Ei, gatinho
2 Tornando-se Um Stalker
Notas iniciais
Viram o título? É exatamente o que vocês estão pensando. E só posso dizer o seguinte: não façam isso. Na vida real perseguidores nunca são pessoas normais ou com uma mentalidade saudável. Geralmente elas querem algo muito assustador, tipo os seus órgãos. Acham que estou brincando? Tudo bem, não vou perder meu tempo tentando o convencer do contrário. Mas enfim, esse não é o foco dessa história, então vamos voltar a narrativa dos acontecimentos.
Sasuke não deu a mínima para o seu admirador sem noção, porém, por algum motivo que nem ele mesmo entendeu, aqueles dois guardanapos foram guardados na gaveta de sua escrivaninha. Guardanapos estes que continuavam lá, mesmo depois de terem se passado três dias desde o assédio do tal Naruto.
Só para ambientar vocês: estamos novamente no Porto do Káli. É uma sexta-feira e já são 8 da noite. Os garçons andam para lá e para cá sem parar, — todo restaurante que se preze tem seu movimento aumentado no fim de semana, não? — a música é novamente ouvida como um fundo musical e a recepcionista recebe novos clientes. Até aí tudo normal, mas adivinhem quem acaba de passar pela porta da frente? Pois é, Uzumaki Naruto, vulgo — como Sasuke “carinhosamente” o apelidou — loiro abusado. Quer saber o que é pior? Ele fez uma reserva.
Hinata o reconheceu na hora, afinal, não é todo dia que alguém chama a atenção da jovem Hyuuga. Ela sorriu gentilmente para o mais novo “fã do Porto do Káli” e recebeu um sorriso de volta, esse mais iluminado.
— Boa noite, Sr. Uzumaki. — ela cumprimentou, educadamente.
— Boa noite… — Naruto baixou os olhos e fitou a pequena placa identificatória que decorava o blazer da moça. — Hinata. — ele voltou os olhos para a recepcionista e sorriu de novo. — Um bonito nome para uma bonita moça. — comentou, todo galante.
As bochechas da jovem ganharam um tom cor de rosa, demonstrando seu constrangimento por causa do elogio feito, principalmente pelo loiro tão bonito. Kiba, que passava ali por perto, viu a pequena interação e não gostou nada do enxerimento do cliente para com “sua garota”. Pobre Kiba, nem imagina que o alvo de Naruto é alguém menos delicado e mais mal-humorado.
— O-Obrigado, Sr. Uzumaki. — gaguejou Hinata.
— Pode me chamar de Naruto, Hinata. — o loiro riu. — Sou muito jovem para ser chamado de senhor.
Ela assentiu, ainda levemente envergonhada.
— Reserva para um, certo? — ela perguntou, já checando o computador.
— Isso. — ele resmungou, correndo os olhos pelo ambiente a procura de algo, mais especificamente de um moreno difícil, de cabelos rebeldes.
Achou-o atendendo uma mesa ocupada por um casal, onde o homem fitava descaradamente o decote da mulher a sua frente, que, alheia ao olhar indiscreto de sua companhia, procurava alguma coisa no cardápio. Sasuke praticamente revirava os olhos com a cena tosca e Naruto só pode sorrir, achando o comportamento do moreno engraçado. Pelo que o loiro pode perceber, Sasuke era extremamente profissional, sério e focado, além de não gostar de ser “incomodado” por motivos desnecessários. Pela cara do moreno, presenciar aquela atitude ridícula do cliente era no mínimo insuportável.
— Hinata. — Naruto chamou, ainda olhando para seu “objeto” de desejo. — Não precisa pedir para alguém me acompanhar, só diz ao Sasuke que eu estou esperando ele. Tudo bem? — então finalmente o loiro se voltou para a jovem Hyuuga.
Ela achou estranho, mas assentiu, vendo-o dirigir-se para uma mesa vazia qualquer. Assim que o casal liberou Sasuke, Hinata saiu rapidinho de seu posto e passou o recado para o rapaz, apontando para a mesa que o Uzumaki havia se acomodado. O moreno respirou fundo e se virou para o local indicado. Sim, é claro que Naruto estava observando tudo e acenou para o garçom quando este o fitou. E é óbvio que Sasuke ficou com uma carranca de chateação no rosto. O loiro só riu, achando tudo muito divertido.
Sasuke praticamente se arrastou até Naruto, desejando que isso fosse só um pesadelo, mas ele sabia que não era, pois, mesmo à distância, já via um pedaço de papel descansando sobre a mesa e ele sabia o que era aquilo. “De novo não…”. Ignorou o guardanapo que o loiro empurrava para ele e o fitou.
— Cara, sério, você não tem nada melhor para fazer? — perguntou, fazendo um esforço descomunal para não ser rude — como ele queria ser — afinal, aquele era seu ambiente de trabalho.
— Você é interessante. — Naruto admitiu, dando de ombros. — A propósito, por que não me ligou, gatinho? — mordeu o interior das bochechas, tentando impedir o sorriso que queria despontar.
— Porque eu não quis! — Sasuke respondeu, de forma malcriada, praticamente arrancando o guardanapo dos dedos do outro rapaz. Entregou-lhe o cardápio e deu-lhe as costas, irritadíssimo.
“Adorável…”. Naruto pensou, rindo baixinho, vendo-o se afastar. Ele sabia que por mais que Sasuke não gostasse de seu flerte, não deixaria de ler o novo recado, afinal, gatinhos são curiosos. E bem, não vou mentir para vocês, pois o moreno estava curioso mesmo. Quem não estaria? Está vendo? Eu acertei.
