Efeito Doppelganger

1 Capítulo Único


Parte 1 – Efeito Primário

Rafael acorda as três da madrugada. Suado e trêmulo após o pesadelo que teve. Ele viu várias pessoas iguais a ele sendo mortas de todas as maneiras imagináveis. Um trem antigo passando em cima e separando o corpo em três pedaços, decapitação por guilhotina, beber veneno e agonizar, ter os pulsos cortados, ter uma espada perfurando o peito e assim foi. Tudo condensado em uma interminável chuva de sangue e sinfonia de gritos.

Levantando-se da cama ainda no escuro, Rafael caminha devagar até onde ele julga ser a porta e busca o interruptor. A luz amarela ilumina seu quarto bagunçado, e pro seu azar, seus olhos ainda dormentes que mal consegue manter abertos. Entra cambaleante no corredor e segue até a cozinha. Acende a luz do recinto e pensa ter visto algo se mover nas sombras, mas deve ter sido uma mera ilusão provocada pela luminosidade intensa nos olhos.

Enche o copo de água e bebe lentamente, sentindo o liquido frio descer a garganta e limpar o ‘’gosto do sono’’ que estava na boca. Respira fundo quando termina e volta ao quarto passando a mão de forma preguiçosa nos interruptores.

Deita na cama e olha para o vazio escuro. “Preciso jogar menos” pensa ele “E ver menos filmes de terror”. Assim, fecha os olhos e adormece quase imediatamente.

Rafael não sabia que do outro lado da cidade, outro jovem havia acordado. Ele estava no ultimo andar do prédio mais alto. Está na varanda, degustando um cigarro e observando as luzes da cidade nessa noite fria de poucas estrelas.

-Eu finalmente o encontrei... – sorri o fumante solitário – Após todo esse tempo, ele vem até mim... finalmente o encontrei...

Parte 2 – Estranho Efeito

É 9h da manha no colégio. Rafael está sentado em uma carteira fazendo dupla com uma menina no trabalho de matemática.

-Sério, por que eu preciso saber binômio de Newton? Eu não entendo pra que diabos vou usar isso na minha vida.

-Vestibular, apenas para o vestibular. – diz ela, em uma voz de nervosismo controlado – Eu sei que é um porre, mas é preciso fazer. Tente o exercício seis, eu tentei e não consegui. – ela passa a folha para o menino.

-Precisa usar aquela fórmula esquisita que eu não sei decor – ele suspira com a lapiseira entre os dentes, após ler o problema – Você sabe qual é?

Olhando para o lado, Rafael percebe como os olhos castanho-amendoados dela examinavam o caderno, como o lábio superior pressionava o inferior em um gesto gracioso, como os dedos esguios corriam as páginas cheias de anotações...

-É essa, copie aí. – ela fala, tirando-o do devaneio.

Com uma sacudida imperceptível de cabeça, ele copia a fórmula e termina o problema em três minutos.

-Esse é o ultimo?

-Falta o exercício oito ainda, me avise se o professor for olhar, vou colar com eles aqui do lado.

O jovem levanta o olhar pro professor careca que está mais entretido com seu caderno de exercícios do que em cuidar dos alunos que fazem o ultimo trabalho do trimestre.

Após alguns poucos segundos olhando para o professor, Rafael olha pro lado e vê a menina inclinada para o lado, mostrando uma boa parte de seu bumbum. “Que bundinha mais fofa, dá vontade de morder e apertar” ele pensa, mas logo em seguida se priva do pensamento e tenta ignorar a boa visão.

Ela volta para a posição normal na cadeira e entrega um papel com uma infinidade de números caprichosos.

-Copie.

Ele obedece.

-E depois passe a caneta, falta só 10 minutos.

E todos aqueles números não acabavam mais e ela ainda fazia questão de por pressão. Terminando de escrever todos aqueles algarismos, raízes, traços, parênteses e símbolos que ele nunca tinha visto, passa todas as respostas dos vinte exercícios a caneta.

-Agora você pode ir entregar.

O garoto não estava mais gostando tanto de receber ordens, mas o que podia fazer? Foi ela quem resolveu boa parte das questões e ainda colou as respostas, sem contar que ficar tendo devaneios semi eróticos não ajudava muito à resistir as ordens.

-Pronto. Contente? – ele fala, fechando a cara e cruzando os braços ao sentar depois de entregar o trabalho.

-Bem melhor agora. Com esse trabalho eu passo sem exame.

