Notas iniciais
As coisas mudam muito em um ano, mas mesmo que eu demore, queridas leitoras, eu nunca desisto, rs. Espero que vocês não tenham desistido também.

Capítulo 10

Minha vida atual soava tão surreal quando comparada a minha vida de meses atrás, de algumas semanas atrás, para ser mais específica. Após o término brusco, sentia que as mudanças pareciam não acabar e elas me assustavam. Apavoravam. Essa nova rotina de ignorar as ligações de Eduardo que me ligava todos os dias, já havia até estabelecido um horário, era cansativa e torturante. Eu o ignorava na escola, fazia rotas alternativas para não precisar vê-lo, adotei a sala de música como meu refúgio. Procurava não pensar na dor, no rombo que sentia em meu peito. Morria de saudade dele, mas sabia que não suportaria olhá-lo.

Para melhorar... Quando a escola soube de nosso término o mar de fofocas começou. Especulações. Histórias escabrosas. De porque havíamos terminado, sendo que estávamos juntos há tanto tempo. Aonde quer que eu fosse podia sentir os comentários. Não sei exatamente quando começou a me incomodar a ponto de eu precisar perguntar a Samuel o que estavam dizendo já que cada vez que ele ouvia um cochicho sua expressão fechava-se de raiva. Ainda lembro-me do meu choque quando ouvi.

Foi na terça, após o término, que eu descobri os rumores e pude concluir que realmente absolutamente nada seria como era antes. Eu me sentia um zumbi naqueles dias, tentando não demonstrar, coisa que eu sabia que falhara miseravelmente. Estava na minha carteira, sabendo que a de Beatriz estava vazia, pois ela devia estar conversando com Eduardo. Fora doloroso vê-lo, não feliz ou bem, mas nem de longe tão abatido como eu estava. E pensar nele, com... ela, enchia-me de um ódio irracional que implodia dentro de mim e sentia que me fazia minguar.

Laís sentou-se ao meu lado, coisa que me surpreendeu. Ela mal falava comigo nas últimas semanas. Karina e Letícia seguiram-na, puxando cadeiras para perto. Fiquei confusa.

— Oi, Mônica. — Laís disse, sorrindo.

— Oi... — falei baixinho, desconfiada pelas expressões das três, que eram um misto de curiosidade e acanho. — O que está acontecendo?

— Bem... Queríamos te perguntar uma coisa. — Estremeci, já sabendo que era do Eduardo. — Lamentamos muito sobre vocês terem terminado.

— Olha... — A interrompi. — Não estou muito a fim de falar disso.

— É que ouvimos uns rumores. — Karina disse, baixinho, se aproximando. — E queríamos sabe ser é verdade.

— Que rumores? — estanquei, começando a me sentir ansiosa. Como se eu já não tivesse o suficiente. Rumores? Tentei pensar em algo, mas minha cabeça não registrava nada.

— Bem... Você está grávida, não está?

— Como? — balbuciei confusa. Um risinho nervoso tremulou pelos meus lábios. Que ideia absurda.

— Ah, qual é, Mônica. Estão todos falando! — Laís disse, curiosa, se aproximando mais.

— Ah, todas sabem que foi por isso que vocês terminaram... — Letícia sorriu maliciosa. — Você engravidou de outro cara, não?

Não consegui esboçar nenhuma reação quanto a isso, de tudo que poderia ser dito, esta era a última coisa no universo que eu poderia pensar. Era errado... Era nojento. E cruel. Minha cabeça começou a girar, meu estômago pesou. As duas continuaram, ignorando totalmente minha presença.

— Por que você trairia o Eduardo que é um mistério. — Karina riu baixinho, maliciosa. — Quer dizer, vamos ser sinceras. Ele é... uau. Muito gostoso.

— Não consigo tirar da minha cabeça como ele estava maravilhoso domingo na festa do Marco. Céus!

— Beatriz tem muita sorte e a.... _ Então, eu parei de ouvir. As palavras me tomando. Imaginei Eduardo ficando com Beatriz e meu estômago embrulhou.

— Hã, Mônica... Você está ficando meio verde. — Laís avisou, com um leve ar de desgosto.

