Como um adolescente comum de meros 14 descobre ser herdeiro de um passado oculto e repleto de grandezas – e quedas, também – a frente? Normalmente, tais épicos derivam de histórias e mais histórias de vitórias e atos de bondade imensa do herói. Se espera o mesmo nesse caso, vire esse conto e passe para outro.

Por quê? Bem, para começo de conversa, pode-se dizer que, desde cedo, o jovem Edward Conner Shaw era possuídor de grande inteligência, e retórica questionável. Se os pontos excediam para o lado positivo, então ele teve de passar por inúmeras provações em sua vida desde cedo. Através de erros e acertos, Edward fez seu caminho em uma jornada árdua e perigosa. Claro que o intrépido herói precisaria de ajuda no caminho, e em plenos 14 anos, o pequeno rapazote fora responsável, dignamente, de ter salvo o mundo e incontáveis raças.

(Sim, não é para muitos, caro leitor.)

Sente aí e vou lhe contar como tudo começou. Fato é que para entender melhor os acontecimentos da vida desse garoto nada comum, deve-se primeiro relatar tudo passo a passo, antes que seus feitos – embora nem sempre heróicos, infelizmente – sejam apagados por algum mau contador de histórias. Deixarei então, em minha humilde habilidade com histórias, o dever de relatar este conto, pois não só minha importância é fundamental para o enredo, como me foi tudo confiado palavra por palavra.

Sendo assim, sem mais delongas e partiremos para história – e já um adendo: sempre estive presente por aqui e sou uma exímia contadora. Não se preocupe, caro leitor.

Relatório Da A.S.H

Usuário : blackFoxy237

Relatório da Agente: Shaw, T. B

Caso: Morgana

*

Capítulo I

Caminhos Desencontrados

*

O paranormal

Edward odiava a escola. Sim. Com todas as forças — não por ter péssimas notas. Muito menos por perder seu tempo lá. Ao contrário, as notas eram aceitáveis e haviam qualidades em ficar horas naquele lugar. Problema era todos ao seu redor. Não conseguia encaixar-se em lugar algum.

Os jogadores já estavam ocupados — não que quisesse estar em seu meio, na verdade. Não fazia papel de um nerd, e os que já estudavam lá eram tão bobões a ponto de dar vergonha alheia ao pior dos nerds, se isso fosse possível. Os descolados não faziam exatamente sua área, e eram antipáticos demais para o garoto desejar sua mera companhia.

O que lhe restava, por fim, era sentar na arquibancada do campo entre os intervalos das aulas e mergulhar no seu próprio caderno e seus desenhos.

Alguns jogadores treinavam no campo perto dali. Garotas riam e espiavam os garotos, mandando beijinhos entre risadinhas bobas. Era o único lugar onde conseguia sentir paz durante as aulas — isto é, quando sua amiga não estava por perto suficientemente para ajuda-lo a ficar longe dos enormes jogadores encrenqueiros.

— Oi – uma voz familiar disse, por cima da música alta em seus ouvidos. — Tá fazendo o que aí, ô enfurnadinho?

Selina sentou-se ao seu lado, mordiscando uma barra de chocolate.

— Ah... — ele tirou os fones. — Oi!

Selina Stoker era em outras palavras, caro leitor, sua melhor amiga de infância e intrépida aventureira em nosso conto, mas isso é, para todos os efeitos, coisa para outra hora. Por enquanto, uma pequena história para situar melhor a jovem garota seria ideal.

Fato é que tudo começou quando sua familia se mudou para a cidade por questões de trabalho e negócios da empresa. Seu pai, o Sr Stoker, era sócio e amigo de longa data de Howard Shaw, pai do nosso querido herói. Portanto, as relações familiares passaram para a próxima geração. Selina era basicamente uma das unicas amigas que o garoto poderia possuir de valor naquela escola. Afinal, não fora outro que o salvou dos valentões de jogar sua cabeça na privada na quinta série, certo?

Claro, pelo que acabei sabendo, ter sido salvo por uma garota não era exatamente terapêutico para ele, mas ao menos o deu alguém com quem conversar nas horas livres entre as aulas. Era isso, ou dividir o almoço com babacas do time de futebol.

Seus cabelos eram negros profundos, cortados antes mesmo de alcançar o pescoço. Eram lisos e escondiam com uma mecha a cicatriz que cortava boa parte seu olho esquerdo. Os olhos eram intensos, fortemente sombreados, o que não combinava com os piercings em suas orelhas. A pele era branca como leite, aflorando ainda mais o destaque de seus olhos heterocromáticos. Selina Stoker era sinônimo de curioso em carne e osso. Era curiosa em muitas formas diferentes.

— Fala aí, encucado! Problemas com os valentões de novo?

Edward deixou o caderno de lado.

— Não mesmo. Esse problema já superei, obrigado.

