Eidos

4 Cap. 1 Despertar (Parte 4 de 4)


Notas iniciais
Finalmente começamos a entender os mistérios da BCR. Mas a jornada apenas começou e Despertar é o nosso desafio.
Meus olhos demoraram a se adaptar aquela iluminação difusa. Já havia visitado muitos Endoramas, mas AQUILO estava completamente fora do comum. Dea olhava tudo com tanto espanto quanto eu. O espaço onde normalmente colocavam a recepção tinha sido modificado num portal simulando o umbral de castelo. Atendentes sorriam, vestidos em trajes verdes cheios de brilhos imitando...

- Duendes! Não acredito! – Dea parecia mais animada, mesmo assim tinha um tom de indignação por baixo da surpresa.

Tentava assimilar todas aquelas projeções de árvores e as cabines de conexão, dispostas em círculos concêntricos, tomando todo o espaço principal. Quase como aqueles símbolos circulares em plantações de cana ou trigo. Andréa estava apontando algo atrás de mim, mas era muito tarde. Um daqueles “duendes” já havia me enlaçado pelas costas. Dei um giro sobre meu eixo e deparei com...

- MARCUS! – o choque foi mais forte que o riso.

- OI Anjo. Men... – um olhar rápido postou-se no pai de Andréa – Senhor Mendonsa, Dea, como estão? Sejam bem vindos ao Tales of Dark Forest, ou TDF. Nosso mais novo Endorama privado. Com um Eidos exclusivo para jogadores cadastrados. Uma nova forma de entretenimento na BCR.

- Salve rapaz. Curioso. Não sabia que ainda se faziam “jogos” desse tipo na BCR. – Cumprimentou o senhor Mendonsa.

- Tem certeza de que os Administradores estão cientes disso? – Andréa, era uma garota normalmente descontraída, mas seu tom naquele momento pareceu mais adulto do que de costume. Os olhos castanhos, de pestanas grandes, estavam cravados em Marcus.

Eu nem imaginava o que dizer de tudo aquilo sem dar a entender o que eu mesma fazia na BCR. Não podia ignorar as regras... Lá eu era uma pessoa diferente e tinha responsabilidades. Aqui... Na realidade, apenas era Emi, estudante e nada mais. Mesmo assim fiquei chocada em não ser avisada de uma “coisa” como aquela acontecendo bem na minha região. Mas as coisas só estavam começando.

- Calma. Sei que parece estranho, mas está tudo ok. Venham por aqui.

Ele nos conduziu para a área de entrada onde outras pessoas, chocadas, estavam sendo orientadas por uma moça de cabelos verdes e olhos da mesma cor.

- A MasKin Co. deseja a todos boas vindas. – Ela acenou para que silenciassem – Nossa empresa está empenhada em garantir sua segurança e principalmente a diversão. Todos conhecem a importância do Endorama, para a saúde e manutenção do corpo. Nossas instalações modelo são equipadas com as cabines de conexão mais avançadas do mercado, bem como uma equipe médica, altamente treinada, em caso de emergência. A proposta da MK é retornar a Eidos privativos dedicados a recreação coletiva. Com servidores fechados licenciados pela Azicon e BiotNoo. Nosso Administrador é uma AI totalmente colaborativa, conhecida como Princess.

Nesse momento a projeção central tornou-se o rosto de uma garota. Cabelos cacheados em cascatas vermelhas, olhos dourados e pele bronzeada. Sua testa ostentava um diadema multicolorido. A voz doce, digitalizada, ecoou pelo salão.

- Saudações Aventureiros. Bem vindos ao Reino Fioran. Um lugar cheio de encanto, magia e perigos. Desafiem meu labirinto e encontrem tesouros e fama além da conta. – Ela sorri marota. – Mas tomem cuidado e não se deixem levar pelas Sombras. Até lá!

O rosto desapareceu.

Marcus estava quase exultante. Sussurrou para mim. “Ela é incrível. Completamente independente. Dizem que nunca foi ligada a BCR. Claro... Tem direitos de AI, mas seu criador / pai não lhe deu emancipação...”.