Senti nojo. Incapaz de responder. Levantei-me apressada. E, bem, enojada. Corri para o banheiro, despejando todo o meu café da manhã. Ainda não acreditando que as pessoas podiam ser tão cruéis de inventar esse tipo de coisa. Ainda não acreditando que Eduardo já havia ido a uma festa... Com ela. Levantei, trêmula. E quando saí do boxe banheiro dei de cara com as meninas do segundo ano. Fui embora apressada, faltando o resto da semana. Acho que isso levantou suspeitas. Na verdade, juntamente com o episódio do banheiro as convenceu e a todos da minha suposta gravidez.

A partir daí, Samuel passou a me falar dos rumores para me deixar preparada e assim passou-se mais uma semana e nos aproximávamos cada vez mais das provas de final de ano, as quais eu não conseguia me concentrar. Os cochichos eram algo ao qual eu não podia ignorar, mesmo que eu me esforçasse para isso.

Minha apatia impediu que eu ficasse ferida, mas andava me sentindo muito solitária. As pessoas passaram a acreditar na versão de mim dos boatos que tentavam explicar porque terminamos. Todas as versões mostravam uma Mônica possessiva e cruel. Vadia e manipuladora. Tudo que falavam, diziam com tanta convicção que poderiam até me convencer de que era verdade. Alguns boatos diziam que era porque ele havia me traído. Outros falavam que nos odiávamos há séculos e só mantínhamos de fachada. O pior dos rumores dizia que terminamos porque eu havia inventado uma gravidez falsa para prendê-lo e quando Eduardo descobriu terminou tudo comigo. Alguns realmente acreditavam que eu estava grávida... Só que de outro cara. Como Laís, que se revelou uma pessoa mesquinha, falsa e cruel. Querendo ou não, os rumores sempre faziam soar como se eu fosse vadia. Até os boatos de que foi Eduardo que me traiu, soavam como se eu fosse uma neurótica controladora que o impedia de fazer o que ele queria e o sufocava.

Não foi surpresa ver as pessoas se afastando ou até mesmo acreditando nos boatos. Antes do término eu já andava afastada deles, após o término em si eu havia me fechado em minha própria concha. Não conseguia ficar perto delas, me retirando de trabalhos em grupo, vendo minhas notas decaírem, mas apática demais para conseguir lutar contra isso. Sentia o choque de ver que as pessoas podiam ser tão mesquinhas me abater lentamente, pessoas que eu considerava amigas!

Samuel era o único que por teimosa e falta de noção ainda penetrava em meu mundo. Parecia sofrer tanto quanto nós dois com o fim do nosso relacionamento, meu e de Eduardo, no caso. Era esquisito porque ele passava muito tempo comigo e isso fazia eu me sentir péssima. Eu sabia que ele devia sentir falta de seu melhor amigo e Eduardo dele.

E eu me sentia abandonada, não conseguia fugir dessa sensação. Para melhorar, minha mãe mostrou-se mais incompreensiva do que nunca quando, aos prantos, contei que havíamos terminado. Havia perguntado como eu podia tê-lo perdido. Como pude ser tão burra em deixá-lo escapar. E mais um milhão de coisas horríveis. Senti-me em frangalhos naquela primeira semana após descobrir dos boatos, incapaz de ir ao colégio. Samuel havia começado a se recusar a me contar do progresso dos rumores, dizendo que isso só me incentivava a ficar cada vez mais longe da escola. Era no domingo e eu estava horrivelmente triste porque estava perdendo um almoço em família na casa de Eduardo e podia ouvir meus pais brigando no andar inferior. Samuel estava no telefone comigo, tentando me animar, mas andava difícil.

— Prometa que vai à escola amanhã.

— Samuel..

— Prometa! Não pode ficar faltando assim por causa dessas pessoas ridículas. E seu desempenho, Mônica? E sua faculdade? Seu futuro! Sem contar que essa é a sua vida. Estamos perto das provas finais.

— Você está mesmo usando o meu papo nerd?

— Sim! Eu cheguei a esse ponto humilhante de falar de notas pra você aparecer.

Ri baixinho de sua voz indignada.

— Ok... Eu vou. Iria de qualquer jeito. — suspirei. Sempre soube que não dava pra fugir da escola para sempre, era inevitável. Uma hora ou outra eu teria que encarar aquilo. — Sei que faltei demais.

— Aí está a Mônica ajuizada de volta. Quer que eu passe na sua casa pra te buscar?

— Não, estou bem...

— É sério, posso te buscar sem problemas.

— Samuel! Não irei faltar de novo, não se preocupe.

— Certo, vou estar te esperando.

