Eiji

17 Capítulo Doze


Eu estava animado com o fim da construção do segundo andar. Depois que Izuna voltou para o seu clã, me ocupei em fazer os últimos reparos, e também com as aulas que comecei a dar para Eiji no começo da semana. Nós achamos que já era hora do pequeno começar a aprender certas coisas sobre o mundo, mas ainda dentro do limite que colocamos entre ele e a guerra de nossos clãs.

Ainda faltavam alguns móveis para enfim habitarmos nos dois andares, e Hashirama insistiu em ajudar a construir ao menos eles. Daquela vez não recusei sua ajuda, e marcamos sua visita para um pouco antes do final de semana, como sempre, para evitar que ele se encontrasse com Izuna por ali. Eu não queria envolver meu irmão em algo que o prejudicaria ainda mais. Os membros do nosso clã já fofocavam demais sobre a antiga relação que tivera com Madara, anos atrás, quando ainda eram garotos, e imaginava como seria se tivesse contato com Izuna no presente, e todos acabassem sabendo. Seriam ainda mais questionamentos e medos para lidar, e definitivamente não queria adicionar mais preocupações para o meu irmão.

Eiji estava animado por saber que seriamos visitados por seu tio, e dias depois, por seu outro pai. Mal pude lidar com sua agitação por aqueles dias, e por isso foi extremamente alarmante quando o vi acordar em certo dia, e não sair da cama.

Alguns minutos passaram enquanto o observava ainda deitado e de olhos abertos. Estranhei não ter chutado as cobertas e pulado da cama, como sempre fazia, e logo me aproximei. Seu rosto avermelhado que foi direcionado a mim me deixou ainda mais alerta, e ao ouvir o chamado rouco e fraco, me sentei ao lado e toquei seu rosto, que tinha uma fina camada de suor.

Ele estava doente.

A febre o pegou sem motivo aparente. Não parecia estar com gripe ou alguma outra doença, então apenas me foquei em abaixar sua temperatura. O pequeno ficou na cama por um dia inteiro, fraco demais e tremendo de frio, ainda que a lareira estivesse acesa o tempo todo por conta do inverno que estava chegando. Aquilo me preocupou desde o início, mas foi piorando a cada hora que passava e a febre não dava sinal de que iria abaixar. Cheguei a pensar em levá-lo para o meu clã, para poder ser examinado por um de nossos médicos, mas afastei a ideia, não querendo alarmar meu irmão por algo que parecia simples. Mas após acordar no outro dia, e vê-lo ainda na cama e com a mesma temperatura absurdamente quente, vi que estava errado. Não parecia nada simples, e a preocupação aos poucos foi se tornando desespero.

Optei por preparar o jantar daquele dia em cima do balcão, onde poderia observá-lo deitado. Eu não conseguia tirar os olhos dele, ainda mais após ouvi-lo dizer que se sentia fraco demais para levantar. Suas mãozinhas ás vezes ficavam trêmulas quando as segurava, e enfim vi que eu não poderia ajudá-lo sozinho. Não fazia ideia do que ele tinha, e não era um médico. O pequeno precisava de cuidados específicos, isso se tornou óbvio quando não soube identificar o que tinha, e decidi levá-lo para o meu clã na manhã seguinte. Mas, minha decisão teve que mudar quando ouvi sua voz baixinha e larguei o que estava fazendo.

— Papa — Eiji me chamou com a voz fraca, e imediatamente corri até ele. Toquei sua testa, na esperança de finalmente sentir sua temperatura normalizada, mas a pele ainda mais suada que antes parecia estar em chamas. — Não consigo me mexer — disse ele, com dificuldade e claramente assustado.

Eu já estava preocupado demais com aquela febre que não cessava, e ao ouvi-lo dizer tal coisa, o sentimento dobrou de intensidade. Rapidamente o peguei no colo. O pequeno não conseguiu ficar com as costas eretas e sua cabeça caiu em meus ombros. Desesperado, pedi que ele movesse as mãos, pés, ou qualquer parte do corpo, mas ele repetiu a frase de antes, e com ainda mais dificuldade.

— Nós vamos até o tio Hashi — eu disse apressadamente enquanto o envolvia em um cobertor. — Lá poderei cuidar melhor de você, e logo ficará bem, ok?

Estava tentando mantê-lo ativo com aquela conversa, mas daquela vez não tive resposta alguma. Meu coração pareceu parar por um momento quando tirei sua cabeça de meu ombro, e então vi o motivo de seu silêncio. Ele havia desmaiado de repente, e assim que notei sua inércia, não fiz nada além de apertá-lo em meus braços e correr. Deixei tudo para trás do jeito que estava. A lareira acesa, a comida no balcão para ser feita, a cama bagunçada e a porta de entrada completamente aberta... naquele momento não pensei em nada daquilo, em minha mente apenas pensava em salvar o meu filho.

Eu nunca havia sido tão rápido como fui naquela noite, e teria me orgulhado de tal coisa, se tudo o que me tomava não fosse uma imensa preocupação. Quando cheguei no clã, Eiji ainda não havia despertado, mas suspirei aliviado ao checar seus sinais vitais e ter certeza de que estava vivo. Dali, fui diretamente para o meu irmão, que como esperei, sentiu a minha presença do lado de fora e abriu a porta assim que fiquei em frente a ela.

— Tobirama! — Ele exclamou assustado, provavelmente pelo horário e obviamente pela visão que tinha à sua frente.

— An-chan, me ajude, por favor — pedi desesperado ao apertar Eiji desacordado em meus braços. Imediatamente o meu irmão mandou que eu entrasse e sem me perguntar qualquer coisa, se apressou a chamar um médico.

Eiji acordou um pouco antes de ser examinado. Eu me senti tão aliviado por ver seus olhos se abrindo outra vez, porém, qualquer sentimento bom se apagou quando ficou claro que ele ainda estava na mesma situação. A febre continuava alta e havia perdido os movimentos dos membros do corpo. Eiji também não conseguia falar direito, e apenas seu olhar mostrava o quanto parecia assustado com o homem — que para ele era um estranho — o examinando.

O médico pareceu seguro ao medicá-lo, e dizer que o pequeno estava com um simples vírus. Eu não consegui me sentir tão calmo quando disse que logo ele melhoraria, e não sabia o porquê, mas no dia seguinte vi que realmente não teria adiantado me sentir aliviado. Eiji não havia melhorado em nada naquelas horas, mesmo medicado e aparentemente confortável em minha antiga cama.

Um segundo médico o examinou no fim daquele dia, e este não soube dizer com certeza o que estava acontecendo. O meu desespero por vê-lo daquela maneira era tanto, que passei outra noite em claro, ao seu lado e segurando sua mão que não mexia de maneira alguma.

Eu não sabia mais o que fazer. As pessoas que deveriam saber, não conseguiam achar nem uma pista, e cada hora que passava, sentia que podia perder o meu filho a qualquer momento. Estava tão desesperado, que muitas vezes sentia que não havia oxigênio à minha volta. Era difícil de respirar ou pensar com clareza, e as horas sem conseguir dormir também estavam afetando a minha mente.

Hashirama tentou me convencer a ir descansar enquanto me substituía ao lado do pequeno, mas não consegui me mover dali. Ele passou algumas horas com Eiji, mas comigo ainda ali, vigilante e decepcionado por aparentemente aquilo ser a única coisa que podia fazer.

Na terceira noite, Hashirama enviou gaviões para os nossos acampamentos. A temperatura de Eiji havia descido, mas foi pouco, e seus movimentos não se recuperaram, mesmo ainda insistindo nos medicamentos do primeiro médico. Então, meu irmão não hesitou em trazer o nosso melhor médico, que ficava na maioria das vezes viajando entre os acampamentos. Ele demoraria algum tempo para receber a mensagem e chegar, mas me agarrei a nossa última esperança de ver Eiji se recuperar.

