Eduardo E Mônica
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Ainda mais porque vocês todas boazinhas, comentando e até me mandando recomendações e eu demorando. Tortura pra mim porque mereço. Um agradecimento especial a Lucy Lima, que me mandou a segunda recomendação, sério, obrigada pela confiança e pelas palavras e por estar até agora comigo, haha. Obrigada, Lucy ♥ Obrigada a todas por não desistirem (espero que não tenham desistido rs), suas lindas.
Eduardo
Acordei atrasado para a escola. Cambaleando entre tropeços, as mãos na frente para não bater de cara na parede. Ouvi passos no corredor e avistei Maria Eduarda, quase pronta, com as mãos na cintura visando a porta marrom clara no meio do corredor. Atrapalhados, corremos disputando quem chegaria primeiro ao banheiro. Entrei segundos antes de Maria Eduarda chegar a porta, que ficou a esmurrando, pedindo passagem. A garota tinha 11 anos, pelo amor de Deus, já tinha tomado banho, vestido o uniforme, como assim ainda precisava terminar de se arrumar? Eu por outro lado estava todo cagado, um bagaço, quase inconsciente e ainda me arrumaria em menos tempo que ela.
— Eduardo, ainda é a minha vez! — Ela gritou com sua voizinha estridente. Abri a torneira, de olhos fechados.
— O banheiro estava vazio quando entrei. — respondi, grogue. Tentando abrir um olho de cada vez, ainda meio tonto. Abri a torneira, jogando água fria no rosto, desliguei. Abrindo os olhos, respirando fundo. Tirei minha bermuda de dormir e a cueca em um só movimento e liguei o chuveiro, esperando ele esquentar.
— Saai, Eduardo!
— Desiste! — Chutei a porta de leve e a ouvi resmungar. Decidi usar o argumento que nós dois usávamos como trégua. — Já ‘to pelado, tem certeza que quer entrar?
— Babaca! — Ela resmungou e a ouvi se afastando. A primeira vitória da manhã, pensei.
Entrei no banho, lembrando subitamente que eu estava atrasado. Eu era verdadeiramente imprestável pela manhã. Mais do que imprestável, na real. Lamentei não ter dormido na casa de meu pai. A distância da casa dele pra minha escola é mais longa, logo, não daria tempo e eu não teria que ir me enfiar naquele caldeirão de tédio. Bati a cabeça de leve na parede, me sentindo extremamente cansado. Escovei os dentes rapidamente, dando pequenos tapas na cara, tentando me animar e despertar. Afinal, era sexta-feira. Para que deixar o mal humor poluir meu dia?
Terminei o banho, respirei fundo, tentando armar um sorriso falso e me enganar que acordar cedo era bacana. Desisti, isso para qualquer pessoa é uma missão impossível, os ombros arriando. Me vesti no meu quarto, chutando as coisas pelo caminho, nem querendo pensar no que minha mãe iria dizer ao entrar e dar de cara com minha bagunça empoeirada. Olhei o relógio, porra, e desci as escadas correndo, a mochila balançando pelas minhas costas. Minha mãe fazia o café da manhã sonolenta, Alexandre animado ajudava-a, sua alegria matinal era quase irritante, podia ver que minha mãe pensava a mesma coisa pela boca cerrada dela.
— Bom dia, Eduardo. Lindo dia, hã?
— Claro, claro. — revirei os olhos para Alexandre, que riu.
— Bom dia, mamãe. — Dei-lhe um beijo, abraçando-a com um braço e roubando sua xícara disfarçadamente enquanto ela não via e me virei, tomando um grande gole. Ela percebeu, crispando a boca, levemente irritada, mas meio divertida.
— Deixa de ser folgado, moleque.
— Obrigado, mãezinha. — Beijei-a, novamente indo para perto da mesa. Levando a xícara comigo.
— Devolve meu café e pegue uma xícara pra você. — Ela resmungou, remexendo os ovos.
