Efeito Borboleta
31 Antes da Tempestade

"Seja qual for o rumo que tomarmos, nosso destino está indissoluvelmente ligado à ciência."
(Carl Sagan)
***
Residência Kennedy
Enquanto fazia algumas anotações importantes em seu caderno, Ada acabou cochilando e, somente alguns minutos depois despertou meio desorientada, dando de cara com Leon parado em pé na sua frente observando-a em silêncio.
— Ah meu Deus! Você quer me matar do coração?! — Ela resmunga ofegante encarando-o ainda em choque, depois pisca os olhos quando percebe que ele havia acabado de sair do banho, pois estava com os cabelos ainda molhados, vestia apenas uma calça de moletom, enquanto deixava exposto seu peitoral nu cheio de músculos bem definidos.
— Me desculpa. Eu não queria te assustar. — Ele diz secando os cabelos com uma toalha branca felpuda, completamente alheio ao olhar que ela lhe dá.
— Por quanto tempo você ficou aí... me encarando desse jeito? — Ela retira os óculos que estava usando, depois coça os olhos nervosa.
— Acho que por apenas um minuto. — Ele diz estreitando os olhos como se tivesse tentando se lembrar.
— Você não pensou em me acordar? — Ela indaga ainda desconsertada. — Quer dizer, você sabe o quão bizarro é acordar e dar de cara com alguém te encarando enquanto você está dormindo?
— Desculpe de novo, mas achei cruel te acordar. Você parecia tão calma, menos irritante e, talvez, um anjo. — Ele debocha provocando um revirar de olhos dela. Na verdade, Leon não quis acorda-la porque a achou fofa dormindo. E foi a chance que teve para se aproximar e poder tocar o rosto dela e acariciar os seus cabelos pretos sedosos. Infelizmente, o momento foi fugaz.
— O que você quer aqui? — Ela se espreguiça fazendo os músculos do pescoço até estalarem.
— Ué, vim te chamar pra almoçar.
— Você chegou tarde demais. A hora do almoço já terminou faz tempo.
— Sinto muito. Hoje o dia estava muito agitado. — Ele havia trabalhado horas melhorando a segurança da casa com câmeras e alarmes que espalhou pelo lugar. — Mas, já que o almoço não vai rolar, pensei que... poderíamos jantar mais cedo. E você poderia me explicar sobre... isto... — Ele desvia os olhos para a mesa onde ela estava debruçada minutos antes, há um caderno cheio de anotações dela que imediatamente lhe chama a atenção.
— Ei! — Ela resmunga assim que Leon lhe rouba o seu caderno.
— Você vai dar uma de Sherlock Homes? — Ele a provoca dando uma olhada rápida pelas coisas que ela havia escrito. Ada se levanta e tenta resgatar o seu caderno, mas é óbvio que não é uma boa ideia, pois assim que invade o espaço pessoal dele, se torna inevitável não se distrair com a beleza daquele homem e em como seu cheiro era bom e gostoso. Aqueles azuis retornam a olhar para ela a fazendo engolir em seco e recuar.
— É melhor você... ir se vestir direito, antes que... pegue um resfriado. — Ela tenta desviar os olhos de novo, mas ele se aproxima dela a deixando mais nervosa e, em seguida, lhe entrega o seu caderno.
Depois do jantar eles tiram um tempo para organizar a cozinha. Enquanto Leon termina de lavar a louça, Ada bebe um pouco de vinho e continua o observando. Apesar da situação em que se encontra tendo que compartilhar essa casa com ele, havia uma parte que parecia tornar tudo mais confortável. Talvez, fosse algo sobre esse lugar que a atraía, ou fosse por causa da presença dele.
— Bem, eu já estou terminando. Então é bom você se preparar pra secar a louça.
— Tá chefe! — Ela vira o resto do vinho na boca antes de dar a taça vazia para ele lavar.
— Você é mesmo muito folgada. — Ele brinca enquanto a vê revirar os olhos e ir pegar o pano de prato. Enquanto começa a secar a louça, as luzes piscam, logo, a deixando nervosa.
Na noite passada tinha sido tão difícil fechar os olhos, teve que deixar a luz do quarto acessa a noite inteira e, mesmo assim, só conseguiu dormir quando já estava amanhecendo. Leon sabia que ela estava sofrendo de insônia, sabia que ela passou a noite em claro. A dificuldade dela de dormir também começou a afetar o sono dele. Ele tinha um sono leve, qualquer barulho poderia atrapalha-lo. Além disso, aquela mulher estava sempre em sua mente, confundindo-o e deixando-o sempre preocupado.