Vendo que ele nada disse, ela continua.

-As férias estão quase aí, posso descansar e viajar. Vai viajar nesse fim de ano?

Rafael sentiu uma bela pontada de inveja. Fazia muito tempo que não viajava, seu mundo estava bem restrito à zerar todo tipo de jogo que encontrasse e ler como se não houvesse o amanha.

-Acho que não, meus pais preferem viajar sem mim.

-Por quê?

-Programa romântico de casal que parece não ter um filho.

Um belo comentário para inspirar um pouco de carência.

-Nossa, não fale assim. Alguma coisa boa eles devem fazer pra você.

-É, eles me dão muitos livros e jogos.

-Hum, falta um pouco de amor nessa sua vida. — Ela se inclina pra ele. Usava uma blusa branca com um decote recatado e uma jaqueta aberta por cima. Foi difícil deter-se a olhá-la nos olhos.

-Sou adolescente, me deixa ser rebelde.

-Você está sendo emo e não rebelde.

-Então o que sugere?

-Sugiro que fale baixo, Rafael, tem gente que não terminou esse trabalho ainda e também não está afim de ouvir sua conversinha! – falou o professor em alto e bom som para que toda turma ouvisse e olhasse de volta.

-Sugiro que fale mais baixo. – sua parceira ri baixinho.

-Ok – sua voz de limita a um sussurro agora – O que sugere?

-Festa. – ela puxa dois envelopes roxos do meio de sua apostila e entrega um a Rafael – Debutante. Minha prima que estuda no 1° ano. Topa?

-Quem mais vai?

-Uma boa parte da nossa turma e mais umas crianças da turma dela.

-Parece legal – mente ele, abrindo o envelope e vendo a foto da debutante e depois correndo os olhos pelas datas e especificações – Eu mal sei quem ela é. Como fui convidado?

-Eu pedi que você fosse convidado.

-Por quê?

-Vou ser uma daquelas damas que dançam junto com a aniversariante e seu par.

-Ah...

Se fazendo de desentendido, ele volta a examinar o convite.

-E sim, quero que seja meu par.

Isso era tão bom quanto ruim de ouvir.

-Eu não sei dançar.

-Aprende, existe ensaio pra isso.

-E você me escolheu seu par por...?

-Culpe as meninas aqui da sala, elas me forçaram a te escolher. – ela fala, parecendo sinceramente desdenhosa.

-Escolha outro.

-E depois sofrer bullying delas? Nem pensar.

-Então é melhor ir com alguém que você não gosta só porque não agüenta umas conversinhas?

Sem resposta.

-Depois dessa, nem mesmo eu gostaria de ir com você. – ele fala, usando a mesma voz de desdém dela – Professor, posso ir ao banheiro? – ele pergunta alto.

-Vá, pelo menos assim fala menos.

No corredor, o jovem tenta organizar os pensamentos. A garota com quem tem fantasias eróticas resolve lhe convidar para uma festa e dançar junto ainda? É preciso comprar camisinha. Não, muito cedo pra isso ainda. Mas ter sonhos de morte e ser convidado para uma festa em um curto período de tempo tinha sua estranheza.

Chegando ao banheiro, ele repara que não está sozinho. Há alguém dentro de uma das cabines, assoviando. Rafael vai ao mictório e lá faz sua necessidade. A pessoa da cabine sai e vai para a pia. Pelo banheiro ter dois espelhos opostos, Rafael vê a face de seu companheiro e se assusta: via seu rosto lado a lado, como se aquele fosse seu irmão gêmeo.

Imediatamente sentiu como se uma estaca de ferro quente atravessasse seu crânio e mexesse seu cérebro da mesma forma que se mexe uma sopa. Doía, mas ele deixou apenas transparecer uma leve careta de dor.

O outro apenas sorriu malicioso para ele, como se esperasse esse efeito.

-Finalmente o encontrei... agora mais perto... – o outro sussurra um pouco alto demais ao sair do banheiro.

O que tinha sido isso? Rafael não se lembrava de ter um irmão ou uma cópia sua andando por aí. Agora com as mãos na pia e da dor de cabeça se esvaindo e sentindo uma tensão crescer, ele levanta a cabeça lentamente, suas pupilas estavam muito dilatadas, isso acontecia com ele quando sentia um medo fervoroso. Respira bem fundo e lava o rosto duas vezes. Está tendo visões. Apenas isso, visões. Nada de mais.