— Nossa! Um brinde à evolução do rapaz.

— Digo, deixando meus problemas de lado, não estava de viagem? — ele a encarou. — Achei que sua viagem ainda iria durar uns 2 meses... Ou algo do tipo?

— É, mas sabe como é... — a garota rolou os olhos. — Coisa do papai. Ele vai e vem com essas reuniões do trabalho quando bem entende. Acontece que no fim, eu nao podia deixar de estar aqui pro meu melhor amigo, né? Não é todo dia que se sobrevive mais um ano na escola.

Edward mal pôde falar — um objeto o atingiu na cabeça, tirando-o do assento — Edward só pôde sentir, segundos depois, a friagem do gramado ali abaixo. Tudo que viu quando ergueu os olhos foram os seus velhos colegas — embora colegas fosse um termo forte – do time de futebol as risadas, se aproximando às risadas.

Jake Miller, o maior e certamente o mais adorável do time, agarrou a bola do chão.

— Ihh... — ele sorriu, em escárnio. — Foi mal, Shaw. Não vi que vocês não terminaram o papo. Se soubesse que você estava com sua namoradinha...

Selina saltou ao chão, mãos nos bolsos. — Perderam apenas a bola ou o juízo de vocês também foi para o buraco, garotos?

— Olha lá, ele precisa da namorada pra defender ele! — um dos garotos riu. — Dá um tempo, Shaw. Aprende a criar marra e deixar de depender dos outros pra te proteger.

— Mas não preciso dela pra deixar um de vocês com olho roxo, Miller – Edward limpou suas roupas, irritado. — E então? Quem vai ser o primeiro?

Um deles o apertou como um gatinho, segurando-o pela nuca e o erguendo no ar.

— E agora, o que vai fazer, Eddie?

— Parem com isso, é serio – Selina alertou. — Larguem ele. Agora.

— Ou? — Miller provocou — Vai fazer o quê, gatinha? Por que perde tempo com um cara desses? Você se encaixa na zona dos descolados, não sabia?

Naqueles momentos, Edward não entendia porque perdia a consciência. Como se tudo apagasse e ele voltasse com lapsos de memória. Simplesmente ocorria.

Uma vez, quebrou o tornozelo ao cair da bicicleta – quando seus pais o acharam, metade do jardim estava desfeito, as flores amassadas e destruídas, como se um mini furacão houvesse passado e aberto um circulo no solo. Outra ocasião, Edward apagou por segundos minutos sem ter percebido, e quando voltou a si, bem... digamos que o melhor conjunto de xícaras de sua mãe estava aos cacos.

Era sempre assim: sua mente abria brechas ao que pareciam meros segundos ou as vezes, até mesmo minutos. E naquele momento, não foi diferente. Seu sangue fervilhou, assim como seu punho. E ele não sabia como havia feito aquilo. Quando voltou a si, Miller estava no chão, segurando seu braço que parecia seriamente fora do lugar. O nariz estava sangrando, e ele encarou Edward com olhos flamejantes.

— Tá morto, Shaw! — rosnou entre dentes. — Tá morto! O treinador vai ficar sabendo disso! — gritou antes de correr dali, ao lado dos amigos.

Selina parou a seu lado, olhos arregalados. Soltou um assobio impressionado.

— Ok...

— Ok... — ele engoliu em seco. — “Ok” o que?

— Quer me contar como fez isso?

Ele encarou o rastro de grama desfeita no campo – ele nunca fora muito bom em sistema metrico, mas sabia reconhecer uma boa distancia de mais de 3 metros quando via uma.

— Sinceramente... — ele suspirou. — Eu tô ferrado. Só sei que tô ferrado.

— Por que? O que é pior que aquele babaca do Miller?

Edward suspirou, rindo baixinho.

— Tá na cara que você não lembra da minha mãe, né?

*

— Mas eu não--

— Sr. Shaw, acredito que um braço quebrado de um aluno não é "nada". — a diretora o olhou incisivamente, apoiando-se na mesa. — Algo aconteceu.

Ele bufou.

Nada aconteceu...

— Um braço quebrado não é prova suficiente? Os colegas do Sr Miller de prova não são suficientes?

— Sim, seriam... — Edward resmungou. — Mas eu me pergunto algo mais curioso...

— E o que seria?

— Como um dos seus melhores jogadores do time foi arremessado por um garoto de metade do seu tamanho por uma bela distância? É, sinceramente, é uma vergonha pro time, não acha?

— Sarcasmo é intolerável, e seu comportamento é prova definitiva de sua pessima conduta nessa escola, Edward. Srta. Evelyne, creio que ficou clara como água a indisposição de seu filho para seguir as regras e respeitar outros por aqui.

