mais uma vez. — Contamos com você, Tobirama.
A maioria deles sumiram de minhas vistas em um piscar de olhos, e quando Kuroi e Isamu se colocaram ao meu lado, uma grande explosão foi ouvida de dentro do acampamento. Hashirama já estava agindo, e os Uchiha tentavam entender o que acontecia ali. Meus olhos correram pela confusão lá em baixo e mais uma vez encontrei Izuna, já lutando contra os meus companheiros. Meu irmão provavelmente estaria à procura de Madara e eu deveria agir logo.
Voltei a minha atenção para o meu lado e analisei atentamente os dois ali, vendo-os confiantes como queria, mas aquilo só durou até eu abrir a minha boca:
— Vocês atacarão Izuna.
Seus olhos se arregalaram ao me ouvir e o óbvio medo estava estampado em suas expressões. Eu não tinha tempo para encorajá-los como Hashirama sempre fazia, então apenas voltei a observar a batalha e ao apontar para frente, comecei a explicar:
— Quero que o distraiam e o levem até a entrada da floresta, bem ali — voltei-me para eles e esperei pelo sinal de que me entendiam, que veio rapidamente, mas ainda com medo em seus movimentos. Tal visão me fez suspirar fundo. — Não se preocupem. Juntos, são tão fortes quanto ele — menti descaradamente, mas sabendo que mesmo não sendo fortes como Izuna, eram Senju e dariam conta do que pedia a eles. E para o meu alivio, minhas palavras surtiram efeito e os vi encorajados novamente. — Eu os alcançarei quando chegarem no lugar combinado.
— Sim, Senhor! — Exclamaram juntos e firmemente, o que me trouxe mais alivio. Realmente pareciam mais controlados.
— Senhor — Isamu me chamou em seguida. — Quando nos alcançar, devemos dar suporte?
— Não — voltei meu olhar para Izuna lutando lá em baixo. — O deixarão por minha conta.
Nada mais foi dito após minhas palavras, e assim que vi Izuna distraído, mandei ambos começarem com o meu plano. Eles desceram rapidamente, e como era esperado por mim, não pegaram Izuna tão desprevenido assim. Ele os atacou de volta com fúria, e isso ajudou o planejado. Izuna parecia tão concentrado na luta que não notou que estava sendo levado para outro lugar. Kuroi e Isamu lutavam bem, mas eu sabia de seus limites e me desesperei ao ver um deles vacilar e ser atravessado por uma espada assim que chegaram onde mandei manter Izuna.
Meus pés se moveram com rapidez e em poucos segundos já estava lá em baixo, a cinco metros de distância deles. Alguns Uchiha me notaram imediatamente e avançaram, mas minha impaciência era tanta que nem ao menos os olhei ao sacar as kunais e cortá-los de maneira mortal. Naquele momento Izuna desviou o olhar de sua própria luta contra Isamu e me encarou. Seus olhos pareceram pegar fogo ao caírem sobre mim, mas eu estava seguro de que neles não continha raiva maior do que a minha.
Eu andei apressado até ele e joguei as kunais no chão com ódio. Izuna me olhou surpreso por ter largado as minhas armas, mas não se distraiu por muito tempo. Ele tirou a espada da direção de Isamu assim que o viu recuar e a levou até mim. Eu começava a ficar cego pela raiva por vê-lo à minha frente, mas a voz de Hashirama ainda estava em minha mente, me alertando das consequências que meus atos poderiam ter.
Pensando apenas em Eiji naquele momento, assim que a espada veio em minha direção, desviei rapidamente e consegui segurar o braço que a empunhava. Eu o apertei com força e puxei para perto com violência. O rosto surpreso de Izuna ficou centímetros à frente do meu por alguns segundos, e pude olhar em seus olhos antes de curvar a minha cabeça para trás e a trazer para frente novamente. O baque de nossas cabeças me deixou levemente tonto, mas não com tanta intensidade quanto foi para ele, que demorou um pouco mais para se recuperar.
Izuna deixou cair a espada por conta da tontura e antes de vê-lo se recuperar, me abaixei e chutei suas pernas. Mas não o deixei cair sobre o chão. Minhas mãos foram rapidamente até suas roupas e agarrei o tecido em sua cintura. A adrenalina que sentia naquele momento me deixou subitamente ainda mais forte e sem saber como, consegui levantá-lo, e com um giro o lancei para longe do acampamento. Pude vê-lo ir de encontro com uma árvore distante, e sem pensar mais de uma vez corri até ele.