Festa, pesadelos mortais e agora uma cópia sua no banheiro. Sua vida parecia um hentai: tem umas transas esquisitas e pode aparecer um polvo a qualquer momento.

Parte 3 – Efeito Original

Raziel está na varanda de seu quarto no apartamento, apoiado no vão da porta de vidro. Fazia esse ritual de ficar uma boa parte da madrugada fumando e observando a cidade adormecida.

-Não gosto de te ver assim. – Mikaela fala com a voz um pouco embargada do pós-sexo, estava deitada na cama e com a mão apoiada na cabeça. Sua expressão reflete preocupação. – Você nunca ficou tão tenso por achar seu doppelganger.

-Esse é diferente. – Raziel fala entre uma fumada e outra – É a Sétima Cópia. Meu passe para a total imortalidade.

-Como se fosse uma prova de fogo de Geartlyn?

-Uma prova de fogo de Geartlyn... com certeza aquele Deus Menor me reservou um belo desafio. Fui o Original que chegou mais longe desde que ele criou os doppelgangers.

-Nunca entendi essa eterna batalha entre os Originais e as Cópias.

-Já te expliquei o porquê disso. – sua voz tem um tom irritadiço.

-Ah, explique de novo... adoro ouvir você falar... – Mikaela transmitia paixão nas palavras.

Raziel continua na posição em que estava e então começa a falar em tom neutro.

-Desde que o Deus Geartlyn começou a reinar nesse universo, nosso mundo tem os doppelgangers. Existe um Original, que é a fonte das Cópias. Esse é um mecanismo que faz com que uma alma não se perca ao morrer, sendo que terá uma cópia sua caminhando em algum lugar por aí, como backups em computadores. Mas, quando alguns Originais se deram conta disso começaram a caçar suas Cópias sob o pretexto que apenas um humano único pode existir.

Ele faz uma pausa e dá mais uma tragada.

-Assim, Geartlyn disse que isso poderia ser feito e quem matasse sete Cópias suas ganharia a imortalidade. Para tornar as coisas mais interessantes, ele criou as Distorções. Poderes aleatórios que todos os doppelgangers têm e podem usar, conforme você mata, incorpora a Distorção.

-Você nunca tinha me falado sofre esses poderes. – Mikaela interpõe.

-Eu tenho seis Distorções diferentes de todas as minhas Cópias. Sendo que boa parte deles nem sabia que tinha isso. Por isso que estou vivo até esses tempos modernos com bons cigarros.

-Espera, eu achei que você tinha 18 anos!

-Tenho cara de 18 anos, mas eu chuto que tenho uns mil e poucos anos. Caço Cópias de todos os tipos de todas as pessoas desde antes de Cristo.

Mikaela surpreende-se. Já sabia de todas as histórias dos Doppelgangers e como as coisas entre os Originais e as Cópias eram conflituosas, mas não sabia que seu namorado era tão velho.

-O que mais eu não sei a seu respeito? – sua voz é pura impaciência.

-Por matar muitas Cópias eu fiquei vivo por todo esse tempo. Mas é uma vida muito maldita, se oscila muito entre vida e morte e a total imortalidade é a salvação. Só posso pegar as Distorções das minhas próprias Cópias e das Cópias de outras pessoas eu pego apenas os anos de vida que ela viveria. É um ciclo vicioso que só termina no Sétimo.

-Quais são seus poderes?

-Tenho o Cutelo Sanguinário, Asas de Ferro, Garra Profana, Botas de Obsidiana, Olhar da Medusa e Infernus.

-Mas isso são mais equipamentos do que poderes.

-A Distorção pode ser tanto um poder quanto um equipamento. Fica mais fácil para incorporar.

-Entendi... e o que isso tudo faz?

Raziel deixa o cigarro na boca e levanta a mão esquerda e logo um cutelo com cabo de madeira e lâmina retangular de metal reluzente com vários entalhes aparece brincando entre seus dedos.

-A arma com todas as armas. É por isso que açougueiros usam cutelos, facilita no corte da carne. – ele gira o objeto – Carne humana principalmente. Matei duas Cópias atirando essa belezinha no meio das costas deles.

Então, ele faz o cutelo desaparecer e logo invoca outra arma. Do seu cotovelo até a mão, uma espécie de pele de metal negro nasce, fazendo seus dedos terminarem em garras afiadas.

-Garra Profana... ótima para arrancar corações. Um morreu assim.

A Distorção desaparece do seu braço e ele pega o cigarro da boca.

