Notas iniciais
Eu disse que ia postar antes, mas meu computador deu problema e tive que eliminar logo o Pacote Office porque tava muito danificado, blá blá. E eu não queria postar o capítulo sem antes passar pelo Word. Então formatei meu pc idoso e ta tudo normal de novo. Vou procurar ser mais rapidex. Capítulo grande pra ver se compensa. U.u
Não, mas sério. Vocês são demais. Já recebi uma recomendação! Da linda da Cherry, nem sei o que dizer. Eu fiquei bem feliz, cara. Maior de legal sua recomendação. Rs Obrigada mesmo, do fundo do coração. Awn ♥

Mônica

Comecei a batucar na minha mesinha de centro, esperando meu computador, absolutamente obsoleto, ligar. Mas ainda demorava. Queria colocar uma música e esquecer a gritaria lá embaixo. Desisti quando os ícones no desktop, depois de quase vinte minutos, começaram a aparecer numa lentidão irritante que me fazia estremecer de irritação. Os gritos no andar de baixo tornaram-se mais estridentes e acusatórios. Decidi que devia ir à casa de Eduardo afinal de contas, estava com saudades de Júlia, mas ao mesmo tempo não sabia bem se queria ver Edu. Ele parecia tão... mudado. A cada dia mais mudado, desde algumas semanas atrás. Uma coisa que nunca me preocupara, estava começando a me deixar inquieta, ele estava perdendo o interesse por mim, lentamente... Isso, simplesmente... Não podia acontecer.

Vasculhei minha gaveta, querendo trocar minha blusa do pijama. Minha mãe gritava acusações para o seu marido. Suspirei pensando em como a vida era tão mais fácil há sete anos quando ela era só viúva. Então conhecera um cara tão fanático por religião quanto ela e casaram-se. Pareciam felizes e eu até conseguia chamar o cara de pai. Sobre muitos efeitos, ele era o meu pai. Só que desde que descobrira que ele tinha uma amante com uma filha pequena de dois anos, meio que começamos a ver ele de forma diferente, entende? Ele garantira que terminara o caso e só auxiliava a moça com a menina, já minha mãe... Bem, ela não teria coragem de largá-lo e mesmo ele sendo efetivamente meu pai, eu não conseguia deixar de amá-lo. Eu o odiava, de um jeito mudo, já que nenhum dos dois me contara nada, eu tive que ouvir entre conversas sussurradas, pelas fofocas escancaradas de vizinhos, o que realmente acontecera, preferia não pensar nisso, era absolutamente humilhante. Ainda espero minha mãe chegar e me contar que vai deixá-lo, sou meio esperançosa, mas realmente, é impossível pensar nessa possibilidade. Ela é tão, absolutamente submissa e acho que ela esperava que eu fosse assim também. Infelizmente, eu sabia que estava nesse caminho. Quase não falava, ficava quieta e deixava levar. Muitos provavelmente todos devem me achar idiota, até mesmo meu namorado deve me achar uma espécie de guru ou monge, mas eu não sou tão... boazinha assim. Eu só... odeio discussões. Me dão dor de dente, como costumo dizer. Não gosto de gritar, brigar ou magoar os outros. Isso não me faz idiota. A parte do aceitar me magoarem é que fazia. Isso eu sabia, porém, não conseguia evitar.

Sabia que no momento, tudo que meus pais esperavam, era que eu ouvisse os gritos e simplesmente fingisse que não me importava. Talvez eles fossem ingênuos e não soubessem que definitivamente eu tinha conhecimento sobre todas as conversas ‘sussurradas’ que eles tinham quando eu me trancava no quarto. Bufei, tentando me concentrar em outra coisa. Eu não conseguia achar minha blusa favorita! Que maravilha. Olhei o relógio. Era nem meio dia ainda e eles já gritavam dessa maneira. Queria saber se os vizinhos ainda nos consideravam a família perfeita, mãe amorosa, pai trabalhador, filha comportada e estudiosa. No final das contas, todos aqui eram um bando de hipócritas.