— Eu já disse... — ele pediu, cruzando os braços. — Eu não o machuquei, ele começou, basta perguntar à--

— Mentiroso. — a mulher retorquiu, bruscamente. — Está mentindo, Edward. E sabe disso.

Fechou o punho. Antes que ele pudesse dizer algo, seus olhos severos viraram para a mãe. Mesmo calma, era como se seus olhos flamejassem tanto quanto os dele. Ou, no minimo, apenas concordando silenciosamente com a diretora.

A diretora encarou Eveline, irritantemente ajeitando a gravata.

— Estamos decididas sobre o comportamente de Edward, senhorita Shaw?

— Mãe...

— Sim. Estamos. — assentiu. Ela levantou-se rapidamente, sem olhar para o filho. — Estamos muito entendidas, obrigada.

A diretora abriu um sorriso satisfeito, como se tivesse vencido uma guerra.

— Ótimo.

Engoliu em seco. Sempre que ela não olhava em seus olhos, aqueles olhos castanhos cerrados, a mão estralando os dedos ao mesmo tempo — era péssimo sinal. Do tipo de alarme vermelho. Sua mãe era calma e controlada — mas quando explodia, era assustador.

A Diretora os guiou até a porta. Para uma adulta, a Diretora abriu um sorriso cinico ao garoto.

— Até outro dia, Sr. Shaw. Até.

— Vamos, Edward. — Evelyne suspirou. — Antes que eu perca a paciencia aqui mesmo.



Na porta da casa, Evelyn parou o carro e o encarou. Não era tão falastrona quanto o marido, mas sabia reconhecer quando algo incomodava o garoto. Ainda mais quando o filho não dizia nada o caminho todo. Era péssimo sinal.

— Quer dizer alguma coisa, Edward?

O garoto grunhiu.

— Não, obrigado. Eu sou culpado, Meritissima. O caso foi encerrado.

Evelyne tamborilou pacientemente no volante.

— Outro comentário sarcástico desse e seus dentes serão adereço no meu porta jóias, Edward.

O garoto recolheu-se.

— Tá... Tanto faz. Mas eu adoraria ter visto um soco bem dado naquele rosto sarnento. A senhora podia ter pego pesado com ela. Lembra daquele diretor da outra escola? Aquilo foi legal de assistir.

A mãe virou-se para o volante e sorriu discretamente.

— Não seja tão convencido. Eu poderia tê-la reprimido ali mesmo. Mas não seria um exemplo de mãe, seria?

— Seria sim. Quer dizer que o exemplo ideal é ignorar minha palavra e confiar naquela diretora irritante?

— Se não tivesse machucado o garoto, eu teria o ouvido – sua voz baixou o humor bem humorado. – Ser mãe não se trata se confiar cegamente no filho, Eddie, se trata de fazer o que é melhor para ele, quer ele saiba quer não.

Ele nada disse, por fim. Em outra época, talvez, esperaria uma exasperação ou ums resposta rápida. Na verdade, conhecendo bem o garoto, Evelyne estava acostumada ao humor do filho. Era tão cabeça quente quanto o pai. Tão indomável quanto ela mesma. E tão... Ela não gostava de admitir, mas era inegável. No fundo, Edward podia ser tão teimoso quanto a irmã.

Antes de deixar o carro, ela o puxou pelas mãos com um olhar severo.

— Só direi uma coisa, Eddie – a mulher suspirou. – Quero que pare de agir assim. Se não eu, sabe como seu pai age. E sabe bem como ele é. Não queremos causar mais problemas em nossa casa do que já possuímos.

Ele encarou a janela, e foi como seu olhar achasse seu pai dentro de casa, o esperando para um castigo.

— Tá, entendi. – ele murmurou. — Eu entendi. Sem mais confusões. E que problemas? Sinceramente, desde que a Claire nos deixou, a casa está tranquila que é uma beleza.

E sem olhar mais para a mãe, bateu a porta e caminhou apressadamente para casa. Evelyne estava prestes a dizer algo, mas permaneceu quieta. Afundou o rosto nas mãos. Sentiu-se sufocada. Ergueu os olhos ate o retrovisor e assustou-se – virou-se para o banco de trás.

Não havia ninguém. Era apenas sua imaginação visualizando aquele rosto jovial que bem conhecia. Mas era claro que ela não estava ali. Fazia anos que não dava sinal de vida. Sem olhar para trás, Evelyne correu para casa, ouvindo a voz estridente em seus ouvido. Nostalgia a preencheu da pior forma.

Um fantasma do passado pareceu ter dito em seus ouvidos:

“As coisas não vão muito bem, não é? Diz que mandei lembranças pra ele por mim... Mamãe.”

***

Era sempre o mesmo pesadelo. A mesma lembrança enevoada.

