Eduardo E Mônica
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Eu estava furioso. Mais do que furioso. A adrenalina ainda pulsava em minhas veias, mas isso não impedia de fazer meu olho latejar. Ao chegar no intervalo decidi que daria um jeito de falar com a Mônica, mas ver Bruno assim tão perto dela me deixou irritado. Ciumento. E fez eu sentir culpa por sentir ciúmes. Mas ao ver que ele a estava machucando, aí sim vi vermelho. Queria esganá-lo. E quando ele teve coragem de chamá-la de vadia, eu explodi. Pura e simplesmente. Eu nunca fui exatamente de briga, não tinha habilidade, mas sabia que minhas constantes práticas físicas haviam me dado resistência, força e agilidade. Isso não me impediu de levar uns bons socos, meu olho latejava cada vez mais e o pior era ter que sentar ao lado de Bruno e conter o impulso de batê-lo pelo o que ele falou para Mika, como olhou para ela. Mika estava no banco a minha frente, Samuel segurando sua mão, evitando me olhar. Os olhos pálidos presos nas próprias mãos.
— Môn... — Bruno começou, segurando um pano no nariz. Vê-lo principiar a dizer o nome dela fez meu sangue ferver;
— Não me importa que estamos praticamente na Diretoria, ouse dizer o nome dela e eu termino de quebrar seus dentes. — ameacei, em voz baixa. Samuel riu, Mônica me fitou com seus olhos arregalados. E eu me sentia um pedaço de bosta por não saber que ela andava passando por esse tipo de coisa, tendo que lidar com essas desgraças como Bruno sozinha. Não é a toa que se mantinha afastada de todos. Não de todos, ao menos. Samuel ainda tinha toda e costumeira intimidade antiga com Mika. Talvez ainda mais forte do que antes. Chamou a atenção dela e ambos começaram a conversar com cochichos. Tentei ouvir alguma coisa, mas mesmo as palavras que eu conseguia pescar "boatos", "cansada", "herói", "não" soavam colocadas em um contexto, em um código que só os dois pareciam entender.
— Mônica, Samuel... Entrem, por favor.
A diretora os chamou, uma rotina já conhecida nossa. Quando havia alguma espécie de confusão, em que eu acabava me metendo para separar Samuel e Mika sempre conosco acabava sendo arrastada para as explicações também. Mika e Samuel entravam primeiro, a diretora confiava nela, em sua versão honesta, mas que nunca colocava Samuel em problemas, na verdade, de alguma forma, ela sempre conseguia safá-lo. Eu era o que ficava sentado do lado de fora, minha versão quase nunca solicitada. Sempre conscientes que isso não era do feitio do casal, brigar, digo. Percebi que apesar de tão diferente do que costumo fazer, a única coisa que me arrependia era não ter batido mais. Porém, isso não impediria meu pai de me matar, pior... Minha mãe! Merda. Acabei me distraindo a começar a torcer mentalmente para meu pai ter sido chamado e não a minha mãe, ouvi o ruído da porta da Diretoria se abrindo e prendi a respiração por instinto. Mas não foi Srta. Roveron que apareceu.
Mika saiu da Diretoria com seu moletom azul-marinho enorme praticamente a engolindo, aquele que teve toda a minha atenção na hora da entrada que quando vi sorri por saber que era meu. Quando eu ainda o usava esporadicamente, Mika adorava pegá-lo emprestado, era seu favorito. Com o tempo acabou tornando-se dela já que ela vivia o usando, tinha até seu cheiro. Nele ela sempre me parecia frágil e delicada, mas agora também parecia triste e abatida. Seus olhos encontraram os meus e eu quis abrir a boca, mas ela desviou o olhar. Se afastando. Parecia ainda mais frágil do que já era antes, quebradiça. Logo, vi meu pai entrando, com cara de poucos amigos, ele não me cumprimentou, simplesmente não disse nada. E isso começou a me deixar inquieto, cada vez mais ansioso para saber como ele havia sido chamado e se ele já estava assim agora, imagine depois. Fomos convidados a entrar na sala. Maria explicou toda a situação, perguntando meu lado da história, mas eu não tinha muito o que dizer e ela nem parecia querer ouvir muito também. O que importava mesmo era meu castigo, pensar em ficar de suspensão tão perto da semana de provas era desesperador. E meu pai. Tão sério. Aquilo assustava pra caralho.
Ambos relaxamos um pouco quando ela disse que, pelo meu histórico de bom aluno e nunca ser o agressor e etc, só pegaria dois dias de suspensão. Dois dias de revisão eram horríveis de se perder, mas bem, podia ser muito pior.
