Eduardo Ravelo No. 70
5 O abismo
Notas iniciais
Uma brisa gélida percorreu o quarto naquela manhã. Red abriu os olhos lentamente e ficou a observar o céu nublado através da janela. Lizzie ainda dormia sobre seu peito. Ele acariciou-lhe os cabelos, com cuidado para não acordá-la. A vontade dele era ficar ali o dia inteiro, mas os negócios o aguardavam. Cuidadosamente, ele afastou Elizabeth e se levantou. Aproveitou para juntar as peças de roupas que estavam no chão e soltou um sorriso ao se lembrar da noite passada. Naquele momento, seus pensamento foram interrompidos pela vibração do celular sobre uma mesa ao canto.
Elizabeth que até então, estava dormindo, se despertou com o barulho. Abriu os olhos e percebeu que ainda estava sem roupa e coberta pelos lençóis. Red estava de costas para a cama, sem blusa e pela primeira vez ela pôde ver o que eram as marcas irregulares, que ela havia sentido na noite anterior. Ficou em choque olhando, pois a cicatriz tomava as costas inteiras do homem. Reddington continuava a falar no telefone e não percebera que Lizzie havia acordado. Ela se levantou e se aproximou dele. Com a ponta dos dedos, tocou o dorso do homem. Keen sabia que ele estivera lá, na noite do incêndio, mas queria saber como ele havia ganhando aquela enorme marca.
Red sentiu o toque e continuou de costas. Temeu qual seria a reação de Elizabeth naquele momento, pois com certeza ela lhe faria uma enxurrada de perguntas.
– ...ok, Jason, em breve estarei ai. Entrarei em contato. Disse Red encerrando a ligação e se virando para encarar a agente.
Elizabeth o encarava como se esperasse por uma explicação, que não veio.
– Red, eu sei que você estava lá naquela noite, mas o que realmente aconteceu? Eu quero saber de detalhes. Essa cicatriz nas suas costas, o que significa isso?
Red tentava fugir do olhar voraz de Lizzie.
– Lizzie, eu não posso contar mais do que você já sabe. Disse ele vestindo uma camisa de mangas longas e de cor branca.
Elizabeth puxou-lhe pelo braço com uma força assustadora e fez Red encará-la.
– Já chega, Raymond. Eu quero saber porque você estava lá naquela noite.
–Lizzie, você duvida que tudo que eu tenho feito, é somente para protegê-la?
– Mas Red, eu preciso saber! Disse Elizabeth, que mantinha as unhas cravadas no braço de Reddington.
– Desculpe, Elizabeth. Eu não posso responder isso. Como sempre disse, as respostas virão. E você sabe que elas sempre vem.
A agente balançou a cabeça negativamente, como forma de reprovação ao que acabara de ouvir. Red percebeu que seus olhos começaram a ficar lacrimosos, mas ela disfarçou. Lizzie sentia uma raiva imensa quando tentava arrancar a verdade de Red, mas ele sempre se desvencilhava. Aquilo abria um abismo entre eles. Ela se vestiu enquanto ele a observava.
– Lizzie... Sussurrou Reddington tentando se aproximar dela.
– Não toque em mim, Red. Você não sabe o que eu tenho passado. Você sempre me vem com essa mesma história de proteção. Para mim, chega! Eu to cansada de tudo. Um passo para frente e três para trás. Enquanto consigo a resposta para uma questão, surgem mais três perguntas, que ficarão em aberto porque o único homem que pode respondê-las, simplesmente me ignora.
– Meu único objetivo é proteger você, Lizzie. Pode me odiar por isso.
Naquele momento, Dembe bateu a porta e entrou.
– Bom dia! Cumprimentou com discrição. — Já está tudo pronto, Raymond.
– Ok, obrigado. Elizabeth, Dembe levará você para o QG da Força Tarefa, ou para casa. Você decide. Ele está a sua disposição.
– Não se preocupe comigo, eu me viro sozinha. Resmungou Elizabeth, que juntou suas coisas e saiu furiosa do quarto.
Red respirou fundo, colocou os óculos escuro e também saiu do quarto. Foi até o lado de fora da casa e viu que Elizabeth tentava fazer uma ligação com o aparelho móvel.
– Seu celular está sem sinal, Lizzie. Não vai conseguir sair daqui a não ser que aceite que Dembe a leve.