Forçadamente conformado de que realmente não havia nada a ser feito, além de esperar pelo médico, me permiti pensar direito naquela situação na manhã seguinte. Eu havia praticamente abandonado nossa casa na floresta. Pelo jeito em que havia deixado as coisas, era o que parecia. Pensar na situação da cabana, me fez lembrar de Izuna mais uma vez. Ele havia passado por minha mente a todo momento. Cheguei a pensar em maneiras de conseguir avisá-lo sobre o que estava acontecendo, mas era praticamente impossível sem saber onde morava.

Ele ficaria desesperado quando soubesse. Não queria preocupá-lo, mas seria egoísta de minha parte esconder aquilo, quando vez ou outra sentia que talvez aqueles fossem os últimos dias que veria Eiji vivo. Eu tentava não pensar em coisas do tipo, mas o sentimento pesado em meu peito não me deixava, e o desespero por ter que passar por aquilo sozinho me fazia ter ideias nada certas para ter Izuna ao meu lado. Eu precisava dele, e mais do que tudo, Eiji também.

O pequeno voltou a falar em certo momento, o que me deixou agitado e um pouco mais esperançoso, porém, o que saiu de seus lábios de maneira fraca, me fez ainda mais triste. Ele chamou por Izuna, e quando não o viu, perguntou-me quando seu outro pai o visitaria. Hashirama estava conosco naquele momento, e me olhou surpreso demais para quem já estava ciente do apego do pequeno com o outro. Eiji sempre falava de Izuna para ele, mas talvez sua surpresa fosse por finalmente notar o quanto o pai do pequeno era necessário.

Algumas horas mais tarde, enfim me dei conta que dia era aquele, e o desespero voltou a me tomar. Eiji estava dormindo mais uma vez, e aproveitei aquele momento para sair do quarto e ir para o que ficava em frente ao meu. Eu bati na madeira, e antes da permissão que sempre esperava, abri a porta.

— Você está livre hoje? — Perguntei assim que entrei no cômodo, e vi Hashirama sentado sobre a cama. Ele me olhou preocupado no primeiro momento, mas logo neutralizou sua expressão e se levantou.

— Sim — ele se aproximou e parou à minha frente. — Por quê?

— Eu preciso avisar Izuna — aquelas palavras haviam sido ensaiadas em minha mente enquanto atravessava a pequena distância de um quarto para o outro, mas, ainda assim, elas saíram com certa hesitação, por medo do que meu irmão diria. Mas mantive o olhar firme sobre ele, decidido a fazer aquilo.

Hashirama devolveu o meu olhar com seriedade, e por longos minutos tive apenas silêncio em troca de minhas palavras, mas sabia que ele não iria conseguir ficar quieto por muito tempo, e provei estar certo quando o vi suspirar pesadamente e cruzar os braços.

— E depois? — Sua pergunta foi feita com mais seriedade ainda, e não tendo dúvidas de que ele sabia a resposta, eu nada disse. — Tobirama... — Hashirama soltou outro suspiro e pareceu um pouco nervoso. — Assim que ele colocar os pés aqui, irão matá-lo.

Ele tinha razão. Era arriscado demais levar Izuna até o nosso clã, e podia imaginar alguns dos absurdos sobre ele que meu irmão poderia estar pensando naquele momento, mas, eu estava disposto a arriscar o que fosse para tê-lo ali em um momento como aquele. E tinha certeza de que Izuna também não pensaria duas vezes antes de aceitar ficar ao lado de Eiji. Eu ainda me preocupava em trazer problemas para o meu irmão, mas não podia deixar as coisas como estavam.

— Ninguém precisa vê-lo. Só Eiji — disse com certeza em minha voz, e recebi um olhar incrédulo. — Vamos, An-chan, você o ouviu chamar por Izuna. Eu não posso fazer isso com eles.

Eu não sabia o que estava acontecendo do lado de fora de nosso clã, mas tinha consciência de que era extremamente provável que Izuna já havia passado pela cabana e estava preocupado com nosso sumiço, e podia imaginar a dor que sentiria por achar que havíamos o deixado para trás ou pior que isso. Eu não queria deixá-lo no escuro, não era justo com ele ou Eiji. Não era justo conosco.

— Você realmente confia nele? — A voz de Hashirama me chamou a atenção naquele momento em que me enchia de aflição. Nossos olhares se encontraram novamente e assenti sem dúvidas. — Faça o que tem que fazer — disse ele em tom baixo, e em seguida passou por mim, saindo do quarto.

Após ver que meu irmão havia seguido para o meu quarto, o imitei, mas por meus lábios nada mais saiu. Vesti o meu casaco de inverno e beijei a testa de Eiji. Meu olhar se encontrou com o de Hashirama, o vi sério como antes, e então, simplesmente saí.

Me movi tão rápido quanto quando levei Eiji para ser examinado. A cada passo, me sentia mais ansioso com a possibilidade de — se eu tivesse sorte — encontrar Izuna na cabana, mas também já planejava o que fazer se não o encontrasse ali. Ele costumava ter um horário fixo para nos visitar, então, dependendo do tempo que levasse para eu chegar, talvez ainda estivesse a caminho, ou indo embora após não nos encontrar. Eu não queria pensar na última possibilidade. Imaginar Izuna achando que havia sido deixado para trás me deixava preocupado, pois sabia que apesar de toda a sua pose, era o mais sensível entre nós.

Eu tentei apertar o passo em certo momento, mas não consegui ultrapassar a velocidade que já era além do meu normal. A ansiedade estava me deixando nervoso, e até mesmo passei a falar sozinho durante o caminho, me xingando por não ter sido capaz de resolver aquela situação sozinho e sem precisar preocupar Izuna.

Quando finalmente cheguei perto da cabana, fiquei ainda mais agitado por notar o chacra dele ali, mas me preocupou a intensidade que o senti se elevar. Ele estava alterado de alguma forma.

Eu não parei, até chegar um pouco próximo da entrada, que estava aberta como havia deixado, e antes que continuasse a seguir, o vi sair dali apressadamente, já sabendo de minha presença. Ele parecia tão preocupado quanto imaginei.

— Tobirama! — Izuna correu até mim, e quando parou à minha frente, me olhou com preocupação e uma pitada de raiva. — Onde você estava? Eu pensei que... — suas mãos foram até os cabelos e jogou a franja para trás de maneira nervosa. — Onde está Eiji?

— Se acalme. Eiji está seguro — eu o segurei pelos ombros ao dizer, em seguida desci as minhas mãos para seus braços e o acariciei. Nossos olhares se encontraram quando me aproximei um pouco mais, e senti um peso em meu peito ao ver sua expressão magoada. — Eu nunca o deixaria para trás — afirmei com seriedade.

— Eu sei.

Ele soltou um suspiro ao me abraçar, e automaticamente fechei os meus olhos e correspondi o gesto com força. Eu estava precisando demais daquele abraço.

— Pensei que tivessem sido atacados, ou que Eiji havia sido levado por alguém... eu não sei... eu... — sua voz desesperada saía trêmula enquanto me apertava com força, mas em seguida o seu tom mudou, e ao se afastar, me olhou bravo. — Quase morri de preocupação. Por que fez isso?

Aquele era o momento de dizer o que estava acontecendo, e mesmo ansioso para falar de uma vez, e voltar a ficar ao lado de Eiji, hesitei por um momento. Ele ficaria ainda pior ao saber, e no fundo, me sentia responsável por ter deixado o nosso filho adoecer, mesmo sem saber o que de fato havia acontecido. Eu o olhei nos olhos por um tempo, vendo-o ainda mais desesperado por meu silêncio, e isso me fez enfim abrir a boca.

