Ei, gatinho
5 Amigo… Por que Deu Essa Ousadia?
Notas iniciais
Hoje, nossa história se passa em um cenário diferente, um cenário nem um pouco usual para nosso protagonista razinza: um casamento. Sim, isso mesmo. Um casamento. Para ser mais específico, quem está se casando é Izumi, a prima de Sasuke e Itachi. Sendo bem sincero, o moreno mais novo só agraciou a noiva com sua ilustre presença por um único e simples motivo: Mikoto se encarregou de toda a organização da celebração matrimonial, incluindo decoração, buffet, orquestra e toda aquela parafernália que tem nos casamentos, e Sasuke jamais perderia a oportunidade de parabenizar sua mãe por seu magnífico trabalho.
Não sei se vocês já perceberam, mas não sou uma pessoa muito paciente, principalmente quando se trata de descrever um ambiente onde o branco reina. Eu gosto de preto. E de azul também. Gosto muito de azul. Mas enfim, vou só descrever o básico para vocês se situarem.
Para começar, o casamento teve início no fim da tarde, pois a noiva queria aproveitar o pôr do sol para algumas fotos do álbum. A cerimônia — que é chata para caralho, se me permitem assim dizer — aconteceu ao ar livre, e isso até eu tenho que admitir, foi uma boa sacada, porque o clima estava ameno. O altar foi “montado” abaixo de uma tenda de seda, toda ornamentada com arranjos de flores e fios dourados trançados. As cadeiras dos convidados eram transparentes, de um acrílico reforçado, mas com aspecto de vidro. Para finalizar, porque já não tenho mais saco para essa ladainha, tapete vermelho até o altar e arranjo de flor em tudo que era lugar dando bandeira. Agora tentem imaginar aí.
Vamos acelerar as coisas: convidados esperam a cerimônia começar, fingindo interesse, quando na verdade já estão pensando se vai ter cascata de chocolate ou não; noivo entra com cara de estoicidade, porém por dentro só falta vomitar o esófago; noiva atrasa 5 horas, mas chega; juiz/padre/pastor/o que quer que seja, fala por milênios até o momento que pergunta se alguém sabe de algum motivo que impeça o casamento e todo mundo torce que algum galã de cinema venha se declarar para a noiva, porque só assim para que aquele ritual longuíssimo fique mais emocionante, noivos trocam alianças e votos e finalmente se beijam, dando por terminado todo aquele circo.
Então, finalmente voltando ao que importa, já na recepção do casamento, Sasuke estava sentado em uma mesa junto com seus pais e irmão, mais observando eles interagirem do que falando. O que se pode fazer? O Uchiha mais novo é meio anti social. Bem, pelo menos ele estava mais tranquilo, agora que a tortura de assistir a cerimônia havia acabado e se ele não fosse tão rabugento, admitiria que estava adorando o momento família.
Conversaram, comeram e até riram quando Itachi puxou Mikoto para uma dança. Sasuke estava quase aceitando que aquele era um dia que ele guardaria com carinho na memória, até que um dos garçons surgiu absolutamente do nada e entregou um guardanapo dobrado para ele, afirmando que o convidado que havia enviado o papel disse que Sasuke saberia de quem se tratava. E o moreno sabia muito bem, por isso sentiu um frio na espinha quando desdobrou o guardanapo e passou ligeiramente os olhos pelas linhas escritas, sabendo que todos os olhares da mesa estavam voltados para si.
“Ei, gatinho
Eu quero te esconder sob o luar, assim só eu posso vê-lo
Eu quero fazer isso para que ninguém mais possa vê-lo
Vou reunir todas as lembranças de você e gravá-la à luz do luar…”¹
— Você não vai acreditar em quem está vindo para cá, otouto. — Itachi disse, quase de forma neutra, pois seu sorriso zombeteiro o entregava.
Sasuke sentiu as mãos, que guardavam rapidamente o papel no bolso de sua camisa, tremerem. “Deus, só dessa vez… Agora não!”. Ele sabia que não estava sendo nenhum pouco discreto, mas nada poderia amenizar o pânico que ele sentia em ser o alvo das atenções de seus familiares enquanto Naruto “batia um papo” com ele, na frente de seus pais e irmão — que não parava de sorrir sagazmente para o moreno mais novo.
— Ei, Sasuke! — Naruto disse, assim que se pôs ao lado do moreno, com um sorriso bonito o suficiente para fazer o Uchiha mais novo se esquecer momentaneamente da ansiedade que sentia. — Imaginei que te veria aqui quando vi o sobrenome da noiva no convite.