Portanto, se o detetive queria ter uma boa noite de sono e, assim, fazer o seu trabalho direito e protegê-la, então, precisava de algum plano para fazê-la conseguir dormir.
— Você tem certeza disso? — Ada estava se sentindo meio desconfortável e ansiosa, enquanto Leon colocava o seu colchão ao lado do dela na sala mantendo, claro, alguma distância segura entre eles.
— Eu acho que a ideia é perfeita. Assim eu também posso dormir tranquilo, sabendo que você está segura do meu lado. — Ele afirma se sentando em seu colchão. — Pensa pelo lado positivo, eu tenho o sono leve e estou sempre em alerta. Se houver qualquer ameaça, eu posso te proteger melhor. — Aqueles olhos azuis a observam, esperando que ela ceda e venha se deitar no colchão ao lado dele. — Você não precisa ficar com medo que eu vá... ultrapassar algum limite. — Ele diz um pouco encabulado ao se lembrar daquele sonho que teve sobre os dois e que o colocou numa situação constrangedora.
— Eu sei... — Na verdade ela não tinha certeza de nada. Ela só desejava não viver constantemente em pânico. — Eu só não quero agir como uma donzela em perigo que precisa ser protegida a toda hora. Isso é tão clichê e não combina comigo.
— Realmente, você não se parece em nada com uma donzela. — Ele debocha a deixando ainda mais irritada, especialmente, ao vislumbrar os lábios dele se moverem quase num sorriso.
— Você tá achando isso divertido, né? — Ada sibila entredentes, olhando ele se deitar no colchão e apoiar a cabeça em uma das mãos, parecendo tão relaxado.
— Se você quiser, é só pegar o seu colchão e voltar para o seu quarto. Afinal, você não é uma donzela em perigo. — Ironiza ganhando um rosnado dela. — Só cuidado para luz não apagar quando você estiver sozinha. — Ela joga o seu travesseiro na cara dele. Nesse instante, a luz da sala pisca de novo.
— Droga! — Ada sabe que não conseguiria ficar sozinha no escuro.
Ada teve que engolir o seu orgulho e ficar por ali mesmo, indo se deitar no colchão ao lado do dele. Ela puxa o edredom, arruma o seu travesseiro e tenta achar alguma posição confortável. O sono parece não querer vir de jeito nenhum. Quando se vira dá de cara com ele deitado de lado a encarando de volta.
— Por que você não me fala sobre aquelas anotações? Gostaria de saber o que a Sherlock Holmes descobriu.
— Bem, ainda é só uma teoria. — Ela decide ficar de barriga para cima, olhando para a lâmpada no teto que havia parado de piscar, assim evitando de encarar aqueles olhos azuis. — Eu estava tentando criar uma linha do tempo, onde todos os acontecimentos estão conectados por uma coisa em comum.
— E que coisa seria essa?
— Um fenômeno que acontece antes da tempestade. — Ada murmura perdida em seus próprios pensamentos. — Então, você se lembra daquele dia em que você me salvou na ponte da Torre do Relógio? — Ela lhe dá um olhar de soslaio.
— Sim. Me lembro perfeitamente daquele dia, como se fosse hoje.
— Então, eu já havia visto esse relâmpago outras vezes. — Uma pequena memória de infância lhe vem a mente. — Uma dessas vezes foi no meu aniversário de 10 anos, quando ganhei um telescópio. — Seus olhos se cruzam brevemente. — Mas, houve uma outra vez que acabou me marcando muito... — E de repente ela hesita, insegura. — Eu estava no meu dormitório e havia acabado de acordar assustada e, sei lá o porquê resolvi olhar pela janela. — Aquela noite sombria tinha sido a mesma noite do assassinato de sua Professora. — Não sei explicar, mas eu senti que... algo ruim tinha acontecido.
— Quando foi isso? — A testa de Leon se enrugou num sinal de apreensão.
— Junho de 2007?
— 2007? — Isso deixou o detetive muito perplexo.
—Sim. — Ela sabia que aquela data também havia marcado tanto a vida de Leon.
— Que ironia. Eu também vi esse relâmpago por duas vezes na mesma noite. — Então, memórias lhe vem a mente sobre aquela fatídica noite:
Naquela fatídica noite do Baile de Formatura, ele resolveu seguir os conselhos de sua mãe e se esforçar ao máximo para fazer a sua acompanhante feliz. Durante a festa, eles beberam ponche, Leon até chegou a dançar e conseguiu fazer Claire se divertir por alguns instantes. Até que alguns garotos resolveram estragar tudo o provocando.