— Estou atrasado. — Roubei uma torrada do prato de Duda, que revirou os olhos, já acostumada. Terminei o café deixando na mesinha de centro, enquanto as duas mulheres da casa me xingavam e Alexandre ria.
— Até mais tarde, povo! — gritei. Desaparecendo porta a fora. O dia estava fresco, o sol leve no horizonte. Corri para a parada de ônibus, não querendo andar as 5 quadras que separavam minha casa da escola. Tive sorte, o ônibus passou na exata hora que eu parei no ponto. Comecei a me sentir mais desperto. A cafeína zumbindo em minhas veias.
O caminho foi comum, conhecido e rotineiro, me passando uma sensação de tranquilidade e sonolência, que ia embora com os risos estridentes das garotas a minha frente, algumas me lançando uns olhares, nada demais. Bocejei levemente, a maioria dos estudantes descendo comigo na próxima parada. Éramos os atrasados. Os renegados. Os rebeldes. Os com despertador quebrado. Os inúteis. Andei rapidamente, passando as garotas, decidindo entrar pela secretária, do outro lado do portão da escola. Cumprimentei minha professora de Inglês que me ajudou a entrar sem problemas. Eu não estava tão atrasado ainda, ainda dava pra ver o fluxo de alunos entrando pelo portão, que ainda nem ia ser fechado.
Alguém esbarrou atrás de mim e dei de cara com Beatriz. Os cabelos estavam presos em duas tranças, ela havia deixado o cabelo mais roxo durante o fim de semana. Pintado ou qualquer merda dessas que garotas fazem. Estava estranhamente bonito.
— Ai, foi mal Eduardo. Tropecei. — Ela riu baixinho, recolhendo os papéis do chão.
— Atrasada?
— Sempre... — Ela riu. — Você também. Cadê a Mônica?
Putz, Mônica. Tinha esquecido completamente dela. Quis me bater por isso. Íamos nos encontrar na entrada, eu garanti isso a ela. Eu garanti isso durante muitos dias essa semana e não cumpri nenhum deles. Definitivamente, sou um babaca. Pensei que pudesse me salvar se o portão tivesse fechado, ela não perderia aula, entraria. Não sei nem de onde vinha essa preocupação repentina. Mika nunca ficava brava comigo. Relaxei instantaneamente com minha autoafirmação.
— Ela já deve ter entrado e tudo mais.
— Ah, sim. Sem dúvida. — Ela sorriu, ajeitando a aba do fichário no ombro. O rosto expressivo seguia por minhas feições. Beatriz era alta e esguia, com curvas bem proporcionadas, os seios fartos comprimidos contra a blusa do uniforme, o número um pouco menor do costume, o cinto com tarraxas estava jogado solto e sem cuidado de lado pela cintura, o jeans largo na parte superior apertava-se em sua panturrilha, os pés com uma sapatilha que mostrava as unhas dos pés pintadas à cor do cabelo, o roxo berrante. — Eduardo?
Voltei a olhar para seu rosto, que me alisava agora de forma divertida. Corei levemente, acabei analisando a garota descaradamente e nem me toquei.
— Seria uma boa eu achar a Mônica.
— Ah, claro... — Ela começou a andar vagarosamente ao meu lado. — Ouvi falar que você curte quadrinhos.
— Pois é.
— Eu também. — Parei, a analisando confuso. Mika gostava de quadrinhos também e vivíamos em discussões intensas. Pensei se existisse outra garota que conseguiria fazer isso, de forma tão eficiente quanto minha namorada, é claro. Mika acaba com meus argumentos em um piscar de olhos, de forma quase irritante, mas adorável. — Comecei a pouco tempo. Não sou tão boa. Alguns termos são tão...
— Idiotas? É, são mesmos. É a parte mais legal — Ela riu.
— Animes também?
— O que? — perguntei, confuso.
— Você gosta...?
— Ah, sim — Quis me bater pela minha lerdeza. — Animes são o máximo.
— Devia me apresentar alguns.