— Naruto-kun! — Itachi cumprimentou-o com um aceno de cabeça, levantando-se em seguida. — Não quer sentar aqui? Eu vou me ausentar por alguns instantes. Preciso falar com um primo. — Sasuke enviou o olhar mais mortal que já se viu para o irmão.
— Obrigado. — o loiro agradeceu e sentou-se no lugar oferecido.
Itachi fez um gesto de descaso com a mão e foi-se após uma breve despedida. Dois minutos depois ele já estava rindo ao lado de Shisui, o primo anteriormente mencionado, que para quem não sabe, é o eterno rolo do Uchiha de longas madeixas.
De volta a mesa de Sasuke…
— Que falta de educação a minha! Eu sou Uzumaki Naruto, amigo de Sasuke. — o psicólogo se apresentou, inclinando-se sobre a mesa para apertar as mãos dos pais do moreno, que o fitou Naruto com clara indignação. “Amigo?!”.
Indignação essa que foi mal interpretada por Mikoto. A matriarca olhou-os alternadamente e riu de forma discreta.
— Sasuke, meu amor, você não nos disse que estava namorando. — comentou, encarando o “namorado” de seu filho com grande interesse. — Ele é lindo, querido!
O jovem Uchiha arregalou os olhos e fitou Naruto, horrorizado, que nesse momento estava rindo. Fugaku apenas arqueou uma sobrancelha, se perguntando o que tinha perdido naquela conversa.
— Não! — Sasuke exclamou apressadamente, quase num tom alto. — Ele não é meu namorado!
— Porque você não quer. — Naruto comentou, sorrindo charmosamente para o “gatinho”.
Mikoto riu e escondeu o rosto no ombro do marido.
— Fugaku, ele é encantador! — disse, ainda rindo.
O patriarca apenas beijou os cabelos de sua esposa, achando a situação de certa forma divertida, afinal, não era todo dia que ele via seu filho caçula tão caricato como naquele momento.
— Eu soube que foi a senhora que organizou tudo. — o Uzumaki comentou, todo simpático. — Seu trabalho é magnífico, ficou tudo muito lindo.
A mulher sorriu, ajeitando a postura e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Obrigada, você é muito gentil.
— Eu só falo a verdade. — Naruto respondeu de volta, num tom falsamente sério, para logo em seguida rir baixinho.
— E então, meu jovem, em que você trabalha? — Fugaku perguntou de repente, como se realmente estivesse interrogando seu futuro genro e Sasuke não viu outra alternativa a não ser choramingar, antes de virar de vez a taça de champagne que tomava.
— Eu sou psicólogo. — o loiro respondeu, num tom mais sério. — Atualmente só estou atendendo pela clínica.
— E você tem interesse pela área jurídica? — o patriarca Uchiha parecia realmente engajado na conversa.
— Talvez curiosidade, acompanhei pelos jornais o caso do “assassino da névoa” e achei que o trabalho feito com ele foi esplêndido. — nessa hora Naruto já parecia de fato um profissional falando. — A psicóloga que o diagnosticou é muito conhecida no nosso conselho.
Vou poupar vocês do papo de “negócios”, porque ô conversinha chata! Também não vou contar a história desse tal assassino, google está aí para isso. O que vocês precisam saber é que Fugaku e Naruto debateram por longos minutos sobre o caso mencionado, Mikoto as vezes dava um palpite ou outro, pois sua atenção sempre se voltava para o andar da recepção, para saber se a equipe contratada estava fazendo seu trabalho direito. Sasuke? Só olhava a cena, se perguntando até quando sua paciência ia durar. “O que diabos esse loiro abusado quer?”.
E bem, como esperado, em dado momento o moreno “explodiu”.
— Meu Deus, você está tentando conquistar meus pais! — resmungou, irritado.
— Na verdade, meu amor, ele conseguiu. — Mikoto disse, docemente.
— Mãe! — Sasuke murmurou.
Naruto riu e se levantou.
— De qualquer forma tenho que voltar, deixei minha amiga sozinha. — disse, num tom apologético. — Foi um prazer conhecê-los, Sr. e Sra. Uchiha. — ele apertou novamente a mão de Fugaku e beijou a de Mikoto, todo galante, arrancando da mulher uma risada melodiosa.
Acham que acabou assim? Não. Nosso protagonista rabugento não tem essa sorte. Assim que Naruto passou por Sasuke, o loiro inclinou-se sobre o outro e sussurrou no seu ouvido, num tom rouco:
“Eu não quero tomar meu tempo,
Eu não quero esperar na linha,
Eu só quero você do meu lado
Venha e me dê o que eu gosto…”²
Sasuke arregalou os olhos e sentiu o rosto esquentar furiosamente, ao mesmo tempo que seu coração fazia cosplay de bateria de escola de samba. Cá entre nós, não é que o jovem Uchiha seja uma donzela e fique envergonhado com qualquer coisa, mas tentem entendê-lo, os pais dele estavam bem ali do lado! Sem falar em Itachi, que provavelmente não havia tirado seus olhos de águia do irmão nem por um segundo sequer.