Assim que Sasuke se viu na segurança da cozinha, entregou seus pedidos e pôs-se a ler o que tinha escrito no papel dessa vez.
“Ei, gatinho
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?”¹
“O QUE?! Mas que ousadia é essa? Esse cara é louco por acaso?! Deuses, por que diabos isso está acontecendo logo comigo?”. Está vendo o que falei sobre stalkers? É a segunda vez que nossos protagonistas se vêem e Naruto já age como se Sasuke desse a mínima para a existência dele. Ledo engano, meu caro padawan. Sasuke é um belo exemplo de misantropia. Ele vive em sociedade por livre e espontânea pressão. Vocês vão entender quando conhecerem o irmão mais velho dele: Uchiha Itachi.
Enfim, voltando. O jovem garçom enfiou o pedaço de papel de qualquer jeito no bolso de sua calça e marchou de volta até o loiro abusado.
— Já escolheu o pedido? — perguntou, visivelmente irritado, louco para arrancar o pescoço de Naruto fora. — Uma dose de simancol talvez? — resmungou, com um sorrisinho cretino nos lábios.
Naruto gargalhou, chamando a atenção dos clientes mais próximos.
— É por isso que gosto de você, Sasuke. — apoiou o rosto na mão, fitando atentamente o rapaz a sua frente. — Você tem personalidade.
— Certo, mas já escolheu? — resolveu continuar ignorando o flerte, quem sabe ele não colocasse veneno no prato alheio para se livrar do encosto, não? Era uma boa pedida.
— Tudo bem, gatinho. — Naruto suspirou, resolvendo deixar o moreno quieto por enquanto. — Risoto e um suco de laranja sem açúcar. — e devolveu o cardápio ao garçom.
Sasuke assentiu e foi cuidar do seu serviço.
Naruto estava estragando os seus planos. Aquele emprego não passava de um método de pesquisa. O moreno era formado em Jornalismo, porém no momento não tinha muita vontade de seguir carreira. Por que? Simples: Sasuke era um aspirante a escritor e foi justamente por isso que resolveu fazer algumas pesquisas por aí. Ele queria ver as várias formas de interações entre as pessoas em primeira mão, para ter material o suficiente para suas obras. Já havia trabalhado em banco, estagiado na redação do jornal da cidade, feito algumas aulas de dança, praticado boxe em uma academia e atualmente, fora o emprego no restaurante, era voluntário em uma atividade de exercícios com idosos realizada pelo seu irmão mais velho — que é um fisioterapeuta bastante conhecido — no parque ecológico do bairro que mora.
Entretanto, o aborrecimento com relação a paquera tosca de Naruto estava desviando-o de seu foco principal: a coleta de dados. E isso Sasuke não poderia permitir! Entretanto, quando menos esperava, seus pensamentos já se enveredaram por outros caminhos. “Se bem que… Isso não deixa de ser uma situação proveitosa, não? Imagina um enredo de perseguição… Acho que posso aguentar mais alguns dias de paquera descabida, não?”
Talvez esse tenha sido o erro de Sasuke, mas eu gosto de pensar que não. Acho que no fim, eles iam se encontrar de qualquer forma e desse jeito que as coisas aconteceram foi bem mais divertido, pois Naruto é ousado, — leia-se descarado — determinado e disposto. Tudo o que ele queria era conhecer o “gatinho” mais à fundo, descobrir tudo acerca dele.
Enfim, Sasuke resolveu dar uma "chance" para o loiro abusado — mas não se enganem, não falo que o jovem garçom vá corresponder as investidas de Naruto, de forma nenhuma, ele só vai acrescentar mais essa situação para as suas pesquisas — e por isso iria ver aonde aquilo ia dar.
— E então, você sempre canta seus garçons quando janta fora? — Sasuke perguntou ao loiro, assim que se aproximou, enquanto o servia.
Naruto arqueou as sobrancelhas, surpreso por o outro ter finalmente puxado conversa consigo.
— Na verdade essa é a primeira vez que faço isso. — respondeu, com um sorriso que Sasuke, mesmo não querendo admitir, nomearia como charmoso.
— Acho que você diz isso para todos. — o moreno afirmou, rindo contidamente, apenas para efeito de socialização.
— É isso que pensa de mim, gatinho? — Naruto perguntou, fingindo-se de ofendido, num tom risonho.
— Hum… Talvez depois eu te diga o que penso de você.
Sasuke deu de ombros e foi-se, servir outras mesas, deixando um Naruto curioso para trás. Naquele momento, o loiro teve certeza que tinha uma pequena chance de se aproximar do outro. E se tem uma coisa que Uzumaki Naruto não faz, é desistir do que ele almeja. Isso ele deixaria bem claro para Sasuke.
E novamente, como no dia anterior, ele findou a noite com um último recado para o moreno, mas dessa vez Naruto fez questão de entregar diretamente em suas mãos.
“Ei, gatinho
Não, eu não desistirei
Não quero ser alguém que vai embora facilmente
Estou aqui para ficar e fazer a diferença que posso fazer...”²
Sasuke arqueou uma sobrancelha e fitou o cliente à sua frente. “Ele é corajoso, isso até eu tenho que admitir.”.
— Você nem sabe se eu sou solteiro, muito menos se sou gay. — falou, interessadíssimo em saber o que o outro responderia.
Naruto levantou-se da cadeira, pôs-se ao lado do garçom, colocou uma mão no ombro alheio e o apertou gentilmente.
— Estou contando com a sorte, gatinho. — e sorriu.
Um sorriso que nem Sasuke conseguiu evitar o deslumbrar que sentiu naquele momento. O moreno piscou os olhos e viu o loiro ir embora, com uma tranquilidade invejável.
Fale com o autor