— Claro, tenho muitos, coleções. As que estão na estante e no meu computador também. Gasto muito com isso sem querer, minha mesada às vezes não é suficiente. Sem contar os jogos. Porra, eu amo jogos — tagarelei. Ela riu baixinho.
— É estranho...
— Seja mais específica. Tudo em mim é estranho.
— Não... — Ela riu. — Um garoto com... Porte atlético e meio geek.
— Ah — ri sem graça.
— É legal. — Ela se curvou levemente na minha direção enquanto falava, me deixando sentir o cheiro de seu perfume forte e cítrico. — Gosto disso.
— Uma das poucas raras garotas — Ela riu baixinho e eu com ela. Então ela olhou para o lado e começou a acenar. Segui seu olhar, confuso. Mika estava próxima ao portão da escola, ainda aberto. Seu rosto estava confuso e atrapalhado. Então reparei na situação. Mônica provavelmente estava me esperando todo esse tempo. Durante todo o tempo que eu conversava com Bia. E agora ela me via aqui, rindo com Beatriz. Me encolhi, quando vi seu rosto avermelhar-se levemente, mas se tornando impassível, tentando adivinhar seus pensamentos.
~*~
Mônica
Será que existe mesmo alguém que goste de acordar cedo? Nas férias eu até gosto, pasmem-se, acordo pra fazer meus exercícios, tomo banho e durmo até as três da tarde. Curto bem meu tempo livre, uma maravilha. Mas acordar durante o ano letivo... Argh, é praticamente um ritual de tortura. Tomar café sem sentir o gosto, aguentar o caminho até a escola tentando não tropeçar de sono e morrer atropelada e passar o resto da manhã aguentando pessoas que você mal suporta e ainda tendo que pensar. Tendo que armazenar e produzir conhecimento.
Quer dizer, a escola é insuportável, em grande parte. Tirando o fato que eu adoro aprender, amo aprender, por isso sou considerada nerd. Minha vida escolar não é uma droga tão grande, sabe? Tiro ótimas notas, sou sortuda de ter facilidade em aprender, apesar de minha tendência disléxica a trocar palavras e travar a cada redação... Tenho amigas, muito poucas, colegas e alguns amigos que tenho que tornam a escola essa coisa divertida e blá blá que todo mundo sente falta. Pra mim povo sente falta da escola depois de se formar é porque acabou e somente isso. Mas ok. Eu tenho amigas, não fico potencialmente excluída, mesmo nenhuma delas sendo exatamente íntima. As garotas falam comigo, eu sou a Mika conselheira, aquela que ouve as lamúrias de metade das meninas do segundo ano. Na verdade, é legal ouvir as experiências delas, de certa forma me dá um alívio por não ter problemas com meu namorado. Tirando que agora eu tenho O problema. Quer dizer, não era um grande problema, afinal de contas comparado a minha casa a escola era o paraíso, meu refúgio, o único lugar que eu poderia me refugiar com Eduardo, porém nos últimos tempos... Eduardo começara a se esquecer de me esperar para ir para as salas. Ele se esquecera durante os últimos dias dessa semana. Tanto que cheguei adiantada querendo achar ele antes que ele entrasse e ele estava atrasado. De novo. A história de nossas vidas. Era estranho começar a comparar o silêncio da escola com o silêncio da minha casa. Um silêncio recheado de gritos e o outro que sentia falta de vozes.
Suspirei, sozinha, pois todas as minhas colegas já haviam entrado. Beatriz surpreendentemente tinha me feito companhia por alguns minutos. Fingi que não sabia que ela não estava esperando Eduardo comigo para me fazer companhia, eu era bem fingindo. Só não era tão boa quanto ela... Então, após esse curto tempo, magicamente ela decidiu ir à secretária fazer sabe-se lá o que, dando toda a volta na escola.
O tiozinho do portão me avisou que já iria fechar. Sabia que eu era ‘nerd’, não uma das mocinhas que gostam de cabular na frente da escola, uma coisa que eu acho bem idiota na verdade. Abaixei a cabeça, resignada, entrando na escola e pensando se Eduardo teria dormido na casa do pai e por isso se atrasado pela milésima vez. Caminhando, vagarosamente, pelo pátio, perdida em pensamentos... Qual não foi minha bela surpresa ao encontrar Eduardo rindo com Bia?