Vasculhei a gaveta com mais empenho, achando a maldita blusa enfiada no fundo da mesma. Provavelmente estratégia da minha mãe de eu não usá-la mais. Eu gostava da blusa, era de um vermelho vivo, agora levemente desbotado. Simples, com um decote rendado curto e discreto na frente. Basicamente, fora de moda. Vesti um shorts surrado e meu pior all star. Eu era a miss beleza, só que ao contrário. Prendi meu cabelo grosso e comprido, em um rabo de cavalo, visando escapar do calor. O penteado parecia impossível, pois o cabelo simplesmente não colaborava, assim... Desisti. Os gritos atravessam as paredes, como se ricocheteando em minha direção, me deixando irritada, estressada, a flor da pele, prestes a explodir... Não conseguia me concentrar pra prender o cabelo de forma decente.

Coloquei a mão no rosto, suspirando. Me sentia tremer. Sem conseguir entender exatamente porque eu tremia. Tentei me recompor. Devia a meus pais uma expressão de ignorância. Minha mãe merecia isso, José também... Ao menos, é o que eu achava no momento. Desci as escadas devagar, sem disfarçar o barulho, ao ouvirem meus passos a discussão magicamente parou. Entrei na cozinha, minha mãe tinha os olhos de bochechas vermelhas e uma veia na testa de meu pai pulsava. Quando me viram sorriam de leve, ao melhor estilo ‘não aconteceu nada, querida.’

– Está tudo bem? – Fiz a pergunta com uma esperança desnecessária. Por favor, me deixem ser infeliz com vocês abertamente.

– Está tudo bem, meu amor. – Minha mãe sorriu. – Está com fome? Ainda não preparei o almoço e...

– Eu vou almoçar na casa do Eduardo. – respondi.

– Tudo bem. – Minha mãe sorriu compreensiva, era simplesmente louca pelo genro. Louca mesmo. Sempre fora encantada com ele. Olhei para meu pai, procurando vestígios de algo. Ele nada disse, o maxilar ainda rijo. Definitivamente nessa casa, só se reprimem os sentimentos, intolerantes quanto à franqueza. Como se dizer o que lhes aflige os tornasse mais fracos. Como se eu só fosse parte da família como uma peça de orgulho. Que não era forte pra suportar com eles. Como se eu não merecesse ser odiada também. Não conseguia ver aquilo como uma questão de me poupar do sofrimento. Era apenas me deixar sofrer em silêncio. Mas que maldita hipócrita que eu era. Pensando tudo isso e simplesmente não falando.

– Vou indo. – disse, quase num suspiro. – Tchau.

– Não chegue tarde. – Minha mãe disse, baixinho. Dei de ombros, saindo pela porta. Podia ouvir os gritos prestes a começar. Eles eram bons nisso, de disfarçar sabe? Ironicamente falando, obviamente. Corri para o portão, querendo me afastar dessa casa. Talvez eu merecesse mais do que isso.

O caminho de ônibus foi entediante e conhecido. Provavelmente eu conhecia até mesmo os cobradores. Quando minha mãe não podia me dar carona, me acostumei a pegar ônibus. Não tinha grandes problemas, conseguia me situar e minha cara fechada na maioria das vezes impedia as pessoas de se sentarem ao meu lado. Não que eu fosse antissocial, eu gostava de pessoas, elas são bem interessantes quando não estão sendo absolutamente fúteis e entediantes. Algumas são bem legais e tem o dom de me deixar constrangida. Aí está um dos motivos de eu ser considerada simpática, mas ninguém nunca se aprofundar numa amizade comigo. Olhei ao redor, os prédios altos, alguns sendo aumentados; a cidade parecia crescer a cada ano. Santa Bárbara era essencialmente uma cidade litorânea e turista, bom lugar pra passeios, praias bonitas, o Planetário, Museus bem bacanas... E ao todo era uma bela cidade, ruas pavimentadas, calçadas largas, comércio familiar, até a área mais pobre da cidade tinha seu charme, tirando aquela área mais perigosa no centro, que ninguém ia muito lá. Percebi como eu devia ser considerada uma patricinha suburbana às vezes. Suspirei, uma senhora mais velha embarcando no ônibus, no ponto que dava em frente ao Cemitério. Agora éramos só as duas no ônibus. Nesse horário, o ônibus estava anormalmente vazio. Ela provavelmente visitando o marido e eu vendo minha mãe perder o meu. Em um domingo desses a cidade toda deveria estar em casa, nos shoppings, ou na praia, não no meio do trânsito. Desci no ponto que devia e resolvi ir andando. Talvez pegar o caminho que passava pela praia. Era uma opção. Decidi seguir por ele. O dia estava quente, meio abafado, mas a brisa litorânea me fazia relaxar. Fiquei feliz por ter vestido uma blusa leve. Virei na esquina que daria pra casa de Eduardo, um bairro bem requisitado, mas que Edith e Pablo com todo seu charme caloroso e Pablo com seus antigos ‘contatos’, conseguiram com facilidade há alguns anos... Um ano e meio depois de Malu ter seu primeiro bebê e o apartamento ser pequeno demais para todos, incluindo eu, conseguirmos ficar lá. Então, os dois casais se mudaram juntos para aquele bairro.

