Notas iniciais
Olá você, seja muito bem vindo à mais um dos meus mais diversos sonhos roteirizados que tanto gosto de registar. Esse em especial me veio com um enredo completo e absurdamente detalhado que foi impossível não redigi-lo. Espero que você goste do que lerá e se imagine imerso em mais um dos filmes do Wes Anderson. Sinta-se livre para criticar, xingar, brigar, me mandar ir para o lugar onde Judas perdeu as botas e tudo que você tem direito, afinal, publico para aprender o que deve ser dito e o que deve ser deixado de fora. Cuidado com os vampiros. Beijos.

Fato irônico e pouco conhecido sobre vampiros é que após uma noite de sucção intensa de sangue alheio geralmente ocorre uma intensa catarse composta por tonteira e leve amnésia. “O melhor de tudo”, diria nosso amigo que já será devidamente apresentado, “é a sensação de leveza e de estar flutuando ao acordar”. É exatamente nesse estado em que encontramos Lúcio que, particularmente, caracteriza esse quadro como “Efeito Colateral Aceitável, ou ECA”.

Lúcio se ergueu lentamente do chão ainda sentido o corpo leve, quase como se estivesse sendo carregado pelo ar. Os olhos piscavam freneticamente na tentativa de identificar algo no ambiente ao seu redor e a saliva ainda lhe escorria rósea pelo canto da boca, adornando o sorriso que deixava a mostra suas longas presas. Ele gostava de imaginar que não tinha o costume de exagerar a ponto de esquecer completamente dos eventos, mas, a noite anterior fora especial: era seu aniversário de “quase morte” e, apesar de ter parado de contar os anos aos 126, ainda mantinha algumas tradições da sua época.

Tateou ao seu redor em busca de uma fonte de luz, sempre tomando cuidado para manter-se longe das cortinas por ainda não saber ao certo as horas. Encontrou um controle remoto e clicou apontando para todos os cantos do cômodo. Se tinha aprendido algo útil ao longo dos anos era que ligar a TV no noticiário local é a melhor maneira de se descobrir as horas sem ganhar algumas queimaduras pelo corpo. A explicação era fácil na mente do nosso mais novo companheiro: “as emissoras tem uma mania inútil de transmitir o trânsito ao vivo ou algum tipo de perseguição policial, o que só serve para deixar a população em pânico ou, no mínimo, estressada. A verdade é que as pessoas precisam de algum tipo de emoção para suas vidas sem graça”.

Conseguindo ligar o televisor, buscou o canal 23 e observou a luz emanar e preencher o quarto. Voltou sua atenção para o noticiário quando a âncora do jornal Diário Diário ocupou toda a tela com seu batom em tom berrante de laranja, claramente inapropriado para aquela manhã ensolarada. “Estamos hoje diante do Hotel Meia Noite — disse em tom calmo — a fim de obter mais informações do ocorrido da noite de ontem...”. Lúcio deu as costas sem prestar atenção na manchete, mas, com o mesmo pensamento de todas as manhãs girando em sua cabeça: “nomezinho ridículo para um jornal”.

Olhou ao redor buscando algum sinal de seus acompanhantes. Lúcio era um dos componentes daquele grupo de pessoas que “não gosta de companhias”. Na verdade, veremos ao longo dessa aventura Lúcio se intitular de várias coisas só para, no final, não pertencer a particularmente grupo algum. Apesar desse fato, ele havia se unido a um seleto número de vampiros “no mínimo toleráveis” e com os quais tinha criado mais que um vínculo, mas sim, um sistema integrado e compartilhado de sobrevivência e proteção.

— Serafino! – chamou e, não tão prontamente assim, ergueu-se do canto mais afastado da sala um homem de longos cabelos negros.

Os olhos vidrados de Serafino buscaram o som da voz que o havia convocado. Remexeu o corpo magro e pálido atravessando o curto percurso que os separava. Olhando de certa distância, mais precisamente 20 metros como calculado por Lúcio anos antes, Serafino parecia uma figura contida e misteriosa, mas, de qualquer ponto mais próximo que isso, era nítido que todo o charme do homem era baseado no fato de que ele sempre tinha o semblante mirrado e cansado.

— Onde estamos? – continuou Lúcio que foi respondido por um dar de ombros do outro. – Pois bem, comece o reconhecimento local antes que...

Mal tivera tempo de reiniciar a fala quando foi interrompido por gritos estridentes vindos de algum lugar mais ao fundo da sala. Os dois não se abalaram.

— Pelo menos sabemos que ele ainda está por aqui – soltou Serafino.

— Magda! – Gritou Lúcio esfregando as têmporas num gesto de impaciência.

Quase que num piscar de olhos um vulto ruivo surgiu em sua frente, dando espaço para a figura esguia, bela e mortal da vampira.