Ela sorriu para mim e acenou. Fiquei vermelha com seu gesto, vendo sua mão esticar a ponto de tocar levemente a blusa de Eduardo, de tão próximos que estavam, sendo que o tapado provavelmente nem sequer notara isso. Com meu olhar, ela recolheu a mão, sorrindo amigavelmente para mim.
— Oi, Mika!
— Oi... — Eduardo se aproximou; se curvando levemente para me dar um selinho rápido. Passou as mãos pela nuca, confuso, enquanto eu o encarava.
— Eu... eu achei já tinha entrado. Pensei que já devia estar aqui dentro. — Conversando com Bia... completei em pensamento.
— Fiquei esperando por você. — expliquei, a voz meio rouca de um nervosismo que me inquietava. Percebi o ciúme fechando minha traqueia levemente. Minha antiga confiança indo para o espaço.
— Sinto muito. Eu me atrasei e...
— Eu entendo. — O interrompi, sabendo exatamente o que tinha acontecido. Olhei para Beatriz. Então ela não tinha contado a ele que eu estava o esperando feito uma tonta. É, descobri muito sobre essa tal Beatriz agora. Ela sorriu para mim e eu para ela. Parecia até uma declaração de guerra. Eduardo, tonto, mal notou.
O sinal tocou, fazendo Bia pular levemente, quebrando o contato visual.
— Ah, tenho que falar com Samuel. Vejo você no intervalo Eduardo e você na sala, Mika. — Ela acenou, o rosto se tornando doce, enquanto ela se afastava.
Eduardo me puxou costumeiramente pela mão, seu aperto frouxo, enquanto seguíamos para nossas salas. Queria puxar assunto sobre algo. Sobre aquele filme no cinema que ambos queríamos ver. Sobre seu trabalho de literatura, qualquer coisa. Mas esperei ele falar. Nos últimos dias ele não me fizera quase nenhuma pergunta. Eu contei. Eu era patética e contei mesmo cada pergunta... Nenhuma significante. Paramos em frente a minha sala. Esperei Eduardo se virar e me beijar, mas ele se limitou a dizer:
— Até mais tarde. — E ir embora. Ele nem se virou para olhar para mim. Nem pra isso o filho da mãe prestou.
Me abracei, me sentindo sozinha. Lembrando subitamente das perguntas que meu padrasto fizera esta manhã a minha mãe: “Vai mesmo estragar o que temos?” . “Vai desistir?” “Se não, porque não cala a boca e me deixa em paz”? Me perguntei o que era pior: 1 ser tão insignificante a ponto de não receber nenhuma pergunta que se pudesse responder, 2 não ter a resposta sem perder uma parte de si mesma, ou 3 ser tão covarde e não ter a coragem de perguntar. Balancei a cabeça, eu não tinha resposta nem para isso, entrando na minha sala. Enterrando uma por uma minhas mágoas contra Eduardo. Era... Apenas... Uma fase dele.
Sentei no meu lugar de sempre. As meninas ao meu redor acabando por me distrair, entrando na conversa. O professor mal se importou com a conversa, deixando os exercícios complementares da aula anterior na lousa. Ri baixinho de Laís falando de sua experiência com Douglas. Alguém bateu na porta... Beatriz apareceu, ofegante, como se tivesse corrido até aqui. Falou com o professor rapidamente e sentou ao meu lado na nossa rodinha. Sorrindo.
— Perdi a hora. — Ela se explicou enquanto todas as garotas a olhavam interrogativas. — Fiquei conversando na porta com os alunos do 2°B e perdi completamente a hora.