— Eiji está doente, Izuna — fui direto demais ao dizer, e sua nova expressão preocupada me fez sentir ainda mais culpado. — Começou com uma febre e depois ele não conseguia mais se mexer... — expliquei agoniado ao me lembrar do pequeno desmaiado em meus braços. — Eu também quase morri de preocupação. Ainda estou preocupado, na verdade.

Izuna tocou o meu peito ao se aproximar outra vez.

— Como ele está agora?

— Não mudou muita coisa — disse, derrotado, e sentindo a minha garganta doer. Izuna em seguida voltou a abraçar a minha cintura. — Eu sinto muito por não ter dado notícias, não consegui achar uma maneira para isso, e não saí do lado dele até agora.

Izuna assentiu rapidamente e encostou as nossas testas.

— Ele está com quem?

— Meu irmão. Nós chamamos por nosso melhor médico, mas ele demorará algum tempo para chegar. Os outros que olharam disseram que logo passaria, mas... — soltei um suspiro ao me interromper, não conseguindo lidar com aquele sentimento pesado que me esmagava. — Eu sinto muito. Deveria tê-lo levado até um médico desde o começo.

— Ei — ele chamou a minha atenção quando subiu as mãos para o meu rosto e o segurou com firmeza. — Pare de se desculpar, não é sua culpa. Não havia como ter adivinhado — disse ele seriamente, e após me ver assentir devagar, beijou a lateral de meus lábios. — Eiji ficará bem com você ao lado dele.

A voz triste que formou sua última frase me incomodou grandemente, mas em seguida fiquei aliviado por saber que ao menos aquilo eu iria poder fazer naquele momento. Era óbvio que Izuna desejava estar ao lado de nosso filho em um momento como aquele. Eu também não suportaria ter que ficar apenas sabendo o que estava acontecendo, e mesmo sem poder fazer muito, não ficar ao lado dele soava absurdo demais.

Minhas mãos tocaram seus braços, e os acariciei devagar ao dizer:

— Eu vou levá-lo até ele.

— Mas... — Izuna me olhou extremamente surpreso e gaguejou enquanto tentava achar o resto das palavras.

— Você também quer ficar ao lado dele, não é? — Perguntei o óbvio, enquanto deslizava as minhas mãos por seus braços até a caricia chegar em seus pulsos.

— Mais do que qualquer coisa — sua resposta saiu trêmula como o toque em meu rosto.

Eu sorri fraco diante da emoção em sua voz, e com ainda mais certeza, disse:

— Então você irá.

— Mas, e o seu clã? — Izuna se mostrou agitado com a ideia. — Seu irmão...

— Ele entende e confia em mim — virei o meu rosto ao dizer e beijei uma de suas mãos antes de voltar a olhá-lo. — E eu em você.

Pela primeira vez naquele dia pude ver seu sorriso, mesmo que fraco e rápido, mas foi o suficiente para me agarrar a ele, e tentar pensar que conseguiríamos passar por aquilo.

Quando nos soltamos, não houve mais tanta conversa, e determinado, Izuna me seguiu pela floresta.

O meu retorno foi um pouco mais demorado, por Izuna não estar acostumado com tanta velocidade, mas com sorte conseguimos chegar antes do pôr do sol.

Assim que pisamos no clã, o clima entre nós se tornou um pouco diferente. Izuna estava extremamente atento, mesmo ainda não estando próximos às casas, e podia sentir sua tensão em cada pequeno barulho que ouvíamos. Vê-lo de tal forma me trouxe um tolo sentimento de que eu estava em perigo em meu próprio lar, o que nos fez andar com certa distância um do outro. Aquilo me desagradava. Fazia-nos parecer dois estranhos que cooperavam por um curto período. Mas o sentimento não durou muito. Após muita cautela e silêncio, conseguimos nos aproximar da minha casa, e pude ver o meu irmão pela janela de meu quarto. Ele estava saindo pela porta, e assim que o vi sumir dali, fiz sinal para que Izuna entrasse pela janela. De uma maneira extremamente silenciosa que só ele conseguia agir, fez o que indiquei, e após um suspiro aliviado por termos conseguido chegar até ali, o segui com menos cuidado, me lembrando enfim que estava em casa.

Quando entrei no quarto, imediatamente fechei as cortinas, e sorri fraco ao ver o pequeno acordado e olhando emocionado para Izuna, que não hesitou em sentar ao seu lado.

— Papai... — a voz saiu extremamente fraca, mas, ainda assim, me senti aliviado por ouvi-la. Já fazia algum tempo que Eiji não falava qualquer coisa.

Ao me aproximar, pude ver os olhos de Izuna brilharem com lágrimas reprimidas.

— Ei, meu bebê — ele disse em tom baixo enquanto arrumava os cabelos do pequeno. — Como se sente?

— Com sono — ele disse mais manhoso, como sempre costumava fazer na frente de Izuna. — Não consigo me mexer.

— Você logo ficará melhor — Izuna afirmou antes de se inclinar sobre ele e beijar-lhe a testa.

— Eu sei. Tenho que ficar — o pequeno tentou sorrir ao dizer, mas desistiu pela clara falta de força. Ele logo me olhou, e me ajoelhei ao seu lado, apoiei um dos braços no colo de Izuna, e o outro estiquei para tocar seu rostinho. — O tio Hashi disse que fará um bolo para mim, quando eu ficar melhor — ele enfim conseguiu sorrir de maneira fraca, e não tive como segurar uma leve risada.

— Então, é melhor ficar bom rápido, certo?

Ele tentou assentir para a minha pergunta, mas não conseguiu se mover o suficiente e sua expressão se tornou dolorosa. Senti o meu peito se apertar ainda mais naquele momento, e a culpa que tentava suprimir continuou a forçar passagem em meu interior. Porém, a agitação em mim foi subitamente interrompida, quando senti um toque em meus cabelos e em seguida, o peso da cabeça de Izuna sobre a minha. Sua mão desceu para o meu ombro e recebi um confortável aperto antes de ouvir sua voz soar baixa em meu ouvido:

— Nós precisamos ser fortes por ele, certo?

Eu assenti ao fechar os olhos, e devagar acariciei suas coxas onde me apoiava e voltei a fazer o mesmo no rosto do pequeno, que quando voltei a abrir os olhos, vi que em silêncio nos observava.

Senti um rápido beijo no topo de minha cabeça, e olhei para cima, a fim de receber o mesmo em meus lábios, porém, não tive a chance naquele momento. No corredor do lado de fora do meu quarto, senti uma presença se aproximar, e por saber exatamente de quem era, me afastei deles e levantei. A porta não demorou a ser aberta, e assim que encarei o olhar sério de Hashirama, senti Izuna também se levantar e ficar ao meu lado.

— An-chan — o chamei, um pouco tenso com o clima à nossa volta, mas não consegui nada dele, e acabei perdendo sua atenção para Izuna.

— Eu posso confiar em você? — Ele perguntou em um tom grosso e sério demais, usando a pose que só via em campo de batalha.

— Sim.

Meu olhar foi para Izuna, assim que o ouvi respondê-lo, e o vi dar um passo à frente, se mostrando corajoso demais, quando eu sabia muito bem que por dentro não estava tão confiante por encarar o meu irmão.

— Desde que... — sua frase então saiu hesitante como era sua expressão, e o olhei surpreso, por achar que poderia impor condições ali — eu possa ficar com ele esta noite.

Era uma condição razoável, que pretendia pedir a Hashirama mais tarde, sabendo que conseguiria convencê-lo de alguma forma, mas, ainda assim, achei seu movimento arriscado e tremendamente corajoso. Entrar no território inimigo e ainda impor condições... era muita falta de juízo ou confiança demais, o que combinava perfeitamente com Izuna, e acabei tendo que segurar um sorriso por pensar tal coisa, e me sentir tolo por não ter esperado por aquilo.