— Magda, minha querida. Dê um jeito no sujeito, por favor? Você é a única que consegue...

Com Magda, Lúcio falava calma e pausadamente, diferentemente da forma como ele tratava qualquer outro ser. Em tempos passados seria fácil encontra-lo em uma noite qualquer chutando as flores de um canteiro e chamando-as de “pequenas e estúpidas inutilidades” ou discutindo com um cachorro de rua pelo fato de ele estar fazendo aquilo que foi projetado para fazer: latir. Esse tratamento diferenciado para com a única mulher do grupo era devido à um sentimento existente entre eles e que jamais deveria ser mencionado. Na verdade a aposta do restante do clã era que já havia acontecido algo entre os dois e que não terminou nada bem, o que justificaria também a mudança radical de comportamento e personalidade de Magda.

A vampira, até certa época, era detentora de atitudes serenas e minuciosamente calculadas podendo ser confundida até mesmo com alguém da realeza que perdurou pelos tempos. Porém, há alguns poucos anos Magda se transformara, tomando para si atitudes agressivas, vestindo como alguém que não da a mínima importância para absolutamente nada e passara a falar praticamente três frases por dia. Na mente de Lúcio apenas uma palavra sobre o assunto ressoava: desleixada. Na mente de Magda, se afastando todo o turbilhão de frases que eram gritadas, a definição encontrada era: empecilho.

Ela então seguiu seu caminho a passadas largas até desaparecer do campo de visão de Lúcio. Esse se prontificou a encontrar os interruptores para iluminar o ambiente, seguido por Serafino que fazia um inventário mental do quarto em que se encontravam. Magda alcançou o banheiro tapando os ouvidos para abafar os gritos que pareciam mais altos ali.

— Tácito, se acalme, segure minha mão. – A voz doce e juvenil de Magda se contrastava com a figura diante de seus olhos. Um homem semi-calvo sentava-se a sua frente com os olhos envoltos em lágrimas e segurando uma camisa suja.

— Sangue, eu vejo sangue! Sangue em todo lugar! O que está acontecendo? – esbravejava Tácito agitando as mãos pelo ar – Por que estou todo coberto nisso? Ajude-me! Onde estamos?

— Você deveria estar agradecendo ao invés de resmungar tanto, velho amigo. Aqui, venha, isso mesmo... – dizia a vampira enquanto pressionava o homem contra seu corpo num abraço na tentativa de acalmá-lo.

Tácito era uma real dificuldade para o clã. Todas as noites o homem se esquecia de sua atual condição e passava horas em pânico incontrolável. A única capaz de trazer de volta a lucidez do vampiro era Magda. Poucos dias antes Serafino havia tentado contê-lo, mas foi brutalmente atingido na cabeça com um abajur e ameaçado por no mínimo trinta minutos com uma faca. A ironia aqui é que a faca estava atravessada no punho de Tácito que não tinha se dado conta do fato até tentar estrangular Serafino. Episódio similar ocorreu com Lúcio que na tentativa de silenciar o homem ganhou quatro cicatrizes permanentes ao longo da barriga, que gostava de ostentar dizendo serem perfurações por estacas de madeira de um certo caça-vampiros. O único motivo, então, pelo qual Tácito ainda fazia parte do grupo é que ele era chamado “Fator Distração”. No quesito enganar e chamar atenção não havia ninguém melhor que ele, algo que teremos prova em instantes.

Quando Tácito recobrou a sanidade, Magda percebeu que os dois homens na sala estavam ocupados demais em mais uma de suas brigas diárias, dando-a chance de vasculhar o cômodo. O banheiro tinha uma conexão com o quarto e adentrando o cômodo a vampira suspirou aliviada por perceber que a única parte ensanguentada do local era o homem apoiado em seus ombros. Ainda assim seus olhos atentos captaram uma imagem desconexa com a decoração sóbria do local. Uma espécie de manta azul escorregou da pequena abertura do armário seguido de um gemido baixo. Os pelos na nuca de Magda se eriçaram e ela arqueou as costas dando um pulo rápido e silencioso, parando encostada contra a porta a poucos centímetros da manta que ainda se movia displicentemente. A reação de Tácito foi a mesma que sempre exibia quando Magda dava uma amostra de suas infinitas habilidades: ficar boquiaberto e estático.

Com o semblante hostil a vampira mostrou as presas e ágil como um felino esgueirou-se para dentro do armário com um rosnado vindo do fundo da garganta. Nesse momento Tácito já se preparava para chamar os outros dois quando viu a mão da mulher erguer calmamente a manta do chão.

— Sabia que havia algo de estranho nesse cheiro doce no ar – ela falava baixo enquanto saia do local com a confusão de panos em suas mãos. – Veja Tácito, é um bebê! O que raios um bebê faz nesse quarto?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.