Ela sorriu, fazendo o assunto voltar a Douglas e patati patatá. Algo pesou em meu estômago e rosto esquentou. Edu era do 2°B. Observei ela conversar calmamente com as meninas, como se já fossem amigas há séculos! Certo, agora era oficial... Beatriz é uma nojenta. Não só porque dava em cima descaradamente do meu namorado... Ok, era por isso. Quer dizer... Ela era um amor com todas, até comigo. Mas eu nunca fizera nada contra ela pra ela ser tão descarada assim em relação a mim. Estava nessa escola há menos de duas semanas. Eu fui delicada, eu fui gentil, tentei fazer com que ela não se sentisse excluída, até ela querer enfeitar minha testa descaradamente. Eduardo é um cara atraente, blá blá, blá, mas será que ela não percebia que ele era meu? Quase todas as garotas respeitavam isso, a maioria eu sabia que já tinha tentado antes, mas quando viam o que eu e Eduardo tínhamos... Se afastavam rapidamente. Ela fora a primeira a ser tão invasiva, tão descarada, tão... falsa.
Me afastei da conversa, me isolando no resto do meu dever de matemática. Senti alguns olhares curiosos em mim, diante de minha hostilidade e resguardo recente, mas me convenci de que isso não me interessava. Não mais. Agraciei o sinal para o intervalo, não sabendo se aguentaria mais um minuto com meu professor de Química. Se existe uma matéria mais torturante que Química, por favor, não abra meus olhos para essa matéria encapetada, porque pra ser pior que Química o negócio deve ser tenso.
Eduardo me esperava no portão, um sorriso distendendo seu rosto bonito, quase como antigamente, sorri de volta e ele me puxou para si, me beijando com cuidado. Derreti de alívio ao ver sua expressão de carinho de volta ao seu rosto.
— O que houve? Porque está animado, subitamente?
— Nada demais, ué. — Ele sorriu. — Só que o dia está lindo.
— Dia lindo? — O olhei desconfiada. Ele riu, me entregando sua coca cola.
— O professor de História faltou e... Samuel está inspirado hoje. Desde a entrada fazendo piadas, juntou gente até do primeiro ano na nossa primeira aula vaga hoje, incluindo a Bia. Foi engraçado. Impossível ficar mal humorado depois de uma conversa entre aqueles dois, confie em mim. — Meus ombros murcharam e eu revirei os olhos. Ah, tinha que ter Beatriz no meio. — E você?
— Duas aulas de matemática e uma de Química. Estou tão feliz que o poder da minha aura poderá corromper qualquer animal fofo, delicado e puro e o converterá a maldade eterna.
Eduardo gargalhou do meu comentário ácido, beijando minha bochecha.
— Você também está engraçada hoje. — Sorri, incapaz de ficar muito tempo chateada diante daquele sorriso. Claro que meu alívio de ver Eduardo agindo como sempre foi passageiro. Beatriz logo chegou animada, trazendo sua corja de admiradores atrás de si. Rafael, meu colega de sala, repetiu um ano e era um dos caras bonitos da escola, meio agressivo e bad boy, do jeito mais bad possível, mas era sempre muito, surpreendendo toda a nação feminina da escola, gentil comigo. Antônio, quase da mesma raça de Rafael, só que mais submisso. E Samuel, o rei das palhaçadas.
— Você também estava querendo se suicidar durante a aula de Química, Mônica? — Beatriz perguntou, sorrindo.
— Sem dúvida. — respondi, mantendo minha pose de bem educada. Eu nem devia estar tentando fazer pose. Eu sou bem educada, eu consigo ser educada até mandando ela a merda. Sério.
— Como um professor pode ser tão mal humorado?
— É um mistério... — respondi, não muito a fim de conversa. Todos notaram isso rapidamente. Ela se virou para Eduardo.
— O que vão fazer hoje?
— Sei lá, ficar em casa, assistindo um filme... — Eduardo sorriu, dando de ombros. Subitamente, me animei com a possibilidade de assistir o filme ou não assistir o filme. Corei levemente com a possibilidade de ter atenção física, relacionado a beijos, é claro, de Eduardo. Ele tinha uns 10 anos de experiência nisso comigo e confiem em mim, ele é bom nisso.