Hashirama não demonstrou se alterar ao ouvi-lo, mas o conhecia, e sabia muito bem que era a pessoa mais surpresa naquele cômodo.

— Pensarei a respeito — ele disse ainda mais sério, e um pouco alterado, deu as costas e saiu dali sem nem ao menos fechar a porta.

— Ele é ainda mais intimidador de perto — Izuna falou assim que voltamos a ficar a sós.

Quando me voltei para ele, o vi em um estado paralisado, ainda olhando para a porta, e ao tocá-lo, o senti tremer levemente. Seus olhos enfim se viraram em minha direção, e me pareceu que para tentar disfarçar o seu estado, perguntou em tom baixo:

— Acha que ele me deixará ficar?

Eu sorri fraco ao apoiar o meu braço em seus ombros.

— Sim. Ele com certeza já se decidiu, só está dando uma de durão — respondi calmamente, e recebi um olhar duvidoso em minha direção. — Hashirama é uma ótima pessoa — afirmei sem dúvidas.

— Ele me assusta — Izuna confessou em tom baixo ao voltar a olhar para onde meu irmão havia saído, e não consegui segurar uma risada. Ele me olhou nervoso e ao mesmo tempo envergonhado por ter dito aquilo, e para acalmá-lo, cessei o riso e acariciei seu ombro.

— Quando conhecê-lo melhor, também irá rir — eu disse levemente risonho, e em seguida o soltei e beijei sua testa. — Vou falar com ele e volto em alguns minutos, ok?

Izuna assentiu, ainda envergonhado, e me deixou ir. Antes de sair, também beijei a testa de Eiji, que já parecia sonolento. A minha preocupação voltou com o breve contato, pois senti sua pele ainda quente sobre os meus lábios, e voltei a me perguntar o que diabos estava o deixando daquela maneira. O pensamento de que tinha uma grande porcentagem de chance de ser minha culpa voltou a me assombrar enquanto andava até o escritório de Hashirama, mas reservei aquele assunto para ser analisado com calma mais tarde, para então, talvez saber o que fazer.

Eu bati na porta do escritório com calma, e só entrei quando me foi permitido. Lá dentro, vi o meu irmão fingindo se distrair enquanto procurava algo para ler em uma das prateleiras.

— O que foi aquilo? — Perguntei ainda calmo, e parei um pouco distante. Ele deu de ombros e continuou com os olhos fixos na prateleira.

— Eu só fui perguntar o que queria saber.

Soltei um suspiro ao vê-lo agir daquela forma e dei poucos passos à frente.

— Ele pode ficar?

Hashirama enfim me olhou ao ouvir a minha pergunta, e suas sobrancelhas se juntaram.

— Isso é arriscado, Tobirama — ele se afastou ao dizer. — Você nunca foi de se arriscar dessa maneira.

— Eu nunca fui de fazer muitas coisas que faço por Eiji — dei de ombros, sendo sincero em minhas palavras, mas ocultando que também fazia aquilo por Izuna.

Hashirama parou em frente à sua mesa e se virou para mim. Ele cruzou os braços com nervosismo e soltou um longo suspiro.

— Ele não pode sair daquele quarto por nada. Nem se movimentar demais — meu irmão pareceu raivoso por ceder daquela maneira, e antes de voltar a andar, apontou o dedo em minha direção. — Ninguém pode notá-lo, me ouviu?

Segurei um sorriso ao vê-lo ceder como pensei que faria, mas também fiquei curioso por ver um brilho diferente em seu olhar.

— Eu sei, e ele também — avisei simplesmente e andei em direção à sua mesa. — Por que está tão nervoso?

— Eu nem ao menos sei — Hashirama soltou outro suspiro e se jogou de maneira desleixada na cadeira atrás da mesa. — Tê-lo aqui me deixa apreensivo, eu acho.

Eu o observei desviar o olhar para as mãos que se entrelaçam em seu colo.

— Por que se lembra de Madara? — Me sentei sobre a mesa ao perguntar e recebi um olhar sério.

— Porque imagino o que ele vai dizer a Madara quando sair daqui.

— Eu já lhe disse...

— Que confia nele — ele me cortou com impaciência, mas diferente de suas palavras, sua expressão era levemente triste. — Eu já confiei em Madara uma vez.

— Izuna não é o irmão dele — afirmei rapidamente, o que pareceu deixar o meu irmão ainda mais incomodado. Ele me encarou com seriedade novamente, e não hesitei em devolver aquele olhar. Eu entendia os seus medos, e obviamente depois de tudo o que havia acontecido, era difícil confiar em alguém. Mas ele não conhecia Izuna tão bem quanto eu. Se quisesse reclamar, se sentir magoado e traído por alguém, que direcionasse suas palavras e sentimentos a Madara. Eu o respeitava mais do que qualquer um, mas não admitiria aquilo.

Pensei que ele logo voltaria a tagarelar sobre aquilo ou me repreenderia como sempre e terminaríamos aquele dia brigados, mas não ouvi nada por longos minutos. Ficamos a nos encarar feito dois idiotas por bastante tempo, até Hashirama não aguentar o silêncio e soltar um suspiro.

— Onde ele irá dormir? — Perguntou derrotado, e com a expressão emburrada.

— Ele pode ficar no colchão que usei por esses dias — disse tranquilamente, nem parecendo que segundos antes estava pronto para travar uma bela discussão por causa de Izuna. — Não irei dormir de qualquer maneira — dei de ombros ao concluir e vi meu irmão juntar as sobrancelhas.

— Você precisa descansar — disse com repreensão. — Aproveite que esta noite terá mais ajuda.

Naquele momento, não consegui mais me segurar, e sorri, me sentindo realmente mais calmo.

— An-chan — o chamei com o humor melhorado, e recebi seu olhar confuso. — Obrigado. Por tudo.

Soltei uma baixa risada ao ver seu rosto corar levemente, e em seguida Hashirama cruzou os braços e virou o rosto para o lado.

— Tem sorte de eu ser um bom irmão — disse ele em tom baixo e rabugento.

— Tenho mesmo — ri outra vez ao dizer, e em seguida novamente por ouvi-lo resmungar sobre eu tentar bajulá-lo para ter o que queria. Eu sinceramente não estava tentando fazer tal coisa. Estava realmente agradecido por tê-lo como meu irmão mais velho, mas não demonstrei muito do que estava sentindo ao rir outra vez e finalmente deixá-lo em paz em seu escritório.

Eu me sentia um pouco mais leve por ter a aceitação de meu irmão por pelo menos aquela noite, porém, tal sentimento não durou muito quando voltei para o meu quarto. Eiji estava dormindo, e Izuna, deitado ao seu lado. Ele ia se levantar quando me viu entrar, mas o impedi com um sinal com a mão.

— Fique aí — sussurrei ao me aproximar e me sentei na beirada da cama. — Ele sentiu a sua falta — toquei o rosto do pequeno e em seguida o de Izuna, que parecia gelado demais perto do outro. — Eu também senti.

Ele sorriu fraco assim que me ouviu, e não resisti em me curvar e enfim beijar seus lábios, mas de maneira mais rápida do que realmente queria. Eu me levantei quando separei nossos lábios, e me sentindo exausto, retirei o meu casaco e me sentei na poltrona ao lado da cama. Por longos minutos fiquei a observá-los à minha frente. O pequeno dormia profundamente, e diferente do normal, não movia um músculo sequer. Izuna não tirava os olhos dele, na clara esperança de vê-lo milagrosamente acordar melhor, e mesmo querendo a coisa parecida, sabia que aquilo não iria acontecer. Aqueles dias me deixaram cético, e não conseguia mais ver qualquer saída, principalmente para aquele sentimento de culpa que voltou com ainda mais força ao cair da noite.