Elizabeth coçou os olhos e pediu paciência aos céus. Guardou o celular no bolso e entrou no carro. Dembe já estava do lado de fora também aguardando por uma definição de Keen. Enquanto o veículo era manobrado, ela não conseguia encarar Red, que observava, de pé, a sua partida. Uma raiva enorme a preencheu. Ela lembrou da vez que enfiou uma caneta no pescoço de Raymond, logo nos seus primeiros dias de trabalho na força — tarefa. Não queria machucá-lo daquele jeito, mas tinha vontade de dar uns tapas em Reddington. Principalmente porque depois da noite passada, ela chegou a achar que eles teriam uma dose bem maior de cumplicidade.
Quando surge a decepção, o abismo entre o amor e o ódio se estreita.
...
Os dias foram se passando e Ravelo ia se tornando cada vez mais escorregadio. Red havia se afastado um pouco de Elizabeth Keen. Em alguns momentos entrava em contato para passar informações importantes, mas nada além disso. Ela sentia falta dele,mas sabia que tinha sido rude na última discussão. Algumas vezes, chegava a lembrar da noite de amor que tivera com ele e tinha vontade de repetir aquilo, várias e várias vezes. Mas a situação entre eles era complicada, principalmente pelas omissões de Red. E o sentimento que ela tentava transparecer todas as vezes que falava com ele, era indiferença. Lizzie não queria demonstrar vulnerabilidade.
...
Em uma noite de quinta-feira, Elizabeth chegou em casa por volta das 21:00 horas. Abriu uma garrafa de vinho e deliciou-se de uma taça. Sentou no chão da sala e aproveitou para checar o celular, mas não havia nenhuma ligação. Pegou o controle remoto, ligou o som e apoiou a cabeça no sofá. A música que começara a tocar parecia ideal para o momento.
Seria cômico, se não fosse trágico. Pensou
Things have gotten closer to the sun (As coisas ficaram mais perto do sol)
And I've done things in small doses (E eu tenho feito coisas em pequenas doses)
So don't think that I'm pushing you away (Portanto, não pense que eu estou empurrando você para longe)
When you're the one that I've kept closest (Quando você é o único que eu tenho mantido o mais próximo)
...
Na mesma cabana onde estivera pela última vez com Elizabeth, Red estava sentado diante da lareira tomando um copo de whisky. Nos últimos dias, ele estivera mantendo negócios com criminosos do mundo todo. Precisava alimentar as aparências, mas seus pensamentos eram consumidos todos os dias pelo rosto de Lizzie. Sentia falta dela, mas havia dado um certo distanciamento, à fim de evitar mais discussões. Ele estava com um pista importante sobre Ravelo, e conversaria com todos no dia seguinte, no quartel general da força — tarefa. Pegou o celular e pensou em repassar somente para a agente, mas preferiu deixar para falar com ela no dia seguinte, pessoalmente.
...
Na manhã seguinte, Elizabeth chegou no QG um pouco mais cedo do que o normal. Ficou um tempo conversando com Ressler e foi informada de que entrariam em reunião em 20 minutos.
– Precisamos achar onde estamos deixando a desejar, Lizzie. Ravelo vem escorregando há tempo entre os nossos dedos. Protestou Ressler.
Toda vez que Elizabeth ouvia falar o nome daquele criminoso, ela lembrava dos dois belos socos que ela havia levado. O ferimento já havia cicatrizado, mas ela não via a hora de capturar Ravelo. Os pensamentos da agente foram desviados quando Aram aproximou-se com dois copos de café.
– Trouxe um para você, Elizabeth.
Naquele instante, a agente não conseguiu sequer agradecer a gentileza de Aram. Sentiu uma forte náusea e ânsia de vômito. Correu para o cesto de lixo mais próximo, e expeliu toda a sua refeição matinal. Ressler correu para ajudá-la.
– Você está bem, Elizabeth?
– Sim sim. Acho que o suco que tomei hoje não me fez muito bem. Disse ela se recuperando. Não demorou muito até que Aram chegou com uma garrafa d'água, e alguns lenços de papel para Lizzie. — Obrigada, Aram! Agradeceu.
– Todos na sala de reunião. Agora! Ordenou Cooper.
– Então eu cheguei na hora certa!
Naquele instante, todos se viraram e viram Reddington, que acabara de sair do elevador.
– Finalmente resolveu dar as caras, Raymond! Debochou Cooper.
– Eu não tenho o hábito de falar com você, Cooper. Meu contato é com Elizabeth Keen. Pessoa da qual eu sempre tenho conversado. Se não pessoalmente, o celular dela tem vários registros de ligações minhas. E a propósito, devo lembrar-lhe que sou um criminoso, preciso manter as aparência. Senão, essa força-tarefa simplesmente deixará de existir.