Apertei a campainha da casa, bonita e meiga, mas aparentando aquela firmeza que casas com crianças eram obrigadas a ter, mesmo sabendo que o portão estava aberto. Igor, meu sogro, apareceu... Alto e bonito, os olhos levemente fundos e algumas ruguinhas no canto das bochechas.

– Ei, Mônica!

– Oi. – sorri, meio tímida, corando levemente. Ele me conduziu pelo jardim, fazendo as perguntas costumeiras.

– Como vai a escola? Tudo bem em casa? E nas festas? E os namoradinhos? – A última, feita sempre de um jeito que me fazia rir alto, deixando a tensão se dissipar diante daquele contato caloroso e paternal dele acabava me fazendo relaxar. Quando vi Eduardo parado, me esperando com as mãos no bolso foi impossível não sorrir de sua figura. Sorri para ele. Igor entrou apressado na casa e logo ouvi sua voz retumbando na sala, provavelmente preso em alguma discussão acalorada, mesmo assim carinhosa. Senti algo me abraçar no tronco, olhei para baixo, dando e cara com a sorridente Júlia.

– Mônica! Pensei que não viria... Edu disse que estaria ocupada. – Ela sorriu.

– Achei que sentiriam muitas saudades minhas se eu não viesse. – Brinquei um pouco, mordendo o lábio. Ela riu baixinho.

– É, principalmente Edu. – Ela me puxou para perto, sussurrando perto do meu ouvido. – Aliás, você me trouxe algum livro hoje?

– Ai... Eu esqueci. – Coloquei a mão na boca, me sentindo mal levemente com sua leve carinha de decepção. – Prometo que mando pelo seu irmão amanhã. Juro.

– Tudo bem. – Ela sorriu, aceitando calmamente minha promessa, sem sequer questionar. Me puxou pela mão e parei perto de Eduardo e entrando na casa, toda apressada, gritando por Pietro.

– Olá, estranho. – Eduardo sorriu.

– Oi... – Ele me puxou, me beijando na bochecha. O erro começava exatamente ali, percebi. Entre a despreocupação, entre o desligamento em seus olhos.

– Então... Sua mãe não esquentou de você ter chegado tarde do cinema? – Ah, o cinema de ontem. O atraso horrível. Da carona que praticamente não recebemos. Da espera estressante no ponto de ônibus. Minha mãe normalmente explodiria, faria um escândalo, mas ontem a noite, estranhamente...

– Ela meio que não reparou. – disse, desligada. Absorvendo essa novidade.

– Hm. – Ele também pareceu confuso, mas então deu de ombros. Analisando despreocupadamente minha expressão. Por favor, pergunte se eu estou bem. Por favor. Me peguei pensando. Eduardo sorriu. – Quer comer algo?

Sorri de leve, meio desapontada. Não é culpa dele, Mônica. Porque você não simplesmente não fala? Se quer conversar com seu namorado, se exponha. Ele é seu melhor amigo. Do que tem medo? Do que?

– Claro...

Ele me puxou pela blusa, na altura da cintura, quase sem me tocar, todos me cumprimentaram quando eu passei pela sala e Julia começou a falar do seu novo jogo de videogame, em como ela tinha ganhado 2 vezes seguida do pai, sorrindo tremendamente orgulhosa para mim. Olhei de relance para Igor, querendo analisar sua expressão, um sorriso de divertimento e cumplicidade surgiu. O mesmo sorriso do meu namorado. Corei com aquele olhar caloroso. É anormal corar estupidamente quando seu sogro te encara? Nunca consegui não me sentir corar diante do sorriso de Igor. Ele era tão... excepcionalmente charmoso. Eduardo conhecia essa admiração minha pelo pai e de vez em quando fazia graça disso pra mim.