Eu me coloquei para pensar por horas, repassando os passos de Eiji naquele último mês. O que ele poderia ter feito ou comido de diferente, mas nada me vinha a mente, até que minhas lembranças voltaram anos, no dia em que o pequeno deu o primeiro suspiro. E então, me senti ainda mais incomodado e completamente agitado.

“Eu fiz algo de errado enquanto o criava? ”, me perguntei aflito, lembrando que Eiji tecnicamente era uma falha de meu experimento, e com isso passei a imaginar tudo o que havia de ruim que pudesse acontecer ali. “E se errei em alguma fórmula? E se desde a minha criação, sua vida já tinha data de validade? ”, pensar em tais coisas me esclareceu o sentimento de culpa que me acompanhava, mas não serviu para me deixar mais calmo. Senti o meu ar faltar naquele momento. Minha pele suava pelo súbito e incômodo calor que senti, e desesperado afundei minha mão em meus cabelos, os puxando levemente quando apoiei o cotovelo no braço da poltrona.

— Tobirama? — A voz de Izuna passou por meus ouvidos, me trazendo de volta para aquele momento. Eu o olhei um pouco assustado, por ter me esquecido de sua presença, e ainda mais culpado por encarar seus olhos preocupados em minha direção enquanto se sentava na cama.

— Se importa de ficar sozinho com ele por algumas horas? — Pedi em tom baixo, enquanto desviava o olhar para Eiji ainda desacordado. — Eu preciso passar algum tempo no meu laboratório.

— Alguma ideia que possa ajudar?

A empolgação em sua pergunta me deixou ainda pior, e acabei soltando um suspiro trêmulo.

— Eu não sei. Só venho pensando em algumas coisas... — outro suspiro, e novamente me senti afogar em meus próprios pensamentos. — E se fiz algo errado? E se... ele...

— Não se atreva a pensar nisso — Izuna cortou a minha fala com seriedade. — Tobirama, olhe para mim.

Eu odiava quando Izuna se dirigia a mim com tanta autoridade, mas naquele momento me sentia tão derrotado que não consegui dar lugar a mais nenhum outro sentimento. Eu o olhei com culpa e senti minha garganta doer ao engolir saliva.

— Ele não está melhorando nem um pouco — disse em tom baixo e trêmulo, me fazendo estranhar a minha própria voz.

— Porque ainda não sabemos como cuidar dele! — Izuna exclamou ao se arrastar com cuidado na cama e se sentar na beirada e à minha frente. — Quando o médico chegar, saberemos o que fazer. Ele está doente, Tobirama. É uma criança, essas coisas acontecem — ele parou de falar por um momento e então sua expressão se tornou chorosa. — Você é o lado forte da gente, Tobirama — ele riu sem humor algum. — Não faça isso.

Naquele momento me senti desmoronar ainda mais. Eu não deveria estar pensando nas possibilidades em uma hora como aquela, mas sim, achando alguma solução, como sempre fazia. Mas tudo o que fiz ali foi amedrontar ainda mais Izuna, que claramente se segurava para ser emocionalmente muito mais forte do que realmente era. Ao vê-lo de tal forma, estendi o meu braço em sua direção e o chamei em tom baixo. Imediatamente Izuna deixou a cama e se sentou em meu colo. O ouvi suspirar trêmulo quando envolvi sua cintura com os braços, e em seguida deitei minha cabeça em seu peito, onde pude sentir seu coração batendo com força. O senti acariciar os meus cabelos enquanto eu mantinha o olhar fixo em Eiji, e pouco a pouco, consegui me acalmar outra vez.

— Fique conosco — ele pediu de forma sussurrada antes de beijar o topo de minha cabeça. Eu assenti rapidamente, não querendo mais preocupá-lo, e necessitado demais de seus braços ao meu redor para teimar com qualquer coisa.

Nós não conversamos por um bom tempo. Ambos presos em nossos próprios pensamentos, ficamos apenas a nos abraçar naquela mesma posição na poltrona, até sermos obrigados a nos separar quando o pequeno acordou. Ele não falou como antes, apesar de tentar se esforçar para tal, e não o incentivamos a continuar, temendo que o esforço só o fizesse piorar.

Mais tarde, Hashirama voltou a perambular pelo corredor, mas não entrou quando me chamou, e em seguida pediu para ir para o lado de fora do quarto. Izuna pareceu mais confortável com aquilo, então não reclamei e simplesmente fui até ele. O meu irmão perguntou sobre Eiji, e quando expliquei que nada havia mudado, ele suspirou cansado, mas me olhou um pouco mais animado ao dizer que havia recebido uma resposta do médico, que disse não demorar a chegar no núcleo. Hiroshi era o seu nome, e nós o conhecíamos desde sempre. Era confiável e competente; um de nossos melhores médicos, e por viajar mais que os outros, já havia visto todos os tipos de doenças. A lista de suas qualidades me animou, mesmo que pouco naquele momento, mas tal sentimento se elevou quando contei a Izuna o quão bom ele era, e o vi tão esperançoso quanto o meu irmão.

Meu irmão insistiu para que eu jantasse naquela noite, e um pouco sem graça, disse que levaria algo para Izuna no quarto. Ele ainda parecia relutante em aceitá-lo ali, mas eu sabia que era questão de pouco tempo para Hashirama ver que Izuna não era como antigamente julgávamos. Mas subestimei a teimosia de meu irmão ao pensar assim. Tinha certeza de que levaria pouco tempo para ele perceber, porém, nem ao menos voltou a olhar para a cara de Izuna naquela noite, quanto mais conversar ou observá-lo como achei que não demoraria a fazer. Hashirama era amigável com todos, ás vezes até demais, o que nos fazia discutir na maioria das ocasiões, mas daquela vez, talvez por seus sentimentos por Madara, ele se manteve afastado. A refeição de Izuna foi feita por ele, mas entregue por mim, e também fiquei com a tarefa de recolher seu prato. Hashirama estava empenhado a não vê-lo, e mesmo entendendo seus sentimentos, me senti um pouco magoado com aquilo.

Quando já era tarde, meu irmão me desejou boa noite, e um pouco inquieto, pediu para que eu fizesse o mesmo com Eiji por ele. Me senti inclinado a convidá-lo a fazer tal coisa pessoalmente, como ele claramente queria, mas me mantive calado quando o vi abaixar o olhar antes de dar as costas. Aquele dia havia sido cheio demais para ele também, e não queria importuná-lo ainda mais. Pelo menos até o dia seguinte, não insistiria para que ao menos tentasse conversar com Izuna normalmente.

Assim que voltei para o meu quarto, vi o pequeno dormindo na cama, e sobre o chão, no colchão ao lado, Izuna ainda desperto e encarando o teto. Ele sorriu fraco ao me ver próximo, e se virou para mim quando me deitei ao seu lado. Recebi um leve beijo na bochecha quando o segurei pela cintura e o trouxe para mais perto.

— Tente dormir um pouco — sussurrei antes de me apoiar em meu cotovelo para poder olhar Eiji mais uma vez.

— Venho tentando — ele respondeu em tom cansado, e suspirou fundo ao me ver esticar o braço e tocar o rosto do pequeno. — Como ele está?

— Ainda quente — respondi de forma derrotada e me deitei novamente, podendo ver sua expressão preocupada.

A mão de Izuna foi até o meu rosto e me acariciou devagar. Nossas testas se tocaram, e como ele, acabei soltando um suspiro após esbarrar nossos narizes. Eu havia sentido a falta dele, mais do que nunca, e apesar de ainda me sentir inseguro e culpado, sua presença acabou por me acalmar aos poucos outra vez. Minha mão subiu de sua cintura até as costas, e enquanto nos encarávamos em silêncio, também passei a acariciá-lo. Sabia que, apesar de toda a positividade e calmaria que trouxe com sua presença, no fundo, ele também se sentia como eu. Havia deixado claro no começo da noite, mesmo eu já imaginando desde o momento em que o vi pela primeira vez naquele dia. Nós estávamos desesperadamente preocupados e nos sentindo inúteis naquele momento, mas jamais desistiríamos de nosso filho, não importava o que teria que ser feito, nós faríamos.