Aquela noite era sempre represada em sua mente. Em seus pesadelos. Era sempre a mesma cena – Claire carregava suas coisas nas costas, o rosto tão furioso para os pais quanto ele lembrava. A chuva era torrencial do lado de fora. O temporal daquele noite estáva tão vivida quanto lembrava-se.

Não importavam as tentativas de uma jovem governanta da familia, Eda, Claire não estava desejosa a permanecer. Até que empurrou a garota. Eda caiu sem jeito no chão, as lágrimas correndo por seu rosto, enquanto os olhos castanhos da filha eram intensos, furioso — algo que fez Edward permanecer sobre a escada, longe da discussão.

Nunca vira a irmã daquela forma.

— Faça o que for, Claire – a voz de Howard estava embargada de decepção. – Mas nunca, jamais volte pra essa casa. Não depois disso. Nem pense...

— Howard , espere, não faça isso. – Evelyn entreolhava a filha e marido, piedosa. – Claire, meu amor, sabe o que está fazendo... Quer mesmo isso? Vai mesmo nos deixar?

Um trovão explodiu do lado de fora. A tenpestade se intensificou, parecia acompanhar o humor da garota em sua frente.

— Agora estão piedosos comigo? Depois de tudo? – sua voz fraquejou. — De transformar minha vida no inferno? Agora estão pedindo que eu fique?

— Quer mesmo isso? – Evelyne suspirou e apontou para cima. – E seu irmão? Quer mesmo deixar Eddie sozinho ? O que ele vai pensar? Ele não pode acordar amanhã e ver que sua irmã sumiu.

Edward baixou na escada, silencioso.

— Ele a admira mais que todo mundo, Claire – Eda enxugava as lagrimas – Ele te adora! Por favor, não faz isso...

Claire escancarou a porta. Outro trovão piscou no céu.

— Adora? Adora? Tudo que ele fez foi atrasar minha vida! – ao ouvir aquilo, Edward engoliu em seco. – Aquele pirralho só... – uma lágrima rebelde escapou de Claire. — Aquele pirralho só me deu trabalho. Toda. Minha. Vida. Sabem o pior de tudo?

Ninguém disse nada. O rosto de Howard tomou feições decepcionadas, e Evelyne negava com a cabeça. Eda engoliu o choro, parecendo murmurar um “não” quase inaudivelmente.

— É que tudo isso é culpa de vocês. — a garota disse. — E eu estou indo embora. E não estou nem aí pro Edward. Voces são ótimos pais, não são? — seu tom era de ironia. — Cuidem dele. Não precisam de mim.

Antes de sair, Claire atravessou os olhos pelos pais. Encarou a escada e como se desejasse ter dito há tanto tempo, lançou um último olhar a Howard. A voz saiu junto de um sorriso.

— A propósito, o pivete tá na escada.

E a garota sumiu na escuridão da noite, tempestade adentro. Aquele foi o último vez que Edward vira sua irmã. Ele só queria ter a notícia de que ela jamais voltaria para aquela casa desde então. Talvez ele não devesse ter esperado por ela noite após noite. Perder a ínfima esperança que a irmã retornaria por aquela porta para pedir desculpas. Ele não havia crescido nem um pouco? Ela teria vergonha de saber aquilo, sem dúvidas. Uma gota caiu em seu rosto. Depois outra, seguida de um real trovão em seus ouvidos.

Então despertou.

Sentou na cama e massageou os olhos. Podia ouvir o vento zunindo do lado de fora e as folhas roçando a janela. Seria uma chuva forte. A chuva estava mais forte do lado de fora. Sentiu-se idiota por olhar, mais uma vez, para o corredor de seu quarto lá fora. Talvez, olhando agora, fora um decisão idiota ter esperado tanto.

Dessa vez, Edward não deixou-se chorar. Segurou suas lágrimas e desceu as escadas para um copo d’água.

Ele não precisava dela. Era definitivo, prometeu a si mesmo.

***

A Bruxa

Gwen tentou não rir enquanto lia aquela folha. Só não sabia se ria de graça ou nervosismo. O que mais parecia um poema que ela tentava decifrar ou ria por ser tão bobo quanto as historias dos livros infantis que sua avó já leu para ela.

"Na aurora do 16º aniversario

Sua sina se fará realidade

Quando a conquista inevitável

Do próprio reino, ser intolerável

O final do genocidio, decidido deves ser

Por tuas mão, como previsto de seu verdadeiro ser

Tua outrora natureza, deve então abdicar

Se quiser teu destino, no fim do dia

Prolongar"

Ela riu a si mesma.

— Ok… Ou alguém manda muito bem em rimas, e quis partilhar comigo, ou alguém deixou a ala psiquiátrica pra trás e precisa de ajuda…

Por alguma razão na ultima semana, alguém decidira inundar sua caixa de correio com correspondências sem nenhum remetente. No inicio, a garota pensou se tratar de algum vizinho estranho aficcionado com RPG’s e coisas do tipo. Talvez, até seria. Mas as coisas começaram a ficar frequentes demais. Estranhas demais.

