Efêmero
1 Calçada
Notas iniciais
Eu poderia simplesmente dizer que amo ela e me poupar disso, MAS NÃO. No próximo, vou chegar à tua casa com aqueles carros de som ridículos eQQQQQNNN
Aos demais leitores, aproveitem!
Tinha sido um ensaio exaustivo. A garganta dele parecia seca; e, em seu rosto, estava uma expressão enfezada. Aqueles breves – ou nem tanto – momentos com seus companheiros de banda estavam se tornando cada vez mais enfadonhos. Não havia mais a alegria de antes, as relações de antes, as brincadeiras de antes – estava tudo mudado, e ele não sabia bem se isso era o curso normal das coisas ou se foi algo pelo caminho que atingira tão em cheio neles que já não conseguiam se recuperar.
As letras que ele e o guitarrista compunham tinham agora um tom melancólico. Quiçá até fúnebre. Uns diziam que era uma nova fase, mas ele sabia que era apenas o fim. Primeiramente não aceitara, mas a vida consola aqueles que perdem algo amado. Era sim, amado e ainda é – mesmo que, em sua forma de tragédia anunciada, ele tentasse se enganar. A dor latejaria de qualquer modo, e ele apenas se precavia.
Lembrou-se de quando sua mãe lhe dissera que não poderia viver de música. Ele conseguira, apenas não por tanto tempo... Quatro ótimos anos e uns poucos meses. Não sabia bem quem acabou como o certo, só sabia que se sentia derrotado, não por sua mãe, mas por si mesmo. Foi como dedicar sua vida inteira a um grande projeto e, após colocá-lo em prática, ver que a teoria não estava tão correta. Quase que literalmente.
Suspirou. Estava cansado. Sua garganta doía, e ele só queria ir para casa. Imaginou-se andando as três quadras até a sua casa e, apenas nisso, encostou o corpo no portão do prédio onde aconteciam os ensaios. Estava cansado.
Conseguiu coragem e saiu. A calçada estava cheia como sempre. Misturou-se com a multidão e seguiu, esbarrando, forçando passagem até que percebeu estar suando bastante. Aquelas pessoas pareciam se fechar sobre ele e lhe faltava o ar. Como se tivesse poucos problemas.
Apenas soltou seu peso em uma parede de concreto e esperou a respiração regular. Ficou parado um pouco mais de tempo que o previsto e apenas observou os transeuntes. Eram estupidamente diferentes e inusitadamente interessantes.
Havia uma moça jovem que levava um bebê nos braços, e este brincava com uma das pontas do moicano amarelo de uma garota que passava ao lado. Pouco depois, um casal de aparência realmente semelhante passou e atrás deles havia um homenzarrão de braços tatuados e vestindo uma regata branca. Uma moça de camisa social e saia-lápis andava apressada carregando uma pasta de aparência pesada. Dois adolescentes riam e tentavam passar pelo amontoado de gente. Um deles pisou em um chiclete velho e fez uma careta engraçada.
E, então, apareceu um homem e ele era... Incrível. A pele morena reluzia a luz do maldito sol; os olhos simétricos e escuros eram levemente fechados, talvez por causa do sol ou apenas por ser assim; cabelo curto e negro; nariz anguloso; boca tão bem desenhada que era impossível não imaginar indecências; e, por fim, a barba por fazer lhe dava um toque viril. Porém, tinha algo mais, algo indescritível, não apenas na aparência belíssima daquele ser, mas talvez em sua essência, em sua aura, existência ou qualquer palavra do tipo que se poderia pensar. Era algo intocável, mas estava ali e era sentido.
O homem sorriu, e aquele gesto foi admirado. Foi quente, inesperado e belo. Parecia que a multidão desaparecia e até o tempo parava para vê-lo caminhar.
Foi tudo ridiculamente estranho e breve, apenas para deixar um gosto seco na boca de quero mais.
O músico, esquecendo e esquecido de seus problemas, chutou umas das latas amassadas de refrigerante perto de si e continuou a caminhada. Às vezes, um sorriso valia um dia. Desejou apenas tê-lo novamente para valer para sempre.
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