O toque em meu rosto se tornou um pouco mais intenso em certo momento, e foi ali, enquanto ainda encarava seus olhos negros, e voltei a ouvir sua voz, que depois de todos aqueles dias em agonia, pude sentir o meu coração bater mais rápido por um momento, e por conta de felicidade e não preocupação ou desespero.

— Eu te amo — Izuna disse em tom baixo, mas para mim foi claro e extremamente doce. Os meus lábios se moveram automaticamente, e após um fraco sorriso, tocaram os dele de forma rápida.

— Eu também te amo — sussurrei como ele, sentindo o meu coração acelerar ainda mais e o meu peito aquecer. Não havia sido tão difícil quanto antes achava que seria dizer o que eu sentia com mais clareza, e a expressão que pude ver em seu rosto, assim que tal declaração saiu por meus lábios, me fez sentir arrependido por não ter dito aquilo muito mais cedo.

Nós nos beijamos lenta e profundamente, mas logo voltamos a nos acomodar na primeira posição de antes, e voltamos a nos encarar de perto, enquanto trocávamos leves caricias.

— Estou com tanto medo, Tobirama — Izuna sussurrou de forma trêmula e apertou o abraço que dava em minha cintura.

— Eu também — confessei com tristeza enquanto afastava os cabelos negros para poder acariciar seu rosto.

Ele suspirou de maneira trêmula, e assim que sua expressão se tornou distorcida, escondeu o rosto em meu peito e me abraçou com ainda mais força. Eu já havia visto Izuna de diversas formas, mas nunca presenciei um momento em que ele chorava como naquele instante. Ele manteve o tom de voz baixo, mas os soluços incessantes e as lágrimas que molhavam a minha camiseta deixavam muito claro o seu estado. E sem saber muito bem o que fazer para confortá-lo, apenas o apertei com igual força em meus braços, enquanto segurava a enorme vontade de me entregar às lágrimas, assim como ele.

Houveram tantos momentos em que tememos perder um ao outro. Chegamos até mesmo a conversar sobre o assunto de morrermos de medo de deixar um ao outro e Eiji com apenas um pai, mas jamais passou por nossas cabeças que um dia poderíamos perder ele. E a possibilidade de isso acontecer amedrontava tanto, que nem mesmo eu consegui guardar os meus sentimentos como normalmente fazia, e deixei que algumas lágrimas escapassem de maneira tão silenciosa quanto dolorosa.
Eu não consegui dormir por mais uma noite, e Izuna só fechou os olhos no meio da madrugada. Nós checávamos a temperatura do pequeno a cada uma hora, insistentes que em algum momento algo mudaria, e para o nosso alivio, assim que o sol nasceu, e me sentei ao lado de Eiji para checar sua pele, a senti um pouco menos quente. Era pouca coisa, mas, ainda assim, me trouxe uma fina linha de esperança, e imediatamente acordei Izuna, para também tocá-lo e confirmar que eu não estava alucinando pela falta de sono.

Ele sorriu ainda sonolento ao tocar a testa de Eiji, e em uma maneira silenciosa de comemorar aquele pequeno avanço, trocamos um rápido beijo e voltamos a sorrir suavemente ao encostar nossas testas.

Eu também não esperei que Hashirama acordasse e invadi o seu quarto e pulei em sua cama para contar a ele, que mesmo não sendo grande coisa, também ficou agitado como nós, e para o meu alivio não se importou em entrar no mesmo quarto que Izuna daquela vez, e foi checar a temperatura do pequeno por ele mesmo.

Nós estávamos tão felizes naquela manhã, porém, como antes, aquilo não durou por muito tempo. Quando Eiji acordou, continuava sem conseguir se mexer ou falar tanto quanto antes. Ele estava extremamente fraco, e horas mais tarde, a febre voltou a subir, nos deixando preocupados novamente.

Percebi que Izuna parecia mais agitado do que no dia anterior quando estava quase no fim da manhã, e quando fui perguntar como ele estava, ficou em pé à minha frente e parecendo tentar esconder sua expressão, desviou o olhar para o lado.

— Aqui — Izuna me entregou um papel perfeitamente dobrado e hesitou um pouco, antes de voltar a virar o rosto em minha direção.

— O que é isso? — Perguntei, não me dando o trabalho de verificar o que era por mim mesmo.

— É a minha localização — ele respondeu em tom baixo, e em seguida me olhou com tristeza. — Me mande notícias sempre, ok?

O que continha naquele papel me surpreendeu, mas também me dividiu entre alegria e tristeza. Aquele papel significava que Izuna confiava em mim tanto quanto eu colocava a minha confiança nele, mas também mostrava que ele não iria ficar ao nosso lado por mais tempo.

— Você não precisa ir — eu afirmei ao me aproximar um pouco mais, e segurei a vontade de tocar seu rosto naquele momento. O papel foi para o bolso de minha calça sem receber outro olhar, e me foquei inteiramente em Izuna, que parecia cada vez mais abalado.

— Eu não sei se o seu irmão pensa o mesmo — seu tom saiu em uma mistura de raiva e tristeza. Apesar de ter entrado no quarto naquela manhã, Hashirama não deu espaço para progresso algum entre eles.

Eu pensei em dizer algo que o fizesse ao menos esperar que eu conversasse com Hashirama mais uma vez, porém, a movimentação na entrada da casa me chamou a atenção. Eu conhecia aquele chacra, e senti-lo me deixou completamente ansioso e me esqueci de que conversava com Izuna segundos antes.

— Ele chegou — disse com normalidade, mas por dentro estava extremamente agitado. Izuna entendeu o que quis dizer, e diferente de mim, sua ansiedade foi claramente mostrada em sua expressão e gestos. Por um momento, ele ficou sem saber o que fazer. Ele não podia ser visto ali, e por ordens de meu irmão, não poderia sair do quarto, a não ser que fosse para ir embora, então não o culpei pela confusão. Era claro que iria querer saber o que o médico diria, então, após a chegada do mesmo, ir embora não era uma opção.

Rapidamente eu me desculpei com ele, e em seguida o guiei até o banheiro, que por sorte, fazia parte do meu quarto. Izuna não pareceu se importar por ter que se esconder ali, e a única reação que teve, foi segurar o meu braço antes de me afastar e fechar a porta. Eu o olhei curioso por um momento, mas logo sorri fraco e beijei sua testa ao ouvir suas palavras de esperança e encorajamento.

Hiroshi não demorou a entrar, e rapidamente examinou Eiji com um cuidado parecido com os dos outros dois médicos, porém, a semelhança acabou ali, quando pediu que tirasse as roupas do pequeno. Sem entender o porquê, o fiz com cautela e observando as expressões que ele fazia, e me senti um pouco incomodado quando em seguida o pegou no colo. Eu confiava em Hiroshi, mas era estranho como ficava alerta a qualquer um que tocava em meu filho. Não importava quem fosse, sempre ficava desconfiado por motivos que nem eu mesmo sabia. Mas os meus pensamentos não ficaram naquilo por muito tempo. Logo ouvi Hiroshi murmurar “Assim como suspeitei”, e fiquei alerta. Olhei para Hashirama, que devolveu o olhar esperançoso, mas preocupado, e logo voltei para o médico, que já começava a colocar a camiseta de Eiji de volta.

