Eduardo E Mônica
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Então, deixa eu esclarecer umas coisas: A história não tem ligação específica com a música, Mônica surgiu da música, não posso negar, já o Eduardo não. Ou seja, não é uma songfic e nem o título saiu da música kkk O título da fic é exatamente porque vou contar sobre casal sobre pontos de vista diferente, quando eles são um casal e quando não são, entende? O primeiro capítulo é mais um prólogo, pra dar uma ideia de como a fic vai caminhar. O Eduardo e a Mônica já apareceram em uma outra fic minha, Vento no Litoral, e alguns personagens desta, tbm aparecem nessa. É tudo meio interligado, mas são histórias bem distintas. A história vai ser narrada pelo ponto de vista dos dois.
Este capítulo talvez esteja meio confuso, é mais como um prólogo. ao longo dos capítulos tudo vai sendo esclarecido. É mais pra dar um gostinho da história.
Espero que gostem
A gritaria da festa me deixou meio zonzo. Vaguei entre as pessoas, tentando encontrar minha namorada. Notei que a festa de poucas pessoas, cerca de umas 10, crescera a mais ou menos 30. Imaginei a cara da mãe de Samuel ao ver o estado da casa dela, mas pensando bem, do jeito como ela era facilmente amansada pelo filho, mal se importaria. Os casais dançavam no centro da sala enorme, entre beijos ou risos, os sofás encostados nas paredes para dar mais espaço. A sala estava bem iluminada e o som alto, mas não me impedia de ouvir o que Mônica gritava ocasionalmente no meu ouvido ou as piadas de Samuel, que parecia particularmente inspirado hoje.
Normalmente, era assim que eram as festas na casa dele. Sempre. Todos ficavam meio altos, mesmo sem beber, mas dominados pelas risadas. Estavam sempre aos risos, sem poder conter a gargalhada com qualquer idiotice que ele soltava. Todo o grupo bem animado, passeando pela casa, à vontade, com um conhecimento que festas anteriores já lhe proporcionaram. Mônica estava presa em meu braço, ria baixo, de forma contida e tímida enquanto Samuel falava com ela. Os olhos verdes brilhavam. O sorriso anuviando seu rosto e a tornando mais bonita. Estava em um vestido vermelho desbotado, simples, porém feminino e que lhe caia bem. A única na festa sem estar com roupas coladas. Me sentia satisfeito com sua presença e inalei o cheiro conhecido de seus cabelos. Ela voltou a cabeça em minha direção, a beijei de leve e ela sorriu ainda mais, o rosto se distendendo. Samuel desapareceu, como sempre desaparecia quando expressávamos afeto de forma mais direta e explícita.
Dançamos um pouco, presos naquela nossa dança conhecida e familiar. Decorada e até mesmo repetitiva, mas eu nunca me importei muito com isso. Nunca me importei especificamente em fazermos as mesmas coisas. Até agora. Parecia tudo tão repetitivo que me cansava. Eu sentia como se eu pudesse prever cada reação da pessoa a minha frente. Só que hoje, Mônica estava diferente do que costumeiramente era parecia até agitada, mas eu logo cansei, a puxando para a parede. Ela não reclamou, só me olhou questionadora. Eu também estava intrigado com esse meu afastamento brusco. Olhei ao redor, notando alguns caras paquerando garotas novas, de outra escola, ou de outras classes. Alguns que sempre me diziam que eu estava perdendo muito e mesmo rindo disso eu me perguntava se estava mesmo.
Ouvimos uma agitação no outro lado da sala, nos distraímos levemente do olhar inquisitivo um do outro. Olhamos. Era a garota nova causando certo burburinho, como sempre. A única coisa que sabíamos sobre ela é que Samuel não estava perdendo tempo e lá estava ele se requebrando junto com a garota, que dançava espalhafatosa e sinuosamente. De muitas maneiras, mesmo só tendo a visto de longe, ela meio que se tornava a garota mais... peculiar que eu já havia visto. Quando ela aparecera na escola, há alguns meses atrás, a expressão de todos fora a mesma. Era difícil não se ver curioso sobre a nova garota. Alta, magra, branca e com os cabelos num tom de roxo ameixa, no escuro parecia quase preto, mas nas luzes coloridas e no sol o roxo parecia berrar. O sorriso infantil no rosto formava um estranho conjunto com o rosto, sem contar que falava com todos, estava sempre sorrindo e coisas assim. Beatriz Arruda. Era esse o nome dela, Beatriz. Logo seu nome circulava pela escola e ela formava amizades rapidamente. Sabia até que Mônica já conversara com ela, mas não me dera muitos detalhes, portanto, acho que ela não devia ser lá tão interessante.