Para concluir, Red sorriu de forma duas vezes mais debochada do que Cooper, que deu as costas e seguiu para a sala de reunião. Elizabeth estava se recompondo e abriu a garrafa que Aram havia lhe trazido; tomou um gole e seguiu para sala. Red o acompanhou.
– Bom dia, Lizzie. Cumprimentou. Elizabeth olhou por cima dos ombros e retribuiu.
– Bom dia, Reddington.
– Você está bem? Vi que você...
– Eu estou me sentindo um pouco doente. Interrompeu, Lizzie. — Mas vou melhorar.
Depois disso, ela abriu a porta da sala e encerrou o assunto com Red. A reunião tinha como objetivo trazer à tona quais as informações sobre o paradeiro de Ravelo. Reddington havia descoberto que um dos principais negociadores do criminoso, mantinha um negócio de fachada no centro da cidade.
– Adam Rubrick. Ele é um dos distribuidores das drogas de Ravelo. É esse homem que vocês devem procurar.
– Adam Rubrick, ex — membro do corpo da polícia militar americana. Trabalhou durante muitos anos na corpo de policiamento na fronteira entre os Estados Unidos e o México.
Informou Aram, que acabara de puxar a ficha do homem pelo laptop.
– Ok. Ressler e Keen, vocês seguem até o endereço informado por Red. Preciso estar ciente dos avanços na investigação.
Com a ordem, os dois agentes se levantaram e saíram da sala.
– Keen, pode me aguardar lá embaixo. Disse Ressler.
Elizabeth seguiu rumo ao elevador, e viu que Red também estava descendo. Se mantiveram por alguns segundos calados, em um silêncio que parecia barulhento demais para os dois.
– Lizzie, eu espero que em algum momento você me compreenda.
– Eu também espero, Red. Aliás, eu espero compreender muita coisa.
Naquele momento, o elevador do QG chegou ao térreo. Elizabeth deu as costas e saiu.
– Melhoras e boa sorte. Disse Red, colocando o seu icônico chapéu.
As atitudes de Lizzie estavam o machucando, mas ele não podia obrigá-la a nada. Seria melhor ter uma Elizabeth zangada diante da sua proteção, e viva; do que responder a todas as questões no momento errado, e tê-la sob um túmulo. Mórbido, mas era a pura verdade.
...
A equipe do FBI invadiu o comércio indicado por Reddington. Era um restaurante simples e que nunca levantaria nenhuma suspeita. Ao chegarem no local, um homem de aproximadamente 50 anos tentou fugir pelos fundos. Era exatamente Adam Rubrick. Ressler correu e conseguiu alcançá-lo. Foram apreendidas drogas, de todos os tipos, e armas de fogo; em um cômodo escondido próximo à câmara frigorifica do estabelecimento. Adam foi colocado dentro de um furgão do FBI, que seguiu acompanhado por outro veículo onde estavam Elizabeth e Ressler.
Cerca de três quarteirões depois, quando estavam retornando para o QG, Lizzie pegou o celular e ligou para Cooper informando do sucesso na operação. Pouco tempo depois de encerrar a ligação, um veículo colidiu de forma descontrolada sobre o furgão onde estava Adam. Ressler freou bruscamente. Naquele momento, vários homens armados desceram de um segundo e terceiro automóvel, e abriram fogo contra o carro onde os agentes estavam. Donald não hesitou e deu ré, na esperança de conseguir sair vivo da situação. Eram muitos homens e dois agentes não seriam suficientes para detê-los. As balas atingiram os pneus do carro, que derrapou e colidiu em um muro. Elizabeth levantou-se e viu toda a ação dos homens. O prisioneiro foi tirado, arrastado até a rua e acertado com vários tiros na cabeça. Logo em seguida, os homens seguiram rumo ao veículo onde os agentes estavam.
– Saíam do veículo com as mãos para cima. Ordenou um dos homens.
Ressler e Keen sabiam que não podiam fazer muito, por isso, obedeceram. Um dos homens se aproximou de Donald e deu-lhe uma forte pancada na cabeça, que de imediato caiu no chão desacordado. Um quarto veículo apareceu e um homem alto, de cabelos lisos e pele clara, desceu e seguiu rumo a Lizzie. Ela o reconheceu, e sentiu um enorme medo percorrer seu corpo.
Ravelo
–Nos encontramos novamente, agente Elizabeth Keen. Agora vamos concluir o que começamos.
Naquele instante, Lizzie sentiu um forte golpe acertar-lhe em cheio na cabeça e tudo se tornou escuridão.
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