Ele o deitou novamente e antes que perguntássemos o que o pequeno tinha, Hiroshi enfim começou a explicar. Primeiramente pediu que nos aproximássemos, e mostrou uma pequena marca na coxa de Eiji, um pontinho, que se ele não tivesse apontado, jamais teria notado ali. Ele sorriu tranquilo quando vestiu o pequeno por completo, e finalmente disse que Eiji havia sido picado por um inseto de tipo raro, que tinha um veneno que paralisava os membros da vítima, e causava febres entre outros sintomas terríveis que por sorte não chegou a ter. Enquanto ele nos explicava o que estava acontecendo com Eiji, me senti ainda pior, por imaginar o sofrimento que o meu filho estava passando. Ele era tão pequeno, não me conformava por estar passando por algo tão sofrido daquele jeito.

Eu só consegui suspirar aliviado quando Hiroshi disse que aquele tipo de doença era facilmente eliminada, se tratada corretamente. Eiji foi medicado por ele, e o resto seria por nossa conta, o que não era problema nenhum, pois, tudo o que eu mais queria era poder cuidar dele desde o começo, e enfim poderia fazer isso de forma correta.

— Ele é seu filho, Tobirama-sama? — Hiroshi perguntou enquanto guardava seus remédios em uma maleta e sorria para Eiji, que trocou seu olhar assustado que fazia enquanto era examinado, para o curioso de sempre. Eu o respondi positivamente, e isso o fez sorrir ainda mais. — Forte como o pai — disse ao me olhar finalmente. — Se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos, desacreditaria que uma criança deste tamanho resistiu a tanto.

Eu me senti orgulhoso ao ouvir tal coisa, mas, ainda assim, foi péssimo enfatizar ainda mais a dor que o pequeno sentiu e ainda estava sentindo naquele momento. Mas logo os meus pensamentos foram afastados outra vez, quando vi Eiji mover a boca, como se estivesse tentando dizer algo. Eu me aproximei, pronto para pedir que não se esforçasse, mas Hiroshi balançou a cabeça de um lado para o outro e fez sinal para que eu não o impedisse.

— É importante que ele fale, nem que seja poucas palavras. Incentive-o sempre que puder — ele alertou e voltou sua atenção para o pequeno. — O que houve, Eiji?

— Eu... — sua voz saiu fraca e baixa demais. — Eu sou forte... como um dragão.

Não houve maneiras de nos segurarmos naquele momento, e acabamos rindo, mas diferente de Hiroshi, nossas risadas saíram muito mais pelo alívio do que pela graça nas palavras do pequeno.

Eu estava tão aliviado e feliz por enfim saber o que estava acontecendo e como parar aquilo, e principalmente por ter certeza de que não perderia Eiji. Assim que fomos deixados a sós, eu o beijei em todas as partes do rosto, fazendo-o rir baixinho e falhado. Aquele som fez o meu peito se aquecer e sentir uma grande vontade de ter Izuna em meus braços naquele exato momento. Ele também deveria estar louco para estar ali com o pequeno, e me senti inquieto para tirá-lo do banheiro o mais rápido possível, mas precisei esperar um pouco mais, até que sentisse a presença de Hiroshi fora da casa. E quando enfim isso aconteceu, corri a curta distância que nos separava, e abri a porta. Eu não precisei de muito para ter o que desejava, apenas foi necessário abrir o caminho e imediatamente recebi os seus braços ao redor de minha cintura. Soltei uma baixa risada ao abraçá-lo e então, finalmente consegui me sentir como mim mesmo. De repente não havia mais o desespero e impotência, apenas alívio e o sentimento que me fazia completo quando estava com ambos ao meu lado.

A atenção de Izuna em mim logo foi dispersada, e o resto daquele tempo foi dedicado apenas ao pequeno, que pouco a pouco, voltou a falar com mais frequência, ainda que em tom baixo e bastante fraco.

Após um rápido banho, no começo da noite, quando entrei em meu quarto, os vi conversando baixinho enquanto riam de maneira relaxada. Automaticamente um sorriso cresceu em meus lábios, e desejei internamente que Izuna houvesse desistido de ir embora naquele dia. Eu conversaria com o meu irmão. Sabia que ele iria ficar ainda mais estressado com outro pedido, mas acharia alguma maneira de compensá-lo se me desse mais aquela alegria.

Quando me aproximei, pude ver o rosto de Eiji ainda cansado, mas não foi um grande problema ao tocar-lhe o rosto e finalmente sentir sua temperatura quase chegando a ideal.

— Ei, pequeno — eu me sentei ao seu lado quando o chamei, e recebi seu olhar um pouco mais animado em minha direção.

— Papa — ele me chamou em tom baixo e ainda fraco, o que fez o meu peito se apertar.

— Ele estava dizendo que têm um esconderijo aqui — Izuna disse com um sorriso e segurou suas mãozinhas que estavam sobre o peito.

Tentando seguir o que o médico havia dito sobre incentivá-lo a falar, e me sentindo mais tranquilo por ainda ter Izuna ali, fiz a minha melhor expressão surpresa, e disse para o pequeno:

— Como você pôde contar o nosso segredo?

— Mas... é o papai — ele se agitou ao dizer, e até mesmo conseguiu aumentar um pouco o tom de voz. — Queria que fosse o esconderijo de nós três.

Ele me olhou culpado, mas ao mesmo tempo com aquela expressão que sempre fazia quando queria me convencer de algo, e claro, conseguia em todas as vezes.

— Hm — fingi pensar sobre o assunto com seriedade, mas logo sorri. — Pode ser, mas o lugar em baixo da macieira ainda é meu.

Fiz uma expressão emburrada, tentando imitar a ele e Izuna, e o que consegui com aquilo foram risadas de ambos.

— Ok — Eiji riu outra vez e logo sua expressão ficou ainda mais animada. — A gente pode fazer um pique... — ele olhou para os lados, e se mostrou pensativo como sempre ficava quando esquecia uma palavra.

— Piquenique? — Izuna o ajudou a lembrar e o pequeno assentiu rapidamente.

Eu sorri largo ao ouvi-los, e por nos imaginar em um piquenique e ali. Soava tão absurdo e ao mesmo tempo aconchegante que quis sonhar ainda mais com aquilo.

— Papai pode fazer aqueles bolinhos de arroz deliciosos — eu disse ao olhar esperançoso para Izuna. Eu amava aqueles bolinhos que ele fazia.

O ouvi suspirar enquanto me olhava incrédulo.

— Sim! — Eiji exclamou animado e até mesmo se moveu um pouco sobre a cama.

— Pare com isso — Izuna tentou me repreender com a expressão séria, mas falhou ao sorrir de canto.

— O quê? — Perguntei com falsa inocência, fazendo-o revirar os olhos.

— Fica usando o menino para me fazer cozinhar essas coisas para você.

Fiz uma expressão exagerada de indignação e até mesmo coloquei uma das mãos sobre o peito.

— Mas é claro que não!

Izuna não conseguiu segurar o olhar sério por muito tempo e acabou rindo de meu teatro.

— É tão gostoso, papai! — Eiji acabou me ajudando ao afirmar tal coisa, e Izuna, como sempre, cedeu, sorrindo bobamente para o pequeno.

— Viu só?

A minha fala causou outra risada em Izuna e também um leve tapa em meu braço, que me fez rir igualmente. Naquele momento, fomos interrompidos por um pigarrear que soou por minhas costas. Quando me virei, vi o meu irmão na porta do quarto, e me olhando de forma suspeita.

— O jantar está servido — avisou ele de um modo que poderia parecer normal ou sério para Izuna, mas notei seu tom de malícia muito bem escondido. Com aquilo fiquei a pensar se ele estava ali nos observando há bastante tempo, ou simplesmente tirou suas conclusões com nossas risadas. Não estávamos fazendo nada demais, porém, conhecia bem o meu irmão, e sabia que ele ainda tocaria naquele assunto quando estivéssemos a sós.