Contatara a policia em busca de alguma luz. Saber se mais alguém recebeu aquele tipo de coisa, se era parte da lista de algum maniaco serial killer por ai que Gwen não vira noticias na TV. Quem sabe, por que não? Resultado: ninguém mais recebera tais cartas. Nada do tipo. Sem remetente, sem caligrafia identificada. Nada que pudesse elucidar a questão. Era melhor fechar melhor as portas quando fosse dormir, ela anotou mentalmente. Virou a folha; do lado inverso, uma letra estilizada deixava uma mensagem.

"De uma admiradora secreta! Olá, Gwendolyn! Ou devo dizer, Gwen? Faz tempo que não a vejo. É uma pena que tenho de comunicar dessa forma limitada, adoraria falar com você pessoalmente, mas não posso. Mamãe disse que é muito arriscado, e papai concorda — e não posso contrariá-los.

De qualquer forma, como foi seu aniversario de 13? Aposto que está muito feliz! Queria lhe dar meu presente, mas vou esperar pelo momento certo. Você não sabe ainda quem eu sou, mas logo saberá. No devido momento.

Me espere! Eu estou ansiosa!"


Gwen não conseguiu evitar de olhar pela janela, e inconscientemente, encolheu-se no mesmo lugar. Ok, pensou. Aquilo já estava estranho demais para seu gosto. Juntou as folhas e enfiou no balcão apressadamente. Ela só tinha de esquecer aquilo, ela suspirou baixinho. Só esquecer aquilo. Voltar a sua rotina normal. Nada de cartas estranhas. Nada de mensagens de desconhecidos. Tudo que ela devia fazer era esperar como todo santo dia algum cliente passar por aquela porta e pedir alguma coisa.

A lojinha da avó era um ponto de comércio ótimo para aquele tipo de coisa. Livros, revistas de época, coisas antigas que certamente toda pequena cidadezinha e seus moradores precisavam. Pena que aquela não era uma pequena cidadezinha, e pena ainda maior que as coisas não iam tão bem.

Na verdade, ainda estaria em seu tempo regular na escola se não fosse o tempo ocupado entre afazeres escolares e gerenciar o negócio da sua avó.

E claro, não fosse a enfermidade crescente da idosa. A combinação perfeita certo? Errado. Se não deveria ser difícil para outra pessoa , era difícil para uma garota como Gwendolyn Blake, cujos talento sociais eram extremamente baixos. Pena que a vida não era um video game. Seria muito mais simplificado.

Puxou uma latinha de refrigerante e voltou ao tedioso livro que deveria fazer uma análise. Gwen ergueu os olhos quando dois clientes entraram na lojinha.

Eram extremamente curiosos. Para não dizer engraçados. Dois baixinhos, gorduchos e barbudos, andando em passos apressadinhos. Um deles ajeitou o boné e levou até um balcão algumas latas de refrigerante.

Não fossem as roupas tipicamente comuns de caminhoneiros – uma camisa xadrez, uma calça camuflada e um boné laranja escrito “Serviços Do Arf e Compania”, ele não pareceria nada comum naquelas redondezas. Além claro, daquela enorme tufo vermelho sob seu queixo.

O outro, que carregava um machado, decerto de lenhador, espichava-se para dar uma espiada na seção adulta.

— Que está olhando, mocinha? – o primeiro apoiou-se com esforço no balcão.– Pareço engraçado?

A garota segurou um riso.

Melhor não arranjar encrencas no próprio trabalho. Não era a melhor opção afastar os poucos clientes que possuia. Então segurou a língua , ainda que não o fizesse mentalmente.

Quem raios havia deixado dois gnominhos de jardim fugirem de casa?

— N-não é nada, senhor…

O anão esticou a cabeça pelo balcão e cruzou os braços gorduchos.

— Não parece “nada”, mocinha. Vê algo em mim que me torne engraçado?

Gwen ergueu as mãos em rendição. Melhor parar por aqui enquanto eu estou por cima. Ela tirou alguns doces de um potinho como segunda estratégia.

— Não é nada senhor... me desculpe se me entendeu errado – disse Gwen, segurando um sorriso e entregando as balas ao nanico. – Aqui está. Volte sempre e obrigado! – sorriu, nervosamente.

O homenzinho a lançou um olhar desconfiado, mas rendeu-se àqueles balas. Abriu um sorriso amarelo para o companheiro.

— Obrigado, mocinha! Vê, Grunt ? Com um pouquinho de educação e diálogo, tudo se resolve.

— Verdade, Short – o nome parecia cair bem para o homem, não maior que o amigo. – Bem se vê que a educação não se passou com o tempo.