Naruto, num surto de ousadia, ainda beijou rapidamente a bochecha alheia e piscou um olho para o moreno antes de finalmente ir embora, deixando um Sasuke desnorteado para trás. Já Itachi, sabendo que o irmão precisaria de um tempo, voltou imediatamente para a mesa, dessa vez com Shisui na cola, justamente com o intuito de distrair os pais do provável interrogatório que seria feito a Sasuke. Plano esse que deu muito certo, devo ressaltar, porque ninguém mais naquela mesa era tão sociável e comunicativo quanto Shisui.
Vamos rapidamente acompanhar Naruto. Por que? Imagino que estejam curiosos para saber o que aconteceu com Sakura. Agora vocês devem estar se perguntando porque lembrei dela neste exato momento e eu vou respondê-los: a amiga que estava acompanhando o Uzumaki era a dita cuja. Eles são amigos de Sai, o noivo. Naruto havia deixado a moça sozinha enquanto ia falar com Sasuke, mas quando voltou para sua própria mesa, ela estava acompanhada de um rapaz de grossas sobrancelhas e sorriso radiante. Eles conversavam animadamente e Naruto gostou do que viu, afinal, ainda sentia que um clima estranho rondava Sakura e ele.
Querem saber porque, não é, seu bando de fofoqueiros?! Vou tentar ser breve na explicação, até porque não tenho saco para essas coisas, como eu já disse anteriormente. Após o “bolo” que Naruto levou da moça — e obviamente também por causa de seu novo “objetivo” — ele soube que não poderia deixar aquele mal-entendido prevalecer, pois ele já não gostava de Sakura há muitos anos. Com isso decidido, o loiro se ofereceu para levar a amiga para a rodoviária no dia seguinte à entrevista de emprego que ela havia sido submetida, com o intuito de conversar sobre aquela declaração repentina.
Assim que se viram esperando o ônibus da moça, Naruto foi logo perguntando o que havia acontecido e depois de muita enrolação da parte de Sakura, ela admitiu que tinha acabado de levar um fora desse cara incrível que ela estava saindo e por isso sua auto-estima estava um caco, então pensou que se alguém que gostasse dela de verdade a quisesse, tudo ia voltar a ser como antes. Que pensamento mais idiota, não? Desculpa se penso assim, mas é que nunca levei um fora. E não adianta fazer essa cara de surpresa, porque normalmente eu que dou os foras. Sim, eu sou egocêntrico. Lidem com isso.
Pois bem, depois da revelação, Naruto conversou com Sakura, aquele papinho consolador de sempre — e nesse ponto eu estou quase vomitando — o que não ajudou em muita coisa, porque ela se sentiu mais rejeitada e passou um bom tempo sem falar com o loiro. Somente algumas semanas atrás que eles reataram a amizade e fizeram as pazes. O que deixou Naruto muito satisfeito, afinal, ele não fez nada de errado, concordam?
Voltando ao presente, o Uzumaki fez companhia a dupla por uma boa meia hora, tempo esse que descobriu que o rapaz se chamava Rock Lee e que era um médico recém formado se especializando em pediatria, além de ter percebido o claro interesse dele em sua amiga. Interesse esse que Sakura só não havia deixado passar batido porque Naruto confidenciou a informação antes de pegar sua taça de champagne e finalmente deixá-los a sós de novo.
Sentindo-se um pouco entediado, o loiro encostou-se numa pilastra e ficou observando os casais que rodopiavam no salão ao som de alguma música lenta qualquer, enquanto bebericava o champagne vez ou outra.
— Minha mãe não para de falar de você. — ele ouviu aquela voz dizer, assim que Sasuke aproximou-se do loiro.
— Espero que só coisas boas. — respondeu, sorridente, olhando para a sua nova companhia.
Sasuke apenas revirou os olhos antes de rir discretamente.
— Você sabe mesmo impressionar uma mulher, não? — o moreno soou quase simpático.
— Quem eu quero eu não consigo impressionar… — Naruto resmungou, num tom claro de indireta.
O moreno curvou os lábios num pequeno sorriso prepotente.
— O que? Desistiu? — perguntou, aparentando indiferença, mas por dentro ele sentiu seu coração falhar uma batida só em pensar nessa hipótese.
— Eu, desistir? — Naruto riu. — Você não me conhece. — e fitou intensamente Sasuke. — Eu nunca desisto do que quero.