Izuna teve tempo de se levantar, mas a confusão que meus golpes causaram nele me deram a oportunidade de pegá-lo ainda desorientado e o segurei pela gola de sua roupa. Ele segurou um gemido quando empurrei suas costas contra a árvore, mas não perdeu sua pose ao me olhar com os olhos semiabertos, como se estivesse em posição de me ameaçar.
— Onde ele está? — Gritei sem me importar com nada. Estávamos longe demais para sermos ouvidos por alguém.
Ele não me respondeu — como era costume — e levantou o joelho, me acertando no estômago. O soltei ao sentir o golpe e cai de costas no chão quando Izuna avançou. Ele subiu em mim e sua mão foi diretamente para meu pescoço. O aperto me fez perder o ar e minha coordenação por um momento, mas quando vi seu punho ser levantado e vindo em minha direção, consegui reagir e o segurei antes de ser acertado no rosto.
Izuna apertou ainda mais meu pescoço e o bloqueio de minha respiração me deixou em desespero. Apertei seu punho com força e minha outra mão foi até seu rosto. Izuna continuou a me apertar cada vez mais e soltou um grito furioso e impaciente ao me ver ainda lutando. Eu puxei a pele de seu rosto com força e ele o virou no mesmo momento, me mordendo até os dentes penetrarem em minha carne.
O grito de dor ficou preso em minha garganta e assim que minha mão foi solta, voltou para seu rosto, manchando-o de sangue, e com dificuldade a levei até seus cabelos. Quando os puxei, senti os fios soltos em minha mão e juntamente com um grunhido de dor dele, veio o alívio de poder respirar novamente.
Izuna havia afrouxado o aperto e aproveitei aquele momento para reagir e trocar nossas posições. Em segundos era eu quem estava sobre ele e meu punho não teve tempo de ser impedido quando foi em direção ao rosto à minha frente. O acertei duas vezes antes de Izuna se debater para tentar escapar.
Tomado pela raiva do momento, a voz de Hashirama sumiu de minha mente e saquei uma kunai. Izuna segurou meu braço imediatamente e impediu que eu cortasse sua garganta. Ainda insisti em aproximar a lâmina em sua pele, mas ele se esforçou ao máximo para me segurar onde estava.
Nossos rostos estavam próximos mais uma vez, e juntei minhas sobrancelhas ao soltar um urro pelo esforço que fazia para tentar descer um pouco mais a kunai. Os olhos de Izuna se arregalaram naquele momento, parecia surpreso com alguma coisa, mas logo sua expressão raivosa retornou e enfim me lembrei de seu sharingan. Pensei que o veria naquele momento e recuei, mas Izuna não fez nada além de me empurrar para longe dele. Eu cambaleei para trás, mas me mantive com os pés firmes sobre o chão. Izuna se levantou rapidamente e fiquei pronto para nos enfrentarmos novamente, mas ele não avançou como achei que faria. Ele me encarou seriamente e deu um passo para trás.
— Você realmente fez isso, não é? — Perguntou ele, mas não parecia querer uma resposta, o que claramente não teria. Eu nem ao menos sabia do que ele estava falando.
Izuna balançou a cabeça de um lado para o outro e como se não estivéssemos no meio de uma luta, se encostou em uma das árvores dali. Ele juntou as mãos como se estivesse rezando e as colocou sobre os lábios. Parecia chocado com algo. O olhei confuso e por um momento também me esqueci do que realmente estava fazendo ali. Dei um passo à frente, curioso demais com o que estava acontecendo, mas parei assim que seus olhos voltaram para mim.
— Seu bastardo doente — Izuna disse com a voz trêmula e chocada. Ele se desencostou da árvore e andou até mim. — Aquela criança... não nasceu a partir só de mim, não é?
Sua pergunta imediatamente me deixou em choque e foi a minha vez de dar um passo para trás e ficar em silêncio. Eu não sabia como, mas parecia que de alguma forma Izuna havia descoberto aquilo que preferia morrer a deixá-lo saber.
— Onde ele está? — Fingi ignorar sua pergunta e repeti a minha. Aquilo não poderia acontecer. Já era um problema grande demais ele saber sobre Eiji, tudo pioraria se soubesse da história completa.
— Isso é abominável — disse ele com desprezo em seu tom.
A minha vontade era de continuar a socá-lo como em minutos atrás, mas nada fiz além de rebater:
— Se acha isso, então o devolva para mim.
Minha raiva não era nada se comparada a necessidade de ver Eiji mais uma vez. Então não entrei em naquele jogo em que sempre rebatíamos insultos.