– Quer experimentar a torta que o Igor fez, Mônica? – disse Malu. Me fazendo olhá-la interrogativa. Igor fazendo uma torta? Não conseguia imaginá-lo na cozinha, preparando algo, era muito surreal para mim.

– Ele fez uma torta? – perguntei, chocada. Olhando para Igor que piscou. – Impossível!

Todos gargalharam, Ceci mais do que todos. Igor lhe mostrou a língua, hilariamente infantil, e Ceci lhe devolveu os gestos. Os dois fazendo caretas. Me fazendo rir, com a mão na boca.

– Que orgulho dos meus pais. – Eduardo resmungou, encostado na parede. As crianças dando voltas enquanto corriam da sala para a cozinha. Não paravam. Sorri do ambiente acolhedor daquela família, traguei com felicidade aquela calma. Tal válvula de escape. Relaxando os músculos. Malu começou a arrumar a mesa e eu fui ajudá-la, juntamente com Ceci, enquanto os ‘machos’ da casa, isso seria Alexandre, Pablo, Eduardo, Igor e Edith iam para a sala, entre risadas.

– Como vai sua mãe? – Ela perguntou.

– Bem... – respondi simplesmente.

– Muitas brigas?

– É. – suspirei, aliviada por não precisar mentir. Depois a encarei, levemente desconfiada. – Como sabe?

– Ela me falou, da ultima vez que nos vimos. – Malu sorriu, confusa. – Somos amigas, esqueceu?

– Não, só... É, estranho... Desculpe. – O olhar confuso continuou no rosto de Malu. Torci as mãos, não gostava disso de ter dificuldades em me explicar. Me sentia tola e limitada, logo ficando vermelha. – É estranho alguém saber. Ela contou pra você e não para mim. Eu tive que saber de tudo entre gritos e acusações.

– Imagino que deve estar sendo difícil, querida. – Ela segurou minhas mãos entre as dela por alguns segundos. – É uma droga quando pais perdem a noção.

– É... – Era uma droga. Mas era como se eles tivessem voltado a serem crianças. Crianças racionais. No final das contas, eles cresceriam. – Mas vai dar tudo certo.

Sorri.

– Você é mais madura que eu. Eu não pensava assim, simplesmente explodi. Você é realmente uma boa garota, Mônica. – Ela riu, me tranquilizando. – Sem dúvida vai dar certo.

Me senti mais leve com a conversa rápida e sincera, sem precisar esconder nada. Logo Malu gritou para que todos se aproximassem, as crianças se sentando à mesa, sendo assistidas pelos pais. Eu e Eduardo acabamos no balcão, como costumeiramente ficávamos. Observando os outros comerem. Normalmente, há algum tempo atrás, a conversa entre nós dois não pararia. Nem o riso. Contando piadas que nem teriam tanta graça, falando de nossos fins de semana, de nossos planos. Agora ele parecia distraído, comendo animadamente, entrando na conversa do tio, mas não olhava para mim, nem sequer uma vez. Céus, eu realmente sei prender a atenção de um cara! Ri baixinho de minha ironia desnecessária, Eduardo olhou para mim de relance, quase curioso, quase sorri então ele desviou o olhar rapidamente. O talher começou a tremer levemente em minha mão, segurei-o firme, tentando me manter tranquila. Eu não lidava muito bem com mudanças. Gostava disso, do calmo, do confortável.

Depois do almoço, Eduardo foi brincar com as irmãs... Me deixando ali, com Edith me perguntando sobre um corte de cabelo novo, logo tendo Ceci como encorajadora, me fazendo rir de seus planos malucos com Malu sobre a aparência que ficaria se cortasse uns quatro dedos de cabelo.

– Você já é linda, querida! E tem um rosto tão delicado, um corte curto ficaria tão bonito. – Ceci disse, sorrindo.

– Deixem a garota em paz.

– Não sei qual o problema que você tem Malu, contra tesouras. – A mesma bufou, se servindo de mais torta. Me fazendo rir.

– Estou bem com meu cabelo. Mas se eu precisar mudar... Eu procuro vocês. – garanti.

– Jura? – Ceci sorriu, animada.

– Sim.

– Uma hidratação quem sabe... – Edith continua devaneando.

– Coitada da menina. – Malu disse, rindo.

– Ela sabe que é linda, deixa de frescura, Maria de Lourdes. – Malu ficou vermelha de raiva, me fazendo prender o riso.