O vou estar te esperando do Samuel me fez suspirar. Alegando cansaço, desliguei o telefone. Querendo hibernar pelos próximos anos, sabendo que isso não seria possível. E assim, sobrevivi mais uma semana aguentando as especulações sussurradas entre corredores.

Na segunda, vesti meu agasalho enorme e confortável, com minhas mãos lutando para encontrar a saída. Fiz o caminho mecanicamente e procurando ignorar as vozes e os comprimentos, coloquei meu fone de ouvido. Funcionou, não pude ouvir nada, mas os olhares eram bem reveladores. O resto da manhã passou lentamente. Podia sentir os olhares nas minhas costas e os cochichos, mas procurei pensar em qualquer outra coisa. Me sentia apática quanto aquilo também, apesar de sentir algo dolorido em meu coração. No intervalo, sabia que seria difícil. Ainda mais porque não podia comer nada e seguia direto para a sala de música e hoje fui suficientemente burra para esquecer o lanche que preparei em cima da mesa da cozinha. Quando o sinal bateu, acabei presa com minha professora de Literatura, que estava discorrendo animada sobre minha redação. Gostei daquilo e me deixei levar pela conversa dela, me distraindo. Porém, ao sair, vi que a maioria dos alunos já haviam saído e havia muitos deles no corredor e botei os fones novamente.

Dei dois passos para fora quando senti alguém puxar meu casaco. Olhei para trás. Era Bruno, um aluno da classe de Eduardo. Ele era do tipo de garoto cruel e imaginei que ele era um dos muitos que acreditava e perpetuava os boatos.

— Ei, Mika. Quanto tempo. — Não respondi, confusa com sua súbita gentileza, mas me afastei desconfiada. — Você está muito bonita hoje.

— Estou com pressa. Licença. — Murmurei baixinho, voltando a andar, querendo cortar logo esse súbito contato. O puxão na minha mochila foi mais forte desta vez e eu cambaleei, porém Bruno me segurou pela cintura e sorriu. Me desvencilhei, irritada. Bruno sempre gostara de dar em cima de mim apesar de Eduardo, agora comigo... solteira, vi que tinha um grande problema em mãos.

— Por que tanta pressa, gatinha? Sei que não está indo encontrar seu namorado.

Aquilo foi como uma bofetada, mas respirei fundo. Senti as meninas perto dele rirem baixinho, nos olhando de canto de olho. Uma delas era Laís, olhar para ela me lembrava das menções dela de como Eduardo andava bem e isso fazia meu estômago pesar. Mas não era apenas as meninas de olho em mim, ao olhar ao redor, reparei que havia muita gente prestando atenção em nós.

— Qual é o seu problema? — disse, fria, irritada, na defensiva.

— Não fica brava, Mika. Foi uma piada. — Ele tentou acariciar as mechas do meu cabelo comprido, me afastei. — Não quis ofender. Na verdade, é ótimo ver que você está solteira.

— Só porque estou solteira não significa que eu queira algo contigo.

— Como se você negasse alguém, né querida? — Ele me puxou para perto peço braço, os olhos firmes no meu. Tentei desafrouxar seu aperto no meu braço que estava verdadeiramente doendo. Com a outra mão ele acariciou meu rosto. —Podíamos nos encontrar no final da aula, que tal?

— Me solta! — grunhi, com os olhos cheios de lágrimas. Esse tipo de situação era humilhante. Me senti sufocada. Olhei para os lados, vendo as pessoas olharem com uma mistura de choque e malícia. Voltei a olhar Bruno, que se mantinha firme. Me sacudi para ver se ele me soltava. Queria sair dali a qualquer custo, me livrar daqueles olhares que queimavam a minha pele e faziam eu me sentir suja. — Solta!

— O que está fazendo? — A voz me fez estremecer, respirei aliviada quando Bruno me soltou por impulso. Cambaleei para trás, esfregando o braço, Eduardo me puxou para perto de si, firme, mas sem me machucar. Perdi a voz ao sentir suas mãos em mim novamente e seu cheiro.

— Só estava conversando com a nossa linda Mika. — Ver seu olhar malicioso fez o meu rosto ferver. Eduardo me olhou para me analisar e vi que ele estava irritado. Comigo? Céus, o que eu havia feito? Me posicionou de forma que eu ficasse mais ao seu lado do que trás de si. Seu olhar voltou para Bruno, a voz fria.

— Fique longe dela.

— Que eu saiba a Mônica aqui é solteira e eu posso sim elogiar sua beleza.

— Fique. Longe. — pontuou.