"Leon, espera! Não vai embora!" Claire sai atrás dele tentando convencê-lo a ficar mais tempo.
"Eu quase te machuquei lá." Ele se sente culpado porque no meio da briga, Claire quase se machucou ao tentar interferir.
"A culpa não foi sua, Leon." Ela se aproxima e toca em seu rosto tentando acalmá-lo. Por um instante, eles se encaram.
"Eu sinto muito Claire, mas não vou ficar e estragar a sua noite. Me desculpa." Ele se despede, desajeitadamente, e vai embora. E quando estava retornando para casa, ouviu um barulho de trovão, olhou para o céu e foi aí que viu aquele relâmpago colorido.
— Algumas horas depois... minha mãe acabou sendo assassinada. — Seu tom é tão sombrio quanto as suas lembranças dolorosas. — Ainda me lembro que depois que levaram o corpo morto dela... eu me sentei na frente de casa e... — Dessa vez, Ada se vira para Leon, contemplando a expressão de tristeza estampada no rosto dele. — Eu me distraí olhando, novamente, para o céu e vi pela segunda vez aquele relâmpago.
— Eu sinto muito por tudo o que você passou. — Ela o interrompe se sentindo melancólica.
— Se você sente muito... — Leon a encara com uma expressão sisuda. — Então, me ajude a resolver esse mistério. — Ele tenta substituir a sua dor por determinação. — Qual é a conexão de tudo isso com a morte da minha mãe? E por que essas coisas estranhas continuam acontecendo?
— Bem, já faz algum tempo que eu veio pensando sobre isso e criando teorias.
— E qual foi a sua conclusão? — Leon se sente tão intrigado e ansioso por respostas.
— E se antes das tempestades... um buraco de minhoca se abrisse? — Ela vacila um pouco, antes de prosseguir sob o olhar confuso dele. — Isso explicaria como você e a Sherry conseguiram viajar no tempo... Assim como... o assassino.
— Eu nunca parei pra pensar nisso... — Leon reflete trocando olhares com ela. — Então, você acha que ele é... um viajante do tempo?
— Pensa bem, o assassino vai e vem sem deixar rastros. Ele tem conseguido transitar na nossa dimensão sem que a polícia consiga pegá-lo.
— Já percebeu que isso tá ficando cada vez mais parecido com a história que você criou? — Ele se lembrou do enredo do livro dela e das semelhanças.
— E se houvesse uma prova real de que isso tudo... não é fruto de uma história de ficção científica? — Ela decide se sentar se sentindo meio obcecada com aquelas teorias.
— Que prova? — Agora a cientista já havia aguçado, completamente, a curiosidade dele.
— Você tem que me prometer que essa conversa vai ficar entre a gente. — Seu tom é tenso e inseguro.
— Tá. Eu prometo. — Leon diz sem pestanejar.
— Sabe aquele código que o assassino deixou na minha parede? — A Professora sussurra, nervosamente, olhando para ele que faz que sim com a cabeça. — Bom, em 2007 eu estava ajudando a desenvolver um programa para a criação de... uma máquina do tempo.
— Espera! O tal projeto secreto era sobre... uma máquina do tempo?!
— Sim. Aquele código faz parte do programa que eu criei.
— Essa é mais uma prova que o Assassino sabia sobre o projeto de vocês. — O detetive a interrompe de novo, se sentindo perplexo demais. — Ele deixou aquele código lá como um aviso. — Sua voz é fria e seu olhar é de aço, fazendo-a se sentir insegura. — Quem mais sabia sobre esse projeto?
— Spencer, Will, Becca e eu... — Ela revela com hesitação.
— E quanto a minha mãe?
— Ela nunca foi um membro ativo da equipe, mas ajudou nos primeiros esboços desse projeto. Na verdade a ideia da máquina do tempo, surgiu lá pela década de 80 com Spencer e um amigo dele.
— Que amigo?
— Eu nunca o conheci, só sei que ele morreu faz muito tempo. — Leon guarda essa informação a achando muito relevante.
— Se você estiver certa e o Assassino for um viajante do tempo, então, ele veio por causa dessa máquina do tempo que vocês criaram.
— Não. Nós não chegamos a concluir o projeto. Ele está incompleto.
— Nesse mundo seu projeto está incompleto, mas de onde o Assassino veio...