O baixinho chamado de Short puxou a revista, os doces e deu um ultimo “adeus" antes de dar sair da lojinha, em murmúrios com o colega. O outro, que parecia carregar um pequeno machado, o acompanhou em passinhos apressados.

O sol estava à se por. O horizonte alaranjado já se fazia presente, os raios tingindo as janelas das casas. Esperou mais alguns minutos, contando que algum outro cliente parasse naquele lugar por mero azar – o que até seria aceitável , ainda que certamente nem um pouco digno para a garota. Lembrou -se dos infinitos trabalhos que deveria apresentar na outra semana – e gemeu de preguiça.

Ótimo. Entre dividir o tempo com o trabalho e escola, não restava tempo para nada adequadamente. Abriu o caderno e passou os minutos restantes vagando os olhos pelos complexos números, poemas e uma infinidade de textos e dados sobre fórmulas que certamente jamais utilizaria em sua vida.

Coçou as pálpebras. A cabeça doia. Segurou sua frustração – E só não quebrou o balcão pois seu celular tocou no exato momento.

— Alô?

— Gwendolin Blake?

— Sim? Sou eu.

— É do hospital Sr. Mormount.

O coração da garota acelerou, fazendo-a apertar o celular com força.

— Sim...? – murmurou, nervosa.

— Perdoe o incômodo, mas pedimos que mantenha a calma. Desejamos que venha visitar sua avó assim que possível. Ela vem passando mal constantemente, e como único membro presente da família, sentimos necessária para acalma-la um pouco.

— Sim, Sim, com certeza... – Gwen assentiu prontamente, não sabendo se devia ou não sentir-se mais tranquila. Coçou as pálpebras e suspirou. – Quando eu puder, a visitarei o mais rápido possível, eu prometo.

— Agradecemos a compreensão e passar bem.

Gwen fechou o celular lentamente, ainda presenciando seu mundo virar. O coração ainda palpitava em seu peito. Sua avó... Era a única coisa que ainda podia chamar de família. Não bastasse os azares inúmeros em sua vida, não lembrava-se nada de seu pai, a não ser, claro, uma ou outra memória borrada.

E sua mãe? Se algum dia tivera uma, serviu apenas para lhe trazer ao mundo e deixa-la com uma avó enferma e sem um pai responsável. A vontade imensa de quebrar a janela lhe percorreu, mas estava cansada demais pra isso. Seriam apenas mais gastos desnecessários.

Decidiu fechar a loja e encerrar aquela noite por ali. Sumiu em meio a noite que se formava no fim da tarde, pegando o atalho para o hospital o mais rápido possível.

Talvez, por um momento, estava tão ocupada em seus pensamentos que dobrou a esquinha e esbarrou no primeiro que ali passava. Aquela figura estranha chocou-se contra ela – a silhueta esguia estava oculta sob um curioso manto desgastado cinza.

A única coisa perto de visível na escuridão eram os fios de cabelo castanhos escapando do manto. O rosto era jovial, redondo, mas era parcialmente oculto sob o tecido.

A voz que saiu era estranhamente familiar, ainda que não conseguia lembrar de onde já ouvira. Parecia um tom rouco, agudo e cansado.

— Fique com isto – algo pesado e denso foi empurrado contra seu estomago.

Gwen tateou o objeto prontamente. Um livro, ela percebeu. O relevo em marcas de imagens era seguido por uma capa azul marinho; detalhes prateados ao redor do livro, certamente algo antigo dada a cor das páginas já amareladas.

— Será importante para você. — a moça disse, misteriosamente, apertando suas mãos. — Guarde-o.

— Como assim? — Gwen entreolhou o livro e a garota. — Por que importante? O que é isso?

Ela riu.

— Ah, mas você sempre foi curiosa. Me esqueci desse detalhe... Não é, Gwendolyn?

— Você… Fala como se me conhecesse.

— Ah, mas eu a conheço. Bem até demais… Mas de qualquer jeito, não importa agora. No momento, você irá entender. Confie em mim. Você me conhece muito bem também. E eu conheço você também. E só uma coisa – a figura deu outra risadinha. — Lembre-se de usar seu perfume de rosas. Sempre. Ele adora, sabia? Ajuda com a primeira impressão.

— Quem é você? — a olhou, perdida. — Espere… É você quem me mandou essas--? — baixou os olhos para puxar as misteriosas cartas, mas quando voltou-se a moça, ela não estava mais lá.

A rua estava vazia. E em suas mãos, restava apenas aquele livro misterioso. Quando o frio percorreu sua pele, Gwen abraçou a si mesma e apressou o passo para sua casa.

***

O Fidalgo

Oeste europeu

1895



— Vamos Jason! – a voz ressoou meio as sombras da noite.

