Efêmera
1 O Começo
Notas iniciais
Antes que comece a ler, peço que preste atenção: esta não é uma história de amor. Envolve paixões intensas e conflitos tão intensos quanto. Descreverei as situações do meu ponto de vista tolo e apaixonado, que nem sempre retrata a verdade por detrás dos acontecimentos.
1999: — Eu a observava por entre as prateleiras abarrotadas de discos antigos, seu corpo magro andava para lá e para cá, procurando algo ou alguém. — Posso ajudar? — Uma voz simpática fez com que ela desviasse seus olhos muito verdes da capa de Please, Please Me, dos eternos Beatles — excelente escolha — que tinha em mãos para o dono da voz: alguém não muito mais velho que eu, de alto porte e cabelos loiros ondulados, claramente também interessado na jovem. Gentilmente recusando a ajuda oferecida, ela dirigiu-se ao caixa, deixando o atendente para trás, decepcionado. O sino da porta tilintou quando ela saiu, e algo guiou-me também até a saída. Os cabelos longos voavam com o vento frio que soprava na tarde de inverno, e, novamente, um pensamento que não era meu dominou-me: ouvi minha voz convidá-la para um café do outro lado da rua, e para minha surpresa, a resposta foi sim. Cheguei em casa suspirando. Meus conceitos sobre amor à primeira vista agora eram outros, apesar de tudo parecer um filme clichê bem água com açúcar. Ela casualmente comentara sobre o novo filme do Woody Allen que havia estreado, e eu não perdi a oportunidade: assistiríamos na tarde seguinte.
- Oi! — Ela disse, tímida, quando me viu chegar correndo ao cinema de rua, pois eu havia perdido a hora, como sempre. Ela estava incrível. Usava botas marrons por cima da calça jeans, e o sobretudo cobria parte da blusa de mangas compridas verde escura que contrastava com seus olhos muito claros. Beijei suas bochechas rosadas e entramos. Ela passou o filme com a cabeça no meu ombro, suas mãos nas minhas. Eu não mais podia aguentar, virei meu rosto e a beijei, meu coração batia tão forte pelo medo de recusa que eu temia que ela pudesse ouvi-lo. Saí do cinema com a certeza de que estava amando, plenamente feliz. As semanas seguintes correram tranquilas, éramos um casal descompromissado, irresponsável e apaixonado. Não passávamos muito tempo distantes, nos aproximamos muito rapidamente. Ela era apaixonante, e eu, apaixonada.
O sofá era pequeno demais, mas nós não nos importávamos. Eu amava os Beatles, ela amava os Beatles: Across the Universe era o filme perfeito. Estávamos no meu minúsculo apartamento, abarrotado de livros e fumaça de cigarro. A geladeira, vazia como sempre. Talvez houvesse uma garrafa de bebida de muitas semanas atrás, ou até um ou dois potes de sorvete Hagen Daaz sabor nozes — meu favorito — pela metade. Anna ficava muito aqui ultimamente: como eu morava sozinha, passarmos o tempo aqui era mais convidativo do que na casa de seus pais. Com o término do filme, levantei-me com um salto e puxei sua mão.
— Vamos, venha comigo. Quero que você conheça alguém! — Sorrindo, Anna veio logo atrás de mim, até meu lugar favorito na cidade. Era uma biblioteca antiquíssima, onde meu melhor amigo trabalhava. Demetrio saiu de trás da sessão de literatura criminal, onde eu sabia que estaria.
— Dê, vem cá! Esta é Anna. Passamos a tarde toda mergulhados em livros, café e conversa. –
Saíamos juntas havia quase quatro meses, e entre nós havia algo que realmente me incomodava.
- Anna... — Eu não podia prever sua reação, mas eu sabia que jogaria uma bomba em seu colo. Consequentemente, entre nós duas. — Eu queria ir na sua casa, conhecer seus pais, suas irmãs... Eu temia pelo que ela diria. A ruiva estirada no meu sofá, com as bochechas rosadas e o cabelo despenteado apenas desconversou, como se não quisesse falar no assunto. Eu vinha insistindo há dias, mas ela parecia fugir a cada vez que eu falava sobre isso.
2012: Ela entrara suavemente, continuava com o mesmo rosto de menina que possuía há onze anos, quando ainda éramos apenas jovens. Eu sabia que Anna adorava a Escócia — eu a trouxe aqui pela primeira vez — mas não imaginaria encontrá-la aqui depois de tanto tempo. O que ela faria aqui? Sua família era irlandesa, e seus pais moravam na Inglaterra há muito tempo. Vê-la sentada a pouco mais de um metro de mim, bebericando uma xícara de chá, me levou novamente aos meus 18/19 anos, quando nos apaixonamos.
1999: — | Saí do Dumas exausta: eu não havia dormido praticamente nada na noite anterior, e servir mesas o dia todo não é exatamente minha ideia de descanso. Mesmo assim, quando o relógio anunciou minha hora de saída, fui surpreender Anna na saída da escola.
- Nossa, chega! Você não sabe o quanto eu agradeço por este ser o último ano... — Disse, após me receber com um sorriso.
- Hoje eu vou te sequestrar, o lugar para onde vamos é uma surpresa! Guiei-a até o fusca verde que precisava de manutenção e dirigi até a estação de King's Cross, onde pegamos um trem.
— Escócia!? Como assim?! Meus pais vão me matar! — Pedi que ela relaxasse, e completei com uma promessa de que ela iria adorar o lugar aonde iríamos. Ao sair do trem, fiz sinal para um táxi que nos levou até mu lugar favorito no mundo todo. Ao chegarmos na enorme casa rosa, levei-a direto para os fundos, minha parte favorita. Na parte de trás da casa havia um imenso lago gelado, que implorava por um mergulho.
- Lembra da minha tia avó escocesa, que faleceu pouco depois do meu pai? Eu sou a única herdeira... — Eu expliquei como ganhara o terreno, ao ver sua expressão de interrogação. Desamarrei meus tênis e pulei no lago, vestida apenas com minha roupa íntima. Logo, Anna também despiu-se e mergulhou com estardalhaço. Mexeu os braços rapidamente, nadando com pressa em alcançar-me.
— Te peguei! — Disse, ao me segurar pela cintura me fazendo arrepiar. A ruiva mordeu o lábio sensualmente, convidando-me para um beijo. Seus lábios macios mexiam-se vorazmente, como se ela quisesse conhecer cada pedacinho da minha boca. Sua língua movia-se rápido, enquanto suas mãos tiravam meu sutiã. Entendi a mensagem e prontamente a despi por completo. Meus dedos trêmulos passeavam por sua cintura e seios. Pouco depois, sua boca fazia o mesmo trajeto através do meu corpo. As duas totalmente despidas na água fria, amando-se feroz e ao mesmo tempo suavemente. A baixinha me fazia sentir como eu nunca havia me sentido, um misto de excitação e tranquilidade, um amor profundo e paixão intensa. Trovoadas interromperam nosso momento, anunciando a tempestade que desabou sobre nossas cabeças pouco depois. Pegamos nossas roupas e corremos para dentro, pensando em como faríamos para voltar para Londres.
Fale com o autor