— Hn… — o Uchiha resmungou, com medo de falar e deixar alguma emoção passar, já que seu estômago borbulhava enlouquecidamente.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas observando as pessoas ao redor, até que Naruto soltou a pérola:
— Então você é gay…
— Sério isso? — Sasuke olhou-o com uma sobrancelha arqueada.
— Você não sabe mesmo desenvolver um diálogo, não é? — o loiro riu. — Eu faço um comentário e você continua a história. Entendeu?
— Eu sei como conversas funcionam. — novamente o moreno revirou os olhos. — Só estou perguntando porque de todos os assuntos possíveis você escolheu logo esse.
Naruto acenou com a cabeça para o casal de noivos.
— Sai me disse que a família Uchiha era muito tradicional. — começou, após um breve gole de sua taça. — Fiquei impressionado com a forma que seus pais lidam com sua sexualidade.
Sasuke suspirou, antes de assentir.
— Mamãe sempre me apoiou em tudo que podia, já papai… Bem, logo que eu disse, ele passou alguns dias sem falar comigo e quando o fez, me explicou que temia por mim. Eu era apenas o seu garotinho e ele queria que eu não tivesse que sofrer por causa de uma sociedade incompreensiva, mas que na nossa família, eu jamais seria julgado por ser quem eu era, por quem eu sou. — e daí o moreno dedicou um olhar agradecido e carinhoso para o pai, que assim que o olhou de volta, do seu lugar afastado, sorriu minimamente, como se entendesse o porque do filho o olhar daquela maneira afetuosa. — E você? Seus pais sabem?
— Não dá para esconder nada de Dona Kushina. — Naruto riu. — Muito menos de Seu Minato. Eles nunca me repreenderam por isso, inclusive tenho uma suspeita que mamãe prefere assim, sabe? — fitou Sasuke com uma expressão risonha. — Ela vivia dizendo que ia envelhecer mais rápido se eu aparecesse com alguma garota grávida em casa.
O loiro riu novamente e quando percebeu, Sasuke o acompanhava, num riso discreto, mas muito fascinante. E isso chamou a atenção de Naruto para o moreno de forma intensa, não era sempre que ele via o Uchiha rir e nesses poucos instantes que pode presenciar essa simples ação, descobriu que amava o riso de Sasuke. Ele queria ouvir mais vezes. Muitas vezes. Todas elas. Todas para si.
— Está vendo, gatinho, você ainda tem jeito. — Naruto não pode se refrear e acabou chamando o moreno pelo seu apelido. — Se treinar mais, pode até se passar por um humano. — voltou a rir.
— Você é um idiota! — Sasuke revirou os olhos, se perguntando porque dessa vez não se incomodou com a forma que o loiro o chamava. Na verdade isso fez seu coração voltar a acelerar. — Um grande idiota!
— Arisco… — Naruto sorriu de lado e piscou um olho para o moreno.
Sasuke grunhiu, irritado. Retirou um guardanapo do bolso da calça e empurrou-o no peito de Naruto, com o punho fechado.
— Você esqueceu isso, Usuratonkachi. — o psicólogo pegou o papel que lhe era estendido e o Uchiha foi embora, praticamente soltando fumaça pelo nariz.
O Uzumaki desdobrou o guardanapo e o fitou longamente, boquiaberto. Ali, em suas mãos, tinha um número de celular, o que já era chocante o bastante, mas o que realmente estava fazendo Naruto sorrir bobamente era um número em específico: um nove. Por que? Ele foi desenhado. Sim, isso mesmo. Desenhado. Com orelhinhas, bigodinhos e um rabo que claramente fazia referência a um gato.
Não vou mentir para vocês, eu preciso admitir, porque isso está me consumindo! Estou escrevendo isso com o rosto fervendo, porque até eu estou sentindo a vergonha alheia. Essa, com toda certeza, foi a coisa mais estúpida que Sasuke já fez na vida. Parabéns para ele.
Naruto? Achou aquilo a coisa mais adorável do mundo e por isso, depois de armazenar o contato em seu próprio celular, guardou o papel dentro do bolso esquerdo de sua camisa, sobre o coração, sorrindo como se acabasse de ter ganhado na loteria. Se bem que não foi muito longe disso…
Na manhã seguinte, logo ao acordar, Sasuke viu que havia uma mensagem não lida no seu celular. Abria-a.
“Ei, gatinho
Eu sonhei que você sonhou comigo
Chamando meu nome
Eu era um rei sob seu controle…”³
Seu peito inflou e ele suspirou, sorrindo despreocupadamente. Aquele seria um bom dia.
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