-As Botas de Obsidiana estão aí do lado da cama – Mikaela se senta para dar uma olhada – Lhe da o poder de esmagar qualquer coisa. Um crânio igual ao meu explodiu desse jeito.

-Nossa... estou começando a ter medo de você...

-Nade de ruim vai acontecer a você, Mika. As Asas de Ferro são boas para perseguições, se eu usasse aqui, causaria um estrago nas paredes. O Olhar da Medusa se justifica por si. Usou, petrificou. Matei dois assim, por um espelho ainda. – ri Raziel.

-E o Infernus?

-Vou usar nessa minha última Cópia. Essa Distorção faz com que o oponente queime lentamente de dentro para fora.

Mikaela fica em silêncio, apenas olhando a silhueta do namorado. Apenas a luz da noite iluminava o recinto. Raziel sai do vão da porta de vidro e se deita na cama de casal ao lado da namorada.

-Sabe... tenho algo a lhe falar – ele começa, sua voz tinha mudado repentinamente de impaciente para receoso – Sobre você.

-O que é?

-Lembra quando me disse que tinha medo que seu Original viesse atrás de você?

-Sim. O que tem isso?

-Descobri quem é o seu Original.

Silêncio sepulcral.

-Miguel é seu nome e você é a Sétima dele...

-Espera... ele é um homem?

-Interessante não é mesmo? Geartlyn montou o jogo dos doppelgangers com bastante inteligência. Os Originais homens podem ter Cópias mulheres e vice-versa. Como gêmeos não idênticos. E o Sétimo sempre terá como nome uma variação do Original.

Mikaela foi absorvendo tudo aos poucos e finalmente pergunta:

-Onde ele está?

-Miguel é um monge lá dos países asiáticos. Vive uma vida tranqüila em um templo. Duvido que venha atrás de você.

-Como descobriu?

-Vi uma matéria na TV sobre os templos e os monges. Nas filmagens da reportagem, vi alguém que me lembrava muito você. Aí fui pesquisar e encontrei uma lista na internet que dizia o nome de todos os monges e lá tinha um Miguel.

-Não acha que pode ter sido só coincidência?

-Coincidências não existem, Mika. Ele é o seu Original, quando ele morrer, você ganha sete cópias para torturar e matar como quiser e por fim, imortalidade e poderes infinitos.

-Vou poder viver pra sempre com você...

O duro coração de Raziel amolece depois de ouvir essa frase na voz apaixonada dela.

-É... em breve... aquela Cópiazinha de merda vai cair e existirá apenas eu e unicamente eu nesse mundo. – o sussurro dele foi inaudível.

Os dois se abraçam e fecham os olhos. Mikaela dorme quase imediatamente.

Raziel ainda mantinha os pensamentos nas diversas formas de matar Rafael.

Parte 4 – Efeito Primário do Caos

Rafael está com uma sensação estranha. Como se as coisas que sentia, outra pessoa também sentia. Outras coisas também o incomodavam, como achar que estava sendo seguido o tempo durante o trajeto para o colégio nesta quinta de manha.

Sua sala de aula estava um caos. Pessoas copiando tarefas, pessoas falando alto, meninas cochichando aos risinhos, típico e normal. Ele chega na sua carteira e se senta, esperando que o ignorem pois quer terminar uns desenhos que começou ontem a noite logo após as três da manha, quando acordou com pesadelos de morte mais uma vez. Desenhou todo tipo de cena de morte conhecida e desconhecida pelo ser humano, muito vermelho e preto nas folhas.

O sinal toca e a aula começa. O relógio na parede só podia estar com a pilha fraca pois os ponteiros pareciam não se mexer do lugar. A primeira e a segunda aula se arrastam como um demônio preso à grandes esferas pesadas.

Na terceira aula, as coisas já começam a ficar estranhas: a professora de física pede para Rafael sair da sala sem motivo aparente, sem querer discutir e se livrar logo, ele sai.

Agora estava perambulando no corredor. Foi até o bebedouro, bebe alguns goles de água, espreguiça-se e finalmente repara em alguém bem no fim do corredor.

Botas negras como a de um motoqueiro, calça jeans escura, camiseta preta e jaqueta de couro também preta, algo de metal reluzia na sua mão pálida. Ele começa a caminhar na direção de Rafael. Uma marcha fúnebre acompanhada de um risinho sádico.

Rafael olha para as salas do corredor e elas estavam todas vazias, para onde foram os alunos?