Izuna pulou a refeição naquela noite, mesmo comigo insistindo para que comesse algo. Ele alimentou Eiji em seu lugar, e quando me juntei ao meu irmão para comer o mais rápido possível e voltar para eles, voltei a receber aquele mesmo olhar, que com o tempo se tornou incômodo.

— Se quer dizer algo, diga de uma vez — eu disse impaciente, assim que terminei de comer.

Hashirama sorriu de canto, e pacientemente mastigou sua comida.

— Eu não tenho nada para dizer — afirmou ele, ainda com aquela expressão que me irritava. — E você, tem?

Eu o olhei com seriedade e mesmo querendo contar tudo a ele, seu jeito irritante me fez recuar e apenas disse:

— Obrigado pela refeição.

Ele riu como idiota ao me ouvir e continuou a comer de maneira feliz demais para quem, não muito tempo antes, estava a andar emburrado e resmungando pela casa. Eu revirei os meus olhos antes de sair da mesa, e o deixei para trás sem mais palavras. Era óbvio que Hashirama queria me provocar, ele fazia aquelas coisas sempre que surgia alguma oportunidade, e como era costume, não conseguia lidar com aquilo muito bem, o que o divertia ainda mais.

Quando cheguei em meu quarto, vi a porta aberta como eu havia deixado, mas não entrei. Eles ainda estavam tagarelando, como era costume. Me encostei no batente de madeira e cruzei os braços. Em meus lábios não consegui esconder um fraco sorriso ao observá-los conversando. Ouvir a voz de Eiji nunca foi tão satisfatório como naquele momento, e poder ouvi-lo juntamente com Izuna, foi mais do que perfeito para mim. Eu sentia o meu peito aquecido, enquanto finalmente podia respirar com mais tranquilidade e com a certeza de que o nosso pequeno ficaria bem e logo voltaria a nos deixar nervosos e envergonhados com suas bagunças e perguntas.

Me sentia tão tranquilo naquele momento, vendo-os bem e perto de mim, porém, uma quarta presença apareceu para tirar um pouco da minha calmaria. Hashirama se aproximou, e com um sorriso bobo moveu as mãos ao meu redor, como se estivesse espantando mosquitos invisíveis. Minhas sobrancelhas se juntaram enquanto o encarava e vi seu sorriso se alargar ainda mais.

— Eu pensei ter visto pequenos corações saindo de você agora mesmo — sua frase risonha me fez revirar os olhos outra vez, e senti o meu rosto esquentar levemente.

— Calado — disse nervoso e tentando ser sério, mas tudo o que consegui com isso foi tirar uma alta risada de meu irmão, que em seguida passou por mim e entrou no quarto.

Izuna ficou tenso outra vez assim que o ouviu, e a fim de acalmá-lo, também entrei no cômodo. Mas Hashirama nada disse para pressioná-lo ou para fazer qualquer outra coisa. Ele se dirigiu diretamente a Eiji, que diferente de seu pai, sorriu completamente feliz ao vê-lo ali. Hashirama se ajoelhou ao lado da cama, e só então notei que ele tinha algo em mãos.

— Como se sente, mini Tobirama? — Eiji riu ao ser chamado de tal forma e foi com surpresa que vi Izuna ocultar um sorriso com a mão.

— Estou bem — o pequeno respondeu ainda fraco. — Já posso comer o seu bolo.

Hashirama riu e balançou a cabeça de um lado para outro. Eiji adorava os bolos que Hashirama fazia, e mesmo nunca tendo dito em voz alta, também era uma das minhas coisas favoritas.

— Eu tenho uma surpresa para você — disse Hashirama animado ao esconder a pelúcia que estava segurando nas costas.

Eiji, mesmo não conseguindo se mexer direito, ficou agitado ao ouvir aquilo, e gritou animado quando Hashirama revelou o gato de pelúcia. Ele o olhou deslumbrado, e quando ouviu que aquele havia sido um presente enviado por Aika, ficou ainda mais feliz e pediu ajuda a Izuna, para que pudesse abraçá-lo.

Enquanto o pequeno transbordava amores pela pelúcia, Hashirama desviou o olhar dele para Izuna, que estava sentado sobre a cama. O sorriso de todos por ver Eiji animado logo morreu, e vi Izuna ficar sério e tenso novamente.

— Madara sabe onde está? — Hashirama foi direto ao perguntar, e dei um passo à frente, a fim de interromper seja o que fosse que ele queria começar, mas o rápido olhar de Izuna sobre mim me fez ficar fora da conversa.

— Não — ele respondeu um pouco baixo, mas após pigarrear, a voz normalizou e o olhou um pouco mais confiante. — Ele... não sabe de tudo o que vem acontecendo.

Hashirama assentiu e ficou em silêncio. Sua mão acariciou os cabelos de Eiji, e então, se levantou. Ele virou a cabeça em minha direção por um momento e antes de voltar a olhar para Izuna, o vi sorrir da mesma maneira maliciosa de antes.

— Você pode ficar também esta noite, se quiser — sua voz séria de repente sumiu, e meu irmão falou como sempre; gentil e calmo.

— Obrigado — Izuna se levantou ao dizer, em seguida me olhou confuso e surpreso. Eu devolvi o seu olhar, mas logo dei de ombros. Eu sabia que meu irmão não demoraria a ceder ao menos um pouco, porém, seus motivos para mudar de um minuto para o outro me deixaram curioso.

Eu os deixei no quarto ao ver Hashirama sair de casa. O segui rapidamente, mas já sabia para onde ele ia. Já era noite, mas para o nosso clã isso não queria dizer descanso. Em noites menos frias e sem chuvas como aquela, costumávamos treinar, mas de maneira menos séria, e mais como um jogo entre nós.

Daquela vez não participaríamos, e os outros lutavam, esperando nossa avaliação no final. Não estava em meus planos me juntar a Hashirama naquela noite, mas a melhora de Eiji, e com Izuna ali, fiquei mais animado, e não me importei em seguir a nossa tradição.

Eu me juntei a Hashirama no mesmo momento em que ele parou para observar uma luta que já estava em andamento, e sorri de canto ao ver um de meus alunos derrubar o dele com facilidade. Hashirama revirou os olhos, e soltou um suspiro quando ouviu a minha baixa risada.

Nos mantemos em silêncio, vendo-os recomeçar o duelo, mas não consegui segurar a minha curiosidade por muito tempo.

— O que o fez mudar de ideia? — Perguntei, sem conseguir esconder o meu interesse na resposta ao virar meu rosto em sua direção.

— Eu não sei — Hashirama deu de ombros. — Talvez ter visto vocês três juntos — ele sorriu fraco enquanto ainda olhava para a frente. — Eu gostei daquela aura.

Eu sorri como ele ao ouvir aquilo. Como havia suspeitado, ele estava nos observando há algum tempo, e obviamente havia tirado suas próprias conclusões, que se fossem como eu pensava, não estavam nada erradas.

Logo voltei a minha atenção para os outros, e disse em tom baixo:

— Eu também gosto.

— Você realmente não tem nada para me dizer, irmão? — Ele perguntou com bom humor, e ri em tom baixo por sua insistência.

Meu sorriso aumentou ao pensar o quanto ele deveria estar curioso para saber o que estava acontecendo entre Izuna e eu, mesmo que fosse um pouco óbvio para quem nos observasse atentamente. Mas também era claro que Hashirama queria ouvir de mim, não especular por minhas ações. Eu deveria ter dito a ele mesmo antes de tudo aquilo, mas sinceramente era divertido vê-lo tão curioso e frustrado por nada saber. Ao pensar em seu jeito e em como vinha me irritando, meu sorriso se alargou ainda mais.

— Não.

O tempo de dizer tudo a ele, ou qualquer um que se interessasse, ainda viria.