– Samuel vai ganhar mais uma fã. – Mika sussurrou no meu ouvido, me fazendo desviar os olhos da garota.
– Ou ao contrário. – Ela riu mais alto, me puxando pelo colarinho da blusa, as unhas curtas arranhando minha clavícula.
– Eles estão vindo pra cá. Tire essa cara de choque por causa do cabelo da menina. – Ri baixinho novamente, a beijando na testa. Samuel trazia a garota grudada no braço, os dois em passos iguais. Ela usava uma saia jeans colada, blusa preta de banda e uma jaqueta com taxas por cima, nos pés uma bota, imaginei como ela aguentava nesse calor.
– Bia, tenho que te apresentar o casal mais fofo do universo. – Samuel fez graça, levemente bêbado. – Mônica e Eduardo, juntos desde... sempre. – sorri de leve diante dessa verdade. Realmente, estávamos juntos desde... Sempre. Ela me analisou de um jeito talvez descarado, demorando-se tempo demais em meu rosto, os olhos fixos em mim. Engoli em seco, me mexendo desconfortável, vi que Mônica parecia não ter percebido e sorria normalmente. Me perguntei quando ela deixara de sentir ciúmes de mim.
– Gostando da festa, Bia? – Mônica sorriu docemente.
– Arran, muito interessante. Demais. – Ela riu, sorrindo pra mim. Logo Laís, uma amiga de Mika, a puxou para perto, cochichando algo. Não duvidava que provavelmente tinha algo a ver com Douglas, um garoto que ela estava interessada.
– Eu já volto. – Mônica sussurrou, deixando nós três aqui. A acompanhei com o olhar, até ela desaparecer no andar superior.
– Então, você é o Eduardo... – Bia afirmou, analisando. Um sorriso brincalhão. Vi pelo canto do olho Samuel avistar Jéssica e ir atrás dela em passadas rápidas.
– Pois é. – Me mexi, inquieto. Não tinha problemas em fazer amizade com outras garotas, mas ela parecia tão... solta. Ela me esticou o corpo de cerveja, neguei com a cabeça.
– Você não bebe?
– Hãn, não... Ainda. – Sorri. Não gostava muito de bebida.
– Sério? – Ela girou o copo entre as mãos, se aproximando. Eu só podia estar ficando paranoico, mas ela parecia flertar comigo. – E dançar, você dança?
– Não muito bem.
– Não faz mal. Vem dançar comigo, eu amo dançar. Sei mais sobre as pessoas quando elas dançam comigo, é um jeito diferente de ver as pessoas, certo? O modo como se elas se movimentam. – Ela tagarelou, deixando a bebida na mesinha de centro e me puxou desajeitado mais para frente, colocando minha mão em sua cintura fina. A música ondulava pelo seu corpo e ela parecia a cada passo fazer algo diferente, sem qualquer ritmo, me deixando levemente tonto. Ri constrangido, tentando me afastar, mas ela me puxou mais para perto de si. Rindo de minha expressão aparvalhada.
– Você é doidinha.
– Imagine! É que você está acostumada com sua namorada, ela é tão... fofinha. Sério. E inteligente. E legal, ela não me tratou como estranha, entende? Ela foi legal e é engraçada. – Ela sorriu. – Não me admira você, bonitão, estar com ela tanto tempo.
– Obrigado, eu acho.
– A Mônica é um doce e mesmo que eu esteja sendo intrometida. Muito intrometida, quer dizer... Te conheço há 5 minutos. – Ela riu baixo, de si mesma. – Bem, você não se sente curioso sobre outras garotas?
– Nunca parei pra pensar nisso. – Respondi sinceramente.
– Ah, entendo. Isso é bonito. – Ela sorriu, ri baixo. Tudo ia tão rápido com ela, me sentia meio zonzo. Talvez fosse o som alto da festa ou o cheiro de bebida forte, ou até mesmo o perfume forte e cítrico que saia de Beatriz.
– E aí, de onde você vem?
– Paraná. – Ela puxou o sotaque um pouco. Rindo comigo. – Tava na capital do Rio há alguns tempos. Depois me mudei com a minha irmã pra cá.
– Idade?
– Dezesseis. Você também, acho.
– É.