-Não se preocupe, Cópia. Vai ser uma morte lenta e agonizante sem que ninguém esteja por perto para ouvir seus gritos.

-Quem é você?

-Sou seu irmãozinho Raziel. Sua morte também. – ele para a uma boa distancia da vitima e a observa. – Sou seu doppelganger.

Rafael já tinha ouvido falar à respeito de alguma coisa sobre doppelgangers, mas agora não se lembrava ao certo do que era. A única coisa que sentia no momento era medo dessa entidade e ainda mais pavor por notar a aparência dele.

Vê seus olhos naquela face. Uma boca igual a sua sorrir como um maníaco. Os cabelos bagunçados e rebeldes idênticos... havia poucas e nítidas diferenças: a linha do maxilar dele era rígida e o nariz mais regular e bonito.

Raziel e Rafael estavam cara a cara.

Parte 5 — Efeito Secundário do Caos

Imensas asas com penas de ferro estouram das costas de Raziel, um cutelo aparece na sua mão e sua mão esquerda ganha uma espécie de couraça negra com garras afiadas nos dedos.

-Finalmente o Sétimo! – ele berra de fúria enquanto corre contra Rafael.

Rafael sente seu fim e não conseguiu se mexer. Tudo é fantástico demais para se acreditar, era só mais um sonho de morte (um sonho bem realista) em que logo iria acordar em sua cama. Mas Raziel continuava avançando e parecia não chegar nunca apesar de não estarem muito longe. Segundos de eternidade. Rafael abre os braços em sinal de redenção e então outra coisa acontece: uma espécie de escudo de ar corrente se forma e barra o ataque selvagem de Raziel, que é arremessado vários metros para trás.

-Que diabos foi isso? – ele olha para as próprias mãos, já se questionando do quão real as coisas eram.

-Barreira de Vento... – o anjo férreo fala devagar e em voz baixa – Geartlyn... você me reservou um bom desfecho. — Ele começa a se levantar e suas imensas asas se recolhem para as costas.

-O que é você?

-Já disse. Seu doppelganger. – ele agora caminhava novamente em direção a Rafael – Você é idêntico a mim, então, uma misera Cópia. Como o Original, devo matá-lo e assim garantir minha imortalidade.

-Que sonho mais estranho – ri Rafael – Até parece real.

-Você não está sonhando...

Ditas essas palavras, o medo em si finalmente tomou forma. Corpo completamente estacado ao chão, boca seca, olhos arregalados e cérebro não respondendo. Esse era Rafael agora enquanto via seu carrasco se aproximar, levantar o cutelo, descer e... bloqueado à uns bons centímetros da cabeça.

-Não pode...

E a Barreira de Vento estoura mais uma vez, lançando Raziel contra a parede oposta com a força de um gigante.

Rafael olha a cena. Continua olhando... e ainda não acha sentido no que vê. Aos poucos, sente o corpo relaxar e tudo escurecer.

Raziel vai embora e Rafael desmaia.

Parte 6 – Efeito Simples

-Eu não posso acreditar! Como que ele pode ter uma Barreira de Vento?! – Raziel esbraveja e anda de um lado pro outro no quarto.

-Ele foi pro hospital não foi? – pergunta Mika, que o olhava com intensidade.

-Foi, eu consigo até sentir uma fisgada no meu braço por causa do soro.

Eles ficam em silencio por alguns minutos. Ela então pergunta:

-O que essa Barreira de Vento tem de tão especial?

-Bloqueia qualquer outro tipo de Distorção. Eu queria vê-lo agonizar e agora preciso matá-lo rapidamente... mas não, não pode ser tão fácil.

-O que vai fazer então?

-Transformar aquele hospital em um verdadeiro caos. – um sorriso sádico brota dos seus lábios.

* * *

Rafael abre os olhos e se depara com um quarto todo branco com alguns detalhes em verde. Hospital. Tinha pavor de hospital. Deitado em uma cama pouco confortável e ainda com bandagens do soro ligado ao braço (ele tentou não pensar no tamanho da agulha enfiada no seu braço).

E sozinho... sempre sozinho. Imagens daquela cena estranha de videogame iam e vinham em sua mente. Um clone malvado e super poderoso tentando exterminar o original? Não, isso não existe. Asas de ferro? Cutelo reluzente? Braço demoníaco? Isso era idiotice demais para se acreditar. Coisa de sonho, sonhos fantásticos de criança.

Ainda recusando-se a acreditar no que viu, Rafael dorme com sua ignorância.