Aquilo já estava começando a me irritar. Cada momento ali era uma afronta ao conceito da Bio Ciber Rede. Não se conectava a BCR por prazer, não APENAS por isso. Era uma questão de sobrevivência.

Depois que a rede havia sido criada, com partes orgânicas e a conexão era totalmente biomecânica; o mundo havia mudado. Informação circulava por toda parte, continentes e pessoas eram uma coisa só. As novas biointeligências ganharam direitos civis e até tinham representação na ONU. O maior avanço humano, também foi quase sua ruína. A civilização chegou à beira da extinção quase 200 anos atrás, com um vírus híbrido chamado de Dream. Tão letal e incurável que contaminou cada ser humano na rede e alterou seu código genético. A partir daquele momento, toda criança nascida era um portador e um transmissor, o estado letárgico outrora conhecido como “sono” tornava-se permanente e irreversível. Adormecer significava nunca mais despertar. Nossa saída fora criar os Eidos e a própria BCR. Uma rede insone onde nossas mentes seriam levadas a permanecer despertas, enquanto cabines de “repouso” manteriam nossos corpos no estado de descanso essencial a sobrevivência. Tudo era coletivo, um mundo além do mundo físico, onde cada um tinha uma função e uma vida. Os Eidos eram como nos lares, compartilhados ou solitários, mas livres. Uma coisa como TDF era aberrante.

Estava completamente imersa nesses pensamentos quando a voz chegou a mim.

- Então dirijam-se aos seus casulos e DIVIRTAM-SE!

- Vamos, eu levo vocês. – Marcus nos guiava para três “casulos” próximos. – Eu... -Alguém chamou por ele. Parecia algo sério. – O chefe da sessão me quer lá agora. Não se preocupem, a conexão é bem fácil. Basta instalar o MOD que eu passei mais cedo. Quem estiver na cadeira central vai ser o líder. São sempre grupos de três. Boa sorte. Espero ver vocês lá. – Ele chegou bem perto da minha orelha. – Aragon. Não esquece.

- Não vou esquecer. – eu respondi com um fio de voz. Sempre me sentia fora do meu ambiente quando estava na Realidade.

Marcus nos deixou.

- Você acredita nisso? Um Endorama PRIVADO! Porque eu não vi nada sobre isso no jornal. – Andréa resmungava, enquanto se sentava na cadeira central.

- Não faço idéia, Dea. De qualquer forma é sempre algo a experimentar. – Essa era a EU aqui fora. Distante e pouco reveladora. Até entusiasta. Nunca uma certinha.

- Emi está certa Andréa. Vamos ver no que vai dar. Vou demorar um pouco a encontrar vocês, tenho de conectar na BCR livre e avisar a sua mãe. – O senhor Mendonsa repousou a cabeça na posição de inserção do hypoestimulador. Em segundos já estava conectado.

- O pai tem razão. Vamos logo, minha hora de conexão está chegando. – ela fitava o relógio padrão. – Eu quero liderar. Tá?

- Ok. – Inseri meu PalIN e transferi o mod. – Vai ser mais divertido assim.

Ela se conectou. Eu estava vendo as luzes sendo alteradas para uma penumbra arroxeada e todo o salão silenciando, apenas ouvia-se o rumor do equipamento e a respiração de várias pessoas. Sentei na cadeira acolchoada. O material sintético do estofamento estava gelado, puxei o casaco para proteger meu corpo do frio. Conectei a pulseira de monitoramento no plugue direito e recostei a cabeça deixando a nuca exposta para a conexão final do hypoestimulador. O encaixe na base do córtex foi preenchido completamente. As substâncias de relaxamento estavam inundando meu cérebro. Já podia ver o colorido atrás dos olhos. Fechei-os.

...

*Conectando*

Escorreguei. Não era tão suave como a BCR, mas a escuridão – familiar – me reconfortava. Abruptamente vi-me diante do tutorial. Uma fada azulada sorridente, definitivamente bem modelada, encantadora estendia-me uma mão amiga.

*Saudações de sua Alteza Princess, soberana de Fioran. Para adentrar seus domínios é preciso ciar uma Casca de Aventureiro-a-. Precisa da ajuda deste guia?*

Em fim eu conheceria o mundo de Princess.

(Continua)