— Você é um cara confuso, com tudo que ela fez ainda a defende?

— Do que você tá falando? — olhei para a expressão de Eduardo e prendi a respiração. Sempre achei, mesmo, que ele soubesse e ignorasse a situação. Procurava nem pensar nisso, mas pelo seu olhar vi que... ele realmente não sabia. Fechei os olhos e torci para Bruno ficar de boca fechada, não podia lidar com a ideia de Eduardo ouvir qualquer uma dessas cosias horriveis, crueis e mentirosas sobre mim.

— Qual é, Edu! — Bruno riu, sarcástico. — Todos sabem que vocês terminaram porque a Mika se revelou uma vadiazinha.

— Que porra é essa que você acabou de dizer?! — Eduardo disse numa voz ameaçadora, fazendo com que eu e muitos ao nosso redor se encolhessem. A mudança drástica de tom assustou a todos. — Fala essa bosta de novo e eu acabo com você!

— Você não quis mais ela, porque ela deu pra outro, não é? Se você já cansou da vadiazinha, não há porque não nos divertimos com ela!

Então Eduardo o socou. Fazendo Bruno cair no chão. Me afastei por impulso, a mão na boca. Eduardo não fazia ideia dos boatos, por isso não havia feito nada. Achei que ele não se importasse.

— O próximo que eu sonhar que eu ouvi dizendo alguma bosta dessa vai levar muito mais do que um soco! — Ele gritou para todos no corredor. Virou-se para mim subitamente, ainda sentia meus olhos arregalados, puxando o braço com delicadeza, que só agora vi que eu segurava, levantando a manga até poder ver minha pele nua. — Droga...

Ele gemeu, acariciando a parte do braço que estava vermelha. Eu estava assustada, nunca vi Eduardo agindo dessa maneira. Então, alguém o puxou, fazendo o bater as costas na parede. Soltei um gritinho de susto. Era Bruno, então os dois começaram a brigar, mesmo. Senti alguém me puxar para longe quando fiz menção de me meter. Era Samuel, claro. Que me empurrou para longe da área de alcance e tentou pará-los. Eles e os meninos do último ano. Depois de muita luta os dois foram separados. Eduardo arfava, as bochechas rosadas, a roupa amassada. Bruno estava num estado lamentável, o nariz sangrando. Vi pelo canto do olho nossa Diretora e os inspetores chegaram. Gemi.

— O que está acontecendo aqui? — Srta Roveron perguntou em alto e bom som, fazendo todos se silenciaram, mas ninguém ousou escapar de fininho. Ela analisou o ambiente com seus olhos verdes perscrutadores. — Eduardo, Bruno, Mônica e Samuel.... Diretoria, agora!

— Ah ótimo — Samuel, resmungou. — Dessa vez eu realmente não fiz nada!

— Duvido muito, Sr. Samuel.

Todos a seguimos em silêncio, por hábito Eduardo veio segurar minha mão, mas me afastei por reflexo. Me sentia ferida. Ainda mais em ter ouvido da festa, a menção da maldita festa ainda parecia nublar o olhar cuidadoso que ele me lançou, como me defendeu e levou um soco por mim. Só de pensar nisso meus olhos enchiam de lágrimas. Nunca me senti tão perdida, estava atingindo vários níveis de desorientação. E isso era assustador. Sentamos todos na salinha de espera e vimos Maria, a conselheira, entrar na sala. Samuel segurou minha mão para me tranquilizar, tentando engatar uma conversa comigo, sussurando.

— Como isso aconteceu? — Sabia que se referia a Bruno.

— Boatos.

—Tô ligado. Mas o que ele fez antes de provocar, Eduardo?

— Me chamou pra me encontrar com ele na saída, já que aparentemente sou uma vadia. — Samuel bufou, se remexendo na cadeira.

— Então, Eduardo herói apareceu!

— Eduardo herói que já está curtindo a solteirice. — falei, amarga. Fazia poucas semanas desde o término e ele já estava indo a festas. Não conseguia me conformar.

— Já foram fofocar da festa contigo, né?

— O que houve nessa festa?

— Nada demais. Eu juro, Mika.

— Estou cansada disso. — E não me referia somente aos boatos, mas também as festas, a ter que sentar aqui, a não conseguir fugir dessas situações.

— Não aconteceu nada demais, Mika. — Samuel reforçou. Não acreditei muito dele, não conseguia. Minha cabeça rodava.