Parte 7 – Efeito Geartlyn

Raziel está sentado no banco de madeira da praça com o braço em volta de Mikaela. Observam as arvores as pessoas andando e conversando, crianças correndo e brincando, todos alheios de que a qualquer momento alguém idêntico a eles pode aparecer e lhes intimar a morte num ato ganancioso.

-Ele me deixou a mensagem hoje pela manhã, não era para Ele demorar. – o garoto fala, enquanto passava os dedos nos cabelos bem negros da namorada.

-Bem, ele deve se atrasar para causar um efeito. Coisas de Deus, eu acho. – ela agora descansa a cabeça no ombro dele.

-Não gostei muito dessas “coisas de Deus”. Quero resolver logo esse assunto com o Sétimo e concluir isso.

-Você esperou anos, não pode esperar mais alguns minutos?

-Não, não posso. – suspira nervoso.

Vindo pela calçada, um homem de aparência jovem trajando um terno azul escuro se dirige ao casal. O homem tinha os cabelos arrepiados e cicatrizes no rosto, se movia e deixava uma espécie de rastro, como um fantasma.

-Então... finalmente encontro o doppelganger que chegou mais longe nesse mundo... – Geartlyn fala, entretido – É um prazer conhecê-lo Raziel.

-Igualmente, senhor. – ele se levanta e o cumprimenta estendendo a mão.

Geartlyn sorri ao retribuir o cumprimento, seus dentes eram muito brancos e alinhados.

-E também estou feliz em conhecer a bela Mikaela, uma Cópia rara da qual o Original não quis caçar. Sinta-se honrada.

-Obrigada senhor.

-Agora, gostaria de ir a um lugar mais confortável para conversarmos. Tudo bem?

-O Deus aqui é você, escolha o que quiser. – Raziel fala.

-Ah sim, há um barzinho perto daqui. Espero que não enjoem ao viajar rapidamente.

O Deus levanta a mão e estala os dedos. A praça é engolida em um grande vácuo negro e eles reaparecem em um fino restaurante na frente de um rio.

-Isso é...?

-Sim. Veneza. Adoro esse lugar, as pessoas, a antiguidade, o ar, é bem romântica também. Imaginei que seria uma boa escolha.

Raziel se limita à um olhar estudioso a Geartlyn enquanto Mikaela olha boquiaberta todos os detalhes do lugar que estava no pôr-do-sol.

-Sentem-se e trataremos dos negócios.

Eles aceitam, sentando em uma mesa circular com toalha vermelha de seda. As cadeiras são confortáveis.

-Porque queria tanto conversar comigo? – Raziel pergunta, apoiando os cotovelos na mesa e juntando as mãos. Ainda ostentava o olhar estudioso.

-É sobre o seu Sétimo. Ele não poderia ter a Barreira de Vento.

-Não, não poderia. Então porque o tem?

-Um erro aleatório das inúmeras leis que regem os doppelgangers.

-Como vou derrotá-lo? Posso ter habilidade e um arsenal de Distorções mas não sou páreo para algo que bloqueia isso tudo.

-Eu estive observando o desenrolar dos fatos. Rafael acredita que está sonhando.

-Sonhando? Como ele pode ser tão ignorante?

-Teu Sétimo contém boa parte da sua personalidade ruim. E algo que você vai usar contra ele.

-E isso seria...?

-O medo.

Silêncio. Mika põe a mão no braço do namorado, vendo que a tensão nele estava apenas crescendo.

-Quer que eu o destrua usando apenas medo? Isso é a maior bobagem que ouvi hoje.

-Não, meu caro, tem mais sentido que você imagina. O poder daquele garoto provém do medo que você incita nele.

-Você acabou de me dizer algo que não faz sentido. Se o poder dele vem do medo, se eu incitá-lo nele, ele ficará mais forte.

-Exatamente.

Raziel recua, apoiando as costas na cadeira e esfrega os olhos com as mãos.

-Me explique o que você quer dizer.

-Ele sente medo e isso gera a Distorção. Se tirar o medo, você perde a Distorção. E eu duvido que você queira perder a Barreria do Vento... – Geartlyn lhe lança um olhar esperto com os olhos cor de cobre.

-Então... medo equivale a poder para a Barreira?

-Exato.

-Entendi e agora me diga como matá-lo.

-O medo gera dois efeitos: a fúria que pode se voltar contra você e mais medo, que vai fazê-lo fugir como um animalzinho fraco. Evite a fúria e encurrale-o.