Izuna juntou as sobrancelhas e balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Não ele. Você — se aproximou ainda mais ao dizer. Ele abriu a boca para falar algo mais, porém, logo a fechou quando voltei a agarrar a gola de sua blusa.
— Estou cansado disso — disse entredentes. — Não vamos conversar como antes. Esqueça isso. Me devolva Eiji ou o mato!
Izuna não se alterou com meu jeito de agir e de falar. Sua mão pousou em meu braço com estranha calma e me olhou nos olhos.
— E como irá achá-lo sem mim? — Seu sorriso debochado finalmente apareceu, e senti meu sangue esquentar. Era o que ele sempre queria. Me provocar a ponto de perder a cabeça. Tal pensamento me fez respirar fundo e não ceder a ele.
— Me diga o que quer — disse com seriedade e o soltei. Izuna jamais me contaria qualquer coisa sem algo em troca, eu deveria saber disso.
— E me dará? — Lá estava o deboche novamente, mas o sorriso morreu em seus lábios mais rápido do que o imaginado e ele deu um passo para trás. — Eu não o devolverei para transformá-lo em uma arma. Isso é cruel demais.
Suas palavras me acertaram em cheio mais uma vez, e precisei de um momento para me recuperar. Eu tinha consciência de que o que havia feito fora cruel. Criar um ser humano para ser uma arma contra o meu inimigo era terrível, independente se fosse uma criança ou adulto, eu ainda estaria errado. Eu sabia, mas não queria ouvir aquilo dele dentre tantas pessoas.
— Acha que está em posição de me chamar desta maneira? — O olhei indignado enquanto falava. Minhas intenções iniciais poderiam ter sido horríveis, mas era ele quem havia colocado uma espada no pescoço de um bebê.
Ele pareceu envergonhado em um primeiro momento, mas logo me olhou sério.
— Eu jamais machucaria uma criança.
Dei um passo à frente e retribuí o olhar.
— E eu jamais usaria Eiji maneira alguma — fui sincero, esperando que ele acreditasse em minhas palavras assim como estranhamente passei a acreditar nas dele.
Izuna desviou o olhar assim que me ouviu e mais uma vez ficou em silêncio. O barulho da batalha se sobressaiu naquele momento, mas, ainda assim, parecia que estávamos apenas os dois em toda aquela área, era como se estivéssemos presos em nossos próprios pensamentos.
Eu esperei paciente por alguma reação dele. Havia dito que não conversaríamos mais, porém, era difícil ver uma saída sem que precisássemos entrar em uma concordância verbal. Izuna parecia relutar mesmo com minhas palavras sendo verdadeiras, e isso me deixou menos esperançoso. Eu não podia sair dali sem ao menos a mínima chance de ver Eiji mais uma vez, e desesperado, deixei meu ódio de lado e minha máscara de um homem impenetrável caiu.
— Deixe-me vê-lo ao menos — fiz um pedido pela primeira vez, atraindo um olhar surpreso dele. Dei um passo à frente, me sentindo mortalmente humilhado. — Se houver alguma parte de você que não seja fria e desumana, me cederá pelo menos isso.
Izuna se mostrou ainda mais surpreso, mas sua reação logo foi ocultada quando deu as costas. Ele andou um pouco à frente e apoiou a mão em uma das árvores. Ao que parecia, eu havia conseguido fazê-lo ao menos pensar, e isso acendeu uma pequena chama de esperança em meu peito.
— Ele está bem? — Dei mais um passo em sua direção ao perguntar. Precisava aproveitar aquele momento para no mínimo saber como meu filho estava. A falta de informações estavam me matando aos poucos. — Eu...
— Pensei que não conversaríamos — Izuna me cortou de maneira ríspida e em seguida se virou para mim. Ele suspirou fundo e arrumou os cabelos que estavam uma bagunça por minha causa.
O barulho de uma explosão no acampamento chamou a nossa atenção e Izuna ficou extremamente sério ao falar:
— Se todos vocês saírem daqui agora, podemos entrar em um acordo quanto ao garoto.
Meu coração bateu rápido ao ouvir aquilo. Fiquei agitado por dentro e imediatamente perguntei:
— Que tipo de acordo?
Izuna suspirou fundo e hesitou por um momento, agindo como se não quisesse ir adiante com aquilo, mas ele continuou a falar:
— No final dessa semana. Durante a manhã, podemos conversar na floresta Jofuku.