— Você tem razão. Ele deve ter vindo do futuro, onde a máquina do tempo já foi concluída.
— Do futuro?! — Ele para ao se pegar lembrando de uma memória muito desagradável.
"Ela precisa morrer pelo futuro." Eram as palavras exatas do Assassino após ter atacado Ada.
— E se ele estiver nos caçando porque fizemos uma grande merda no futuro? E se não somos a vítima dessa história?
— O quê? Não! Para com isso! — Leon está confuso e ainda precisa lutar contra as próprias paranoias dela. — Olha, vamos parar por aqui. Isso tudo são apenas teorias. — Ele tenta acalmá-la percebendo como toda essa conversa, ao invés de resolver os seus problemas, poderia causar outros piores. — Vamos tentar dormir agora.
— Mas, Leon...
— Boa noite, Ada. — Leon diz, enfaticamente, se virando de costas e a deixando completamente no vácuo. Toda aquela história era enfadonha demais para a sua mente cansada ter que lidar.
Em contrapartida, Ada não tem outro jeito, senão se silenciar e ir dormir, frustrada e muito irritada com ele. E, enquanto está ali esperando o sono vir, ela acaba pensando, novamente, em Albert Wesker.
Se ao menos houvesse um jeito de vê-lo de novo, talvez, ela pudesse descobrir se Wesker também era um viajante do tempo.
Torre do Relógio
2021
— Você sabe que nos encontrarmos aqui, é muito arriscado. Se alguém me ver com você...
— Ninguém vai descobrir nada. Então relaxa, capitão Barry Burton! — Wesker dá uma tragada em seu cigarro trazendo à tona o seu vício que sempre irritou Ada. — Agora me fala o que conseguiu descobrir sobre a Monica.
— Aqui estão alguns arquivos que peguei sem que o resto dos STARS percebessem. — Burton entrega um pendrive para Wesker que continha as informações que ele tanto queria. — Aí, você vai descobrir que... — Hesita. — Que nesse mundo não importa o quanto você tente procurar por ela, nunca conseguirá encontrá-la.
— Por quê? — Agora Wesker tinha uma expressão muito angustiada.
— Há provas de que uma Monica Birkin foi assassinada em 1989. Assassinada no mesmo dia que Seong-chan.
— Esse é o pai da Ada? — Wesker questiona ainda confuso.
— Sim. Aliás, Monica estava na casa dele quando isso aconteceu. Ela morreu ao tentar proteger a própria Ada.
— Não, não, não! Isso está errado e não faz nenhum sentido! — Nervoso, Wesker praticamente ataca Burton. — Eu me recuso a acreditar que ela está morta. — Vocifera segurando o capitão pelo colarinho de sua camisa. — Se Leon está aqui, a irmã dele também tem que estar.
— Nesse mundo tudo parece distorcido... Pessoas que eram pra estar mortas... estão vivas. — Burton não pôde deixar de pensar em sua esposa e em Leon. — E pessoas que estavam vivas, aqui estão mortas. Aqui as coisas mudaram. E não somente isso, mas as conexões entre essas pessoas também mudaram. — Ele empurra Wesker conseguindo se livrar de seu aperto. — Um exemplo disso é que... NESSE MUNDO, Leon não tem uma irmã. Ele é filho único.
— Droga! Estou preso nesse universo paralelo onde Monica, ou está morta, ou não existe? — Wesker continua a esbravejar.
— Como eu disse, tudo parece diferente aqui. E, logo, você vai acabar descobrindo que, até mesmo a sua ligação com Leon pode ser muito mais profunda do que imagina.
— O que você quer dizer com isso? — Ele se apoia no parapeito olhando para o céu noturno e para cidade que, pouco a pouco, vai se silenciando.
— Veja os arquivos e, então, você vai entender. — O capitão finaliza a conversa e se vira para ir embora. Mas, algo passa pela cabeça dele e o faz se virar e encarar mais uma vez o cientista. — E quanto ao Spencer? O que você fez com ele?
— Não importa!
— É claro que importa! Por sua causa, eu adulterei provas que poderiam te incriminar pelo sequestro do Spencer. Além disso, tenho certeza que a Ada Wong te viu nas gravações do elevador, mas te acobertou. Assim como omitiu outras informações.
— Então, eu devo agradecê-la por me proteger. — Wesker é sarcástico. — A propósito... onde está Ada? Para onde o seu protegido a levou?
— Por que você quer saber?
— Porque, talvez, ela seja a chave para parar o Assassino.
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