-Nessa hora a Distorção dele estará no máximo... ativada ou desativada?

-Mais provavelmente desativada. Aí, você o mata e ganha uma Distorção e o passe para imortalidade.

Raziel respira fundo e reflete por alguns instantes.

-Isso faz sentido sem ter sentido.

-Imaginei que sua mente mundana não entenderia o raciocínio divino.

-Olha bem como fala comigo... – Raziel bate o punho na mesa, mas brigar com um Deus em plena Veneza não seria uma ideia muito boa.

Mikaela toma novamente a posição de cuidadora e coloca as mãos sob o punho do namorado.

-Acalme-se... já sabemos como destrui-lo. O Sétimo terá seu fim.

Ouvindo isso dos doces lábios da namorada, o jovem se acalma, mas ainda está com o olhar assassino em Geartlyn.

-Guarde sua coroa de louros para o próximo imortal, Deus.

Geartlyn limita-se a um sorrisinho desdenhoso e estala os dedos. Veneza sofre com o vácuo negro e o casal aterrissa no apartamento. Já havia escurecido.

“Matar não precisa ter sentido.” E com esse pensamento, aquele que já declarava a imortalidade adormece.

Parte 7 – Efeito Mortal

Rafael abre os olhos lentamente, sentindo um torpor dominá-lo. Podia sentir que uma quantidade maior de sedativos havia sido injetada por intravenosa. Estava há três dias no hospital e não poderia sair ao menos que um responsável lhe retirasse de lá.

Na verdade, ele mal sabia por que teve de ser internado. Lembra-se do seu clone malvado e suas asas de ferro e depois de tudo ter-se apagado, achava que era preciso ficar todo esse tempo em um leito de enfermo.

Uma enfermeira mal humorada entra com uma nova dose do soro.

-Vejo que acordou, finalmente após todo esse tempo.

-Por que estou aqui por tanto tempo?

A enfermeira lhe lança um olhar de desconfiança mas notou a inocência do menino.

-Não sabe o que houve naquele colégio?

-Bem... não.

-De todos os alunos, você foi o único sobrevivente.

-Como assim? – espanta-se.

-Todos os alunos apareceram mortos e você foi o único encontrado ainda respirando.

Rafael pisca os olhos, desentendido.

-Fala sério?

-Acha que eu ia brincar com uma coisa dessas.

-Não entendo... como...?

-Ninguém sabe e tem muitos jornalistas acampados aí na frente querendo falar com você.

-E a policia?

-Chegou a conclusão de que você não sabe nada e também não tem culpa de nada.

-Eles têm alguma ideia de como todos os alunos morreram?

-Parece que o coração de quem eles abriram até agora foi carbonizado de dentro para fora.

-Como...?

-Não sei e agora tenho mais o que fazer. Passe bem.

Com essas lindas palavras de despedida ela sai, largando Rafael com seus próprios pensamentos. Enquanto lutava com sua cópia malvada, os alunos tinham sumido das salas e não mortos na hora. Algo de muito sinistro tinha acontecido.

O jovem sente um sentimento de vingança e desejo de resolver as coisas crescer dentro de si e guiado por isso, sai da cama e caminha de forma doentia apoiado na haste de sustentação do soro até a porta. Abre-a. Sai em um corredor branco vazio e bem iluminado, procura rapidamente algo que indique a saída. Os elevadores estão no fim do corredor.

Ao seguir caminho, ele o vê. Raziel, seu clone assassino. Trajava as mesmas roupas do encontro anterior e tinha o cutelo brilhando na mão, ele vinha ao seu encontro em passos firmes como um carrasco ansioso para decapitar sua vítima.

Rafael arregala os olhos e arranca a agulha do braço. Dispara na direção oposta, embora suas pernas estivessem dormentes e sob efeito de sedativos. O pavor e o medo neutralizaram tudo e agora era apenas fugir.

Escancara a porta da escada e começa a descer o mais rápido que pode. Escuta o som do carrasco também batendo a porta e o som de suas botas batendo nas escadas.

Mais rápido. Mais rápido. Fugir. Fugir.

Chega ao estacionamento subterrâneo e sente imediatamente o contado doloroso do frio com o corpo apenas com a roupa de inferno. O ar e o chão parecem pregos de gelo contra a pele nua. Esconde-se atrás de uma pilastra.

A porta e do estacionamento é arrombada com força, sendo arremessada metros à frente. Raziel emerge das escadas com uma expressão de caçador faminto.