— Como vou saber que não é uma armadilha? — Perguntei impaciente e tão sério quanto ele. Eu queria desesperadamente acreditar naquilo, por Eiji, mas não era idiota para confiar assim no inimigo, e tudo piorava por ser Izuna.
— Terá que confiar em mim — disse ele simplesmente, e soltei uma risada alta e debochada. Ele não gostou de minha reação e juntou as sobrancelhas. — É isso ou nunca mais irá vê-lo.
A última declaração me fez travar a mandíbula e o riso cessou como mágica. Eu definitivamente estava me esforçando ao máximo para não matá-lo naquele instante. Me apeguei nas lembranças com Eiji e nas palavras de meu irmão. Armadilha ou não, eu teria que arriscar pelo pequeno.
— Eu o mato se estiver mentindo — disse raivoso e entredentes antes de dar as costas para ele e me afastar.
— Você…
A voz de Izuna me fez parar e olhar para trás. Ele me olhou com uma estranha confusão e balançou a cabeça de um lado para o outro, como se dissesse que não tinha nada para falar, e sem demora voltei a andar, ainda mais ansioso e nervoso do que antes.
Minutos depois me encontrei com Hashirama, que se certificou de que Madara não estava no acampamento. Eu o avisei sobre a retirada como pude em meio a batalha, e mesmo desconfiado, cedeu ao meu pedido.
Mais tarde soubemos que a batalha não havia sido em vão, pois aquele campo dos Uchiha realmente havia sido enfraquecido enquanto cuidava de meus assuntos com Izuna. Foi um alívio saber disso, mas meu irmão não ficou tão feliz quando ouviu meu relato completo. Ele estava crente que Izuna montaria uma armadilha, e eu concordava completamente. Mas não havia o que fazer. Era enfrentar Izuna mais uma vez ou nunca mais ver meu filho, e entre as duas opções a minha escolha era óbvia.
Quando o fim daquela semana chegou, eu estava pronto para enfrentar o que fosse preciso. Hashirama insistiu para que eu não fosse sozinho, mas recusei suas palavras com segurança. Ele não entendia o motivo de eu agir daquela maneira, mas mesmo relutante me deixou ir, pois sabia que jamais me perdoaria se não fosse.
Eu sabia que a probabilidade de Izuna estar me esperando em uma armadilha era alta demais. A minha segurança não era por achar que ele estava falando a verdade ou que conseguiria me safar dos ataques dos Uchiha. Na verdade, eu estava contando com todos os cenários possíveis, principalmente naqueles em que eu era cercado pelo clã inimigo. Se algo assim acontecesse, eu sabia que Madara iria preferir me manter vivo, assim como Hashirama deixaria Izuna respirando para nos passar informações. Se eu fosse capturado, na verdade seria uma vantagem, pois seria levado até o núcleo do clã e lá poderia ir atrás de Eiji.
Todos os tipos de planos passaram por minha mente. Para escapar, procurar e fugir, mas tudo se tornou branco em minha mente no momento em que pisei naquela floresta.
Podia sentir a presença de Izuna não muito longe dali e de mais nenhum shinobi, mas não foi por isso que meus planos foram jogados para o alto. Foi a presença da segunda pessoa que me fez tremer levemente e meu coração disparar como há muito tempo não acontecia.
Meus pés se moveram sozinhos quando vi Izuna se aproximar com ele em seu colo e meu coração se descontrolou ainda mais quando chamei por seu nome e nossos olhos se encontraram.
Eiji se assustou por um momento, mas logo sorriu e se chacoalhou no colo de Izuna. Andei mais rápido na intenção de pegá-lo, mas antes que eu me aproximasse, ele o colocou sobre o chão e me vi sorrindo como um tolo, sem me importar pelo fato de estar sendo observado por Izuna. Eiji estava andando. Vê-lo dando passos rápidos e desajeitados em minha direção me trouxe uma emoção que jamais pensei que teria por uma coisa como aquela, e me ajoelhei assim que seus bracinhos se estenderam em minha direção.
— Papa! — Ele exclamou quando estava no meio do caminho e tive que segurar as lágrimas que se juntaram em meus olhos. Havia sentido a falta de ouvi-lo me chamar de tal maneira.
Quando depois de muitos tropeços ele me alcançou, também estendi meus braços e o envolvi com força. Ele chamou por mim mais uma vez e depois de novo enquanto se agarrava na pele de lobo no topo de minha armadura, e naquele momento notei o quanto havia crescido em apenas um mês e meio. Meus olhos arderam ao pensar no quanto havia perdido e ao sentir que o pequeno em meus braços também sentiu a minha falta.