— Obrigado, Srta Roveron. — Meu pai sorriu e pela maneira como a diretora o olhou de volta, piscando várias vezes entendi que minha suspensão tão curta não se devia tanto assim ao meu bom comportamento. — Não vai voltar a se repetir.
— Tenho que certeza que não, certo Eduardo?
— Certo. — Tentei sorrir do jeito mais charmoso e arrependido possível e vi seu semblante se anuviar.
Meu pai se despediu com um longo aperto de mão e agradecendo, tia Malu sempre reclamava da forma como ele jogava charme para se livrar dos problemas. E bem, ele realmente fazia isso. Eu o segui em silêncio, até sairmos da Diretoria e pararmos no pátio.
— Nunca imaginei que seria chamado pra isso, Eduardo. A última vez que você brigou foi na sexta série. E pelo mesmo motivo... Esperava não ter mais que lidar com isso.
— Pelo menos não apanhei dessa vez. — falei, relembrando minha briga. Enrique tinha dito, mais uma vez, que queria que a Mika fosse namorada dele e não minha. Lembro que discutimos e brigamos feio, o que naquela idade significava rolar pelo pátio e terminar a briga com rasgos no uniforme da escola. Ele veio me pedir desculpas depois da Mônica dizer que o odiava, achava que isso adiantaria alguma coisa. Alguns meses depois Enrique se mudou e eu, finalmente, perdi o meu mais longo rival. Não posso dizer que lamentei sua mudança, na verdade, foi um dos momentos mais felizes da minha infância. Pensar nisso fez eu me sentir satisfeito.
— Pai! Ele a machucou! — os olhos de meu pai se estreitaram. — Você sabe melhor que eu se eu não tivesse feito nada isso se prolongaria, outros o fariam. Iam continuar com esses boatos horríveis.
— Havia outras maneiras de encarar essa situação. — Talvez, pensei, mas eu não havia raciocinado. — Onde você estava no começo desses boatos? O que estava fazendo para não desmenti-los desde o começo?
Isso foi como um tapa. Pior do que se ele tivesse gritado comigo, o tom de decepção dele, de saber disso me feriu. Eu não fazia ideia de onde eu estava enquanto Mika lidava com isso. Na verdade, sabia bem, preso no meu novo mundo.
— Pai...
— Entendo seu ponto de vista, entendo o que fez. Já fiz isso na escola, mas se isso é o principio de uma carreira. De um hábito...
— Não, não vai se repetir.
— Não fale assim com tanta convicção. Espero não ter que ser chamado por causa disso outra vez, mas se for fazer, que seja um bom motivo. — Sorri para ele. Meu pai era o máximo. — Da minha parte não terá castigo, porque sei que sua mãe fará da sua vida um inferno nas próximas semanas.
É, não dava pra ser feliz o tempo todo.
— Não está decepcionado? Não vai dizer que o que eu fiz foi errado?
— Você já sabe. — Ele deu de ombros, mas vi que havia algo mais por trás dos seus olhos.
— Você encontrou a Mônica. — intuí. — Ela te amoleceu. O que ela disse?
— Ela não precisou dizer nada. — disse. E eu confiei nele. Mika e seus grandes olhos eram um perigo. — Acho que eu teria me decepcionado mais se você não tivesse feito nada.
— Bem, tenho que dizer que estou aliviado, pai. Por você ter levado isso bem...
— Não fique gostando de mim, garoto ou achando que vai escapar dessa comigo tão fácil. Suba pra pegar seu material que eu vou ligar pra sua mãe.
— Pai! Por favor! Você disse que não iria me castigar!
— Anda logo. — ele disse, firme. Meu pai podia ser um palhaço, mas quando usava sua voz autoritária eu sabia que não teria escapatória. Ele tinha aprendido com a tia Malu. Eu estava fodido.
Subi as escadas de dois em dois degraus. Bati a porta levemente da minha classe levemente. Os olhares convergiram em minha direção quando abri a porta. E alguns cochichos começaram. A professora de Geografia me olhava interrogativa:
— Vim buscar meu material. — expliquei.
— Certo. — Ela fez um gesto para que eu entrasse e prosseguiu com a aula, sendo ignorada pela grande maioria dos alunos que continuavam a me encarar. Vasculhei rapidamente a sala a procura de Samuel, mas não o encontrei. Nem me lembrava de tê-lo visto saindo da diretoria. Acho que estava preocupado demais com a bronca do meu pai. Peguei a mochila e me retirei rapidamente, fechando a porta. Vi que alguém me esperava no fim do corredor, carreguei a bolsa por uma alça só. Mal-humorado lembrando que a essa altura minha mãe já devia ter descoberto.
— Escapou rápido da Diretoria. — Samuel riu, vi que a mochila lilás de Mika estava em suas mãos. — Quem te salvou, seu pai ou sua mãe?
— Meu pai.