Samuel e eu fomos os primeiros a sermos chamados para contar nossa versão da história, normalmente, isso realmente acontecia. Quando Samuel se metia em brigas, eu e Eduardo acabávamos estando por perto. Para separá-lo e acalmá-lo, principalmente Eduardo. Nunca era o contrário. Srta. Roveron estavam sentados com a conselheira Maria ao seu lado. Talvez ela tenha percebido que era mais sério do que aparentava.

— Porque o Samuel brigou dessa vez, Mônica?

— Eu nunca brigo! — Samuel resmungou.

— Não consigo lembrar de uma briga nessa escola a qual você não estava envolvido. — Analisei sua frase e reparei que ela estava certa. Samuel tinha o dom de se encrencar.

— Certo eu sempre estou no lugar errado na hora errada, poréem isso não significa que eu agrido fisicamente meus colegas.

— Nem encoraja os outros a faze-lo?

Samuel ficou quieto e eu sorri levemente com sua expressão.

— Mônica?

— Samuel realmente não fez nada. — reforcei.

— Viiiu? — Samuel provocou, alegre.

— Quieto! — Meu amigo murchou com a leve bronca da diretora, ficando quase fofo com aquela expressão de contradição no rosto. — Prossiga. — hesitei, não queria colocar Eduardo em problemas, apesar de tudo. Troquei olhares com Samuel, sabia que se não fosse eu, outro aluno seria chamado e poderia exagerar ou até mesmo fazer Eduardo se ferrar. Suspirei.

— Ele estava tentando separar Eduardo e Bruno. — Quando ela tomou noção de que Eduardo é quem havia brigado, sua expressão assumiu um leve tom de curiosidade. — Bruno disse coisas cruéis e estava me machucando e provocando Eduardo, que... explodiu. Foi tudo muito rápido.

— Ele te machucou? — Samuel, perguntou. Apertei meu braço por impulso. Samuel tirou minha mão de cima. Estava começando a arroxear, pequenos pontos vermelhos ao longo da extensão da marca dos dedos. A expressão de Srta. Roveron endureceu. Samuel praguejou irritado. — Filho da puta!

— Modos, Samuel.

— Mas...

— Mônica, preciso que me explique desde o começo.

Então, eu expliquei. Acabei falando até dos boatos por cima, sem especificar o que estavam dizendo, e vi que ela não fazia ideia que as pessoas falavam de mim pelas costas. Também, o que ela poderia fazer? Professores não conseguem controlar o que alunos dizem, ué. Ainda mais do Ensino Médio. Falei tudo calmamente e quando terminei me sentia esgotada e e envergonhada.

— Isso é sério, Mônica. — Maria disse. — Seus pais poderiam processá-lo. Fazer uma queixa agora. Isso é agressão física e moral.

Pensei em como seria contar isso aos meus pais e senti uma vibração de escárnio perpassar meus músculos. Eles não se importariam, na verdade, chegariam a desconfiar de mim, pois achariam que os boatos teriam algum quê de verdade. Brigariam comigo por não ser discreta, por DEIXAR as pessoas falarem e fazerem isso comigo.

— Foi bobagem. Bruno não mede seus atos, não espero que ele fique impune, mas... Não penso em meter polícia nisso. — Tradução: não penso em meter meus pais nisso antes de tudo. Não podia levar mais um problema para casa, seria um inferno. — Foram atos babacas de adolescentes. Até mesmo Eduardo, ele só... quis me defender.

— O que seu namorado fez não é certo. Defender a namorada é admirável, mas não justifica. Nunca esperaria algo assim dele.

— É, talvez. E bem, Eduardo não é mais meu namorado. — Foi a primeira vez que eu disse isso em voz alta, esperei alguns segundos até conseguir continuar. — Ele defendeu alguém de uma injustiça, então é... Acho que combina com o Eduardo que conhecemos. Foi um lapso. E não acho que dialogando teria adiantado algo com o Bruno.

— Nessa escola não defendemos ou resolvemos situações usando os punhos, senhorita.

Dei de ombros. E ela viu que eu não me pronunciaria mais sobre o assunto.

— Está liberada, Mônica. Vá direto para a enfermaria ver esse braço, checarei se você passou por lá. — acenei positivamente, Samuel levantou comigo. — Você fica.

— Merda.

— Samuel... — Ela ralhou.

— Hábitos, Srta. Roveron. Difícil largá-los.

Samuel sorriu maroto para mim quando me encaminhei para porta.