Eu escondi meu rosto em seu pequeno ombro quando uma lágrima escapou, e torci para que não tivesse sido vista. Na intenção de disfarçar o meu comportamento eu me levantei e o levei junto, acomodando-o em meu colo. Me virei, ficando de costas para Izuna, e então tive coragem de levantar a cabeça e olhar para o rosto de meu filho. Ele ainda tinha o sorriso aberto e desdentado para mim e ri em tom baixo quando suas mãozinhas seguraram as laterais de meu rosto e me olhou com curiosidade ao tocar as marcas vermelhas pintadas ali.
— Como você está, pequeno? — Perguntei sorridente, não esperando por respostas, mas fui surpreendido quando ele parou de sorrir e encostou a testa na minha.
— Papa — me chamou outra vez, mas com a voz chorosa. Em seguida Eiji abraçou o meu pescoço e com aquele mesmo tom de voz trêmulo desatou a dizer palavras inteligíveis e abafadas.
Eu me virei para Izuna no mesmo momento em que Eiji escondeu o rosto em meu pescoço e o olhei de maneira acusadora. Ele não reagiu ao meu olhar como pensei que faria, e seu olhar triste sobre nós me trouxe estranheza.
— Ele sentiu a sua falta, hm? — Foi o primeiro comentário que saiu por seus lábios.
Tentei respondê-lo, mas Eiji me interrompeu ao soltar meu pescoço e de repente voltar a sorrir. Ele ainda tentava falar sem parar, era como se tentasse me contar tudo o que eu tinha perdido, e aquilo me dispersou mais uma vez e sorri para o pequeno antes de beijar sua bochecha gordinha. Eiji riu alegre com minha ação e continuou com sua agitação de maneira ainda mais intensa.
Eu queria ficar ali o dia todo, prestando atenção em cada movimento sem sentido que ele fazia com as mãos, mas havia um problema que deveria resolver. E aquele problema ainda nos observava em silêncio e com aquela mesma expressão triste e sem sentido. Quando nossos olhares se reencontraram, fiquei sem saber o que dizer. O que falar em uma situação como aquela, afinal? Havia pedido para ao menos ver meu filho, mas já estava com ele em meus braços, então por que não dar as costas e ir embora dali, como Izuna mesmo já havia feito comigo? Tais perguntas rondavam a minha mente enquanto nos encarávamos em silêncio, e mesmo sabendo que seria arriscado ou ao menos deveria dizer algo, acabei dando as costas para ele mais uma vez.
O erro havia sido meu, mas Izuna não merecia palavra alguma. Eu não sabia seus motivos para ter falado a verdade e deixado que pegasse Eiji. Talvez tivesse pena ou não soube como cuidar de uma criança. Ou simplesmente queria me ver humilhado mais uma vez, mas naquele momento não me importava mais. Ele não tinha nada a ver com o que eu fazia ou não, para início de conversa, e foi com esses pensamentos que dei meus primeiros passos para sair dali.
— Tobirama — o ouvi me chamar mais calmo que o esperado. A voz estava levemente trêmula e em meu interior me senti tentado a virar para ver o tipo de expressão que fazia, mas ao parar de andar, me mantive de costas, esperando pelo o que viria. — Eu quero vê-lo novamente — disse ele como se fosse uma ordem. Aquilo me fez juntar as sobrancelhas e finalmente olhar para trás. Suas palavras eram absurdas ao meu ver. Ele não tinha o direito de pedir nada, quanto mais ordenar.
Eu estava nervoso novamente e queria ao menos insultá-lo, já que não poderia sufocá-lo naquele momento, mas quando observei sua expressão, algo cutucou o meu peito. Não gostei nada do que vi. Por um breve momento me vi em seus olhos negros. O mesmo Tobirama daquele dia na pousada. Imediatamente dei as costas outra vez, e assustado com meus pensamentos, voltei a andar.
— Se existe ao menos uma parte de você que não seja fria e desumana, me cederá pelo menos isso.
Parei de andar mais uma vez ao ouvi-lo falar como eu.
“Você não é nada para Eiji. Não tem o direito de pedir isso” era o que estava em minha mente e queria dizer a ele, mas resolvi me manter daquela maneira por fora. Calado e completamente indiferente ao que Izuna poderia estar sentindo.
Ele esperou por uma resposta, mas não a dei. Mais uma vez voltei a andar e apertei Eiji entre meus braços antes de começar a correr.
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