No topo da colina, o jovem fitou a casa ao longe. Já estava suficientemente distante para falar alto outra vez. Estavam próximo era campina grande, longe o suficiente dos domínios dos pais. A residência podia ser vista ao longe, na escuridão dos bosques além da vila. A principio, Jason não achou boa ideia seguir o companheiro – nas logo percebeu que queria aquilo tanto quanto Edwyn.

Então, longe das vistas dos pais, Edwyjn puxou o amigo pela cidade e garantiu a melhor das noites em sua vidas quase seculares. Ora, não era todo dia que Jason completava 100 anos, certo?

Era um evento único, e como tal; merecia ser apresentado a altura. Por isso, o jovem Jason B. Stoker saiu as vistas da família e pegou o caminho até a pequena bola próxima.

As luzes das casas podia ser vistas. Passaram pela entrada principal, logo avisando A isolada vila, típica de um lugarzinho do interior. O som da agitação e luzes de um bar os atraiu, como mariposas pela luz. Onde quer que estivessem, seus pais nem imaginaria no que o filho estava aprontando — isso era certo.

O bar estava lotado, bem como suas bocas, secas e sedentas. Então, apertando os braços ao redor do amigo, Edwyin olhou em volta, deliciando-se com a vista.

— Então, Jason, isso é que é ser adulto, meu caro. Onde esteves por esse tempo? Preso em tua casa? Seus pais não o deixavam aproveitar a vida?

— Eu tenho menos de um século – o vampiro explicou, apenas para ouvir o outro rir em em seguida.

— Exato! – disse, animadamente. — E já está mais que na hora de agir como tal. Já és um homem feito, ainda que não pareça exatamente um.

Olhou-o dos pés à cabeça, comprovando o fato. Realmente,não parecia nem um pouco um adulto – se tinha 100 anos, a aparência não conduzia com sua idade nem um pouco. Dentro das roupas bem passadas e elegantes do rapaz, tudo que via era um garoto de cabelos bagunçados e dono de pouca experiência de vida.

Bagunçou os fios de cabelo desalinhados do vampiro e lambei os dentes.

Aquela noite seria, certamente, inesquecível. Jason logo pegou-se abonado- uma moçoila atraiu seus olhos do outro lado do bae. Era exótica, bonita como Jason jamais tinha visto; sentada em uma mesa as risadas. O mar azul enigmatico em seus olhos era inebriante, seus filhos loiros curtos belos como nunca vira uma dama.

Mas claro, qual bela dama não afetaria a vista daquele jovem vampiro? Edwyn bem sabia que tratando-se de vivência, apesar dos pesares, Jason não era o não recomendado para falar no assunto.

Ele jamais saira muito de sua casa — fora sempre recluso em seus domínios sob ordens de seus pais. Percebendo o olhar no garoto, Edwyin forçou um empurrão no garoto e abriu um sorriso moleque.

— Não vais falar com ela, Jason? Ou o medo o atingiu como uma estaca de prata? – sussurrou.

— Claro que não! – Jason bufou, orgulhoso. — E-eu.. Eu a convidarei para conversar, sim. Eu falarei com ela, só espere e verá!

— Vá lá, então. Eu ficarei aqui esperando, meu amigo. Vendo onde isso vai dar.

Jason se afastou; em claras tentativas de interagir com a garota. Ele faria aquilo . Ele era um homem. Quase um século de vida. Por que falar com uma moça haveria de ser tão complicado, certo? Edwyn tomou um assento em uma mesa próxima e puxou uma garrafa ali jogada, molhando a garganta com a sede insaciável.

Lambeu os lábio. Haviam tantas pessoas. Era tão.. atrativo. A vida corria cheio naqueles corações pulsantes, naqueles pescoços. Não virou o rosto. Era sua natureza. Ignorou o rapaz Jason, e fixou os olhos em cada vileiro que bebia, ria e conversava.

Então, Edwyin deixou-se mergulhar em seus desejos.

***

A Loba



— Ah, que ótimo... Essa não vai pro dia da foto.

Limpou os cortes e encarou-se no espelho.

Escondeu as marcas Por baixo da mecha loira. Já era de dia, por sorte. Não conseguiria encarar os pais depois daquilo – estava com medo apenas de encarar o céu e perder o controle outra vez.

Triss decidiu consigo mesma , em seu íntimo pessimismo: era oficial.

Ser um lobisomem era, sim, um saco.

Não era legal como nos filmes, tampouco era recompensador. Tudo que ganhou nos últimos tempos foram marcas, noites sem sono e mais marcas. Para completar, uma espinha nojenta estourou em seu nariz. Era o cúmulo da vergonha.

Algumas batidas na porta lhe tiraram atenção do espelho.

Trissie, querida! O café está na mesa, não se atrase para a escola! Sei que está em uma idade complicada... Mas não demore muito no banho, hein?

— Certo, certo... – a garota resmungou, saindo do banho aos tropeços. — Sempre assim...