– Você é legal, Eduardo. É uma bosta dançando, mas é legal. – Ri baixo disso, continuei me fazendo de moça e deixando ela me guiar. Ela disse algumas coisas, me fazendo rir de suas colocações. Ela era engraçada e desbocada. Tinha fala rápida e interessante, volta e meio algo elogioso saia de sua boca, mas ela não parecia forçada, parecia autêntica, como se fosse ela mesma. Escancarada. Um mistério que eu saberia se perguntasse o suficiente. Bem, ao menos era isso que eu pensava.
Continuamos dançando, entre risadas divertido. Quase esqueci onde estava. Então olhei para o lado e vi Mônica ali parada, nos olhando. Parecia confusa e ao meu ver olhar, quase magoada. Olhei ao redor, reparando que muitos olhavam eu e Bia dançando, curiosos. Eu dançava com amigas, mas não... dessa forma. Me senti culpado, errado e meio constrangido. Me afastei levemente, dando alguns passos para trás. Mônica se virou, desaparecendo entre as pessoas.
– Ai, me desculpa. – Beatriz disse, parecia tão assustada quanto eu. As bochechas avermelhadas. – Eu não... Juro. Achei que ela não se importaria, eu não estava...
– Relaxa. – Segurei sua mão um pouco, ainda confuso. – Bem, tenho que ir.
– Ok. Foi sem querer. – Ela disse, confusa. Parecia realmente autêntica. – Não acha que ela ficou com ciúmes, acha?
– Não faço ideia. Até mais, Bia.
– Até, Edu.
Me afastei, afastando as pessoas, procurando pelos cômodos, Mika. Não queria tê-la magoado ou constrangido. Eu era um tremendo babaca. Achei Samuel conversando animadamente com Jéssica, o puxei, coisa que o deixou quase puto.
– Ah qual é, Eduardo! – Ignorei seus protestos.
– Você não viu a Mônica? – perguntei. Ele me olhou confuso.
– Ela não tava com você?
– Sumiu com a Laís, quando Beatriz veio falar comigo. – Expliquei rapidamente.
– Ah, acha que foi ciúmes?
– Não. – Não poderia ser. Isso me irritou um pouco. – Só queria saber se ela já foi embora.
– Relaxa, cara. Ela deve estar por aí. Talvez lá na sacada, fugindo do barulho.
As vezes eu ficava confuso, como Samuel podia saber tanto de Mika. Porque foi exatamente lá que a encontrei, olhando para baixo, debruçada na sacada. cabelos voavam finos pelas costas, dando pequenas voltas pelos ombros, em ondulações sinuosas, como o mar. A abracei por trás, a sentindo tensa. A beijei no pescoço e como previsto ela relaxou entre meus braços. Não sabia o que dizer, como dizer. O ar estava pesado.
– Está tudo bem, Mika? – Comecei, me sentindo confuso. – Eu...
– Relaxa, Eduardo. – Ela riu baixinho, quase vi seu sorriso, embora não pudesse ver seu rosto. – Não me importo de você dançar com a Bia.
– Ah sim.
– Eu só queria fugir do barulho.
– Entendo. – Mas na verdade, eu não entendia. O que estava acontecendo com nós? Porque não me sentia tão seguro agora com ela em meus braços? Tudo começara a mudar desde quando? Desde... Dez minutos atrás? Uma conversa casual não apagaria dez anos. Mas mudaria-os?
Mônica
Eduardo parecia distraído, analisei seu rosto melhor sobre a luz da sala. A expressão era quase sonhadora, meio avoada. Nas mãos um refrigerante, nós não bebíamos. Éramos o casal careta da festa. Ele usava sua bermuda jeans e a blusa azul. Os olhos poeirentos parecia divertidos, mesmo sob toda sua fachada de distração. Algum indício de barba aparecia no rosto liso, o que me lembrava da época dos 10 aos 11 que eu era mais alta do que ele. Agora ele estava tão homem, tão... meu. Estava tão bonito que me inquietava, como se pudesse me apertar a ele e nunca mais soltar. Ele olhava Beatriz dançando com Samuel, sempre impecável na sua calça de cós baixo e blusa com dizeres em russo, uma perfeita figura. Me sentia deslocada naquele local, mas Eduardo me puxou inconscientemente mais para perto de si e me senti mais confortável. Tudo poderia ser estranho, mas ele ainda estaria aqui.