— Isso não é muito tedioso? — congelei com a afirmação de Bia. — Deviam sair com a gente. Abriram um barzinho no centro. Super bacana. Vai ter uma festa de inauguração.
— A uma da tarde? — perguntei, incrédula.
— Não... É umas 9 horas. Mas podemos matar o tempo por parques e talz, depois chegar no bar e fazer um esquenta, curtir depois a festa. Vai ser bacana. Sei que a Mônica não gosta muito disso, então você poderia ir, Edu. Tenho certeza que sua namorada não vai se importar. — A olhei indignada. Eduardo, finalmente, glória ao senhor, percebeu meu desconforto.
— Acho melhor não. Obrigado.
— Eduardo não iria querer nos lugares que a gente vai, Bia. Muito careta pra isso. — Rafael disse, meio ríspido. Piscou para mim rapidamente, Eduardo boboca, mal notou.
Me perguntei o que teria acontecido se eu tivesse sido babaca e aceitado a proposta de Rafael a uns três meses atrás. Largar o Eduardo e ficar com ele. Pelo jeito patético, hostil e ciumento dele e olhando para o braço enrijecido a minha volta protetoramente, dava pra ver que escolhi bem. Queria que Eduardo tivesse percebido isso, que a provocação não era necessariamente por causa de mim... Qual seria a cara dele se ele soubesse que Rafael estava me provocando com o joguinho de “olha o que você perdeu, herp derp”. Provavelmente relaxaria e não estaria tão tenso assim. Vida tirana.
— Onde é vocês vão que é tão legal assim?
— Ah, coisa de garotos... solteiros. — Rafael disse, evasivo. — Não se preocupe, Eduardo. Bom filminho com a Mônica, vamos apresentar uns lugares da cidade pra garota nova. Rafael piscou para Eduardo, e sorriu para mim. — Vejo você no resto da aula de Química, Mônica.
Sorriu para Eduardo e, enquanto se afastava, soltou uma risada de puro... deboche. Me encolhi, me sentindo levemente culpada. Segui o olhar de Eduardo até dar de cara com Beatriz, no meio dos garotos, rindo como se fosse um deles. Ela olhou para Eduardo, mordendo os lábios ‘culposa’, um convite claro. Me senti tremer de irritação me apertando a Eduardo, como uma daquelas garotas idiotas e inseguras. Eu era idiota e era insegura naquele momento. Eduardo se desvencilhou de mim, atestando que precisava ir ao banheiro. Fiquei parada, sozinha, até ele voltar. Nessa altura o sinal já tinha batido, a coca em minha mão tinha perdido o gosto e eu tremia de indignação e despeito. Eduardo não notou as lágrimas em meus olhos, simplesmente, sem sequer me olhar, me puxou de volta para a sala de aula.
Eu poderia ter sido esperta. Potencializado minha raiva nas duas horas seguintes enquanto fingia que ouvia o falatório insinuante de Rafael, podia ter dado corda para ele, ou até me vingado. Podia ter feito tudo isso, mas não fiz. Podia ter planejado como soltar minha mágoa em Eduardo enquanto ouvia Beatriz roubar vagarosamente minhas amigas. Podia ter feito tudo isso, mas fui tola. Me reprimi, novamente... Por medo de perdê-lo, sendo que já estava perdendo.
Saí da escola disposta a ser paciente e recuperar a atenção de Eduardo. A mostrar a ele que seria divertido ficar comigo também. Disposta a não abrir mão dele facilmente. Mas num relacionamento, cedo demais você descobre, que não depende só de você. Enquanto eu me enchia de paciência e força de vontade, me recheava de amor... Eduardo não fizera a mesma coisa. Devia estar pensando no que iria perder assistindo um filme chato comigo. Novamente e novamente. Era demais para minha pobre cabeça ter noção disso, quiçá para meu coração. Quer dizer... Eu ainda era tonta o suficiente para querer que ele fosse feliz. Seria pedir muito que continuasse a ser comigo?
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