— Sorte sua. Ele deve mesmo ter seduzido aquela criatura. Sem ele, você teria que ouvir um grande discurso de "Você nunca foi de briga, sr Eduardo! E blá blá" . — Tecnicamente, eu havia ouvido essa versão, porém... Sabia que meu pai tinha anuviado grande parte, mas sabia que podia ficar pior. — Eu ouvi essa versão hoje, só que diferenciada para... "Você está influenciando o Sr, Eduardo?"
— Foi mal. — Me desculpei, mecanicamente, os olhos ainda presos na mochila de Mika. Intrigado com esse súbito contato de Samuel que ficou dias sem olhar para mim sem estar com um olhar acusatório. Comecei a andar em direção as escadas e Samuel comigo.
— É muito engraçado pensar em você pegando suspensão, depois de longos discursos como: Mimimi Samuel, tem que parar de entrar em tantas confusões. Mimimi Samuel, sabia que isso vai parar no seu histórico?
— Quem dizia isso era a Mika. Eu só ria de você. — lembrei-o
— Ah é, foi mal. Haha, foi um belo soco, cara! — Ele pulou, me empurrando de leve. Parecendo voltar a ser o meu melhor amigo.
— Voltou a falar comigo agora, é? — perguntei pro cara que passou quase duas semanas sem falar comigo.
— Bem, você provou que ainda gosta dela. — Parei no meio da escada. Sentindo meu rosto ferver. Era isso que ele pensava? Que ela pensava? Só a menção disso era absurdo.
— Está me tirando, né Samuel? Sério? — Como eles conseguiam duvidar que eu amava Mika? De certa forma, sempre a amaria. Só... estava confuso. Não conseguia tirar da minha cabeça que quem havia terminado comigo fora ela, eu... Bem, eu apenas queria um tempo para me entender, para deixar de magoá-la. Obviamente, fiz tudo da pior forma possível. Mas essa dúvida de Samuel, que me conhecia tão bem, era ofensiva e revoltante.
— Calma... Não estou a fim de deixar o seu outro olho roxo também.
— Vai À merda! — xinguei, o deixando para trás. Ele agarrou meu braço me fazendo parar, me soltando em seguida.
— Ei, desculpa. De verdade. — respirei fundo, olhando para seu semblante anuviado. — Sei que ando sendo tudo, menos seu amigo ultimamente.
— É, você vestiu calcinhas e está sendo a melhor amiga da Mônica. Eu entendo. — Samuel bufou. — Na verdade... eu agradeço.
— Ela precisa mais de mim agora. — deu de ombros.
— É...
— Mas sinto falta, sabe...
— Eu sei. — Passei a mão pelo rosto. — Não sei o que fazer. Ela foge de mim. Literalmente, foge.
— Acho melhor ficar longe dela e não arranjar confusão por causa dos boatos.
— Não posso ficar ouvindo isso e...
— Olha, se for assim você vai ter que bater em 90% da escola. Mostre que eles estão errados, ué.
— Como? Socando eles? Não deu muito certo. — Samuel riu. — Nada do que eu faço parece ajudar. Mika... Fica longe. Não tenho nem como dizer a ela que odeio esses boatos. Eu não... fazia ideia. Você não me disse nada.
— Com essa briga ela vai saber. Só, dê tempo ao tempo.
— Ok. E a gente vai deixar eles continuar excluindo ela?
— O que a gente pode fazer? Se você tiver uma ideia melhor...
— Está tudo uma bosta. Ela não deixa me chegar perto dela...
— Ela ainda ta machucada. Mantenha distancia.
— E deixar de me preocupar?
— É a vida, Eduardo... Você fez escolhas, bla bla, lide com as consequências, blá blá.
Revirei os olhos sabendo que ele estava certo.
— Estou surpreso de não ter levado uma suspensão mais longa. Apesar do meu pai.
— Agradeça a Mika. Ela explicou tudo pro Diretor aquela hora, sobre os boatos, tudo. O que vai deixá-la no radar nos inspetores, o que nós três sabemos que é uma bosta. Os boatos vão acabar, mas provavelmente hostilizarão ela em silêncio. Enfim, Bruno foi suspenso uma semana e a Laís pegou detenção junto com algumas meninas do terceiro ano. Aparentemente, de acordo com a Conselheira, Mônica podia até processá-los. Danos morais, algo assim.
— Eles não estão falando só que ela é uma... ér.
— Vadia? Não, mas voce não vai querer saber o resto. E não é verdade. Quem realmente importa sabe disso.
— Certo...
— Tenho que ir. Vou encontrar a Mika na enfermaria.
— Ela está bem?
— Sim, mas o braço dela está ficando mais roxo ainda. Enfermeira disse que ele apertou beem no músculo, sabe? Então, ela vai descansar o resto da tarde. Talvez eu consiga que meu irmão nos busque, sei lá.