Quando fomos apresentadas inicialmente, achava que Beatriz seria demasiadamente diferente de mim. E ela realmente era, me parecia meio avoada e cínica, mas legal. E bonita, estranhamente bonita. Era divertido falar com ela, talvez porque ela alimentasse parte da conversa e fosse engraçada. Uma pessoa meio diferente de mim, ousada e disposta a correr riscos, o que a tornava meio interessante. Era quase engraçado ver o jeito como Eduardo a olhava, fiz graça, para me arrepender em seguida. Logo dava pra ver seu jeito de olhá-la mudando. Samuel apareceu com Bia a tira colo, as pernas desnudas.
– Bia, tenho que te apresentar o casal mais fofo do universo. – Samuel disse, a voz em um tom quase pastoso. Os ‘s’ se encompridando, me fazendo dar vontade de dar risada.– Mônica e Eduardo, juntos desde... sempre. – Ele se esticou em nossa direção em uma mesura. Eduardo me apertou mais de encontro a si, mas não sorriu para mim. Bia o analisava, os olhos correndo pelo seu rosto. Não podia julgá-la, ele era bonito. Muito bonito. Mantive a expressão amigável. Não ganharia nada dando uma de ciumenta.
– Gostando da festa, Bia? – Perguntei. Ela sorriu de mim para Eduardo.
– Arran, muito interessante. Demais. – Ela soltou uma risada leve.
Laís chegou, me puxando para falar sobre um ficante e eu a contragosto fui, a ajudei no que precisava, ideias de como conversar com Douglas, quase... tedioso de tão previsível, mas não podia julgá-la. Descemos, procurando o garoto, Laís ainda tagarelava em meu ouvido. Vi pelo canto do olho, Eduardo falando com Beatriz. Eu nunca fora ciumenta, não tinha ao que temer. Mas agora, me sentia temerosa. Quase... Assustada. Ao vê-los dançando senti algo começar a ruir devagarzinho. E não era em mim. Eu estava tanto tempo com Eduardo que conseguia de certa forma sentir por ele. E algo estava ruindo, algo do que ele sentia por mim. Percebi que Laís parara de falar e olhava na mesma direção que eu. Corei com seu olhar.
– Parece que alguém está interessada no teu namorado. – Ela disse, me olhando, analítica. Procurei manter a fachada neutra.
– Eduardo pode fazer amigas, ué.
– Amigas? Claro que pode... – Ela disse, quase irônica, isso me irritou, mas me reprimi. Não queria discutir. Definitivamente não queria. Laís se afastou e eu continuei observando como Eduardo ria, jogando a cabeça pra trás, um jeito infantil e adorável. Eu poderia ter ido lá, eu deveria ter ido lá, mas eu não fui. Talvez tenha sido aí que comecei a perdê-lo. Quando deixei de reclamá-lo como meu.
Como se notasse que eu estava o olhando, Eduardo virou a cabeça. Vi como ele ficou aparvalhado e percebi que não escondi tão bem minhas emoções como deveria. Me escondi entre as pessoas e o vi passar. Fui parar na sacada do quarto maior da casa de Samuel, querendo um tempo sozinha. Olhando para fora, vendo as pessoas passarem. Tentando entender o que estava sentindo. Alguém me abraçou por trás e eu inspirei fundo, assustada. As mãos de Eduardo cingiram minha barriga cuidadosamente e eu relaxei.
– Está tudo bem, Mika? – Eduardo disse, a voz firme. Mas eu podia adivinhar por trás de sua expressão. – Eu...
– Relaxa, Eduardo. – O interrompi. Rindo baixo, rouca, sentindo minha garganta arranhar. Percebendo com o que ele estava preocupado. – Não me importo de você dançar com a Bia.
– Ah sim. – Ele aceitou tão fácil minha explicação, não via por trás do que eu falava, como eu conseguia ver por trás do que ele sentia. Quando Eduardo deixou de me sentir? Me assustei com isto. Eu não me importava com ele dançando com Beatriz, me importava com ele ter me esquecido, como vi em seu semblante, me importava com ele preferir ela a mim.
– Eu só queria fugir do barulho. – Eu disse, baixinho. Do barulho da minha desconfiança, do meu medo. Tudo estava mudando. Na minha casa, com meus pais. Aqui, com Eduardo. Comigo. Eu não queria isso.
– Entendo. – Ele disse, mas não confiei nele. Podia ouvir as engrenagens em sua cabeça rodando, as possibilidades lhe sorrindo. Eu devia gritar que ele estava se confundindo. As coisas estavam mudando... para ele, e eu não podia mudar isso, o acorrentar. Ele era livre. Estava esquecendo que ninguém ia amá-lo mais do que eu. Nunca.
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