– Maria de Lourdes é seu...

– Ô mãe! – Julia apareceu. Fazendo-me rir com Edith da cara vermelha de Malu, que tapou a boca. – Posso comer mais pudim?

– Pede pra sua tia. – Ceci ajudou a pequena a comer mais pudim, que voltou correndo para a sala, sentando ao lado de seu sempre companheiro, Pietro.

– Quero só ver o que vai acontecer quando Igor perceber o que está acontecendo. – Ceci disse, sorrindo. Entendi perfeitamente o que ela estava dizendo, mas as outras duas pareciam nem ter notado.

– O que?

– Pietro e Júlia, obviamente...

– O que tem?

– Pietro logo faz 11, um adolescente... Me assusta os dois tão junto assim. – Ela deu de ombros.

– Por quê?

– Ah, qual é, Malu. Eduardo e Mônica começaram a namorar com 6 anos. – Fiquei levemente corada com essa declaração.

– Oh céus! Não posso ser sogra. – Edith praticamente gritou.

– Eles se tratam como irmãos. – Malu disse despreocupada.

– Eu sei, mas quando começarem a andar de mãos dadas...

– Só porque você tem um filho de quase 17 anos não significa que você tem que fazer todas nós nos sentirmos velhas! – Edith acusou Ceci, me fazendo rir.

– Acho que vocês ainda não tem que se preocupar. – disse, rindo. Olhei o relógio, queria estar em casa antes de escurecer. – Eu tenho que ir...

– Mas já?

– É, eu prometi chegar cedo e tudo mais. – disse, me afastando.

– Vai chamar o Edu pra te levar?

– Não, não precisa.

– Ele sempre te leva, sua boba.

– Prefiro ir sozinha. – sorri meio vermelha. Elas me olharam levemente confusas. – Vou ir pelos fundos, deem tchau pra todo mundo por mim?

– Sem problemas. – Malu sorriu. Júlia entrou na cozinha num passe de mágica.

– Estou indo, Jul.

– Está cedo.

– Tenho que ir. – Sorri, a abraçando. – Tchau.

– Tchau, Môni. Até domingo que vem.

– Até. – Ela voltou a sala, deixando o pote de pudim vazio em cima da mesa. Me despedi das meninas, preferindo não interromper os rapazes. Surpreendentemente havia começado a esfriar e eu me abracei enquanto andava. Atravessei o portão e ouvi passos rápidos atrás de mim, era Eduardo.

– Porque não me esperou?

– Você estava ocupado.

– Que bobagem. – Ele sorriu, peguei sua mão, o fazendo me olhar confuso. Caminhamos em silêncio, presos em nossos próprios pensamentos. Não consiga imaginar no que exatamente Eduardo estava pensando. Procurei nem pensar nisso, senão ficaria ainda mais paranoica. Paramos no ponto, Eduardo me puxou para perto, automaticamente, me protegendo do vento frio. Aspirei seu perfume, satisfeita, mas logo o ônibus parou.

– Quer que eu te espere pra ir pra escola?

Estudávamos na mesma escola, era quase a mesma distancia para nós. Nos encontramos na sala de entrada, para seguirmos em salas separadas. Era sempre assim. Sempre fora, desde o jardim de infância. Nossos pais trabalhando para que ficássemos na mesma escola, para que não resmungássemos de um lado para outro, igual quando aconteceu na quarta série... Quando minha mãe me colocou numa escola que não era com Eduardo. Depois de tanto choramingado, birra e tristeza, voltamos a estudar na mesma escola.

– Claro. – respondi, beijando-o de leve. Entrei no ônibus, sabendo que ele não me esperaria. Deite a cabeça no vidro quando o ônibus saiu, Eduardo antes dele. A cabeça baixa, algo atípico. Eram pequenos sinais. Eu os notaria daqui a uns meses, quando olharia e perceberia como tudo foi ruindo devagar, não como um castelo de cartas ou como uma fileira de dominós, foi como folhas no outono, caindo pouco a pouco. A cada vento fraco, a cada mudança de temperatura, já estava acontecendo séculos antes de eu começar a reparar nos detalhes e em breve estaria tudo pelo chão, sendo pisado por estranhos... Ou pior, por ‘estranhas’.

Notas finais
o Obrigada por comentarem e lerem. Até breve ;)