15 anos. 15 anos e sua mãe ainda a tratava como numa criancinha. O que tinha certamente suas vantagens, claro. Café refeições sempre era mordomia, assim como ela não precisava mover um dedo dentro de casa. Se para alguns era o sonho, quase o era para Beatrice Moon.

Mas não completamente. Era insuportável, na verdade, e não haviam previsões de quando seus pais mudariam tal comportamento.

Desceu e encontrou a família na cozinha – o pai, infame amante de esportes como era, dividia os olhos entre o jogo da semana passada e o jornal de notícias. Compulsiva como a mãe era, estava tentando limpar a cozinha de modo impecável.

Triss rolou os olhos com a com a cena e sentou a mesa. Será mesmo que ela era a mais normal da família?

Qualquer um constataria que a única normal e razoável naquela casa era a filha. Mas claro, esse sentimento de normalidade perdeu-se quando ela lembrou que virara um canino gigante bípede noite passada. Deu um gole no café e pôs seus óculos discretamente, dividindo a atenção entre o café e a TV.

Sim, oficialmente, ser um lobisomem é um saco.

— Vamos lá, seu lesado! – seu pai batalhava contra a TV. — Joga essa bola! Pra que está sendo pago, seu idiota?

— Abaixe o volume, querido! – resmungou a esposa. — Não temos nenhum bárbaro nessa sala! Não sei por que homens perdem a compostura tanto por esse tipo de coisa. Somos pessoas, não animais.

Triss quase cuspiu o café ao ouvir aquilo, citando os olhos por cima da xicara. Não perderia tanto tempo em casa. Não se significasse passar mais tempo ouvindo aquelas baboseiras dos pais – então aguentou mais alguns minutos, agarrou um pão com a boca e correu para a porta.

— Até mais, pessoal!

— Bom dia querida – gritou a mãe, sorridente na porta. — Tenha uma uma boa aula! Te amo!

— Tá, tá, acho que te amo também... – A garota saiu aos murmúrios.

A porta bateu quando a garota saiu. O volume baixou. Jonathan virou-se da poltrona, a tempo da esposa sentar ao seu lado.

O sorriso sumiu e tomou forma em um olhar serio na esposa. Um silêncio expectante preencheu a sala por alguns segundos.

— Viu as marcas? – ele fechou o rosto. – Acha que ela...?

— Sim... Eu acho. E ontem foi lua cheia não foi?

— Foi – o marido tornou-se soturno. – Exatamente ontem. E não vi outras marcas como aquela antes de hoje mesmo.

— Acha que não conseguiu esconder dessa vez, nossa Triss? – a mãe se preocupou. – Ela anda cada vez mais cansada de manhã. Está sempre com olheiras. Deve sair por aí a noite toda, correndo pelas ruas. A coitadinha não nos diz nada!

— Deve estar com medo de falar algo, tenho certeza – Johnathan concluiu.

— Também pudera, querido. Claro que não nos contaria, de jeito ou de outro. Não é como se fosse a descoberta da puberdade, é? Estamos falando de licantropia aqui!

A possibilidade de tal ocorrência era o que assustava ambos. Sabiam de licantropia — sabiam bem até demais, na verdade. Subitamente, seus rostos trocaram uma expressão de puro alívio. De satisfação. Num pulo, Anna saltou aí marido e o envolveu em um beijo contente , quase de rosto fanático. Apaixonado e satisfeito até os ossos, Jonathan comemorou com a esposa.

— Acha que ela estará pronta para isso, querido?

— Creio que sim. Nossa Triss é uma mocinha crescida já. – o marido encheu-se de orgulho. — Ela agirá como adulta, e entenderá sua importância no plano superior, eu tenho certeza...

— Sim, eu também acho! – a moça assentiu e regojizaram-se em felicidade. Orgulho da filha. Orgulho por ser parte de algo superior. Agora era apenas questão de avisar o grande Sábio. Sim. Ele saberia o que fazer.

Anna esboçou um grande sorriso e correu até o telefone. Enrolava o fio em excitação, esperando a voz surgir do outro lado.

— Saudai-o, grande senhor da Lua! – sussurrou Anna, fielmente. — Quem fala é Anna Moon. Sinto que temos boas notícias para lhe dar, eu e meu marido. É sobre o plano da grande deusa, senhor!

Uma pausa seguiu -se por alguns segundos.

— Magnifico! — a voz então, suspirou. — Guardem tudo para depois, cara Anna. No devido momento, devo verificar sua filha. Se ela é mesmo a criança correta. A criança que trata a nova era à esse mundo. Sob o jugo da grande deusa, Ela servirá e tratá o mundo a eventos maravilhosos!

Tudo que definiria na mente de Anna era felicidade.

— Ótimo! Quando podemos reunir um encontro?



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.