Vi Eduardo isolado na salinha quando saí da sala da Diretora, Bruno provavelmente estava na enfermaria por causa do nariz. Talvez esperando um dos seus pais. Ele virou a cabeça em minha direção quando fechei a porta atrás de mim, se levantando. Fez menção de falar comigo, mas me virei rapidamente, saindo. Deixando-o lá. Eu não suportava olhar Eduardo e seus olhos castanhos e saber que ele não era mais meu. E eu ainda sentia raiva, muita raiva, por ele ter me deixado. Ao mesmo tempo que me sentia perdida e insuficiente.

Eu estava certa quanto a ele estar esperando algum dos pais porque ao caminhar para fora da Diretoria, vi Igor falando com a moça da secretaria. Quando me viu abriu um grande sorriso e veio me abraçar. Havia um quê de desculpas em seus olhos ao se afastar. Abaixei a cabeça, me sentindo novamente melancólica. Quando voltei os olhos pra ele, Igor sorria.

— Devia imaginar que encontraria você aqui na estréia da carreira do meu filho como boxeador.

Cocei a cabeça, levemente constrangida, mas não pude dizer nada.

— Sentimos sua falta no domingo. — Mordi o lábio, também quis dizer que senti falta deles. De me sentir relaxada. De uma simples conversa com Malu fazer eu me sentir mais leve. De brincar com as meninas, do livro da Júlia ainda na minha escrivaninha, porque não pude levar para ela. — Tem que aparecer, todos já estamos sentindo sua falta. As meninas nem se fale.

— Eu não sei... É diferente agora. — Parecia tão estranho cogitar a voltar a casa de Eduardo, as duas casas, ao mesmo tempo que me parecia surreal não mais frequentá-las. E também não sabia se meu ele gostaria de me ver lá, no seio da sua família. Seria desconfortável porque, obviamente, eu não teria mais o título de sua namorada e mesmo sabendo que eles me consideravam antes de tudo uma amiga, ou filha, eu não sabia como me encaixar naquele meio. E tinha receio de tentar e me decepcionar. O que eu faria se um dia aparecesse lá e ele estivesse com outra? Não, eu não suportaria. Sabia que se voltasse aquela casa nunca teria a mesma intimidade de antes. E tinha medo de macular o que eles significavam para mim. De ser rejeitada por eles também.

— Qual é, Mônica. Não seja boba.

— As coisas mudaram. — Murmurei friamente.

— Nem todas. Ainda gostamos muito de você. Apareça, ok?

— Ok... — falei, insegura. Mas sentindo-me melhor, mais aquecida, com sua afirmação.

— Tenho que ir.

— Igor? Não foi culpa dele. Ele estava tentando me defender.

Igor sorriu um daqueles sorrisos que deviam ser proibidos de existir em pais do amor da sua vida.

— Sabia que devia ter sido algo sobre você. Algumas coisas não mudam, viu? Ele ainda é louco por você. E age como um louco.

Ele bufou, mas riu de leve.

Sua afirmação fez com que meu coração acelerasse e certo rubor tomar conta do meu rosto e, admito, o modo como ele piscou ao se afastar de mim também. Era terrível o quanto o pai de Eduardo era bonito e charmoso. Suspirei, fazendo meu caminho para fora da diretoria.

Então, depois da briga... Os boatos acabaram (ao menos eu não ouvia mais nada e nem Samuel ou Eduardo), mas eu passei a ser completamente isolada. Confesso que muitas vezes por escolha própria. Quando cheguei em casa naquele fim de novembro, minha mãe avisara que após as provas eu passaria as férias em São Paulo, com uma tia. Algo que meses atrás essa sentença me angustiaria, agora... Parecia como desafogar. Eu precisava sair daqui. Novos ares. Nem todas as mudanças eram ruins, pensei. Mas eu ainda tinha duas longas semanas pela frente.

Notas finais
É, foi um capítulo cheio de informações. Espero não ter ido rápido demais. Muita coisa, MESMO, vai mudar pra Mônica com esse término, inclusive ela mesma, rs. Quanto a Eduardo... Ele deu uma leve pirada, mas bem... Ele realmente ama a Môni. É inegável, rs. Só de uma forma... diferente. Não sei explicar. Não irei cobrar nada quanto a reviews, mas eu ficaria imensamente grata em recebê-los. Agradeço a paciência e o incentivo que vocês sempre me dão. Escrever e ver a opinião de vocês é uma das coisas que me mais me faz feliz na vida. Até breve! Beijos!