Efêmera

3 Desentendimentos


Notas iniciais
Esse capítulo ficou bem curtinho, mas espero que gostem

– Para. Para com isso. Você tem essa mania, você sempre foge das respostas quando as coisas ficam difíceis. Volta, vamos conversar. Me diz alguma coisa, qualquer coisa.
– Tchau, Rachel. — Disse, desvencilhando-se das minhas mãos. E mais uma vez, ela se foi. Mais uma vez, eu observei seus cabelos ruivos serem tragados pelo vento escocês, seus pés caminharem para longe de mim. Porém, dessa vez, algo foi diferente, felizmente. Eu provavelmente não escreveria essas palavras se, naquele momento, minha reação tivesse sido diferente.
– Anna! — Exclamei. — Eu não ficarei sentada, assistindo você ir embora. — Peguei seus pulsos e, como tantas outras vezes, segurei suas mãos perto do rosto. Parecia que ela finalmente se deixaria levar pelo passado.
– Rach... — Meu coração estremeceu ao ouvir seus lábios convidarem-me à minha própria casa, que guardava tanto do passado.

Eu mal entrei na enorme casa rosa e acendi um cigarro, provavelmente o primeiros de muitos hoje. Eu não conseguira largar o vício, é verdade. É duro admitir que tabaco não é a única droga da qual eu dependo. Sentei-me na janela e dei mais um trago no cigarro, com a certeza de que minha tentativa de parecer tranquila não está assim tão convincente.
– Fumando de novo? Achei que tinha conseguido parar com isso.
– Não, não consegui. Você não tem ideia do que tem sido para mim, Anna... — Espere, porque estou me abrindo para ela, de qualquer maneira? Ela não liga mais, aquele amor, e aquelas palavras podem até ter sido verdade um dia, porém não mais. Meus problemas não a afetam.
1999:
– Odeio quando você faz isso. Quando fuma, eu quero dizer. — Anna abanou a fumaça do cigarro com as mãos. Eu sabia que ela se incomodava, mas eu não conseguiria parar se tentasse. Já o fiz duas vezes no passado, e a necessidade da droga falava mais alto, sempre.
– Você devia procurar ajuda. O que acha? Sua vontade se tornou um vício há algum tempo. Não negue, você sabe que é verdade.
– Anna, não é da sua conta, ok? Sei me cuidar sozinha. — Eu não deveria ter sido tão rude, admito, mas a menção ao meu vício me deixava irritada.
2012:
Sentei-me na janela, minhas mãos tremiam. Eu poderia sentir a tensão no ar, quando ela sentou na minha frente, os joelhos dobrados possibilitando que seus pés encostassem nos meus.
– Posso perguntar uma coisa? — Eu disse, após alguns longos minutos observando os cabelos alaranjados e esvoaçantes prenderem-se aos seus lábios úmidos.
– Não precisa. — Respondeu. — Eu já sei o que vai dizer. Também não sei por que vim. Acho que senti saudades, só isso. Anna sempre fora cuidadosa, por isso acredito que a escolha de palavras tenha sido corajosa. Pela segunda vez naquele dia, ela tocou minhas mãos com os dedos frios, segurando-me com força.
– Já está escurecendo... — Eu disse, nervosa e estúpida. Assim, repentina e subitamente ela se foi. Não antes, porém, de despedir-se friamente. Eu não a compreendo. Nunca compreendi.
1999:
Mais uma vez na casa da minha tia-avó, fazíamos um piquenique em frente ao lago. Eu deitara no chão, observando as nuvens, e a grama, que já ia alta, incomodava minha nuca, mas eu não me importava. Os dias vinham correndo tranquilos, apesar de eu sentir que Anna estava distante. Não fisicamente: neste sentido ela costumava estar mais perto do que seria sensato. Mas eu sentia que não éramos mais o que um dia fomos. A forte ligação que nos unia escorria através dos meus dedos, e antes que eu me desse conta, não éramos mais um casal.
– Mas por quê?! — Indaguei, confusa, depois que Anna pronunciou lentamente as palavras que nos separaram. — Me diz alguma coisa, qualquer coisa...
– Porque sim, Rachel. Porque eu não sinto mais o que eu sentia antes, porque eu quero terminar, simplesmente. Eu desabei. Por semanas, eu não saí de casa. Estive perdida entre garrafas de bebida barata e rabiscos de músicas que eu escrevera, todas dedicadas à ela. Dizer que Anna fora a pessoa que me ergueu e também a que me derrubou parece exagerado, mas descreve exatamente como eu me senti. Demetrio era o único que suportava ouvir meus lamentos, e ele costumava passar as noites no meu apartamento. Meu melhor amigo gostava de pintar meu rosto de diversos ângulos, havendo ou não lágrimas no meu rosto. Me fazia parecer quase bonita, mesmo com as bochechas inchadas e os olhos vermelhos.

Notas finais
Sou muito insegura com minhas histórias... Tomara que estejam gostando
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.