-Sétimo, Sétimo... encurralado e com medo. Confuso por não saber ao menos o que está acontecendo. – Raziel fala alto, soando entretido – Em breve resumo, digo que duas pessoas idênticas não podem viver. E eu almejo a imortalidade.

O carrasco está agora no meio do estacionamento mal iluminado, examinando todos os pontos de esconderijo. Rafael se misturava às sombras e ia caminhando, agora possuía a fúria para matar esse lunático. Acha um extintor e se aproxima lentamente pelas suas costas.

O grande cilindro vermelho desce com toda força em direção a cabeça de Raziel; ele percebe e golpeia com o cutelo; explosão.

Uma grande explosão de nuvem branca pressurizada arremessa os dois em direções opostas.

-Cópia maldita... você vai morrer...

O carrasco levanta-se rapidamente e corre em direção a vitima que esta caída e atordoada no chão.

-AGORA!

Seu cutelo desce com toda fúria, ódio, raiva e todos os sentimentos vingativos e furiosos podem gerar. Acerta o peito de Rafael. Todo branco que estava em sua pele se torna vermelho e escorre feito lágrimas até o chão cinza escuro e frio.

Ele retira a arma ensanguentada do corpo. Rafael ainda estava com os olhos abertos e mexe os lábios tentando falar alguma coisa.

-Você... porque?

-O mundo é pequeno demais para duas pessoas iguais.

E assim morre o Sétimo. Pronunciando algo inútil e recebendo uma frase que não faz sentido.

Seja bem vindo ao paradoxo da morte e da vida.

Parte 8 — Efeito Não Causado

-Sua cara me diz que não acabou... – diz Mika, que estava com a cabeça em cima do peito nu do namorado. O quarto está apenas iluminando pelas luzes da cidade que entravam pela varanda.

-Não sei se acabou. Eu o matei, mas... algo diferente. Ele falou algo estranho e me olhou... olhou como se pedisse perdão por algo.

-Perdão por não ter tido a vida que queria? Ou por ter tido esse fim?

-Não sei. Ele era o ultimo, eu sei. Não me sinto imortal e nem mesmo poderoso com a Distorção.

-Já a testou?

-Sim, eu agora tenho a Barreira do Vento.

-Então do que reclama?

-Sinto que agora que cheguei ao ponto que queria da minha vida, ela não tem mais sentido.

-Isso é ingratidão, sabia?

-Sei, mas... sinto que falta alguma coisa. Geartlyn deve ter me omitido alguma informação, o jogo dos doppelgangers não pode ter esse fim solitário.

-Solitário? Comigo aqui com você?

-Não, não foi isso que eu quis dizer.

Raziel afasta uma mecha do cabelo negro de Mikaela. Olha nos seus profundos olhos castanhos. Beija-lhe com vontade e se afasta, virando de costas para ela. “Eu não acho que tenha terminado assim” pensa ele “Algo nesse quebra-cabeça não se encaixa.”

Epílogo – Efeito Desequilibrado (Bônus)

-Era mentira não era?

-Meu caro, não fale dessa maneira.

-O jogo diz que quem mata sua Sétima Cópia ganha a imortalidade e as Distorções.

-Você recebeu o poder, certo?

-Quero saber da imortalidade.

-Você não a ganhou por que achei que não era hora.

-Como assim? Sacrifiquei-me e fiz tudo, quero a recompensa!

-Como acha Mikaela iria agir se soubesse que seu namorado seria eterno e ela não?

Raziel considera.

-Tudo bem, o que posso fazer então?

-Deixe isso pendente.

-Pendente... tudo bem. O que faço de agora em diante?

-O jogo não acaba tão cedo. O show não pode acabar.

-Show?

-Nós deuses gostamos de ver nossas criações se matarem. Há outras Cópias e Originais por aí.

-Sua sugestão é...?

-Termine o serviço. Imortalidade para você e seu amor. O que acha?

-Parece uma boa, finalmente estamos conversando no mesmo idioma.

-Será uma chuva de sangue e uma sinfonia de gritos.

Raziel olha para Geartlyn e finalmente entende o motivo de humanos existirem.

-Quando começo?

Existem apenas para entreter os deuses com a ilusão do ‘’livre-arbítrio’’.

Existem em um circo para fazer deuses hipócritas rirem da estupidez.

É preciso morte para existir a vida, não é mesmo? Então, mais morte desequilibra a equação.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.