— Cabular aula pra ficar com a Mika. — falei baixo pra mim mesmo, o encarando mal humorado. Samuel me abriu um grande sorriso.
— É, parece que roubei uma das suas antigas definições de felicidade. Ah, não... Espera. Voce largou isso como um idiota.
— Obrigado. — Estava demorando.... pensei.
— Não se preocupe, cuido dela.
— Obrigado. — disse, sinceramente e levemente enciumado, enquanto ele se afastava na direção oposta. Ameacei andar quando uma voz me chamou baixinho:
—Edu! — Me virei, Beatriz caminhava apressadamente em minha direção. Usava uma saia curta demais para a política da escola, me perguntei como ela havia conseguido escapar dos inspetores. As pernas brancas pararam próximas a mim e eu voltei meu olhar para seu rosto, um vermelho berrante cobria seus lábios. — Está tudo bem?
— Hã, sim... — respondi, tentando desviar o olhar dela. Sentia uma vontade nova e urgente de colar meus lábios nos dela, meu corpo inflamando de curiosidade.
— E Mônica? Soube dos boatos... Eu...
— Foi um mal entendido. — a interrompi — Já foi resolvido. Ficarei de suspensão alguns dias.
— Sinto muito. — Ela colocou a mão no meu braço, o apertando de leve. Dando um passo em minha direção. — Olha, pra você se animar, temos uma festa nessa sexta...
— Não vou poder. Ficarei de castigo por um longo tempo.
— Fuja.
— Não posso.
— Ainda faço você mudar de ideia. — Ela sorriu, então para minha surpresa ela me puxou para baixo, dando um leve beijo no meu queixo. Ficamos nos encarando por alguns segundos, eu suspenso naquele momento em que não sabia como reagir. Beatriz colou nossos lábios por poucos segundos, afastando-se em seguida, um formigamento novo tomou meu corpo. Tentei segurar seu braço, mas ela pulou fora de meu alcance. Engoli em seco, querendo sentir mais dos seus lábios nos meus. — Até sexta, Edu.
Ia replicar que não podia ir sexta, mas ela se afastou, de volta para a sala. Me dando uma última olhadela. Olhei para os lados, me perguntando se alguém vira e confuso por precisar fazer isso, como se tivesse feito algo ilícito. Lembrei do meu pai, ainda confuso pelo acontecimento de poucos minutos atrás. Amaldiçoei meu castigo por não poder ir a festa. Um sorriso brincando em meu rosto, então lembrei-me da situação em que estava metido ao chegar no pátio e vê-lo conversando com Mika, Samuel e o irmão do mesmo. Meu pai me olhou impassivel o que fez meu sorriso desaparecer, mas foi a expressão de Mika e Samuel que fez algo em meu estômago congelar. A expressão de Mika era raivosa, magoada com um ar de choro e a de Samuel era de desaprovação, pura e simplesmente. Como se eles tivessem visto. Mika foi para a secretaria em passos duros, Samuel a seguindo acompanhando do irmão — havia conseguido escapar da escola, afinal.
Meu pai me olhou com a sobrancelha erguida, a expressão ainda indecifrável. O segui, até chegarmos em seu carro.
— Limpe essa boca, Eduardo. Sua mãe sabe que a Mônica não usa batom nesse tom. — Meu pai disse, friamente, dando a volta e entrando no carro. Fiquei alguns segundos paralisado.
Me agachei para olhar no retrovisor, a marca do batom era óbvia, no meu queixo também. Gemi, passando as mãos nos cabelos, os puxando. Era impossível Mika não ter reparado nisso, impossível. Entrei no carro me amaldiçoando.
— Eu sou uma anta. — tapei meu rosto com a mão, esfregando-a com força.
— Sim, você é. — Meu pai concordou. — Como me olhar no espelho uns 18 anos atrás... E não foi um elogio.
— Eu sei. — gemi entredentes, ainda esfregando meu rosto. E a boca, tirando vestígios do beijo de Beatriz.
— Tem seu castigo ainda. — Meu pai sorriu levemente. Sádico.
— Você é ótimo, pai.
— Desculpe, filho, mas no momento eu quero que você sofra. Sou team Mônica.
Não respondi nada, incapaz de rebater seu favoritismo. Incapaz de acreditar que havia dado tanta bandeira. Incapaz de acreditar que eu havia beijado outra garota, mesmo que tenha sido um reles selinho, além da minha namorada. Incapaz de acreditar que na minha mente Mika ainda tinha esse título. Querendo me bater por ter gostado do beijo e ao mesmo tempo ter me sentido tão... errado. Não sabia como lidar com isso.
Fale com o autor